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Julho 23, 2010

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Postado por Tiago Almeida

O Autônomos FC é um time paulistano de futebol de várzea formado em 2006 por amigos que tinham em comum ideais libertários.

Conheci esse time pela revista esportiva Invictus, em uma reportagem que mostrava o time como uma autogestão, premissa não muito comum no futebol atual, tanto profissional quanto no amador. Aquela reportagem me chamou a atenção, até porque os integrantes do time tinham uma banda com um som que me agradava. Para mim era inusitado pessoas que gostavam de futebol, punk rock e com ideais libertários unirem todos esses ingredientes em um mesmo caldo, e me pareceu fantástica a concretização dessa proposta.

Tempos depois, acompanhando o blog Passa Palavra, ouvi falar novamente do Autônomos. Dessa vez, eles promoviam eventos em São Paulo com a participação de um time de futebol amador vindo de Bristol, Inglaterra, chamado Easton Cowboys & Cowgirls. O pessoal do Easton saiu do berço do futebol para conhecer de perto o time brasileiro que, assim como eles, levantavam bandeiras libertárias em seus jogos e atividades.

Na época, eu estava particularmente interessado em participar de um time de várzea qualquer, não apenas para jogar mais futebol, mas também para jogar futebol fora da universidade, buscando conhecer pessoas e ideias diferentes daquelas com que eu convivia até então.

A possibilidade de conhecer o Autônomos veio a calhar. Para completar, no blog há o seguinte convite: "se você sabe jogar e curte a idéia de um time autogestionado, se auto-convoque enviando um email". Não pensei duas vezes: procurei descobrir quando e onde seria o próximo jogo e fui conhecê-los. Na ocasião, já portando chuteira, caneleira e todo material necessário para entrar em campo, participei dos 15 minutos finais de uma partida contra o SPAC, em seu campo na zona sul. Desde então, tenho feito parte do plantel do Autônomos. Todo sábado e quase toda terça-feira me reúno aos outros jogadores em sua sede, o glorioso Bicudão, ou em outros campos da Grande São Paulo, em um ritual que mantém acesa a chama do futebol do povo e contra o futebol moderno - bandeira que o time não cansa de hastear. Devo dizer aqui que agradeço muito a todos do time por terem me aceitado e me acolhido, mesmo tendo eu chegado como penetra, sem convite algum.

Auto na Europa

Em agosto haverá um campeonato de futebol amador na Inglaterra, oYorkshire’s Alternative Word Cup 2010. O Easton Cowboys convidou o Autônomos para participar desse campeonato. É duro de acreditar, mas no dia 30 de julho, formando um grupo de 26 pessoas, embarcaremos para Bristol; lá seremos recebidos pelo Easton, com quem iremos à cidade de York no dia 6 de agosto para participar da Copa do Mundo Alternativa com outros times europeus de futebol amador.

Viajar para outro país para jogar futebol pelo Autônomos exige não apenas uma festa para comemorar essa oportunidade, mas também uma arrecadação para cobrir gastos com os quais teremos de lidar (apesar da ajuda dos ingleses). É com esse mote que haverá uma festa no sábado, 24/julho, no Espaço Impróprio, com shows de bandas convidadas e outras formadas por jogadores do Autônomos, além de outras atrações - sorteios de camisas do time, inauguração da sala de troféus e exibição de vídeos do Autônomos.

É uma oportunidade ímpar para conhecer o Autônomos, seus jogadores e confraternizar com todos, aproveitando esse inefável momento - talvez o mais importante da história do time de várzea autogestionado mais querido de São Paulo. Para mim, pelo menos, é o mais querido.

Para mais informações sobre o Autônomos FC, acesse autonomosfc.com.br. Há também um breve documentário de 2009 sobre o time, feito em um sábado em um jogo no campo do Vila Paulina. Para assisti-lo, basta clicar no vídeo abaixo.

http://vimeo.com/4132338

Palavras-chave: autogestão, autônomos, futebol

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Junho 05, 2010

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Postado por Tiago Almeida

A Folha.com publicou uma reportagem sobre um departamento da Universidade de Brasília que dá o que falar no meio acadêmico: é o Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais, que tem como objetos de estudo ufologia, astrologia e conscienciologia. Alguns acreditam que há problemas em financiar com verbas públicas um grupo de estudos como esse, pois o dinheiro para ciência não deve ser dividido com esse tipo de conhecimento. É raro encontrar algo dentro dos limites da universalidade da cultura humana que possa ser mais arrogante do que esse tipo de pensamento sectário e preconceituoso.

Há uma expectativa sobre a ciência atual, respaldada tanto por uma mentalidade cientificista quanto por uma suposta necessidade desenvolvimentista, que dá ao conhecimento científico status de verdade ontológica. Tal expectativa só se concretiza no contexto no qual nossa civilização se insere temporal e espacialmente. Tudo bem que a universidade foi pensada sobre ideais iluministas, racionalistas, positivistas e todo o mais – o que sustenta nossa crença cega em uma causalidade cartesiana, mas daí para dizer que a universidade não pode financiar astrologia é preciso um salto considerável.

Astrologia e ufologia, assim como as ciências, são formas de se representar o mundo. Expressam visões de mundo, nada além disso.  Pesquisas sobre esse tipo de conhecimento podem não ser interessantes para um cientista ordinário, ainda assim não são menos razoáveis para algumas pessoas, como aquelas com quem convivemos em nosso dia-a-dia. Essa justificativa deveria ser suficiente para aceitarmos a produção de conhecimento (não-científico) nesses campos de estudo. No entanto, o status de verdade das ciências parece ser inabalável e intocável.

Tanto astrologia quanto as ciências são embasadas em hipóteses. Embora algumas hipóteses sejam mais fortes do que outras, isso ainda não faz das ciências representações que excluam a validade das não-ciências em um certo domínio de vivência. O método científico é só uma hipótese, por mais sofisticada e eficiente que o seja. A Física explica muita coisa e por isso é genial. Experiência e observação são sim muito úteis e funcionam muito bem para o desenvolvimento do conhecimento científico. Mas não são verdades em si. Por mais fantásticos e fascinantes que sejam seus resultados, ainda são apenas hipóteses fortes.

A rigor, não faz sentido financiar uma ciência que estude o universo distante – do tipo a astronômica – só porque as teorias físicas funcionam aqui no nosso mundo. Ou não é questão de fé o fato de as leis físicas serem as mesmas em todo o universo?

Estudar teologia e astrologia na universidade é tão interessante quanto estudar filosofia. Se estudadas na universidade, a função da teologia e da astrologia não deve ser a de formar profissionais para o mercado, mas sim fazer pesquisa que ajude a construir esses saberes. Um teólogo pesquisador pode ser diferente de um padre ou bispo, assim como o João Bidu não deve morrer de amores pela pesquisa. Então qual o problema em pesquisar teologia e astrologia?

A universidade não pode ser meramente utilitarista, financiando uma fatia do conhecimento que pode ser produzido e desenvolvido pela sociedade contemporânea. Nesse sentido, astrologia e paranormalidade devem ter tanto espaço no financiamento de pesquisa básica quanto qualquer ciência. Não basta conhecimento científico para satisfazer os anseios das pessoas em toda sua diversidade; se assim o fosse, qual espaço se daria para o amor, uma poesia ou uma daquelas obras de arte que tocam nossos corações sem a justificativa de uma lei natural? Há humanidades incapazes de serem expressas por qualquer linguagem, nem mesmo a científica. Vetar financiamento à astrologia, ufologia, teologia ou qualquer que seja a área de conhecimento é mutilar uma parte importante da cultura construída ao longo de nossa história.

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Abril 08, 2010

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Postado por Tiago Almeida

É praticamente inquestionável a necessidade da Polícia Militar para nossa sociedade, principalmente quando se trata de sua função "legítima" de garantir a segurança e a ordem social. Inclusive corre-se o risco de ser punido quando se duvida da integridade moral de um policial ou até mesmo da própria Corporação. No entanto, pouco se questiona seu monopólio da violência e seu abuso arbitrário da força em situações diversas.

Se, de acordo com o artigo 1° da Constituição Federal, todo poder emana do povo, por que as manifestações políticas são reprimidas violentamente? Manifestações não são garantias do povo reivindicar do governo a postura que achar necessária? Ou a "festa da democracia" se resume àquela piada que acontece a cada dois anos chamada de eleições? Se existem orientações para se reprimir/dispersar uma manifestação e agredir qualquer pessoa envolvida em passeatas, por que a polícia mente e esconde esse objetivo?

Refiro-me ao ocorrido nas proximidades do Palácio dos Bandeirantes: a polícia infiltrou um PM à paisana (P2) na manifestação dos professores estaduais, na sexta-feira dia 26 de março, e tentou de todas as formas mentir sobre esse policial infiltrado.

A foto do P2 foi publicada nos jornais, que acreditavam que o cidadão barbado (como raramente se encontra um PM) e carregando no colo uma policial ferida seria um professor.


A Secretaria de Segurança Pública desmentiu a imprensa, afirmando que o suposto professor era na realidade um policial à paisana em operação na região. Essa foi a primeira versão do governo frente ao fato.

A segunda versão da PM dizia que o P2 não estava em serviço, mas sim passando pela manifestação por acaso.

Na terceira versão, contrariando as duas anteriores, a assessoria disse que o P2 "estava no local, não disse o que estava fazendo".

Mas a Apeoesp jogou areia e apagou a mentira contada pela assessoria da PM, confirmando que o P2 estava em serviço, tanto que subiu em um ônibus de professores em Osasco que se dirigia à assembleia.

Por que todo esse esforço da Corporação para mentir sobre esse P2 em serviço? Se a PM  está seguindo a lei e obedecendo ordens, por que esconde a motivação de infiltrar um P2 na manifestação?

Esse é apenas dos episódios em que tentam fazer o povo de palhaço ao esconder vergonhosamente um fato de interesse público - como os familiares que tentam esconder às pressas aquela tia que só os envergonha, na ilusão de que as visitas nunca tivessem notado sua presença; como se fôssemos ingênuos a ponto de não percebermos a tentativa de criminalizar o movimento dos professores - ou haveria outro motivo para esconder a verdade sobre o P2? O papel da Polícia Militar deixa de ser meramente repressivo, passando a ser também cômico e revoltante ao mesmo tempo. Tentar esconder a verdade sobre o P2 de forma atrapalhada como foi feito não é apenas hilário mas também um insulto ao cidadão paulista.

A PM, que se esconde atrás da falaciosa defesa da ordem em favor de um progresso - enquanto existe para fazer valer a vontade de uma elite estabelecida - nos deliciou com essa cômica peça circense. Como se não bastasse, mostrou que não são apenas alguns de seus peões isolados os únicos sujeitos a desonestidade: não há garantia de que essa instituição tenha qualquer comprometimento com a verdade.

