(esqueceu?)

Stoa :: Alexandre Simionato Bueno :: Blog

Janeiro 24, 2009

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Embora ignorada pelos analistas, a categoria trabalho exerce um papel central na crise atual

Crise, crise e mais crise. Desde setembro assistimos às mais diversas explicações o que está havendo no sistema financeiro global. Mas afinal, as análises estão indo direto ao ponto?

Para entender melhor a crise precisamos voltar aos primórdios. Retornar aos tempos onde Henry Ford , Rockfeller e Willy Wonka mandavam alguma coisa. Analisar como o legado transformador e “edificante” do trabalho perdeu-se no tempo.

Nenhuma crise é igual à outra, cada uma tem suas razão, momento, atores, enredo, vítimas e vencedores, mas na crise atual existe um DNA, um grau de ancestralidade com mudanças profundas na organização da vida e do sistema produtivo. E onde podemos ler tal peculiaridade na crise? Simples: na organização do trabalho.

Mas...o trabalho?! Sim, o trabalho. Lembremos amigos. O trabalho é atividade que possibilitou aos seres humanos se tornarem mais humanos do que seres. No trabalho estão expressas as equações vitais de transformação da natureza e adaptação do homem aos ambientes hostis, às bruscas mudanças climáticas, à limitação de alimento, às doenças e até à degenerescência da arcada dentária.

Trabalho é transformação - e trabalho no sistema capitalista pós revolução industrial é trabalho elevado à enésima, ou seja, é produtividade, integração, velocidade e produção em massa. Mas o tempo passou, e o homem  pós revolução industrial foi enjoando do binômio trabalho-produção. Esse binômio que multiplicou a expectativa de vida das pessoas nos deu edifícios altos, energia abundante, nos trouxe a vida nas cidades e disseminou livros, discos e dicionários.

Aos poucos, o fator trabalho foi sumindo do sistema produtor de mercadorias. A divisão social do trabalho atingiu tal nível de sofisticação que o trabalho em si virou “operação” e pode ser descartado, mandado para longe, bem longe, lá no Oriente, terra prometida com bilhões de pessoas disciplinadas o suficiente e alienadas de meios de produção o bastante para se submeterem a longas jornadas de trabalho, baixos salários e por aí vai.

Contudo, a separação da fábrica e do consumo nos mostra agora sua face malígna. E por que? Porque pessoas desprovidadas de trabalho não podem consumir, é preciso alavancar financeiramente o ser humano. Incrementar sua relação com os produtos alquímicos dos bancos entupi-las de crédito. E com crédido fácil e mercadorias abundantes, abre-se espaço para a menina dos olhos deste novo sistema capitalista: a prestação de serviços, os shopping centers e outros deuses dessa complexa religião chamada consumo.

Mas afinal, o que produzem os “prestadores de serviços”? Bem, os melhores produzem “intangíveis” ou seja, algo que não se toca e não tem cheiro. Os bons vendedores de hoje, comercializam sensações. E, na verdade, grande parte da papelada emitida no mundo, agora considerada tóxica, possui justamente esta peculiaridade, serem ativos que alguém comprou sem saber bem o que era e que era lastreado por um outro ativo cujo nome pomposo e a possibilidade de um bom retorno financeiro.

Pergunto: é errado fazer isso? Bem, do ponto de vista meramente criminal vender  que não se possui é estelionato, mas neste mega sistema também existem alguns – poucos – benefícios como fluxo de recursos aportados em pesquisas farmacêuticas, internet farta e que facilita a disseminação dos valores democráticos e da livre opinião, além de outras vantagens. Contudo hoje para cada dólar oriundo de um ativo produtivo, existem nove aplicados em ativos intangíveis.

 A conclusão que eu chego não é muito alentadora. De fato teremos uma seca de recursos financeiros nos próximos anos e gente e máquinas demais para produzir de menos. E o que fazer então? “Refundar” o trabalho seria a solução, mas fazê-lo em que bases e em qual direção? Não se sabe ainda.

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Janeiro 13, 2009

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Antes de trucar a renovação da frota dos ônibus em São Paulo, Kassab deveria refletir melhor sobre a questão.

