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Junho 30, 2011

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Cristiano Romero | De Brasília - Valor Econômico

30/06/2011

A presidente Dilma Rousseff foi informada previamente da operação de fusão do Pão de Açúcar com o grupo francês Carrefour. Segundo uma fonte do Palácio do Planalto, a presidente pediu "cautela", mas não se opôs ao envolvimento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no negócio. Na prática, deu autonomia ao banco para analisar e participar da operação.

O BNDES se dispôs a entrar com € 2 bilhões (cerca de R$ 4,5 bilhões) na fusão, mas o governo avalia que esse valor pode diminuir, em função do interesse de outros investidores. Como o mercado reagiu bem ao anúncio do negócio, por entender, segundo análise oficial, o potencial de criação de valor, é possível que investidores queiram adquirir uma fatia, diminuindo a necessidade de aporte do banco estatal no fechamento da operação.

O BNDES vai participar da fusão por meio do BNDESPar, seu braço de participações acionárias. Desta forma, explica uma fonte, não haverá empréstimo subsidiado do governo. O BNDESPar responde hoje por 20% do ativo total do BNDES e por algo entre 50% e 60% do lucro do banco. Entrará na fusão como investidor, em condições de mercado.

O governo compara a união das duas redes de supermercado com a que resultou na criação da Inbev, o maior fabricantes de cervejas do mundo. Na fusão da brasileira Ambev com a belga Interbrew, em 2004, a gestão da multinacional passou a ser feita por executivos brasileiros. Segundo informações que chegaram ao Palácio do Planalto, o mesmo ocorrerá na fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour.

No negócio, o controle da operação brasileira continuará nas mãos do Pão de Açúcar, enquanto a participação deste no Carrefour, lá fora, será minoritária. Apesar disso, foi dito ao governo que a tecnologia de gestão de supermercado da operação global do grupo francês será, a partir de agora, brasileira. Este é um aspecto que, se confirmado pela associação, favorece a disposição do governo em apoiar a fusão.

O Carrefour foi um grupo inovador no passado. Depois que começou a ser controlado por fundos de participações acionárias ("private equity", no jargão em inglês), passou a gerar "resultados medíocres", segundo palavras de uma fonte do governo. A associação com o Pão de Açúcar, explica uma fonte oficial, cria oportunidade de melhorar a gestão do grupo francês e, assim, gerar bons retornos, por isso, o mercado teria reagido tão bem ao anúncio da fusão.

O governo avalia que o grau de concentração resultante da fusão - estimado em 32,2% - é normal. Nos Estados Unidos, o Walmart também detém 32% do mercado e, na França, o Carrefour tem 26%. Numa avaliação preliminar, não haveria superposição de lojas, mas complementaridade.

O governo acredita que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) deverá aprovar a operação, mas pode obrigar os dois grupos a se desfazer de alguns supermercados. Não haverá fechamento de lojas, mas alienação a outros atores. "Se decidir determinar algum desinvestimento, o Cade vai mandar vender lojas. Fechar não faz sentido", explicou uma fonte.

Por isso, em Brasília, não se acredita na hipótese de a fusão provocar destruição de empregos. "Demissões só ocorrerão no nível das diretorias", brincou uma fonte familiarizada com o negócio. "Não tem emprego em jogo."

A concentração no varejo, na avaliação oficial, não é necessariamente ruim. A avaliação é a de que o comércio varejista foi grande aliado do governo no processo de estabilização da economia deflagrado pelo Plano Real, em 1994. Os supermercados aprenderam que a inflação corrói a renda, obrigando-os a trabalhar com produtos mais populares e, portanto, com margem menor de lucro. Com a estabilização, tiveram ganhos de escala e passaram a trabalhar com produtos cada vez mais sofisticados e com margens maiores.

O governo também não vê com preocupação a possibilidade de a concentração no varejo dificultar a vida de fornecedores. Grandes supermercados têm, segundo avaliação oficial, mais força para negociar preços com a indústria. "É bom lembrar que, do lado da indústria, há oligopólios poderosos, como o dos produtos de higiene e limpeza", observou uma fonte.