Se precisam de uma instituição para reprimir manifestações democráticas, abram o jogo e mostrem para que a PM foi criada e por que ainda existe. Mas não nos coloquem na plateia de uma ópera-bufa como essa. É um insulto à nossa inteligência.

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Infiltração e repressão: Serra repete práticas de Yeda, da Agência Carta Maior

Palavras-chave: infiltrado, PM, polícia, repressão

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Julho 06, 2009

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Postado por Tiago Almeida
Há poucos dias se noticiou a polêmica decisão da justiça estadunidense, que condenou uma mulher a pagar uma multa milionária por ter baixado 24 músicas na internet (80 mil dolares por faixa) utilizando um cliente P2P. Esse fato expressa como os líderes de governo têm lidado com uma questão social básica: como universalizar o acesso à informação na era digital?

Ao invés de permitir esse acesso a toda a sociedade, tem-se escolhido o caminho oposto: há uma série de medidas sendo tomadas para punir quem compartilha e usufrui da produção cultural patenteada, coibindo o acesso da população à informação. A Lei Azeredo, popularmente conhecida como AI-5 digital, é a mais clara expressão dessa ideologia no Brasil. De acordo com essa lei, toda troca de informação pela internet passa a ser fiscalizada para previnir a violação de direitos autorais; o texto prevê também pena de multa aos infratores. Outras medidas com o caráter de cercear a liberdade de troca de informação entre os usuários de internet têm sido propostas ao redor do mundo, como a lei Hadopi na França (já censurada por seu Conselho Constitucional) e o processo contra os responsáveis pelo Pirate Bay (site que viabiliza a troca de material protegido por direitos autorais).

Qual o objetivo da implementação de legislações contrárias aos usuários de internet que usufruam de bens culturais? Qual o intuito de se criminalizar quem não paga pela informação adquirida? Invertendo essa lógica, por que não é crime monopolizar o acesso à produção cultural e privar a população desse direito?

A justificativa legal é o respeito que todo cidadão deve ter com relação ao direito autoral ou propriedade intelectual; a forma com que os recursos eletrônicos vêm sendo utilizados violariam tais direitos. Na realidade, ainda não há nenhuma legislação que considere crime o usufruto de bens culturais por mecanismos digitais, por exemplo o compartilhamento de arquivos via internet. O que tem sido feito pelos governos é a busca por brechas na leis em exercício para punir quem recorre a tais meios a fim de ter acesso ao conhecimento privatizado.

Se o estado cumprisse seu papel, faria o máximo para adaptar a legislação ao interesse público, aproximando as pessoas do conhecimento que não poderia ser disponibilizado de outra forma a não ser eletronicamente (basicamente o mesmo princípio que prevê a criação de bibliotecas e museus públicos). É óbvio que facilitar tal acesso vai de encontro ao interesse privado, que reivindica não apenas o direito à propriedade intelectual mas também o monopólio dos meios de acesso a eles, mesclando convenientemente as duas exigências em uma e garantindo assim a capitalização do conhecimento.

É nesse sentido que o estado beneficia os proprietários dos meios de acesso à informação (grandes gravadoras e distribuidoras de cinema), pois criminaliza o consumo da produção cultural por vias digitais, ao mesmo tempo em que garante justificativas para fiscalizar ampla e permanentemente a população, tratando internautas como delinquentes em ação. Como resultado, a saúde das grandes editoras, gravadoras, distribuidoras e até revistas científicas é assegurada e quem busca informação sem contribuir com o mercado é encarado como bandido.

O público reivindica a facilitação de seu contato com a produção cultural. Prova disso é o crescente número de inscrições no Partido Pirata do Brasil, cuja bandeira é a liberdade de acesso à informação. Talvez a censura da lei Hadopi seja um sinal de que o interesse público esteja sendo atendido (ao menos na França). A criação do blog da Petrobrás (e o desconforto causado por suas publicações divulgando perguntas encaminhadas por repórteres a sua assessoria de imprensa) também pode sinalizar um enfraquecimento dos que possuem o monopólio do acesso a informação. Por outro lado, a condenação da americana citada no início do texto e a punição à qual os responsáveis pelo Pirate Bay foram submetidos pelo governo sueco são fatos que simbolizam o quão difícil é mostrar que não há crime em permitir o acesso universal ao conhecimento.

Será que o estado é capaz de defender a vontade da população em toda sua amplitude? Isso implicaria em um ponto final no processo de criminalização, seja da pobreza, dos movimentos sociais ou do acesso à informação.

Palavras-chave: azeredo, conhecimento, criminalização, cultura, estado, hadopi, informação, internet, pirate bay

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Julho 01, 2009

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Postado por Tiago Almeida
Do blog Café com Ciência
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NGC6543
Nebulosa Olho-de-gato

Minha experiência com o curso de licenciatura, limitada a duas disciplinas recém concluídas, foi excelente. Mostrou que nesse curso há espaço para reflexões sobre como acontece a construção do conhecimento, algo que me foi raro durante o bacharelado. Em uma dessas disciplinas fez-se uma importante (porém negligenciada) constatação de como evolui a ciência: por maior que seja a contribuição de cada um de seus agentes - tanto os gênios quantos os "meros mortais" - o conhecimento cinetífico se desenvolve agregando em si ideias pré-existentes, evoluindo de uma estrutura simples para outra mais complexa do que a primordial.

Veja por exemplo o conceito do éter, um meio material em que se acreditava ser essencial para a propagação da luz. Por que a luz não se propagaria no vácuo, por exemplo?  Durante muito tempo se buscou na Mecânica uma explicação para diversos fenômenos; com a interpretação da natureza ondulatória da luz não foi diferente. Todos os fenômenos ondulatórios conhecidos até então - som, ondas do mar, etc. - exigiam um meio material para sua ocorrência. Dessa forma, esperava-se que a luz, então encarada como uma onda, necessitasse também de um meio para sair de um ponto e chegar a outro. Com o surgimento do conceito de campo eletromagnético, a busca pelo éter onde a luz se propagaria deixou de ser necessária. No entanto, um meio etéreo ainda é evocado de forma recorrente na tentativa de se explicar outros fenômenos. É o que acontece atualmente com a expansão acelerada do universo, da qual se acredita que o éter (ou quintessência) seja o um responsável em potencial.

A tentativa mecanicista (pressupondo a existência de um meio material) de se explicar o comportamento ondulatório da luz representa muito bem como o conhecimento é construído a partir de ideias já concebidas, apenas apropriadas e organizadas criativamente. Nem mesmo Einstein, em sua elegante teoria da relatividade restrita, deixou de utilizar conceitos e ideias que já haviam sido formuladas por outros cientistas - como a constância da velocidade da luz, experimentalmente comprovada por Michelson e Morley, e a contração do espaço, interpretação dada por Lorentz. Ou seja, a produção do conhecimento nunca ignora o que já foi criado, apenas se apropria dos conceitos estabelecidos na cultura onde tal produção se insere. É nesse sentido que o conhecimento evolui de um estado simples para outro complexo, reciclando ideias de acordo com um dado contexto.

A evolução da ciência com base em um conhecimento já estabelecido é análogo ao processo evolutivo do espaço onde nascem e morrem as estrelas, o chamado meio interestelar.

As estrelas são as responsáveis pela reciclagem do meio interestelar: nascem de um gás composto por átomos de elementos químicos presentes naquele ambiente, transforma esses átomos em outros através de alguns processos de produção (assim como o Sol tranforma hidrogênio em hélio em seu núcleo) e antes de morrerem devolvem parte do material transformado ao meio ambiente onde nasceram (como fazem as nebulosas planetárias, objetos do tipo apresentado na figura acima). Tal transformação faz com que o meio interestelar evolua de uma composição química relativamente simples para uma mais complexa.

Ou seja, a humanidade recicla o conhecimento assim como as estrelas reciclam a composição química do meio interestelar. Curioso, não é? Pois isso é apenas uma parte do muito que ainda temos para aprender com as estrelas.

Palavras-chave: astronomia, ciência, conhecimento, meio interestelar

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Junho 28, 2009

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Postado por Tiago Almeida

Parece que o Saramago está acompanhando a crise na USP.

"Formação (2)", por José Saramago

http://caderno.josesaramago.org/2009/06/26/formacao-2/

Aonde pretendo chegar com este arrazoado? À universidade. E também à democracia. À universidade porque ela deverá ser tanto uma instituição dispensadora de conhecimentos como o lugar por excelência de formação do cidadão, da pessoa educada nos valores da solidariedade humana e do respeito pela paz, educada para a liberdade e para a crítica, para o debate responsável das ideias. Argumentar-se-á que uma parte importante dessa tarefa pertence à família como célula básica da sociedade, porém, como sabemos, a instituição familiar atravessa uma crise de identidade que a tornou impotente perante as transformações de todo o tipo que caracterizam a nossa época. A família, salvo excepções, tende a adormecer a consciência, ao passo que a universidade, sendo lugar de pluralidades e encontros, reúne todas as condições para suscitar uma aprendizagem prática e efectiva dos mais amplos valores democráticos, principiando pelo que me parece fundamental: o questionamento da própria democracia. Há que procurar o modo de reinventá-la, de arrancá-la ao imobilismo da rotina e da descrença, bem ajudadas, uma e outra, pelos poderes económico e político a quem convém manter a decorativa fachada do edifício democrático, mas que nos têm impedido de verificar se por trás dela algo subsiste ainda. Em minha opinião, o que resta é, quase sempre, usado muito mais para armar de eficácia as mentiras que para defender as verdades. O que chamamos democracia começa a assemelhar-se tristemente ao pano solene que cobre a urna onde já está apodrecendo o cadáver. Reinventemos, pois, a democracia antes que seja demasiado tarde. E que a universidade nos ajude. Quererá ela? Poderá ela?

Palavras-chave: crise, democracria, pm, polícia, saramago, universidade, usp

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Junho 17, 2009

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Postado por Tiago Almeida

No dia 9 último muito se noticiou o violento conflito entre a PM e manifestantes no campus Butantã da USP. Apesar de violenta, visto o uso de bombas de efeito "moral" e balas de borracha, a ação da polícia é legitimada por uma série de argumentos - desde a defesa dos policias pressionados naquela ocasião até a necesside de repressão sobre os funcionários, professores e alunos que se recusam a acatar ordens superiores e desrespeitam a hierarquia da instituição.

No entanto, pouco se questiona a necessidade da violência utilizada pela PM em nome da ordem e progresso institucional. Até onde é imprescindível o uso de agressões físicas por parte da Corporação? Ou, em uma análise mais profunda, é fundamental ao estado monopolizar a violência para a integridade da sua confiança como governo?