Bom, inicio esse texto já desqualificando-o. Não sei afirmar com certeza qual é o tamanho do subsídio do transporte em São Paulo. Também não tenho a menor idéia se ele equivale ao montante liberado em outras grande capitais da Europa, como Londres, Paris e Berlin. O que posso afirmar é que somos a única na lista que não possui uma malha de metro condizente com o tamanho da cidade, tampouco uma integração inteligente dos meios de transporte. O fato é que o Bilhete Único veio, viu e venceu e de resto nenhuma grande revolução no transporte público na cidade de São Paulo foi feita neste sentido. A não ser a integração entre o bilhete único e o metrô, mas para quem conhece os pacotes oferecidos pelas "SPTrans" mundo afora, chega a ser risível.

Hoje, escutando a rádio Joven Pan fui informado que o prefeito Kassab cortará a renovação da frota de ônibus em São Paulo, reduzindo a compra dos mesmos para apenas 170 unidades. A alegação é que a prefeitura não quer subir o preço das passagens (proposta demagógica de campanha, diga-se), tampouco aumentar o subsídio já conferido às empresas que operam o sistena. Direto ao ponto: foi a medida mais idiota adotada desde o início da crise. E por que?

Bom, ônibus novos poluem menos, têm rendimento superior e, dependendo da quantidade de unidades articuladas e bi articuladas, podem dar mais conforto aos usuários e retirar alguns carros da rua. Ajuda bastante no sentido de não complicar mais o transito em São Paulo e confere um conforto a mais às pessoas que já pagam R$2,30 na catraca mais subsídios.

Outra questão que me chamou a atenção nesta "brilhante" decisão, foi a completa falta de visâo de estado de nosso prefeito. Na ânsia de agradar a classe média, compradora da idéia de que o governo deveria evaporar - mesmo depois de tudo que tem ocorrido no mundo - Kassab não exitou em fazer uma demagogia para mostrar austeridade. Mas para mim, austeridade seria abrir a planilha das empresas, tornar públicos os dados e tentar aumentar a eficiência do sistema via redução de custos de O&M e outros, afinal de contas ele é azeitado com dinheiro público. Se não houvesse tal possibilidade, ele poderia mexer por dois ou tres anos na na rentabilidade das empresas obrigando-as a analisar os custos gerenciáveis e otimizá-los.

Kassab ainda poderia encomendar um estudo à SPTrans analisando o montante de investimentos e bater em duas portas: A do BNDES afim de obter uma linha de financiamento (lembremos que com o advento do bilhete único, o caixa do setor de transportes ficou mais previsível, o que facilitaria a obtenção de uma linha de financiamento com menor custo financeiro).

Além disso, poderia chamar os fabricantes de ônibus e negociar bons descontos na aquisição dos veículos. Lembrem-se que VW, Mercedes e outras montadoras estão salivando por conta da queda das vendas e seguramente reduziriam seus preços.

Para concluir, se tais medidas fossem ao menos pensadas iriam manter o mercado automobilístico aquecido com suas fábricas de automóveis, fornecedores de matérias primas e toda cadeia produtiva, além de assegurar um bom punhado de empregos "salvos."

Se Lula é populista com "os de baixo", Kassab consegue ser populista com "os do meio". Essa doutrina dominou a economia brasileira por um bom número de anos e, pelos números do PIB e de desempregados, sabe-se bem no que ela deu. Estou indignado!

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Janeiro 08, 2009

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Abobrinhas ideológicas e cobertura falha da mídia nos impedem de fazer as perguntas relevantes sobre o conflito no Oriente Médio

Não sou judeu, não sou PTista e tampouco Palestino. Existem em mim apenas três estados permanentes, a saber: sou paulistano (por determinismo geográfico), sou são paulino e sou historiador. As outras coisas de minha vida ficam mais coerentes utilizando-se o verbo "estar". Portanto, estou solteiro, estou trabalhando em uma empresa de energia e estou me metendo a besta de escrever no blog da USP.

Pois bem, escrevi essa ladainha toda aí em cima para dizer que não tenho preferências no duelo travado na faixa de Gaza entre Israelenses e Palestinos. Até porque considero os extremos de ambos bastante parecidos.

