Stoa :: Tiago Almeida :: Blog :: A falácia do evolucionismo social

março 20, 2009

default user icon
Postado por Tiago Almeida
Hoje um camarada insinuou que a França, assim como os outros países europeus, são mais evoluídos que o Brasil. Isso aconteceu quando ele contava que as pessoas de lá costumam não respeitar filas, furando-as com a maior cara-de-pau - ele achou estranho um país evoluído ter pessoas que se comportam dessa maneira. Como de praxe, me intrometi e disse que talvez isso fosse um sinal de que essa história de países evoluídos talvez fosse uma mentira e essa evolução social não existisse. Ele respondeu que existe sim e como exemplo citou um episódio em que ele, na Europa, se atrasou e não chegou na estação a tempo de embarcar no trem para Paris. Explicou o caso para a moça do guichê, a qual sem rodeios entregou a ele um novo bilhete para o trem do horário seguinte - não bastasse, ainda devolveu 25 euros referente à diferença entre os dois horários.
Isso é evolução? A cordialidade ou domesticação de um serviço (público?) implica que TODAS as civilizações deverão no fim dos tempos ter passado por tudo o que a Europa sofreu na história? Todos os países, inclusive Japão, Indonésia, Argélia, Austrália, deverão passar pela Inquisição da Igreja Católica para que seus cidadãos sejam tão educados quanto os franceses?
Vou tentar fazer meus vínculos entre o sucesso evolutivo da Europa e o fracasso brasileiro. Para começar, pensemos em nosso país, onde a criminalidade é alta: é um país atrasado? Há quanto tempo estamos de atingir o estágio evolutivo da Inglaterra? Onde será que erramos? Talvez na proclamação da república, quando abrimos mão de um rei, uma imagem folclórica da qual os ingleses se orgulham de ter como chefe de estado. Talvez em um Brasil monárquico os criminosos daqui pudessem ter mais respeito aos bens materiais de seus irmãos de solo. E a Índia? É uma pena ser um país tão atrasado que, apesar de ter sido uma colônia inglesa, nunca atingirá o estágio evolutivo do povo estadunidense - e demorará para alcançar o fantástico número de assassinatos por armas de fogo registrado nos EUA.
Acreditar que o evolucionismo de Darwin pode explicar como as sociedades se modificam no tempo é puro positivismo: não há razão alguma para acreditar que haja uma "seleção natural" das sociedades. Lembram do exemplo do rapaz do censo populacional, que após passar por três casas seguidas onde moravam em cada uma delas um John Williams concluiu que em todas as casas seguintes ele encontraria outros John Williams? Não há pressupostos para que a bela teoria darwiniana, que explica em toda sua glória como os seres vivos evoluem, se ajuste a todos os tipos de eventos em nosso planeta, quiçá nem mesmo do Universo! Sem exagerar, é mais fácil levar em conta o desenvolvimento de cada uma das sociedades, das menos tecnológicas às mais socialmente justas, como resultado de uma escolha dentre um amplo espectro de caminhos a serem tomados, de forma que nenhuma das opções escolhidas por cada sociedade deve ser mais importante do que as outras. Não é justo dizer que as populações indígenas sejam primitivas e que fizeram a escolha errada. Simplesmente optaram (talvez de forma inconsciente) por não sofrerem da desgraça das grandes civilizações, como genocídios, pestes, exploração do trabalho, dentre tantas outras mazelas inerentes a países com grandes populações. Achar que os índios deveriam ter desenvolvido um Estado é mero eurocentrismo.
É certo que em se tratando de tecnologia temos muito que aprender com a Europa. Até posso estar enganado, mas o nazismo, o facismo e a intolerância racial fazem parte do mundo europeu, não fazem? Ou um Darwin sociólogo não levaria essas características em conta em sua teoria de evolução?
Até quando vamos reproduzir esse discurso preconceituoso e antiquado dos evolucionistas do século XIX?

Este post é Domínio Público.

Postado por Tiago Almeida

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.