Antes de alguém julgar este post como anacrônico, não comparo a postura da Corporação hoje com a da ditadura. A PM não precisa torturar como fazia o DOPS para ser repudiada. Seu papel sempre foi defender uma ordem que privilegia apenas parte da população em detrimento da outra, usando da violência necessária para tal.

Esse não é o único problema. Ao pressupormos a necessidade de tal monopólio, surge pelo menos duas terríveis consequências com os quais a sociedade deve arcar: as arbitrariedades inerentes aos agentes do estado e as ações sujeitas a interesses pessoais ou particulares.

A primeira é mais regra do que exceção, vista a incapacidade do estado formar cidadãos isentos de interpretações subjetivas, o que os faz passíveis de agir sob seus pré-julgamentos. Nem mesmo a Justiça foge dessa subjetividade - não só no Brasil, onde o sistema judiciário é ineficiente e o penal é um fracasso - mas em todo o mundo. Prova disso é a desproporcionalidade de força utilizada em ocasiões distintas: no país, livra-se criminosos de colarinho branco do uso de algemas, como aconteceu com Daniel Dantas, enquanto um marginalizado ser espancado e morto dentro do camburão, como ocorreu com o sequestrador do ônibus da linha 174 no Rio de Janeiro há alguns anos, é absorvido como natural pelo senso comum. Na Grécia, por exemplo, não há grande diferença em comparação com o Brasil.

A segunda é a utilização da força na defesa de quem utiliza o estado como forma de poder, e não há estado "forte" o suficiente que não se submeta a interesses de grupos restritos.

Pressupor que a polícia segue ordens pautadas pura e simplesmente na lei, isenta de qualquer interesse, é uma postura tão romântica quanto inocente, pois significa que confiamos no estado e em como este usa o governo atribuído a ele (ou não) pelo povo. O grande problema é que a teoria não funciona tão bem assim na prática. Veja o tropeço televisionado do comandante da operação daquele fatídico dia 9. Em entrevista, ele diz cumprir uma ordem de prisão, a qual não possui respaldo legal algum, como é discutido por Tulio Vianna em seu blog. Mais uma prova cabal do uso da PM no cumprimento de interesses políticos, visto que apenas os líderes sindicais foram presos na ação. E essa não é a primeira nem última evidência de que a polícia é usada abusivamente para coibir manifestações políticas antes mesmo de serem violentas, criminalizando-as.

Alienar-se do papel desempenhado pela PM hoje, não só na USP mas no mundo afora, só se justifica pela falta de interesse em procurar entender que existe um mundo muito diferente do nosso, um mundo em que a PM não é bem quista. Não sentir na pele as arbitrariedades da PM e o abuso da violência a ela emprestada não quer dizer que nada disso exista, é questão de amplitude de convívio social.

O professor Adorno e o NEV que me perdoem, mas a violência como direito exclusivo do estado não pode ser legitimada. No contrário, não resta outra escolha aos movimentos reivindicatórios a não ser a rejeição das ações policiais visto seu papel político, em defesa de interesses de quem detém o poder de governar. Isso só torna mais espontâneo os gritos de "fora PM do mundo".

Palavras-chave: estado, monopólio, pm, polícia, violência

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Junho 10, 2009

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Postado por Tiago Almeida
A justificativa para o uso da força policial é a preservação da ordem social, encarada como um tipo de motor civilizatório; sem essa tal ordem, seria impossivel manter a sociedade coesa e em desenvolvimento. No entanto, não reconhecemos muitas vezes o uso da polícia na defesa da ordem política que beneficia grupos específicos em detrimentos dos da sociedade em seu sentido mais amplo.

Os movimentos de reivindicações sociais vão de encontro a essa ordem política, e sofrem com as forças de reação. Uma dessas forças é a associação dos movimentos sociais a ações criminosas. Enquanto os movimentos reivindicam seus direitos, supostamente garantidos pela lei, a elite detentora do poder reage dando-lhes cores de delinquência por meio dos recursos que possui, impedindo o comprometimento da atual configuração social a qual assegura os interesses dessa minoria.

A relação entre movimento social e crime é construída em geral pelo estado e pelos meios de comunicação. Da mesma forma que se usa o estado como instrumento para estabelecer interesses particulares de uma minoria contra a população marginalizada, ele também é utilizado para afastar a ameaça aos valores elitistas promovida pelos movimentos socias. A investida por meio do estado contra os movimentos populares é fortalecida pela atual estrutura do sistema penal, respaldado no combate ao comportamento que ofende os valores burgueses e cuja origem reside nas transformações sociais que ocorreram após a Revolução Francesa.

Os meios de comunicação assumem papel fundamental ao acusarem os movimentos e seus agentes, dando a eles a imagem de delinquentes. Não faltam exemplos para esse tipo de ação.

Trabalhadores e estudantes são frequentes atores na luta por seus direitos e sofrem as consequências nas mãos do estado. Desde reivindicações por preços justos no uso do transporte público até exigências de reajustes salariais, tais categorias são reprimidas com a força policial. Nesse caso, o estado utiliza do monopólio da violência para manutenção de uma política que atende aos interesses do corpo empresarial e de quem os acompanha.

O MST sem dúvida é o movimento social mais estigmatizado, por conta da sua importância na reivindicação na reforma agrária no Brasil. Comumente são associados crimes às suas manifestações, e a imprensa, sem deixar claros os fatos, favorece os interesses das elites detentoras das terras atacando a imagem do movimento - como ocorreu no último conflito em Belém do Pará, em abril de 2009.

Não é menos notável o papel dos ruralistas e grandes detentores de terras na criminalização do movimento indigenista. Tendo em vista o crescimento da força mobilizadora em torno da defesa das reservas dos povos indígenas e quilombolas, garantido pela constituição de 1988, a mídia vem tentado criminalizar a cultura desses povos, muitas vezes acusando-os de serem incapazes de conviver civilizadamente sem intervenção do estado em suas comunidades. Exemplo claro é este fantasioso vídeo mostrando uma criança sendo enterrada viva, usado por ONGs na defesa de uma intervenção cultural nas tribos amazônicas. Deve-se destacar também o recente conflito entre índios e policiais no Peru, onde ao menos 60 pessoas morreram na manifestação a favor do direito sobre suas terras.

O esforço empenhado pela tevê venezuelana no apoio ao golpe de estado levado pelos opositores do presidente Hugo Chávez em abril de 2001 talvez seja o exemplo mais emblemático do que a mídia pode fazer para transformar manifestantes em criminosos. o documentário "A revolução não será televisionada" contrapõe de forma pedagógica os fatos aos factoides criados pela imprensa golpista, norteados para a derrubada do presidente.

Embora devamos ter cuidado para não nos posicionarmos cegamente a favor de qualquer movimento social, não podemos deixar de aprofundar nossa análise crítica. Só assim somos capazes de identificar o jogo de poderes por trás do uso da polícia para coibir ações tidas como criminosas quando podem na verdade corresponder à verdadeira luta por direitos comuns.
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Em tempo - Dossiê: Lutas e repressão nas universidades de São Paulo

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Junho 01, 2009

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Postado por Tiago Almeida
O rótulo de crime é atribuído a uma dada ação de acordo com os valores que estruturam uma dada sociedade. No entanto, algumas ações são criminalizadas, ou classificadas como crime conforme a conveniência de agentes específicos. A quem cabe e interessa o papel de criminalizar um dado conjunto de comportamentos?

Pretendo discutir em alguns posts o que há por trás das motivações de se definir um determinado ato ou comportamento como criminoso.

Para começar: o que há por trás da criminalização da pobreza? Por que tanto se dissemina a ideia de a criminalidade vir da periferia, morros e favelas?

Esse preconceito, tão carregado de maniqueísmo e difundido em nosso dia-a-dia, muitas vezes nos faz reféns de um medo descomunal e, passíveis a isso, o generalizamos como se todo morador da periferia fosse criminoso ou, no mínimo, violento. Isso quando não nos privamos de conviver com pessoas socialmente marginalizadas por precaução do que elas podem nos fazer, por mais inofensivas que possam ser, contribuindo para uma segregação social.

Não quero polarizar o problema, contrapondo "bem e mal" pois a questão me parece ser mais profunda e complexa do que se apresenta. Ainda assim arrisco levantar algumas hipóteses do que pode estar por trás dessa generalização.

Longe de ser uma conspiração orquestrada, é provável que essa criminalização seja resultado de manifestações culturais atuando juntas e que se refletem em um comportamento de massa, aliado ao fato de uma fração da sociedade não se identificar como reprodutora desse tipo de preconceito.

Por outro lado, não seria novidade haver partes interessadas que tiram proveito desse contexto e contribuem para a manutenção dessa cultura.

Ao aceitar a pobreza como qualidade associada ao criminoso, a elite ganha uma espécie de distinção social, um parâmetro de referência para se enquadrar no status quo. Nesse sentido, quem se beneficia do quadro social como ele é hoje, segregado entre "pessoas de bem" e criminosos, garante sua estabilidade e conforto dentro da estrutura de poder vigente. Além de ser um indentificador de classe, a pobreza, independente de sua origem, é também uma justificativa ao comportamento criminoso (sob o olhar dos valores da elite), como um tipo de consequência de seus atos, nos quais a elite obviamente não se insere. O processo segue de forma circular - o pobre é criminoso e por isso é pobre - alimentando assim uma desigualdade sem fim.

Associar a pobreza à delinquência é também de interesse dos que usufruem, de forma direta, do Estado como forma de poder. Uma vez definida a ação delinquente, a partir de uma lista de comportamentos convenientemente repudiáveis da qual o Estado se encarrega de organizar em códigos de conduta, tem-se uma forma de controle para a manutenção do poder estabelecido. Assim, por exemplo, quando é necessária uma desocupação de um terreno "irregular", que mobiliza uma população contra a ameaçada do despejo, esta é tomada como agente causador do conflito, violadora da ordem e descumpridora da lei, legitimando a ação do Estado, por mais criminosa que seja.

Embora esse assunto mereça mais espaço do que uma postagem rápida em um blog, não deixa de ser fundamental o questionamento sobre a criminalização da pobreza. Não se pode assistir passivamente ao preconceito de que todo pobre é criminoso ser propagado sem reflexão. Duvido que todo (ou qualquer) cidadão marginalizado mereça ser tratado assim.
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Mais: Brasil - criminalização da pobreza, por Renato Prata Biar

Palavras-chave: criminalização, pobreza

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Maio 25, 2009

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Postado por Tiago Almeida

Lembram-se da ONG Sociedade dos Amigos de Plutão, que supostamente recebeu um financialmento de R$7,5 mi, dentre outras ajudas absurdas, do governo petista em 2006?

Foi uma brincadeira inventada por Carlos Chagas. Muitos oposicionistas sequer verificaram a veracidade dos dados (uma consulta ao DO resolveria o problema), confiaram no texto de Chagas e o usaram para atacar o governo. O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) chegou a se pronunciar em uma sessão mostrando sua incapacidade de analisar uma notícia criticamente.