Além disso tendo visitado, inclusive, alguns Campos de Concentração, reconheço que a dor inflingida aos judeus foi muito grande; e mais, tenho três amigos judeus que são pessoas muito humanas, inteligentes, de excelente berço e caráter, portanto, não sou anti-semita, pelo contrário. O meu grande amigo Guilherme Susteras quando ainda habitava Terra Brasilis sempre trazia uns bolinhos de mel deliciosos na comemoração do ano novo judaico.

Mas alto lá! Também nada contra os árabes e muçulmanos com sua cultura rica, sua arquitetura espetacular e sua visão de muito peculiar. Infelizmente não conheço pessoalmente nenhum muçulmano mas eles não me incomodam, em absoluto.

Agora o que enche o saco mesmo é a cobertura da guerra pela mídia tupiniquim e os "comentários" de jornalistas e leitores. O festival de abobrinhas é grande e, como de hábito, tudo virou uma imensa batalha entre PT e PSDB. Os de lá dizendo que Israel é ligada umbilicalmente aos EUA e os de cá afirmando que a esquerda é boa em condenar Israel mas tolera o Fidel.

Hoje foi um tal de nota de lá, nota de cá, nota do PT, nota anti-PT e isso é uma pena, pois estamos perdendo a oportunidade de analisar melhor os fatos. As grandes questôes que ficam deste conflito para mim são:

  1. A ONU ainda tem representatividade?
  2. Obama será capaz de domar o Oriente Médio?
  3. Israel conseguirá eliminar o Hammas ou criará mais radicais no médio prazo?

Ah, a primeira é fácil e a resposta é amarga. Não. G.W. Bush desmoralizou a ONU em 2003 ao invadir o Iraque passando por cima do Òrgão.Creio que as bombas que caíram na escola ontem foram a pá de cal na representatividade da ONU.

Claro que ela continuará a existir, mas tende a ter uma papel cada vez mais secundário, eu diria, muito mais assistencialista do que mediador de conflitos doravante.

Com relação a Obama, taí um cara que pode cair como Nixon ou virar um novo Franklin Delano Roosevelt, pois tem tudo contra: a economia dos EUA em frangalhos, a hegemonia economica americana bastante questionada, a América do Sul, aliada de primeira hora, buscando espaço próprio.

E, para melhorar, o Oriente Médio onde a conjuntura é a seguinte: com a queda de Saddam Hussein o equilíbrio da região derreteu, pois o regime Iraquiano fazia um contraponto político, ideológico e bélico ao Irã. Portanto, ao derrubar Saddam, os EUA deram a hegemonia da região de graça para o Irã que, sem dar um tiro, é hoje é o país mais influente do Oriente Médio.

Neste quadro Obama precisará negociar com um Irã por default anti-americano, com Israel querendo demonstrar força para não ser devorado pelos vizinhos e com os outros países árabes que estão relações fragilizadas com Israel por conta dos acontecimentos da última semana.

Portanto, o espaço pra ele negociar e colocar ordem an casa é menor do que a taxa de juro americana. 

Com relação à terceira pergunta, a resposta também é não. Israel criou mais uma ou duas gerações de terroristas que atacarão seu território por algumas décadas, infelizmente.

Um cara que tem publicado bons artigos da mídia internacional (traduzidos) é o Luiz Carlos Azenha. Da mídia Bruzundanga eu desisti faz um tempinho.

Segue o link:

http://www.viomundo.com.br/

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Janeiro 04, 2009

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Análises do pré-sal indicam o despreparo das pessoas para tratar de temas tidos como estratégicos

Tirei o feriadão para colocar algumas leituras em dia e me atualizar sobre assuntos que julgo relevantes, dentre os quais a camada pré-sal. Para mim, este é tema mais fascinante do momento, dado que o petróleo é a commodity mais valiosa da face da Terra, ou de suas profundezas, e influencia toda geopolítica atual. A lei do menor esforço faz com que os homens movam-se em direção ao domínio de matérias-primas que garantam seu conforto e, por serem recursos escassos e finitos, tais matérias-primas são disputadas palmo a palmo pelas potências mundiais.

É fato que potências como a Rússia só podem se afirmar para o mundo, pois detém grandes reservas, assim como países como a Noruega tornaram-se lugares com ótimos IDHs  graças ao petróleo. Portanto, não é necessária uma grande pirueta intelectual para provar a importância do óleo nos países que detém reservas.