A reação do Casino, sócio francês do Pão de Açúcar, contra a fusão surpreendeu integrantes do governo, que a consideraram "muito agressiva". Uma fonte oficial informou que o Casino, que teria o direito de assumir o controle acionário do Pão de Açúcar graças a acordo assinado em 2005, tem, em algumas condições, poder de veto dentro do grupo brasileiro.


Esse acordo não proíbe a prospecção de novos negócios por parte dos dois sócios. Um assessor graduado do governo lembra que, quando o Pão de Açúcar anunciou o interesse em comprar as redes varejistas Casas Bahia e Ponto Frio, o Casino não o questionou. "Como mexeu com o concorrente deles na França [o Carrefour], o pessoal ficou abespinhado", comentou uma fonte.


Um outro aspecto da fusão favorece o apoio de Brasília ao negócio. Se nada fosse feito, o Pão de Açúcar passaria a ser controlado pelo Casino no próximo ano, deixando espaço livre para um único ator - o americano Walmart - comprar o Carrefour, que passa por dificuldades.


"Por que a gente não pode aproveitar essa oportunidade?", indagou um integrante do governo em defesa do apoio ao negócio. "É uma oportunidade de realizar um 'turn around' (uma virada bem-sucedida) na empresa, com criação de valor, da mesma forma como ocorreu na Inbev."

 

 

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Junho 09, 2011

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Porque a esquerda é menor que Lula e FHC é maior que o PSDB

Hoje fui assistir o documentário “Quebrando o tabu”, cuja principal estrela é o ex-presidente FHC. Ótimo, claro, objetivo, fundamentado são alguns dos adjetivos oossíveis para classificá-lo. FHC comporta-se como um senhor. Admite erros, põe o dedo na ferida. Não adianta só bombardear a Colômbia ou criminalizar a Bolívia. É preciso olhar a demanda, ver quem consome e quais os interesses por trás do tráfico. Que lobbies existem e seus interesses.

FHC cruzou o rio. Voltou às origens. Buscou conteúdo, aprofundou o tema e aprendeu, pois só quem sabe pode montar uma peça com começo meio e fim. Ao levar em conta o festival de abobrinhas proferidas diariamente por Álvaro Dias, José Serra e companhia, dá `afirmar que FHC é muito maior que o PSDB.

A história de Lula talvez seja mais complexa. Surgiu no mundo político como líder sindical. Ajudou a montar uma base forte e um partido de esquerda. Montou e foi aceito, mas não pela maioria. Em 2002, forçado, é bom que se diga,“rendeu-se”. Cansou de acumular derrotas e, involuntariamente, cruzou o rio. Atravessou o lado e pagou para ver. E o que Lula descobriu? Seguramente o que quem cruza não sabe e não quer aprender: que do outro lado tem vida, e muito inteligente.

Claro a se julgar pelos documentários de Michael Moore, os caras do lado de lá (os capitalistas) não são muito legais, porém o mundo das empresas é muito rico. Primeiro porque faz com que as pessoas se responsabilizem por seus atos e pelos resultados. É necessário entender o objeto de um projeto, sua complexidade, seus recursos, suas contradições e convencer quem está acima a aprovar. Mas não acaba por aí.

É preciso gerir o projeto, controlar o orçamento, ter pessoas certas, timming e que entreguem o que foi acordado. Mas ainda não acaba por aí. É preciso que o empreendimento pare em pé e aí que dê um retorno adequado seja para a sociedade seja para quem colocou capital nele.

Quando não se cruza o rio, abre-se mão de ferramentas preciosas. Gestão de projetos para mim é um assunto que deveria ser abordado em todos os cursos assim como matemática financeira e educação para o bom uso dos recursos, que geralmente são escassos.