Ou será que se aproveitou da inocência alheia para incriminar o opositor de forma proposital?

Um mês depois da acusação, Chagas publicou a retratação. Até hoje Chagas é um jornalista respeitado no Brasil. De forma alguma foi punido pelo constrangimento que sua falsa notícia provocou tanto ao governo quanto à oposição. Não foi processado, não teve sua publicação apagada e não foi impedido de exercer sua função por causa desse factoide em momento algum.

Já na USP, enquanto a privatização vai de vento em popa, com limpeza, segurança e alimentação maciçamente terceirizados, com fundações tendo portas abertas para "dar apoio institucional" à universidade...

Palavras-chave: amigos de plutão, censura, expulsão, mentira, punição, Tom

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Maio 12, 2009

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Postado por Tiago Almeida

carbon

Pode não acreditar, mas bem me lembro do ambiente em que nasci, há bilhões de anos. Era um empurra-empurra danado. Naquela ocasião, quando me dei conta de que era um átomo de Carbono, vi vários primos nascerem das trombadas de núcleos de Hélio. Confesso ter gostado de toda aquela turbulência: depois de uma supernova, é difícil encontrar um lugar assim tão carregado de energia.

Contam por aí histórias de átomos de Carbono em outras estrelas, que não nasceram como eu, das fusões nucleares em supernovas (quando a estrela explode e espalha todo seu material pelo espaço), mas das que ocorrem no interior estelar - afinal, onde mais poderia ser?

Esses átomos não têm o meu privilégio. Dizem as más línguas que, para os Carbonos provenientes do interior estelar, alcançar um planeta requer percorrer um caminho tortuoso: para saírem das profundezas do interior da estrela em que nasceram, os átomos de Carbono precisaram esperar por uma célula convectiva passar e com ela pegarem carona até a superfície estelar. Dos que chegam lá, só alguns têm a sorte de serem ejetados da atmosfera da estrela e, depois de um tempo viajando no meio interestelar, acabar em um planeta qualquer.

Respeito as dificuldades pelas quais passaram, mas não tiveram que suportar as altas temperaturas pelas quais passei na supernova. Na verdade, depois de ter sido espalhado no meio interestelar, ficar naquele gás foi um tédio. Comparado ao ambiente em que nasci, interagia muito pouco com os outros. Ao menos pude entrar em contato com átomos diversos, inclusive os de elementos mais pesados que o Ferro, que só nascem das supernovas.

Depois de um bom tempo vagando pelo espaço, umas bolotas enormes de gás começaram a se condensar naquela nuvem de gás que restou da supernova, e as coisas ficaram mais interessantes. Foi quando surgiu uma estrela, querendo brilhar mais do que todos os outros corpos dali e ser o centro das atenções. Veja a ironia do destino: da explosão que matou uma estrela em um lugar nasceu outra em um sítio diferente, que hospedaria o sistema planetário que passei a habitar. As bolotas, que então atinei serem planetas, começaram uma ciranda em torno da estrela, que hoje recebe o nome de Sol. Não imaginava o que estava por vir.

Fui atraído por um desses planetas. Agradeço muito à gravidade da Terra: não fosse ela, ainda estaria vagando pelo meio interestelar ou teria acabado em algum lugar ermo - já pensou passar a vida toda em Marte ou em um asteróide? Na Terra sou muito importante, talvez mais do que qualquer Carbono em outro lugar do Universo. Tenho orgulho das funções que desempenho - e não são poucas, passaria outros bilhões de anos falando sobre todas elas. Ser a base da vida é a que mais me dá orgulho.

Fiz parte de vários organismos, dos mais simples ao mais complexo, do unicelular ao animal. Perdi a noção do número de seres vivos dos quais já fiz parte; já estive em todos os agentes da cadeia alimentar. Fui petróleo, carvão, plástico, látex. Até nas rochas de montanhas já estive. Ajudei a marcar o tempo de objetos muito antigos. Já fui herói, hoje alguns me têm como vilão. Ah!, se eu pudesse escrever um livro sobre mim... é verdade, até em livros e papéis já estive!

Tem Carbono que se gaba de ter assumido postos mais valiosos do que o meu, como os que já passaram por diamantes. Eu não me importo com isso, pois diamantes podem existir em qualquer lugar mas fazer parte de um ser vivo, até onde sei, só é possível na Terra.

Tenho satisfação do papel que desempenho neste planeta. Passei bons momentos e não me arrependo de nenhum elétron que tenha compartilhado com os outros. Apesar de toda essa responsabilidade, passaria uma eternidade fundamentando a vida, aqui ou em qualquer outro lugar do Universo.

Palavras-chave: astrofísica, carbono, nucleossíntese, universo

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Maio 10, 2009

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Postado por Tiago Almeida
Enem assume novo formato e será usado como vestibular em 55 instituições federais de ensino superior. Unesp adota nova divisão de matérias e segunda fase no vestibular. Pontuação e provas da Fuvest são reformuladas.

Várias instituições de ensino superior do Brasil vêm apresentando mudanças nas provas de seleção de ingressantes nas universidades. Trocam uma disciplina aqui, tiram um dia de prova dali, alegando a tentativa de melhorar a seleção dos candidatos.

No fundo, permanece o vestibular e o caráter elitista das universidades. Cobrar uma visão interdisciplinar em detrimento da "decoreba", especialidade dos cursinhos, tira do foco não só o problema da inclusão social nas universidades mas também o do número insuficiente de vagas, para o qual o vestibular foi dado como solução. O vilão não é mais essa seleção excludente, mas sim o "caráter conteudista" da prova.

A proposta dos vestibulares é filtrar os candidatos por mérito, representado por índices que tentam refletir o aprendizado do ensino médio. Esse critério é praticamente indiscutível: quando se trata de instituições de ensino superior que lideram rankings de respeito, a seleção por mérito é adotada em todo Brasil e, não tenho dúvidas, no mundo inteiro.

Embora o vestibular seja injusto (quem nunca fracassou em uma prova por estar em um mau dia?), o argumento para mantê-lo como critério de seleção é o de que a universidade necessita de pessoas preparadas (ou academicamente viáveis) para manter sua alta qualidade. No entanto, isso não garante que a meritocracia seja o melhor sistema de seleção do ponto de vista institucional. Ou seja, não significa que, no que depende da virtude dos selecionados, as universidades já atingiram seu máximo padrão de excelência.

Afinal, selecionar os ingressantes por mérito é mesmo essencial para a qualidade da universidade? Ou é apenas um critério para contornar a falta de vagas? Ingressantes com baixos índices de aprendizado (leia-se notas do vestibular) de fato afetam a excelência do ensino superior e da pesquisa no país?

Esta pesquisa da Unicamp mostra que não. O desempenho dos alunos ingressantes por sistema de cotas, portanto que tiveram menores notas no vestibular, ao longo do curso é igual ou superior ao dos não-cotistas. E a Unicamp continua sendo uma das universidades públicas que mais contribuem com a produção científica do país. (Deixo a discussão sobre cotas para outra oportunidade, por ora pretendo mostrar que ingressantes com baixos índices que representam o aprendizado no período referente ao ensino médio+cursinho não afeta a excelência da Academia.)

O atual formato do vestibular não necessariamente implica em excelência da instituição e ao mesmo tempo é injusto. Mas existe uma alternativa a ele?

Antes de responder a essa pergunta, peço que deixe qualquer preconceito de lado e receba de peito aberto minha proposta (e não só minha: veja este projeto de lei).

Imagine um sorteio no lugar do vestibular. Para o povo, seria mais justo. O público ingressante seria proporcional às etnias e classes sociais das comunidades em que as universidades estão inseridas - a fração de negros ingressantes, por exemplo, seria a mesma que a sua fração em uma determinada localidade. Isso bastaria para tornar o sorteio mais justo do que a seleção pelo mérito, que por sua vez deixa em desvantagem pessoas que não possuem as mesmas oportunidades de preparação para a prova.

Podemos ir além - e aí vem a melhor parte. O ensino em todo o país teria como diretriz não mais o conteúdo cobrado pela Fuvest ou de outros grandes vestibulares mas sim a busca pelo pleno conhecimento. Liberdade de aprendizagem, sem a obrigação de seguir um currículo engessado, repleto de informações que, depois de uma única avaliação, nunca mais serão utilizadas. Conteúdo para uma vida e não mais para apenas 4 horas de prova.

Fim dos cursinhos. Fim de taxas de inscrição. Fim das traumáticas provas, que demandam imensos gastos com megaestruturas de segurança e organização. Pessoalmente, mais justiça. Institucionalmente, maior diversidade cultural, o que enriquece a construção de conhecimento na universidade.

Seria mudar o foco, do problema para a solução. Uma real reestruturação do sistema de ensino como um todo. Uma verdadeira mudança, não apenas para inglês ver.
--
Mais: "A utopia do fim do vestibular", um lindo texto de Rubem Alves

Palavras-chave: educação, enem, ensino, fuvest, sorteio, vestibular

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Maio 04, 2009

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Postado por Tiago Almeida
A Reitoria da USP, sob o mandato da reitora Suely Vilela, pediu o afastamento do ex-aluno, Everton Alvarenga, no sistema Stoa, além de censurar seu blog por meio da exclusão de sua conta no sistema.
 
No Stoa, a rede social da Universidade, os usuários têm espaço para compartilhar ideias e manifestar opiniões sobre os mais diversos assuntos. Na USP, esse tipo de interação não existe a não ser virtualmente; as pessoas nessa Universidade (professores, alunos e funcionários) normalmente não interagem com seus pares de unidades que não sejam as suas - salvo raras exceções, como as de pessoas que se conheceram antes de entrarem na Universidade.

O que causou a atitude estapafúrdia da Reitoria se dirigir à administração da rede pedindo o afastamento de Tom, como é conhecido, começou com um post no dia 1º de abril sobre uma falsa reportagem sobre planos de privatização da USP. Apesar de desde o início ter fornecido pistas além de emitir aviso sobre a brincadeira na madrugada do dia 2, Tom foi obrigado a se retratar e pedir desculpas pelo post. A publicação, segundo a Consultoria Jurídica da USP, poderia dar origem a um processo administrativo contra Gil da Costa Marques, diretor do CTI (Coordenadoria da Tecnologia de Informação), órgão ao qual responde a administração do Stoa.

Como já disse, foi só o começo. O que parece ter deixado os dirigentes da USP irritados foi uma reportagem no portal da UOL sobre um bolão de quando começaria a próxima greve na USP, encabeçado também pelo Tom.

No dia 28 de abril, Tom teve sua conta excluída da rede. Ao menos lhe deram um tempo para salvar os textos de seu blog.

