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novembro 17, 2010

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Postado por Yuna Ribeiro

Na medida em que uma sociedade perde o sentido da fraternidade, ela se restringe a um projeto pragmático de adaptação ao status quo do consumo pelo consumo, do crescimento econômico pelo crescimento, do progresso pelo progresso. Sociedade sem amizade e sem compaixão, como escreveu em outro contexto Espinosa no século XVII, "não merece o nome de cidade mas o de solidão".

 

Trechos do livro Contemporaneidades de Olgária Matos, 2009.

 

Lendo o ensaio "O mal-estar na contemporaneidade: performance e tempo" de Olgária Matos me deparei com uma realidade gritante encontrada nas repartições administrativas da USP, e quiçá, nas salas de aula.

 

A ilusão de que o mundo do mercado e da concorrência está distante da Universidade não existe mais, assim como da educação. O que predomina é a aceleração do presente, o presenteísmo, com "um encolhimento do espaço de experiências na vida social e de liberdade, liberdade de acesso ao passado e ao futuro como construção de uma subjetividade democrática", deixando de existir a "educação para a liberdade" que é substituída pela "educação para a adaptação".

 

Assim como existem marginalizados dentro da USP e estes, agora, são institucionalizados, pois têm o direito a existir, porque todos, ricos e pobres, são igualmente protegidos pela Lei, como exemplo as "cotas compensatórias que substituem o enfrentamento da exclusão econômica e cultural da maioria, quando deveriam ser apenas transitórias", entre outros.

 

Substituem sim, porque no Mercado tudo é julgado e valorizado por seu custo, os visitantes da favela São Remo ao campus tem um custo para a Universidade, que no caso deve ser tão pequeno quanto à atenção que esta despende a essa entidade teatralmente invisível, assim como os alunos, os funcionários e professores, prestes a se aposentar ou não, todos tem o seu custo.

 

Segundo Kant "todas as coisas que podem ser comparadas podem ser trocadas e têm um preço; aquelas que não podem ser comparadas não podem ser trocadas e não têm preço, mas dignidade". De maneira que podemos entender porque o sentimento de dignidade e valorização do humano nas organizações, nas discussões políticas, na Universidade e na Cidade-Solidão está cada vez mais escasso.

 

Outra colocação interessante é sobre o Espaço Público que, segundo a autora, tem sua concepção na política do Iluminismo Filosófico e é o espaço comum a todos e não propriedade de poucos, e acessível a todos e não privilégio de alguns. Com isso me pergunto, não será o uso do espaço público na USP um reflexo de sua estrutura hierárquica, segmentada e insocial.

 

Mercantilista?

mercantilismo

mer.can.ti.lis.mo

sm (mercantil+ismo) 1 Tendência para subordinar tudo ao comércio, ao ganho, ao interesse. 2 Predomínio do interesse ou do espírito mercantil. 3 Econ polít Doutrina consolidada no século XVIII, segundo a qual a riqueza e o poder de um país consistiam na posse de metais preciosos.

 

 

"A determinação de todas as esferas da vida pelas leis do mercado, dissolvem a separação entre o público e o privado, transformam o espaço público em imagem pública e o cidadão em cidadão-consumidor", dissolvem também os valores "uma vez que valores dependem de um espaço comum de experiências compartilhadas". Ficando cada vez mais distante e menos sonhada uma vivência compartilhada, saudável e sustentável.

 

"Uma cidade feliz, ao contrário, é aquela que assegura o máximo de sobrevivência, segurança, justiça, liberdade e amizade para o conjunto dos cidadãos. O espaço público é o que é comum a todos e acessível a todos."

 

Relações Humanas, de Trabalho e de Mercado

 

“A cultura do ódio promove a eliminação em lugar da cooperação [...] Trata-se de um ambiente de trabalho policiado por uma administração que dá conselhos, mas conselhos sem experiência e sem ligação nenhuma com a história do próprio trabalhador”.

 

“Segundo a fórmula de Benjamin Franklin, para quem ‘tempo é dinheiro’. Se tempo é dinheiro, ele não é busca de sentido e subjetividade”.

 

"A desagregação do sentido da vida em comum arrisca subsumir o homem nessa alienação particular que Hannah Arendt nomeava 'acosmismo', o sentir-se estranho no mundo, o sentimento do não pertencimento, o de ser supérfluo."

 

subsumir

sub.su.mir

(sub+lat sumere) vtd Filos Segundo a doutrina de Kant, considerar um indivíduo como compreendido numa espécie, um fato como sendo a aplicação de uma lei, uma idéia como dependente de uma idéia geral etc.

 

acosmismo

a.cos.mis.mo

sm (a4+cosmo2+ismo) Filos Doutrina que nega a existência do mundo real e sensível.

 

"No capitalismo de produção, o homem só se sentia em casa quando fora do trabalho e quando no trabalho, estava fora de si. Na sociedade do consumo, quando o homem está fora do trabalho, tampouco encontra-se junto a si - o que resulta em uma lógica do desengajamento em relação a um mundo compartilhado e com respeito também a si mesmo, com a dificuldade de criação de laços duradouros, com a obsolescência de valores como respeito, solidariedade, responsabilidade e fidelidade. O eu procura eliminar todos os laços e sentimentos, reduzidos, agora, a valor de troca, e o mercado conduz ao consumo permanente, induzindo à pressa, constrangendo à rapidez e a aceleração, acentuando a superficialidade nos vínculos (na medida em que os sentimentos exigem a duração para desenvolverem-se), produzindo a 'pobreza interior'."

 

"A concorrência pode ser que melhore as mercadorias mas certamente piora os homens”.

 

"como os funcionários têm o sentimento de não controlar seu ambiente de trabalho e seu futuro. A ameaça consiste em não mais se saber em que critérios se baseiam sanções e recompensas. O êxito ou o fracasso não sendo mais objetiváveis a partir de elementos concretos, a incerteza domina o medo de ser censurado e de ser visado [...] O contexto suscita uma pressão contínua, um sentimento de jamais fazer o suficiente, uma angustia de não se estar à altura"

 

Trechos de Olgária Matos.

Significado das palavras tirado do dicionário online Michaelis.

Palavras-chave: 2010 GT4-Uso social, contemporaneidade, espaço público, espaço USP, esvaziamento da experiência, mercado, sociedade do consumo, Universidade

Postado por Yuna Ribeiro

Comentários

  1. escreveu:

    Muito bom...

    default user icon ‒ quarta, 17 novembro 2010, 17:45 BRST # Link |

  2. Pedro Henrique Grellet Cordeiro Laviano escreveu:

    Muito, muito bom

    Pedro Henrique Grellet Cordeiro LavianoPedro Henrique Grellet Cordeiro Laviano ‒ quarta, 17 novembro 2010, 18:25 BRST # Link |

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