O PAC é uma ótima representação disso. Representou uma quase dissolução dos conflitos de classe. Tirou gente que vendia CDs ou trabalhava como camelô para colocá-los em empregos que exigem melhor nível de escolaridade e melhor formação.  E para os “empresários” representou uma retomada de seu espírito empreendedor, de tirar do papel projetos interessantes e fazer a economia do pais crescer.

E é por isso que o Lulismo é maior que a esquerda, porque alem de obter apoio do subproletariado, também agradou que estava do outro lado do rio pois soube, melhor do que ninguém, ser conciliador. Pecado não é ser rico ou ganhar dinheiro, pecado é querer distribuir o que não existe. O artigo que sintetiza isso foi publicado no Valor à época da eleição de 2010.


http://www.valoronline.com.br/impresso/politica/100/127485/lula-panfleta-em-porta-de-fabrica-e-colhe-gratidao-em-evento-empresaria

 

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Junho 04, 2011

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FHC tenta agora conciliar dois desafios quase mutuamente excludentes. Seu trabalho sobre as drogas e sua atuação como principal líder do PSDB.

Pode-se falar muita coisa FHC, menos de que ele não tenha idéias próprias. Senador, Chanceler, Ministro da Fazenda e Presidente do Brasil por duas vezes. Sociólogo formado e professor universitário, cumpriu um script de vida raro e respeitoso. Talvez por isso, decidiu junto com outros senhores, na melhor acepção da palavra, estudar questões de interesse através do grupo “The Elders” ou “Os Senhores”.

De acordo com o site do grupo, “"Os Senhores" é um grupo independente de líderes globais eminentes, reunidos por Nelson Mandela, que oferece sua influência coletiva e experiência para suportar  a construção da paz, ajudar a endereçar causas importantes do sofrimento humano e promover os interesses compartilhados da humanidade.”

Tudo bem que a missão descrita acima poderia perfeitamente ser proferida por uma candidata a Miss, contudo  seus membros, dentre os quais estão Kofi Annan, Nelson Mandela e o próprio FHC, estão bem acima disso. É um pessoal de peso, com credibilidade e conhecimento de causa.

A iniciativa é interessante, pois  no universo político (que engloba economia e sociedade) muitas discussões de interesse são travadas de maneira bastante simplista e até maniqueísta, pois os partidos hoje em dia miram muito mais o “mercado eleitoral” do que propriamente programas e idéias.

Portanto, os Senhores podem trazer uma luz nova e consistente aém de peso para causas e discussões complexas, pois estão afastados das querelas partidárias, correto? Não.

Esta semana a mídia deu grande visibilidade ao documentário “Quebrando o tabu”, onde FHC, em sua vida de “Senhor”  defende a mudança de abordagem com relação à maconha. Claro que este é um tema quente, onde a carga emocional da discussão é certamente maior do que a discussão do próprio problema. Debater drogas traz à tona todo tipo de sentimento e é o típico assunto que os partidos políticos, se pudessem escolher, simplesmente excluiriam de sua pauta.

Por outro lado, o ex-Presidente, na sua vida de líder político, ainda atua de maneira bastante efetiva dentro do seu partido, o PSDB. Talvez por ser o maior ativo do partido, ou talvez, por ser o ativo que resta desde o afastamento e falecimento do melhor do PSDB. Gente como Bresser-Pereira, Bolívar Lamounier, José Arthur Giannotti, Boris Fausto entre outros grandes intelectuais estão longe do ninho tucano e grandes lideres, como Montoro e Covas,  deixaram saudades e jamais foram substituídos.  

Portanto FHC é o que resta do velho PSDB de 1988.

E é aí que mora o perigo. A dupla vida de FHC pode tirar a eficácia de seu importante trabalho de “Senhor”, uma vez que sua imagem e presença ainda estão completamente ligados ao PSDB. Talvez esse seja um dilema difícil de entender e um nó quase impossível de desatar. Ao se propor a tratar de questões impopulares, espinhosas e de difícil digestão, FHC pode não ter o peso necessário para alavancar os Senhores, mas pode ser tomar um peso inconveniente (eleitoralmente falando) para o PSDB.