Tom sempre foi um grande incentivador do Stoa. Participador ativo, estimulava discussões de forma respeitosa e nunca deu justificativa para qualquer tipo de repreensão a suas manifestações. Tanto a falsa reportagem quanto o bolão tiveram como motivação uma crítica à estrutura na qual a política universitária paulista (senão no âmbito nacional) se insere.

Criticar a Universidade de São Paulo foi seu grande erro, ao menos dentro do mandato da truculenta Reitoria.

Violar a liberdade de expressão de qualquer cidadão é injustificável sob toda e qualquer circunstância. É ainda mais absurda quando tenta calar uma crítica dirigida a um órgão ligado à criação de conhecimento e produção cultural.

É repugnante ver uma ação arbitrária contra uma pessoa engajada com aperfeiçoamento de mecanismos de comunicação dentro da Universidade. A Reitoria e o CTI devem retratar-se imediata e publicamente sobre esse injustificável abuso hierárquico.

Mais:
"Sobre meu afastamento...", por Everton Zanella Alvarenga
Textos de Walrus, Fernanda Pinheiro, Luiz Yassuda, Alexandre Hannud Abdo, Rafael Prince, Joildo Santos sobre a censura promovida pela Reitora
Vídeo do primeiro debate no workshop Planejando o futuro: USP 2034

Palavras-chave: censura, everton, reitora, reitoria, stoa, tom

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Abril 26, 2009

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Pequena (à direita) e Grande (à esquerda) Nuvens de Magalhães (imagem extraída de http://media.skyandtelescope.com)

Pequena (à direita) e Grande (à esquerda) Nuvens de Magalhães (imagem extraída de http://media.skyandtelescope.com)

Quem mora ao sul da linha do equador pode ver no céu noturno durante quase metade do ano, sem a ajuda de qualquer lente de aumento, duas manchas cinzentas em meio as estrelas. Na verdade são duas das galáxias-satélites da Via Láctea, chamadas Nuvens de Magalhães.

Recebem o nome graças a Fernão de Magalhães, português e comandante da primeira expedição marítima que circundou o globo terrestre, no século XVI. Apesar do nome ter uma origem relativamente recente, as Nuvens possuem registro de terem sido observadas pela primeira vez há pelo menos 2900 anos. Naquela ocasião, a maior delas foi chamada de Al-Baqar Al-Abyad, ou Boi Branco, pelo persa Al Sufi. No interior do Brasil, recebem o nome de Covas de Adão e Eva.

A Grande Nuvem de Magalhães encontra-se a quase 170 mil anos-luz enquanto a Pequena está a aproximadamente 190 mil anos-luz do Sistema Solar.

A luz demora mais de 160 mil anos para percorrer essa distância.

Por serem distâncias imensas, é difícil ter noção do que representam. Mas uma analogia pode nos ajudar: se o Sol tivesse o tamanho de uma bola de gude e estivesse no centro da cidade de São Paulo, teríamos que percorrer, partindo dele, uma distância equivalente a uma volta e meia em torno da Terra para alcançarmos a Grande Nuvem.

Como as estrelas que compõem essas duas galáxias são em média mais velhas que as da Via Láctea, acredita-se que as Nuvens são também mais antigas que nossa Galáxia.

Apesar de sua fantástica distância, as Nuvens fazem parte dos poucos objetos extensos que podem ser contemplados a olho nu quando observamos o céu noturno.

Palavras-chave: astronomia, galáxia, nuvens de magalhães

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Abril 24, 2009

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Postado por Tiago Almeida
Não existe mídia imparcial. Sempre há interesse por trás de qualquer manifestação humana. Toda informação é manipulada por quem a transmite, pois é limitada pela linguagem empregada na transmissão.

Aqui há um vídeo ótimo feito por secundaristas, que trata das ferramentas da mídia para manipulação de informações. Ele mostra como mensagem transmitida pode tomar um formato que corresponda ao interesse de quem a veicula.

No entanto, essa imparcialidade pode ser utilizada de maneira perversa, servindo como mais uma forma de poder estabelecido de quem comanda os meios de comunicação.

Da teoria para a prática: temos, infelizmente, muitos exemplos de como a imprensa nos trai com informações não confiáveis, formatadas de modo a esconder verdades que vão de encontro ao interesse dos detentores dessa mídia. Em nome de uma pequena elite, se aproveitam dos meios que têm para enviesar os fatos.

Seguem quatro episódios desse semestre que me chamaram a atenção.

Em 25 de março foi deflagrada pela Polícia Federal (PF) a operação Castelo de Areia. Nela, foram presos diretores da construtora Camargo Corrêa. No relatório da investigação levada pela PF, surgem nomes de partidos - PSDB, DEM, PPS, PMDB, PSB, PDT e PP - que teriam recebido doações ilegais para suas campanhas eleitorais. Não, o PT não foi citado no relatório. Ainda assim surgiram matérias - pelo menos um ou dois frutos de um esforço descabido da imprensa marrom, associando o PT e mais dois partidos às irregularidades da construtora, mesmo não existindo nenhuma evidência dessa associação.

De quem é o interesse de levantar uma suspeita que não existe?

Antes de responder, vamos ao caso da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

A Veja, via Diogo Mainardi (o que se tem de pior na história do jornalismo), lançou suspeita sobre Vitor Martins, diretor da ANP; disse que Martins "se valeria de seu cargo para direcionar os pareceres da ANP sobre a concessão de royalties do petróleo, favorecendo as prefeituras que aceitassem contratar os préstimos" da empresa da qual é sócio. Cita ainda um relatório da PF (na verdade, um relatório paralelo da operação Royalties e não o relatório final) que conteria dados que indicam o conflito de interesses do diretor Martins. No entanto, esconde que quando Martins passou a dirigir a ANP já não tinha qualquer vínculo com a dita empresa de consultoria. Ou seja, não há nem mesmo conflito de interesse para respaldar a acusação. Nassif em seu blog (aqui, aqui e aqui) destrincha muito bem o papel de Mainardi nesse ataque descabido.

Por que acusar alguém com tanto ímpeto sem qualquer indício de crime?

Essa resposta não é tão difícil e tem relação com a pergunta anterior. Evidências de fraude podem impulsionar uma nova CPI (por exemplo, da Petrobrás) contra o governo. Caso os governistas insistam no caso da construtora, a oposição pode usar a CPI em um contra-ataque. Conspiracionismo? Poderia ser se o próprio Mainardi, pau-mandado das elites (veja o que ele não faz pelo Daniel Dantas), já não tivesse feito o favor de reivindicar a investigação contra o atual governo. Esse método não é novo: há alguns anos usou-se o mensalão - cultura secular da qual o PT levou toda a culpa - e agora tem-se uma potencial CPI da Petrobrás, cujo álibi é Vitor Martins e uma fraude que não existiu.

Exemplos de factóides criados pelos grandes jornais e revistas. Impressionantes, ainda assim não únicos.

Há ainda a velha blindagem do PSDB em SP: ninguém fala das irregularidades no governo Serra. Já citei algumas em um post antigo, insisto em uma delas aqui. Por que nosso governador permite o gasto estatal de R$ 3,7 milhões, da pasta da Educação de SP, com 220.000 assinaturas de revistas da editora Abril sem abertura de licitação? O governador alegou que as revistas Recreio e Nova Escola são as únicas publicações na área de educação de interesse dos professores da rede estadual. Mentira. Não bastasse a decisão do ano passado, começou o mês de abril anunciando um novo gasto com 5.449 assinaturas de Folha de S. Paulo e Estadão.

É de interesse de todas as escolas de SP assinarem esses jornais? Quem terá acesso aos exemplares? São as melhores mídias? Contêm as informações mais confiáveis que os núcleos escolares devem ter à sua disposição? É muito raro encontrar qualquer citação ou crítica a essa má utilização de recursos públicos e irresponsabilidade no uso da máquina estatal, em benefício de interesses privados.

Nesse caso não há informação manipulada, apenas não veiculada. Peca-se pelo silêncio.

Mas o que se faz com a Operação Satiagraha é, ao meu ver, o mais impressionante dos quatro exemplos. Essa operação da Polícia Federal ameaça o poder do banqueiro condenado Daniel Dantas e de todos (e não poucos) que dele se respaldam para ter um lugar ao sol na política e mercado nacionais. A estratégia de defesa empregadoa pela legião de advogados do banqueiro é ilegitimar a investigação da PF, apontando uma série de possíveis irregularidades e contaminações ao longo de seu curso. A Justiça julgou algumas delas e as apontou como inconsistentes. Os poderes Executivo, Judiciário e Legislativo (salvo poucas exceções) seguem os mesmos passos e insistem em atacar o acuado Protógenes Queiroz, delegado que liderou as investigações. Percebam: não querem inocentar Dantas usando fatos que provem sua inocência, mas sim com a destruição de fatos que provem sua culpa. A ficha de acusações que o "orelhudo" (como diz a CartaCapital em sua bela cobertura do caso) carrega é antiga e longa. O "problema" é que, enfim, o dono do grupo Opportunity foi condenado e preso, embora tenha sido libertado duas vezes pelo presidente do STF.

Qual a função da grande mídia no cenário em que Dantas tem o papel principal? Revistas (Veja, Época e IstoÉ), jornais (Estadão e Folha de S. Paulo) e obviamente a TV Globo - para citar apenas alguns meios - vêm fazendo um esforço descomunal para atacar a investigação da PF, exatamente como fazem os advogados do banqueiro. A preocupação em acusar a PF é muito maior do que a de incriminar Dantas, como comprovam todas as reportagens sobre o escândalo dos grampos (que ninguém ouviu, se é que existem). Os esforços conjuntos dos quatro poderes foram tão bem sucedidos que o delegado foi afastado por tempo indeterminado.

Afinal, para que servem as investigações: apontar as raízes da corrupção no Brasil ou apenas fazer rodeios? Desvendar as origens desse cancro da política nacional, foco da atual PF, é menos importante do que buscar falhas nas operações? Por que enquanto o banqueiro criminoso está solto todos se voltam para a inteligência investigativa do Brasil, que atingiu um padrão de excelência em suas atividades nos últimos anos, e a acusam de irregularidades?

Quando deveriam se posicionar frente a estas questões, todos se calam - ou são calados, como aconteceu com o programa do Observatório da Imprensa, vítima de nítida censura.

Esses episódios mostram que o papel da mídia na cobertura de todos esses escândalos é decisivo e por trás dele está a defesa de interesses privados, em particular da elite à frente das decisões do país.

Quando não basta o Estado e os Três Poderes, a elite que compõe tanto a oposição quanto o governo tem a imprensa agindo em seu favor.

