Stoa :: Tiago Almeida :: Blog :: Vestibulares reformulados: mais do mesmo (ou seleção por sorteio)

maio 10, 2009

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Postado por Tiago Almeida
Enem assume novo formato e será usado como vestibular em 55 instituições federais de ensino superior. Unesp adota nova divisão de matérias e segunda fase no vestibular. Pontuação e provas da Fuvest são reformuladas.

Várias instituições de ensino superior do Brasil vêm apresentando mudanças nas provas de seleção de ingressantes nas universidades. Trocam uma disciplina aqui, tiram um dia de prova dali, alegando a tentativa de melhorar a seleção dos candidatos.

No fundo, permanece o vestibular e o caráter elitista das universidades. Cobrar uma visão interdisciplinar em detrimento da "decoreba", especialidade dos cursinhos, tira do foco não só o problema da inclusão social nas universidades mas também o do número insuficiente de vagas, para o qual o vestibular foi dado como solução. O vilão não é mais essa seleção excludente, mas sim o "caráter conteudista" da prova.

A proposta dos vestibulares é filtrar os candidatos por mérito, representado por índices que tentam refletir o aprendizado do ensino médio. Esse critério é praticamente indiscutível: quando se trata de instituições de ensino superior que lideram rankings de respeito, a seleção por mérito é adotada em todo Brasil e, não tenho dúvidas, no mundo inteiro.

Embora o vestibular seja injusto (quem nunca fracassou em uma prova por estar em um mau dia?), o argumento para mantê-lo como critério de seleção é o de que a universidade necessita de pessoas preparadas (ou academicamente viáveis) para manter sua alta qualidade. No entanto, isso não garante que a meritocracia seja o melhor sistema de seleção do ponto de vista institucional. Ou seja, não significa que, no que depende da virtude dos selecionados, as universidades já atingiram seu máximo padrão de excelência.

Afinal, selecionar os ingressantes por mérito é mesmo essencial para a qualidade da universidade? Ou é apenas um critério para contornar a falta de vagas? Ingressantes com baixos índices de aprendizado (leia-se notas do vestibular) de fato afetam a excelência do ensino superior e da pesquisa no país?

Esta pesquisa da Unicamp mostra que não. O desempenho dos alunos ingressantes por sistema de cotas, portanto que tiveram menores notas no vestibular, ao longo do curso é igual ou superior ao dos não-cotistas. E a Unicamp continua sendo uma das universidades públicas que mais contribuem com a produção científica do país. (Deixo a discussão sobre cotas para outra oportunidade, por ora pretendo mostrar que ingressantes com baixos índices que representam o aprendizado no período referente ao ensino médio+cursinho não afeta a excelência da Academia.)

O atual formato do vestibular não necessariamente implica em excelência da instituição e ao mesmo tempo é injusto. Mas existe uma alternativa a ele?

Antes de responder a essa pergunta, peço que deixe qualquer preconceito de lado e receba de peito aberto minha proposta (e não só minha: veja este projeto de lei).

Imagine um sorteio no lugar do vestibular. Para o povo, seria mais justo. O público ingressante seria proporcional às etnias e classes sociais das comunidades em que as universidades estão inseridas - a fração de negros ingressantes, por exemplo, seria a mesma que a sua fração em uma determinada localidade. Isso bastaria para tornar o sorteio mais justo do que a seleção pelo mérito, que por sua vez deixa em desvantagem pessoas que não possuem as mesmas oportunidades de preparação para a prova.

Podemos ir além - e aí vem a melhor parte. O ensino em todo o país teria como diretriz não mais o conteúdo cobrado pela Fuvest ou de outros grandes vestibulares mas sim a busca pelo pleno conhecimento. Liberdade de aprendizagem, sem a obrigação de seguir um currículo engessado, repleto de informações que, depois de uma única avaliação, nunca mais serão utilizadas. Conteúdo para uma vida e não mais para apenas 4 horas de prova.

Fim dos cursinhos. Fim de taxas de inscrição. Fim das traumáticas provas, que demandam imensos gastos com megaestruturas de segurança e organização. Pessoalmente, mais justiça. Institucionalmente, maior diversidade cultural, o que enriquece a construção de conhecimento na universidade.

Seria mudar o foco, do problema para a solução. Uma real reestruturação do sistema de ensino como um todo. Uma verdadeira mudança, não apenas para inglês ver.
--
Mais: "A utopia do fim do vestibular", um lindo texto de Rubem Alves

Palavras-chave: educação, enem, ensino, fuvest, sorteio, vestibular

Este post é Domínio Público.