 

Palavras-chave: Drogas, FHC, Maconha, Os Senhores, Política, PSDB, The Elders

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Maio 13, 2011

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Valor 13/05/2011

O acidente de Fukushima arrefeceu o aquecimento que a indústria nuclear experimentava em anos recentes, nos países industrializados. Partidos ligados ao movimento verde ganham espaço e políticos que apoiavam as usinas nucleares estão revendo suas posições.

 

Na Alemanha - supridora da tecnologia das usinas de Angra - a expansão do parque nuclear foi cancelada e a chanceler Angela Merkel já declarou que as usinas existentes "serão desativadas o mais cedo possível".

No Brasil, entretanto, os políticos não têm mostrado sensibilidade para rever posições equivocadas. No dia seguinte ao acidente de Fukushima, o ministro de Minas e Energia declarou que "as usinas de Angra são 100% seguras e o plano de construir outras não será revisto".

Angra está perto dos centros mais densamente povoados e industrializados do Brasil. Um acidente nuclear ali provocaria perdas humanas e paralisaria grande parte da economia, como está acontecendo no Japão pós-Fukushima. Não precisamos correr esse risco. Apesar das conhecidas questões ambientais, a alternativa mais racional para se expandir o sistema elétrico é aproveitar o potencial hidráulico, em combinação com parques eólicos e com biomassa, complementados por térmicas flexíveis.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial hidrelétrico brasileiro é de 267,8 GW, dos quais 188,5 GW não estão em aproveitamento, aí incluído o potencial das pequenas hidrelétricas, que é de 17,5 GW, como se vê na tabela.

A região norte (essencialmente a Amazônia) detém 65% do potencial não aproveitado.

Se, por motivos de caráter social e ambiental, os planos de expansão do sistema elétrico forem reformulados, limitando-se em 80% o potencial a aproveitar na Amazônia - e se as hidrelétricas amazônicas forem projetadas para inundar 0,3 km2 /MW, a área alagada pelos reservatórios será de aproximadamente 27 mil km2, incluindo a área já ocupada pelos rios nas estações chuvosas. Isso equivale a 0,5% da área da região - uma alteração perfeitamente assimilável pela natureza.

É indispensável que se faça um inventário dos aproveitamentos hidráulicos e eólicos, ordenando-os por mérito econômico, social e ambiental; e que se institucionalize um processo decisório submetido a controle público, para organizar a sequência das usinas a serem construídas e descartar as que apresentarem problemas insuperáveis.

Se esse processo já estivesse em vigor em 2003, é possível que um aproveitamento como o de Belo Monte tivesse dado lugar a hidrelétricas com reservatórios pequenos, escalonados ao longo dos rios, com melhores atributos sociais e ambientais.

Mediante uma política energética que respeite o mérito dos projetos, as empresas públicas e o empresariado do setor de geração elétrica deverão se transformar nos maiores defensores do ecossistema amazônico, pois alterações causadas por desmatamentos comprometerão a vazão dos rios, inviabilizando as próprias hidrelétricas.

De acordo com um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica da Eletrobrás, em conjunto com as firmas Camargo-Schubert e True Windows Solutions há dez anos, o potencial eólico brasileiro para ventos com velocidade média superior a 7 m/s é de 143,47 GW. Em razão da evolução tecnológica, como a maior altura das torres dos aerogeradores, e do avanço nas medições de inventário, há indicações de que esse potencial poderá dobrar.

A interligação dos sistemas hidrelétrico e eólico permitirá que parte da energia gerada nos parques eólicos seja acumulada na forma de água nos reservatórios hidrelétricos - de modo semelhante às malhas termo-eólicas de alguns países europeus, nas quais a energia eólica permite que se economize gás natural ou óleo combustível.