Palavras-chave: anp, dantas, imprensa, jornais, mídia, protógenes, satiagraha, serra, veja

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Abril 06, 2009

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Postado por Tiago Almeida

Já pensou em recompensar um artista de quem você gosta muito de outra forma que não seja comprando um cd ou indo a um show? Me ocorreu que enviar dinheiro diretamente ao músico ou à banda possa ser uma boa opção.

Há pouco mais de um mês baixei Contra Todos, último cd do Dead Fish, banda de hardcore do Espírito Santo. Gostei tanto que fiz questão de enviar alguma quantia em dinheiro para eles ao invés de comprar qualquer tipo de material deles.

Fiz a proposta ao Alyand, baixista da banda, com quem troquei alguns emails. Ele não gostou da ideia de doação. Disse que o encarte é legal e o cd foi feito de coração, e me incentivou a ir até a loja e comprar o redondo.

Respondi: gostaria muito de fazer uma doação pelo o que vocês representam não só para o cenário musical no Brasil mas também pela ideologia que o seu trabalho traz em si e sua importância na formação política da juventude que dá ouvidos ao Dead Fish.

Do ponto de vista global, a cultura de doações é uma alternativa para tornar o mundo musical sustentável ou até mesmo para um novo modelo de mercado, como mais um canal de vocês com os fãs sem a necessidade de um banco atravessar nossa relação e lucrar às nossas custas (pelo menos em um futuro próximo).

Do ponto de vista pessoal, não coloco um cd em um player há anos principalmente por ser mais prático baixar um álbum do que ripá-lo. E não posso comprar um objeto e ajudar a produzir mais plástico sendo que não vou usá-lo. A arte de fato me interessa, gostaria de poder apreciá-la, mas não me interessa tê-la.

Peço desculpas, mas não posso comprar o cd de vocês. Ainda assim faço questão de contribuir com seu trabalho. Espero que esteja aberto a essa troca de ideias.

No final das contas, o rapaz acabou aceitando apesar de ainda não gostar de doações com esse caráter. Disse que os 70 reais que depositei em sua conta depois de nossa conversa serão doados a um amigo que está desempregado há algum tempo.

Acho essa cultura importante para que a cena musical independente sobreviva e, por que não?, se torne autogestionável num futuro próximo.

Palavras-chave: dead fish, direito autoral, direitos autorais, doação, gravadoras, hardcore, mp3, música

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Março 30, 2009

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Postado por Tiago Almeida
O ministro Gilmar Dantas - ops!, Gilmar Mendes foi sabatinado nesta terça-feira, 23, no Teatro Folha, no Shopping Pátio Higienópolis. Compunham a "mesa" Mônica Bergamo, Eliane Castanhêde, Fernando Rodrigues e Renata Lo Prete. Ótima oportunidade para conhecer esse ministro, personagem de importância fundamental na atual conjuntura nacional. Apesar de ele não fazer parte dos poderes Executivo e Legislativo, é um juiz que se sente à vontade de agir como se estivesse lá.

Protógenes e Satiagraha
Os jornalistas não amaciaram para o ministro tanto quanto se esperava: foram um tanto contundentes em vários pontos - talvez seja um indício de que a política da Folha esteja mudando, provavelmente impulsionada pela redução no número de assinatura de seu jornal impresso. Bergamo inclusive se exaltou ao ser contrariada em sua pergunta sobre a tentativa de suborno por parte de Chicaroni a mando de Daniel Dantas e os dois habeas corpus emitidos pelo ministro; na prática, ele ignorou o episódio em que foram apreendidos R$ 865 mil oferecidos por Chicaroni e foi feito o registro em áudio da conversa em que foi oferecida a quantia em troca de se retirar o nome de Dantas da lista de investigados pela Polícia Federal na Operação Satiagraha. O ministro disse que não houve forte indício de suborno (!) e alegou que a segunda prisão do banqueiro Dantas foi uma tentativa de desmoralizar o STF.

Perguntado sobre o interesse por trás de tal desmoralização, quem sabe de um grupo de anarquistas em busca de derrubar o STF, escapou como um sabonete e se aproveitou do tema já bastante discutido até então.

Excessos
Quanto aos excessos do Judiciário, caracterizou o Ministério Público, PF e "aquele juiz", referindo-se a De Sanctis, como agentes de um estado de anarquia, do qual não havia um controle externo.

Ao ministro foram atribuídas responsabilidades as quais o fizeram tomar as atitudes cabíveis, inclusive no episódio da súmula das algemas. Disse que nem sempre há interesse por trás de ações, inclusive das suas, e criticou esse mccarthysmo que permeia as críticas a ele dirigidas.

Ressaltou que o STF é uma instância de mais fácil acesso do que outras instâncias regidas, por exemplo, por iminentes desembargadores - essa foi a justificativa para a emissão dos dois HC que libertaram Dantas.

A pergunta natural é por que só a Dantas foi dado esse privilégio, e ele a respondeu lembrando do número de HC emitidos pelo STF em 2008 (18 ao todo); segundo ele, só os de Dantas são lembrados por algumas colunistas... mas ficou um vão na explicação do por que pular várias instâncias para favorecer um banqueiro enquanto muitos não têm a perspectiva desse privilégio.

Castanhêde questionou a correria para libertar os ricos em detrimento dos pobres. Ele respondeu, de acordo com toda a cara-de-pau que ensina a velha escola malufista, que corre na verdade para mudar o "processo civilizatório, para dar um caráter de século XXI ao Brasil".

Demarcação, crucifixos e presidência
Falou também da criação de um estatuto de demarcação de terras indígenas, em especial da reserva Raposa/Serra do Sol. Se defendeu da contra-ofensiva dos movimentos sociais com relação à criminalização do MST por ele protagonizada há poucos dias, alegando ser de famílias ligadas à atividade rural - por sinal, segundo ele próprio sua família mora em Mato Grosso há pelo menos 200 anos e ainda assim não possui muitas terras. Mais uma vez, como é de se esperar de um discurso constitucionalista, afirmou que se houvesse uma legislação adequada não precisaria entrar no mérito da demarcação de terras.

Quando questionado sobre a decisão do Conselho Nacional de Justiça contra a retirada de crucifixos de prédios públicos do RJ, alegou que esse símbolo é só uma manifestação cultural, inserida na "cultura ocidental que tanto amamos" (o ministro falou por ele).

Não quis responder se uma dia pode ser candidato à presidência. Não disse, mas é provável que sim. Disse admirar Lula e achar FHC um estadista. Não quis falar sobre Protógenes e De Sanctis, fugindo do assunto mais polêmico no qual atualmente está envolvido.

Protesto
Depois de tentar se esquivar das acusações de agente da atual ditadura do Judiciário, criminalização dos movimentos sociais, esforço em privilegiar banqueiros, conflito de interesse em questões agrárias, dentre tantas outras práticas no mínimo questionáveis em seu mandato como presidente do STF, foi chamado de nazista e facista por manifestantes do PSOL e da UBES, presentes na saída do teatro. Tais adjetivos podem ser exagerados, mas chega a ser natural para um servidor público que usa a máquina em seu favorecimento e de seus comparsas.

Gilmar Mendes não se preocupa em se expor ao extrapolar o poder a ele concedido e não se preocupa quando não encontra justificativa para suas ações. Isso só mostra que cada vez mais se fortalesse dentro da política nacional e que não possui adversários à altura, o que o transforma em um personagem praticamente imbatível dentro da atual conjuntura política do Brasil.

Mais:
Sobre a sabatina, do blog de Paulo Henrique Amorim
Sobre a sabatina, do site da Folha

Palavras-chave: cnj, folha, gilmar, judiciário, juiz, justiça, mendes, ministro, política, sabatina, stf

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Março 23, 2009

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Postado por Tiago Almeida

Se é a primeira vez que tentou participar do processo de atribuição de aulas para professores do estado de SP e em algum momento se sentiu perdido, achando que nada daquilo que estava acontecendo fazia sentido, compartilho dessa indignação. Caso ainda não tenha participado, vou te relatar o que acabei de passar.

O que é
O processo de atribuição de aulas é o procedimento adotado pela Secretaria do Estado de Educação (SEE) para dividir as aulas entre os professores da rede estadual de ensino, tanto fundamental quanto médio. Por haver uma série de problemas e vícios que com o passar do tempo foram sendo incorporados ao processo, além de ser uma rede com um número fantástico de professores, a SEE vê necessária uma série de medidas para viabilizar o processo.

Temporários e efetivos
A primeira medida é classificar os professores em regimes diferentes de acordo com seu vínculo com a SEE e sua formação e, de acordo com essa classificação, são dadas as prioridades de escolha de escola e horários. A princípio existem os professores efetivos, temporários e os eventuais. Os efetivos são funcionários públicos, que passaram em concursos. Os temporários ou OFAs (Ocupante de Função Atividade) são contratados em um regime precário, e devem renovar o contrato anualmente de acordo com as imposições da SEE publicadas no Diário Oficial. Como não são feitos concursos anualmente, faz-se necessária a contratação de temporários para preencher as vagas que os efetivos não conseguem cobrir. Já os eventuais, também conhecidos como substitutos, preenchem as vagas das duas outras categorias quando os professores faltam ou são afastados por algum motivo. Se você for em busca dos editais das atribuições, verá os professores divididos em titulares, adjuntos, estáveis, não-estáveis e contratados. Ainda não sei por quê, quando souber completarei o texto.

Critérios de seleção dos temporários
Os professores temporários são alocados anualmente nas vagas que não são ocupadas pelos efetivos. Até o ano de 2008 os OFAs foram classificados seguindo um critério e, de acordo com a classificação, tinham prioridades uns sobre os outros. Primeiro as vagas eram dadas aos professores com licenciatura plena, depois aos com licenciatura curta, então aos licenciandos de último ano e por último aos bacharéis e tecnólogos. Dentro dessa estratificação, existe uma pontuação de desempate, com base em tempo de serviço pela SEE (não conta aulas no ensino municipal ou de outros estados) e em títulos. Assim, um professor que tenha cumprido toda a carga horário em um ano, ou 200 horas, ganha 1 (um) ponto, ou 0,005 pontos por hora-aula, enquanto mestres e doutores ganham 5 e 10 pontos, respectivamente. Um exemplo: aquele professor que tenha dado aula no estado durante 10 anos pode somar até 25 pontos, no caso de ter concluído mestrado, doutorado e 200 horas de aula anuais sem faltar nenhuma vez.

Até que, para a atribuição de aulas de 2009, foi criada a famigerada provinha.