Mas nas minhas pesquisas sobre o assunto tenho me deparado com alguns textos curiosos, para não dizer outra coisa. E entre as bizarrias com as quais me deparei, o texto de Diogo Mainardi sobre o assunto, publicado na Veja, surpreende e não só pela ignorância absoluta sobre o assunto específico, mas também pela ausencia no autor de ferramentas mínimas para analisar qualquer coisa com relação a economia, política, estratégia e nação.

Vamos às palavras de Mainardi:

“[...] Contrariando o apelo de Robert M. Sanford, desprezamos a possibilidade de eleger um macaco. Em vez disso, o presidente da República é Lula. Ele está numa plataforma da Petrobras, no campo de Jubarte, no litoral do Espírito Santo. A tese de Walter Link e de seu supervisor de Sub-Superfície acabou se confirmando: nosso petróleo está localizado no mar. No caso, no pré-sal. O jingoísmo petrolífero, seis décadas depois de ser empunhado pelo caudilhismo getulista, ainda rende votos. Lula esfrega óleo no macacão – mais um macaco nessa história – e, em meio à promessa de usar o dinheiro do pré-sal no combate à pobreza, declara orgulhoso: "Eu tenho tanta sorte que acho que Deus passou por aqui e resolveu ficar. Porque a sorte aumenta a cada dia".Deus, cinco dias mais tarde, mudou repentinamente de idéia. Fannie Mae e Freddie Mac, as duas paraestatais imobiliárias dos Estados Unidos, foram para o beleléu, dando a largada ao processo de derretimento da economia mundial. O pré-sal, de uma hora para a outra, transformou-se no engodo do ano.

O que o texto acima nos leva a concluir? Que o presidente do Brasil, assemelhado pelo autor a um macaco, ou algo similar, fez demagogia com relação ao petróleo e agora, com o derretimento global,  o pré-sal tornou-se um engodo, ou torno-se inviável. Vamos aos fatos: o petróleo é uma dádiva da natureza.  O problema é que Lula, com toda sua simplicidade, ou falta de sofisticação, está correto. É muita sorte o país, além de tudo, encontrar tais reservas.

Mas as abobrinhas seguem torturando os pobres Tico e Teco que habitam minha mente. Lá pelas tantas informa o colunista:

O barril de petróleo já está em 45 dólares, e continuando a cair. No mesmo período, Lula declarou que o Brasil ingressaria na Opep, e que o presidente poderia usar "aquele pano na cabeça, como se fosse um xeique". A Opep acaba de cortar 8% de sua produção, porque há petróleo em demasia no mundo.”

Ora, com todo respeito, até um chimpanzé sabe que: petróleo é petróleo e que sempre vale a pena ter reservas e explorá-lo. Por outro lado, ninguém toma a decisão de investir 500 bilhões de dólares tomando por base uma série de preços tão curta, ainda mais contaminada pela maior crise da história do capitalismo. Além disso, tais séries de preços farão a Petrobras, ou qualquer outra empresa, fixar uma premissa e modelar os investimentos de acordo com a geração de caixa prevista. 

Modelos de financiamento desse tipo de projeto são amplamente conhecidos e seu esquema básico é tão simples que até um aluno de 8ª série pode entender: A empresa entra com 25% ou 30% de capital próprio nos primeiros anos do projeto obtendo o financiamento dos outros 70%-75% até a conclusão das obras. A empresa inicia o pagamento do financiamento assim que o petróleo começar a jorrar e gerar caixa. Mas a ignorância – ou má vontade – do colunista é representa um apagão intelectual que não vem exatamente da camada mais pobre da população.

Hoje, o interesse de atingir o presidente está acima dos projetos, dos partidos e das idéias. Está acima também da própria economia ou do futuro do país. O pré-sal é o fato mais importante da história econômica do país desde a decisão de Vargas de construir a CSN, na década de 40.

Não sou nenhum fã incondicional do nosso presidente. Se fosse inquirido em algumas das pesquisas que avaliam sua popularidade ou a qualidade de seu mandato, diria que ele tem sido “regular”. Um governo surpreendente para um homem simples que se comunica por metáforas e decepcionante no que tange a projetos de longo-prazo para o país e também com relação à ética e combate à corrupção.