Esse sistema hidroeólico poderá operar em sinergia com usinas termelétricas a biomassa, pois a frota automotiva brasileira é em grande parte alimentada com etanol, forçando a produção de bagaço em escala suficiente para alimentar termelétricas de pequeno porte, totalizando uma capacidade da ordem de 15 GW a partir de 2.012, segundo a Única.

Portanto, o sistema interligado hidroeólico-térmico teria uma capacidade global de 425 GW. Como reserva de segurança, esse sistema teria um pequeno parque de usinas a gás, flexíveis, que somente operariam em períodos hidroeólicos críticos. Essa solução tem custos de investimento inicial significativamente inferiores aos da alternativa nuclear equivalente, sem exigir os custos e cuidados das gerações futuras, por séculos, para o combustível nuclear irradiado, de cerca de 1 mil toneladas por reator.

Portanto, o sistema interligado hidroeólico-térmico teria uma capacidade global de 425 GW. Como reserva de segurança, esse sistema teria um pequeno parque de usinas a gás, flexíveis, que somente operariam em períodos hidroeólicos críticos. Essa solução tem custos de investimento inicial significativamente inferiores aos da alternativa nuclear equivalente, sem exigir os custos e cuidados das gerações futuras, por séculos, para o combustível nuclear irradiado, de cerca de 1 mil toneladas por reator.

Por outro lado, segundo o IBGE, a população brasileira deverá se estabilizar em 215 milhões de habitantes por volta do ano 2.050, de modo que daí em diante o referido sistema integrado poderá oferecer continuamente cerca de 8.650 kWh firmes por habitante por ano, superior a muitos países de alta qualidade de vida. Com isso, o Brasil seria o primeiro grande país a ter um sistema elétrico de fato sustentável, econômica e socioambientalmente.

 

Joaquim Francisco de Carvalho é doutor em Energia pela USP, pesquisador do programa de pós-graduação em Energia da USP (PPGE/USP), ex-diretor industrial da Nuclen, primeiro presidente do IBDF (precursor do Ibama)

Ildo Sauer é diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, Coordenador do PPGE/USP, Ph.D. em Engenharia Nuclear pelo MIT, ex-gerente de projeto do circuito primário do reator nuclear da Marinha (1986-89).

 

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Maio 03, 2011

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Os últimos acontecimentos que envolveram a eliminação de Osama Bin Laden foram chocantes e reveladores. Se de um lado, mostraram o poder de mobilização dos americanos, obssecados na caçada ao terrorista por quase 10 anos, também mostraram uma mudança drástica na visão de mundo e de postura do Ocidente com relação à Civilização. 

Neste contexto, uma  frase proferida por Freud “O insulto fundou a civilização”  pode nos ser útil na análise. O fato é que, a partir do momento em que a violência começou a ser canalizada por outros meios que não a agressão física e a aniquilação do oponente, o homem começou a dominar a natureza.

Um dos grandes momentos da civilização, sem dúvida, foi o Julgamento de Nuremberg. Nele, 23 integrantes do regime nazista foram julgados por crimes e atrocidades cometidas durante a II Guerra Mundial. Além do papel jurídico e da necessidade quase que natural de punição aos envolvidos naquelas barbaridades, o Julgamento também teve um papel civilizador: colocar criminosos no banco dos réus, expor ao mundo suas barbaridades cnferindo-lhes voz e direito a defesa e condená-los. Completou-se assim um ciclo virtuoso da justiça.

É claro, dirão os críticos, que houve distorções. Nem toda a verdade foi dita e nem todas as redes das tramas, alianças secretas, colaborações de parte a parte, foram desveladas. Contudo, o fato de os membros do regime nazista terem sido expostos daquela maneira, sob um conjunto de regras e com direito a defesa, assegurou uma grande transparência ao processo de condenação, alem de, principalmente, reforçar e legitimar as instituições internacionais e o tal do processo civilizatório.