O que foi a provinha?
O processo seletivo simplificado, ou provinha, criado pela SEE, funcionou da seguinte forma: uma prova de duas horas de duração, aplicada em um único dia, contendo 24 questões sobre conceitos básicos da disciplina a ser ministrada (banca) e as propostas curriculares (também chamadas de PCN, de parâmetros curriculares nacionais), teve de ser feita por todos os candidatos a professor temporário. O inscrito na prova estava automaticamente cadastrado no processo de atribuição de aulas. As questões de múltipla escolha, com 4 alternativas, valiam 3,2 pontos cada, podendo totalizar 80 pontos. Para o desempate dos professores dentro de uma dada formação, valeria a soma da pontuação da provinha com a pontuação por tempo de serviço e em títulos. Seguindo o exemplo anterior, um professor com 10 anos de serviço (vamos supor mais uma vez nenhuma falta), mestrado, doutorado e com acerto de 80% na provinha teria uma pontuação igual a 10+5+10+64=89 pontos. Ou seja, a provinha teve um peso muito maior sobre a nota final quando comparada aos critérios "antigos".

A anulação da provinha
Desde a greve do meio do ano de 2008, a APEOESP tem criticado a provinha. O sindicato diz que a intenção da SEESP é enxugar a folha salarial, afastando os OFAs mais antigos e repondo por novos, que começariam ganhando menos do que os que tem mais tempo na rede de ensino. Como esse argumento obviamente não foi o suficiente para fazer a Secretaria voltar atrás na decisão de criar o processo seletivo simplificado, a APEOESP entrou com um pedido na justiça para o cancelamento da provinha. Esse pedido foi protocolado após a realização da prova. Uma liminar a cancelou, depois a liminar foi cancelada e por fim a prova deixou de ser considerada na classificação dos OFAs, e o sindicato acabou vitorioso. A APEOESP alega ainda que durante a greve foi feito um acordo com o Governo onde se dizia que o peso da prova seria o mesmo dos critérios de classificação dos anos anteriores, o que de fato não aconteceu.

Sindicato x classe
A anulação da provinha é de interesse dos professores sindicalizados e não da classe como um todo. O pedido de cancelamento tomou como base as irregularidades ocorridas durante a prova, como um suposto vazamento do gabarito, provas não lacradas e inexistência de qualquer comprovante para quem fez a prova. Perceba, somente críticas à forma como a prova foi realizada e não à sua proposta.

Em momento algum houve qualquer tipo de defesa a todos os professores, a não ser dos mais antigos e sindicalizados; foi dito que os professores mais antigos seriam prejudicados com a nova classificação, e tal argumento é sustentado pelo sindicato até hoje. A APEOESP em momento algum defendeu os professores que estão ingressando no sistema de ensino estadual, que seriam beneficiados com a prova e, por que não?, trariam para as escolas estaduais um espírito renovador, dando cara nova e mais energia para um sistema de ensino caquético, viciado, desesperançoso da capacitação dos jovens, destruidor do futuro de milhares de crianças. Essa mesma entidade não defendeu a provinha quando esta poderia mostrar o porquê de professores com dezenas de anos de serviço serem incapazes de passar em um concurso do estado, ou incapazes de acertar uma questão sobre os PCNs, pois nunca o leram.

Veja, não estou atacando todos os professores velhos mas sim todos os professores oportunistas, velhos e jovens, que se encaixam nesse perfil e que têm interesse na anulação da prova. Nem mesmo ouso defender o atual formato de concurso, incapaz de medir a capacidade do professor. Também acho importante a realização anual de concursos, priorizando a efetivação dos profissionais em detrimento de cargos precários, e vejo como um descaso do Governo manter 100 mil cargos de professores temporários anualmente. Nada disso me deixa menos claro o interesse da APEOESP, que com uma atitude oportunista conseguiu reverter a prova, em defender os professores sindicalizados, numa atitude puramente corporativista e comprometedora da coesão da classe de professores.

O dia da atribuição
"Vocês que são novos, querem começar a dar aula agora, têm que ter paciência, por que eu não tenho mais". Essa frase retrata perfeitamente a visão que tenho dos que atualmente constituem o quadro de professores e funcionários do sistema de ensino do estado de SP. Foi justamente um deles, um dos organizadores presentes no dia da atribuição, quem me soltou essa pérola.

Depois dos problemas da anulação da provinha, o que acarretou o atraso da atribuição de aulas em 3 dias, cheguei às 9h da manhã no colégio Fernão Dias, na r. Pedroso de Moraes - Pinheiros. Posso dizer que naquela diretoria de ensino provisória da região centro-oeste havia pelo menos 1000 professores esperando para ocupar as vagas de várias bancas/disciplinas como OFAs.

A desorganização no local era quase absoluta. 10 professores eram chamados a cada hora para cada banca (1000 professores por, digamos, 10 bancas é igual a 100 professores por hora, ou seja, o processo deveria levar no mínimo 10 horas - um dia inteiro! - para terminar). Meu nome e de muitas outras pessoas não estavam nas listas de classificação dos professores. Demoraram mais de 2 horas para descobrir o porquê de o meu nome não estar em nenhuma daquelas listas. Descobriram que meu cadastro no banco de dados eletrônico da diretoria existia, porém estava em branco. Se eu não tivesse em posse de meu número de inscrição no processo, não sei quantas horas mais demorariam para encontrar minha ficha dentro da papelada deles. Após terem resolvido esse problema, uma das moças que me atendeu disse-me que eu poderia ir embora e voltar só dois dias depois, já que eu estava inscrito como bacharéu - muitas pessoas estavam na minha frente e eu não conseguiria nenhuma aula naquele dia. Quando eu saía, conversei com um camarada e nos ocorreu que a organização poderia comunicar o mesmo para os outros bacharéis que estavam na mesma situação que eu. Voltei e conversei com outra moça, a qual me advertiu que ninguém da "organização" tinha ordem para mandar embora os bacharéis ou qualquer outro tipo de candidato e que eu deveria ficar. Ou seja, contradisse a que me dispensara. Meia-hora depois comunicaram que licenciandos ultimoanistas, bacharéis e tecnólogos deveriam voltar no dia seguinte. Voltei e não tinha mais vaga para mim e os bacharéis.

Conversando com um professor de letras, comecei a perceber que aquilo tudo era normal, anualmente as mesmas confusões acontecem, e a anulação da prova não piorou em nada o processo de atribuição de aulas. Ele me recomendou acessar o sítio eletrônico da diretoria de ensino toda sexta-feira, onde eu poderia ver no link "saldos" as escolas que precisam de professores eventuais. Aliás, não são poucas, pois professores que saem de licença logo no início das aulas existem aos montes.

Não é oficial, mas durante todo o processo o candidato passa por uma prova de paciência. Muitos desistiram, eu ainda não. A minha preocupação com a defesa do ensino público de qualidade ainda é mais forte do que todas as dificuldades impostas pelas circunstâncias que apareceram. Só não sei até quando.

APEOESP
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo
Carta da secretária de Educação sobre decisão final quanto à anulação da provinha

Palavras-chave: apeoesp, atribuição, educação, ensino, professores, seesp, sp

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Março 19, 2009

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Postado por Tiago Almeida
Tento aqui descrever uma das experiências que tive na viagem ao Fórum Social Mundial 2009, em Belém/PA. Fico satisfeito com o aprendizado que tive de todas as atividades que pude presenciar no Fórum que, em se tratando de práticas, deixou muito a desejar - até justificável pela enorme dimensão e diversidade de posturas que vêm agregando em si com o passar das nove edições, sem contar seu caráter turístico dado pelo financiamento dos governos federal e do Pará. No entanto, o que me marcou de verdade foi a passagem, embora muito curta, pelo caracol zapatista de Caratateua, uma iniciativa paralela e alternativa à do Fórum em uma ilha próxima à capital do Pará.

O que é um caracol zapatista?


Os caracóis foram idealizados pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional como centros de comunicação autônoma e de cultura social. O nome vem da metáfora das conchas de caracóis usadas como intrumento de comunicação, como o anúncio de eventos, por povos indígenas. Diz-se também que os primeiros deuses maias, "os sustentadores do mundo", traziam consigo caracóis em seus corações, o que só vem a enriquecer esse símbolo. Há alguns anos o EZLN passou por mudanças em sua estrutura e a morte dos centros culturais chamados aguascalientes cedeu espaço a "los caracoles" (saiba mais, em inglês). Na interpretação do Subcomandante Marcos, os antigos aguascalientes agora são "a porta para os excluídos entrarem nas comunidades e para as comunidades acessarem o mundo de fora".
Um caracol pode ser visto também como uma base usada na produção de coisas, que são consumidas e trocadas pela produção de outros carácois que, juntos, formam uma rede de trocas. Essa troca não se restringe a bens materiais mas se estende aos culturais, às experiências de formas de organização igualitárias e de resistência ao poder que explora o homem, vivenciadas pela comunidade que dele fazem parte. O caracol segue um modelo autogestinário (saiba mais sobre autogestão).

O caracol de Caratateua

Todas essas interpretações em nada impedem a resignificação do caracol idealizado pelo EZLN. É o que parece estar acontecendo na ilha de Caratateua (também conhecida como Outeiro, nome de um de seus bairros). Por curiosidade: o nome Caratateua foi dado pelos indígenas devido ao formato da ilha lembrar uma batata grande. A ilha é um distrito administrado pela prefeitura de Belém do Pará e sofre de problemas recorrentes nas regiões periféricas das grandes cidades, normalmente causados pelo descaso da organização central. Foi escolhida para ser também um nó da rede Flor da Palavra. Como você pode ler aqui, "a rede Flor da Palavra começou a ser inventada em 2006 de forma não planejada e sem uma grande convocatória, graças à grande quantidade e variedade de iniciativas de grupos e indivíduos do campo autonomista brasileiro e mexicano, em particular os ligados à mídia livre, que deram forma à organização horizontal e colaborativa de eventos sobre o zapatismo e as lutas locais. A 'facilidade' com que se instaurou esse processo organizativo horizontal apontava o amadurecimento de um interesse amplo pelo zapatismo no Brasil, e de sua capacidade para conectar movimentos e outros lutadores sociais. Diante disto surgiu a idéia de começar a invenção de rede Flor da Palavra, sem renunciar à forma colaborativa e aberta de organização". Ou seja, tenta-se fazer do caracol de Caratateua um espaço autônomo e horizontal e integrado com a comunidade em que se contextualiza, ao mesmo tempo interligado a uma rede de caracóis, apoiado em iniciativas igualitárias e em uma proposta de levar ao grupo social do qual faz parte um modelo de convivência alternativo ao que se tem hoje ditado pelo Estado e pelas outras formas de poder vigentes.
Para a fixação de uma sede na ilha, o que viabiliza a integração da comunidade com o caracol enquanto centro social autônomo, há uma arrecadação para a compra de um terreno que sirva como sede para o caracol, e parece que o dinheiro doado até então é suficiente.