Postado por Tiago Almeida | 4 usuários votaram. 4 votos

Comentários

  1. gabriel escreveu:

    de vez em quando a proposta do sorteio de vagas me parece bem interessante, mas ainda tenho muitas dúvidas com relação a ela. No fundo, damos muita importância à seleção e esquecemos de outras coisas (como assistência estudantil).

    aliás, não consigo entender o argumento da "meritocracia": tanto as experiências que tem sido acompanhadas estatisticamente (como a da unicamp, já citada), como a experiência que tive com colegas da faculdade parecem demonstrar que os estudantes com a melhor produção (científica, acadêmica, artística, estética, social, política, etc) raramente são aqueles que melhor se posicionaram no vestibular (aliás, às vezes parece que os alunos transferidos de outras universidades - e que portanto foram barrados pela fuvest - apresentam produção melhor que as dos demais).

    algo curioso ocorre na fau: os estudantes mais interessantes (ou seja, cujos projetos e trabalhos são os que mais têm a dizer) raramente se formam em apenas cinco anos (ficam seis, sete, às vezes oito anos na graduação).

    a usp é extremamente conservadora: tudo nela mostra sua aversão pelo novo (o caso da expulsão do tom do stoa é significativo!)

    gabriel fernandesgabriel ‒ domingo, 10 maio 2009, 17:43 -03 # Link |

  2. gabriel escreveu:

    aliás, ia me esquecendo: o que me agrada na proposta do sorteio de vagas é seu caráter ideologicamente subversivo. Tradiconalmente o Estado investe no ensino superior em detrimento do ensino básico para acolher o desejo das elites de ter um espaço privilegiado, bancado com dinheiro público, para que seus filhos estudem. Ao estipular o sorteio e o acesso realmente universal à universidade, duas seriam as possibilidades: as elites lutariam pelo aumento do número de vagas públicas ou exigiriam que dinheiro público fosse destinado a subsidiar escolas privadas que mantivessem os privilégios. Em ambos os casos, porém, o conflito ficaria evidente e teríamos condições de explicitar a luta de classes.

    gabriel fernandesgabriel ‒ domingo, 10 maio 2009, 17:46 -03 # Link |

  3. Natalia Gaspar escreveu:

    Tiago,

    Lindo texto. Idéias melhores ainda...Gabriel idem

    Abraço

    Natália

    default user iconNatalia Gaspar ‒ sábado, 16 maio 2009, 20:57 -03 # Link |

  4. Felipe Pait escreveu:

    Boa ideia essa do sorteio. Vai ter cota para analfabeto também? E os professores, vão também ser contratados por sorteio?

    Felipe PaitFelipe Pait ‒ segunda, 21 dezembro 2009, 16:10 -02 # Link |

  5. Tiago Almeida escreveu:

    Olá, Felipe Pait.

    Obrigado pelo comentário.

    Penso que a Universidade corresponde a um conjunto de expectativas de um grupo muito específico de pessoas, portanto de valores e de crenças, construídas sobre um regime de verdade.

    Minha proposta com a reflexão sobre um vestibular alternativo era a de pensar uma nova ética para as instituições (já que tanto se precisa delas); pensar também sobre os diferentes efeitos desse vestibular na realidade de algumas pessoas. Isso tudo porque tais pessoas são ignoradas pelas outras por conta de alguns valores que pautam a função social da Universidade - valores que, creio eu, não constituem uma lei universal. Se não são leis, apesar da naturalidade com que esses valores são incorporados a nosso modo de pensar, por que não questioná-los?

    Eu ficaria interessado em ler um texto (seu, por que não?) sobre o resultado de cotas para analfabetos ou contratação de professores por sorteio. Seria um bom exercício de reflexão sobre os valores em que pautamos nossas ações assim como dos seus efeitos.

    Um abraço

    Tiago AlmeidaTiago Almeida ‒ segunda, 21 dezembro 2009, 18:31 -02 # Link |

  6. Felipe Pait escreveu:

    Sou absolutamente contrário à contratação de professores universitário analfabetos! Para saber o porquê, podem ser consultadas a esmo as obras completas do Prof Antonio Marcos de Aguirra Massola.

    Felipe PaitFelipe Pait ‒ terça, 22 dezembro 2009, 14:28 -02 # Link |

  7. Tiago Almeida escreveu:

    Olá, Felipe Pait.

    É bom saber que tem uma opinião.

    Um abraço

    Tiago AlmeidaTiago Almeida ‒ terça, 22 dezembro 2009, 17:23 -02 # Link |

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