Embora ignorada pelos analistas, a categoria trabalho exerce um papel central na crise atual
Crise, crise e mais crise. Desde setembro assistimos às mais diversas explicações o que está havendo no sistema financeiro global. Mas afinal, as análises estão indo direto ao ponto?
Para entender melhor a crise precisamos voltar aos primórdios. Retornar aos tempos onde Henry Ford , Rockfeller e Willy Wonka mandavam alguma coisa. Analisar como o legado transformador e “edificante” do trabalho perdeu-se no tempo.
Nenhuma crise é igual à outra, cada uma tem suas razão, momento, atores, enredo, vítimas e vencedores, mas na crise atual existe um DNA, um grau de ancestralidade com mudanças profundas na organização da vida e do sistema produtivo. E onde podemos ler tal peculiaridade na crise? Simples: na organização do trabalho.
Mas...o trabalho?! Sim, o trabalho. Lembremos amigos. O trabalho é atividade que possibilitou aos seres humanos se tornarem mais humanos do que seres. No trabalho estão expressas as equações vitais de transformação da natureza e adaptação do homem aos ambientes hostis, às bruscas mudanças climáticas, à limitação de alimento, às doenças e até à degenerescência da arcada dentária.
Trabalho é transformação - e trabalho no sistema capitalista pós revolução industrial é trabalho elevado à enésima, ou seja, é produtividade, integração, velocidade e produção em massa. Mas o tempo passou, e o homem pós revolução industrial foi enjoando do binômio trabalho-produção. Esse binômio que multiplicou a expectativa de vida das pessoas nos deu edifícios altos, energia abundante, nos trouxe a vida nas cidades e disseminou livros, discos e dicionários.
Aos poucos, o fator trabalho foi sumindo do sistema produtor de mercadorias. A divisão social do trabalho atingiu tal nível de sofisticação que o trabalho em si virou “operação” e pode ser descartado, mandado para longe, bem longe, lá no Oriente, terra prometida com bilhões de pessoas disciplinadas o suficiente e alienadas de meios de produção o bastante para se submeterem a longas jornadas de trabalho, baixos salários e por aí vai.
Contudo, a separação da fábrica e do consumo nos mostra agora sua face malígna. E por que? Porque pessoas desprovidadas de trabalho não podem consumir, é preciso alavancar financeiramente o ser humano. Incrementar sua relação com os produtos alquímicos dos bancos entupi-las de crédito. E com crédido fácil e mercadorias abundantes, abre-se espaço para a menina dos olhos deste novo sistema capitalista: a prestação de serviços, os shopping centers e outros deuses dessa complexa religião chamada consumo.
Mas afinal, o que produzem os “prestadores de serviços”? Bem, os melhores produzem “intangíveis” ou seja, algo que não se toca e não tem cheiro. Os bons vendedores de hoje, comercializam sensações. E, na verdade, grande parte da papelada emitida no mundo, agora considerada tóxica, possui justamente esta peculiaridade, serem ativos que alguém comprou sem saber bem o que era e que era lastreado por um outro ativo cujo nome pomposo e a possibilidade de um bom retorno financeiro.
Pergunto: é errado fazer isso? Bem, do ponto de vista meramente criminal vender que não se possui é estelionato, mas neste mega sistema também existem alguns – poucos – benefícios como fluxo de recursos aportados em pesquisas farmacêuticas, internet farta e que facilita a disseminação dos valores democráticos e da livre opinião, além de outras vantagens. Contudo hoje para cada dólar oriundo de um ativo produtivo, existem nove aplicados em ativos intangíveis.
A conclusão que eu chego não é muito alentadora. De fato teremos uma seca de recursos financeiros nos próximos anos e gente e máquinas demais para produzir de menos. E o que fazer então? “Refundar” o trabalho seria a solução, mas fazê-lo em que bases e em qual direção? Não se sabe ainda.
Palavras-chave: capitalismo, crise financeira, subprime, trabalho
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