O Caracol no dia 31/1/9

Meu primeiro contato com o caracol de Caratateua foi pelo site do CMI. Na verdade, dois amigos, Nabo e João Tragtemberg, me falaram sobre ele ao saberem que eu iria à Belém. Fiquei interessado ao saber da proposta de autogestão e horizontalidade. Infelizmente reservei apenas o último dia de minha estadia na capital do Pará para visitar a casa que está sendo alugada como sede do caracol; um dia não seria suficiente para ajudar os colaboradores que tocavam as atividades no local, quem dirá as poucas horas que passei lá com os companheiros que fiz no ônibus e acampamento, durante a viagem. Saímos da UFRA, onde acampávamos, no dia 31/01 por volta das 9h. Chegamos perto das 11h. Não foi difícil encontrar a rua São Miguel, 160, logradouro do caracol, principalmente com a ajuda de D. Socorro, uma senhora simpatissíssima, moradora do Bairro da Brasília, que conhecemos na lotação que pegamos em Icoaraci, bairro de Bélem. Quando chegamos, encontramos na casa alugada 20 ou mais pessoas e, pelo que conversei com alguns presentes, todos os dias ao longo daquela semana (quando a casa começou a ser usada como centro) manteve-se essa média de pessoas presentes, embora à noite dormissem menos pessoas - por volta de 5. Quando cheguei, havia um grupo fazendo o almoço comunitário - arroz, lentilha e um tipo de farofa - essencialmente vegano, em respeito aos que estavam presentes, e cartazes para divulgação do Encontro Amizade Caratateua. O grupo com quem fui rapidamente integrou-se naquelas atividades e ajudou na compra de alguns alimentos para o almoço.

Encontro da Amizade
O Encontro procedeu da seguinte forma: começou com um multirão para coleta de lixo espalhado na praça Amizade, onde foram realizadas as atividades do Encontro, e na praia da Brasília. Em seguida, foi feita a caminhada e um protesto com a afixação de mensagens e depósito do lixo coletado na sede da Administração Regional, denunciando o descaso com relação à coleta de lixo no local por parte da Prefeitura de Belém. Então foram oferecidas oficinas de respiração e naturologia, inspirado em estudos diversos envolvendo yoga e outras práticas, de compostagem e de construção de instrumentos musicais com materiais coletados da floresta, seguidas da apresentação do Grupo Tucuxi de carimbó (expressão cultural da região). Não participei do Encontro todo, apenas da coleta de lixo, pois voltamos para Belém em torno de 15h30, antes da caminhada e do protesto. De acordo com relatos que venho lendo no site do CMI, muitos dos moradores participaram do evento e aceitaram bem a iniciativa do caracol em promover um evento integrativo, assim como vêm encarando bem sua proposta. Obviamente existe alguns resistentes e oportunistas, mas parece não ser suficiente para desmobilizar ou desacreditar a iniciativa.

Minhas impressões

A sensação que tive no caracol foi de muitas pessoas trabalhando para que ele funcionasse. As pessoas estavam de fato engajadas em colocar a ideia em prática e, em particular, fazendo o possível para o Encontro acontecer da forma mais organizada possível. E, pelo que li, de fato aconteceu. Havia uma preocupação por parte de todos na integração da comunidade com o caracol enquanto centro social, até porque de outra forma tal iniciativa não faria sentido; incorporar as atividades no dia-a-dia das pessoas e fazer com que o caracol funcione de forma orgânica dentro, ou melhor, com a comunidade é o sentido final para tudo isso, visando a prática de um modelo de convivência autogestionário, alternativo ao determinado pelo capital e que acredita-se ser o único possível. Foi consenso que a mobilização se tornou mais intensa devido ao Fórum, assim como havia a preocupação de o inverso ocorrer ao final do mesmo. Isso pode vir a comprometer a permanência das pessoas que estão tocando a construção do caracol e da consolidação do iniciativa na comunidade de Caratateua. Me parece que o número pequeno de pessoas que ficaram na ilha e a distância dos colaboradores, que estão voltando para suas cidades devido ao fim do Fórum, é um fator decisivo para o sucesso ou não do caracol. Por isso já existe uma mobilização para uma caravana que sairá em julho para a ilha, tendo em vista a necessidade de aplicar forças na manutenção do centro.
O que mais me impressionou foi ver, enfim, pessoas comprometidas com um ideal igualitário e sua prática. Lá as coisas estão sendo feitas de verdade e as dificuldades estão sendo transpostas com empenho geral. Pode haver uma série de críticas sobre o que se tenta construir naquele espaço, mas para quem está ou esteve presente no Encontro e ao longo daquela semana não havia críticas suficientemente consistentes ou que dessem motivo para não se tentar colocar em prática um modelo social alternativo e mais justo, ao mesmo tempo sustentável. E a vontade das pessoas de se fazer as coisas acontecerem mexeu demais comigo, e me fez voltar para São Paulo muito disposto a buscar novas práticas que contemplem algumas de minhas vontades antigas, principalmente a de implementar uma autogestão. Percebi que é possível praticar um mundo diferente e muito mais justo do que o que vivencio hoje.

Questões a serem levantadas

Dessa reflexão surge uma série de dúvidas e críticas sobre o funcionamento do caracol e a ideologia por trás da iniciativa. Uma pergunta básica em reação à proposta é se há contradição no uso de dinheiro dentro da iniciativa, tendo-se em vista que ela se propõe como alternativa ao modelo capitalista. Isso não me parece um problema, pois até o funcionamento pleno do caracol há uma fase de transição em que os modelos econômicos vigente e proposto devem se misturar. A ideologia a princípio pode parecer contraditória mas na prática me parece ser a forma real de se construir um caracol em interação com a comunidade. Outra pergunta é sobre onde entra o zapatismo na ideologia. Como já disse, não me parece ser um problema a releitura do caracol zapatista, até porque o próprio caracol é uma transição do que se idealizava pelo EZLN nos aguascalientes na década de noventa, uma evolução da proposta original. O que não foge do contexto é a organização horizontal, autogestionária e livre de exploração do homem e da natureza.
É factível que, quando o caracol estiver integrado com a comunidade em sua plenitude e a autogestão viabilizada, haja problemas do ponto de vista da legislação imposta pelo Estado, por exemplo no que trata da arrecadação de impostos sobre sua produção, dando espaço às sanções legais dentro da concepção de governo vigente. Vale a analogia entre o Estado e um gás, que sempre preenche o espaço vazio deixado pela ausência de outro, o que pode fazer com que o Estado brasileiro tente impedir o avanço da comunidade alimentada pela autogestão, violentando e engolindo essa convivência alternativa. Esse é um problema sério para o qual não tenho uma resposta pronta, e que gostaria de discutir e compartilhar com outras pessoas.
Espero que o texto tenha contribuído com a compreensão da minha impressão do que se passa no caracol de Caratateua e do que está sendo proposto por seus idealizadores. É preciso deixar claro que estive lá por pouco tempo e que o texto, por retratar minha leitura daquela iniciativa, está plenamente aberto à discussão.

Fotos do caracol e da praça Amizade no dia 31/1/9
Encontro Amizade Caratateua em 31/1/9
Reportagem do Diário do Pará sobre o Encontro Amizade Caratateua
Entrevista de 2004 explicando sobre o nascimento e o funcionamento dos caracóis e das Juntas de Bom Governo
Sobre o FSM2009
Economia solidária

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Postado por Tiago Almeida
Hoje um camarada insinuou que a França, assim como os outros países europeus, são mais evoluídos que o Brasil. Isso aconteceu quando ele contava que as pessoas de lá costumam não respeitar filas, furando-as com a maior cara-de-pau - ele achou estranho um país evoluído ter pessoas que se comportam dessa maneira. Como de praxe, me intrometi e disse que talvez isso fosse um sinal de que essa história de países evoluídos talvez fosse uma mentira e essa evolução social não existisse. Ele respondeu que existe sim e como exemplo citou um episódio em que ele, na Europa, se atrasou e não chegou na estação a tempo de embarcar no trem para Paris. Explicou o caso para a moça do guichê, a qual sem rodeios entregou a ele um novo bilhete para o trem do horário seguinte - não bastasse, ainda devolveu 25 euros referente à diferença entre os dois horários.
Isso é evolução? A cordialidade ou domesticação de um serviço (público?) implica que TODAS as civilizações deverão no fim dos tempos ter passado por tudo o que a Europa sofreu na história? Todos os países, inclusive Japão, Indonésia, Argélia, Austrália, deverão passar pela Inquisição da Igreja Católica para que seus cidadãos sejam tão educados quanto os franceses?
Vou tentar fazer meus vínculos entre o sucesso evolutivo da Europa e o fracasso brasileiro. Para começar, pensemos em nosso país, onde a criminalidade é alta: é um país atrasado? Há quanto tempo estamos de atingir o estágio evolutivo da Inglaterra? Onde será que erramos? Talvez na proclamação da república, quando abrimos mão de um rei, uma imagem folclórica da qual os ingleses se orgulham de ter como chefe de estado. Talvez em um Brasil monárquico os criminosos daqui pudessem ter mais respeito aos bens materiais de seus irmãos de solo. E a Índia? É uma pena ser um país tão atrasado que, apesar de ter sido uma colônia inglesa, nunca atingirá o estágio evolutivo do povo estadunidense - e demorará para alcançar o fantástico número de assassinatos por armas de fogo registrado nos EUA.
Acreditar que o evolucionismo de Darwin pode explicar como as sociedades se modificam no tempo é puro positivismo: não há razão alguma para acreditar que haja uma "seleção natural" das sociedades. Lembram do exemplo do rapaz do censo populacional, que após passar por três casas seguidas onde moravam em cada uma delas um John Williams concluiu que em todas as casas seguintes ele encontraria outros John Williams? Não há pressupostos para que a bela teoria darwiniana, que explica em toda sua glória como os seres vivos evoluem, se ajuste a todos os tipos de eventos em nosso planeta, quiçá nem mesmo do Universo! Sem exagerar, é mais fácil levar em conta o desenvolvimento de cada uma das sociedades, das menos tecnológicas às mais socialmente justas, como resultado de uma escolha dentre um amplo espectro de caminhos a serem tomados, de forma que nenhuma das opções escolhidas por cada sociedade deve ser mais importante do que as outras. Não é justo dizer que as populações indígenas sejam primitivas e que fizeram a escolha errada. Simplesmente optaram (talvez de forma inconsciente) por não sofrerem da desgraça das grandes civilizações, como genocídios, pestes, exploração do trabalho, dentre tantas outras mazelas inerentes a países com grandes populações. Achar que os índios deveriam ter desenvolvido um Estado é mero eurocentrismo.
É certo que em se tratando de tecnologia temos muito que aprender com a Europa. Até posso estar enganado, mas o nazismo, o facismo e a intolerância racial fazem parte do mundo europeu, não fazem? Ou um Darwin sociólogo não levaria essas características em conta em sua teoria de evolução?
Até quando vamos reproduzir esse discurso preconceituoso e antiquado dos evolucionistas do século XIX?

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