O fato é que se queremos construir um país com bons indicadores sociais e econômicos precisamos de uma elite forte. Precisamos de intelectuais, economistas, engenheiros, historiadores, psicólogos, jornalistas, com boa visão de mundo e capazes de produzir massa crítica e não bravatas irônicas jogadas ao vento.

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Janeiro 01, 2009

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A tendência das elites americanas é considerar a nação mais poderosa do mundo em declínio

A hegemonia norte-americana está em declínio? Os grandes desafios da regulação financeira, do clima, do tráfico de drogas e do terrorismo são de natureza global e exigem a construção de amplos consensos e parcerias.No entanto esses caminhos estão severamente limitados pela perda de capacidade regulatória da grande potência mundial e das instituições internacionais.

A crise atual tem muito a ver com o mundo vivendo acima dos seus meios. A era da abundância em recursos naturais já havia terminado. Mais alguns passos errados e a degradação ecológica será irreversível.Como conseguir uma mudança radical no modelo de produção, com a redução do consumismo desenfreado e do sucateamento, se os grandes atores econômicos têm total liberdade de definir seus vetores tecnológicos?Alguém acredita que o próprio mercado se auto-regulará? O colapso do sistema financeiro pode gerar uma nova era de controle do lado perverso do capitalismo global?

A questão é que ele odeia regulações, maximiza seus lucros operando nas faixas cinzentas e adora socializar prejuízos.De fato, o mundo não pode prescindir das virtudes hegemônicas de sua maior potência. A maior delas é favorecer a governabilidade internacional mediando crises e confrontos e possibilitando gestos simbólicos em direção às nações mais precárias -o oposto do que George W. Bush fez. Se os EUA não assumirem um papel sólido e confiável de referência sistêmica da força e da lei, condizente com o seu próprio poder, teremos grandes probabilidades de um século marcado por dores e retrocesso.

Tolerância é um atributo essencial ao exercício da soberania. Na doutrina Bush, tolerância era a permissão para "continuar vivendo desde que se obedeçam nossas regras". Mas o exercício da paz exige a aceitação da alteridade, incluindo as minorias e os diferentes. As necessárias alterações de estruturas e equilíbrios de poder irão exigir muito de Obama, tido como analista frio e construtor de consensos. Ascensão e queda A tendência das elites americanas é considerar a mais poderosa nação do mundo em declínio. General Brent Scowcroft [assessor de segurança dos presidentes Gerald Ford e George Herbert Walker Bush, pai do atual presidente dos EUA]: "O exercício do nosso poder nos revelou que ele é efêmero".Fareed Zakaria [analista de política internacional]: "Os anos Bush foram o apogeu do poder americano". E Richard Haass [presidente do Conselho de Relações Exteriores, nos EUA] : "O momento unipolar dos EUA se foi."

No entanto, gostemos ou não, teremos que continuar vivendo com a hegemonia norte-americana. Salvo crise político-social de grandes proporções na China, a estagnação dos próximos anos trará definitivamente uma mudança de patamar no seu poder. Mas nada para ameaçar a posição dos EUA.Com a China crescendo a 6%, Europa e Japão estagnados e americanos a passo de cágado, em cinco anos os chineses terão um PIB de quase US$ 5 trilhões, ultrapassando largamente a França, a Inglaterra e a Alemanha e igualando-se ao Japão, transformando-se na segunda maior economia do mundo.Só que os EUA estarão com US$ 15 trilhões, três vezes mais do que a China!

Do "voamos mais alto e sabemos o que é melhor para o mundo", de Madeleine Albright [secretária de Estado na era Clinton], ao "quem não está conosco, está contra nós", do fundamentalista Donald Rumsfeld [secretário de Estado nos tempos de George W. Bush], houve uma escalada imensa da hegemonia em direção a uma quase tirania.O que agora o mundo espera como frase emblemática de Hillary Clinton é "Os EUA precisam de sócios". Precisamos cobrar daquele país o exercício de uma hegemonia que leve a consensos multipolares, aliviando tensões mundiais e gerando condições de governabilidade sistêmicas.Assim Obama poderá ter boa parte do mundo como sócia.

GILBERTO DUPAS é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP e autor de "O Mito do Progresso" (ed. Unesp).
Fonte: Folha de São Paulo 27/12/2008


 

 

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