Já em um mundo pós-Guerra e pós-URSS, o qual prometia ser um momento sublime da humanidade iniciou-se um movimento de desmanche e descrédito das instituições multilaterais, como a ONU, quando os EUA atacou o Iraque sob alegação de que haviam armas químicas no pais e não seguindo o parecer dos inspetores da ONU. O próprio julgamento de Saddan Hussein, realizado de maneira expedita, deixara também um sentimento de estranheza no ar, contudo a execução de Osama Bin Laden foi mais marcante e, também, preocupante.

O fato de Osama ter sido considerado culpado pelos terríveis eventos do 11 de setembro de 2001 não justificam uma execução sumária, assim como o fato de os nazistas terem destruído a Europa,  aniquilado milhões de vidas e feito experimentos dos mais terríveis também não os livrou da corte e do direito de defesa. É curioso recorrer a História pois no processo de condenação do Nazismo, franceses e russos foram a favor do fuzilamento sumário dos envolvidos e quem insistiu no julgamento foram os próprios americanos.

Palavras-chave: Nuremberg; Julgamento; Bin Laden; II Guerra Mundial, Terrorismo; Nazismo; Civilização

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Novembro 15, 2010

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Aproveitei meu feriado para colocar algumas leituras cibernéticas em dia e fazer algumas reflexões e sobre textos que li ultimamente. Um  que me fez refletir foi o do Leandro Narloch intitulado "Sim, eu tenho preconceito" publicado na Folha de São de Paulo semana passada. O artigo gira em torno do lamento do autor com o comportamento errático e desapegado de parcela do eleitorado, que ignorante de tudo,  não se dá conta das questões lógicas que envolvem o voto tampouco seu significado. Versa também sobre o fato das pessoas votarem por valores e clichês e não por projetos ditos racionais. Por conta disso, Leandro discrimina "quem não sabe" (como ele, claro).

O primeiro ponto a esclarecer é: se o autor declara que não está disposto a relativizar pontos de vista, com declara na frase "Não estou disposto a adotar uma postura relativista e entender esses indivíduos.", ao fazer isso, declara inconscientemente  que não está disposto a entender a sociologia do voto, o comportamento dos eleitores e o que fez, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso ser escolhido por gente com perfil similar em dois pleitos seguidos.  Além disso, Leandro poderia se perguntar quais os diversos direcionadores ideológicos, sociológicos e economicos que influem na escolha da maioria votante em um dos candidatos.

A subjetividade na argumentação do autor é no fundo uma maneira de impor um não debate, pois debater sério dá trabalho. Ele traz dados pouco processados e enviezados e  se contradiz quando fala, por exemplo, do "marketing da pobreza" e uso de celulares pelos menos instruídos. Para se possuir uma mercadoria é preciso dinheiro (ou crédito) para comprá-la e, no caso de um celular, fluxo de caixa para mantê-lo operando. Portanto, o sujeito precisa ter dinheiro para pagar e salário compatível para manter. Ora, se um cidadão de uma classe social mais baixa tem condições de adquirir uma mercadoria com alto valor agregado e mantê-la, o processo estaria mais relacionado ao "marketing do consumo".  Portanto, na ânsia de criticar as pessoas mais simples, acaba apenas reforçando os argumentos de que as cidadãos deste perfil social têm mais acesso a mercadorias sofisticadas do que tinham antes. Um tremendo gol contra.

Outros aspectos curiosos do argumento de Leandro Narloch são citar Cuba, Bolívia e Venezuela como maus exemplos, sem tomar o cuidado de compará-los com seus pares e, pior, sem se dar ao trabalho de compreender porque a América Latina sofreu como uma ginada à esquerda depois da onda liberal dos anos 90. Quem sabe poderia fazer um bom - e trabalhoso - exercício de reflexão e pesquisa sobre o ocaso do DEM à luz do desaparecimento de seus grandes caciques, ou coronéis, como ACM. Até mesmo, eventualmente, (se desse tempo, é claro)  mergulhar na economia do Oriente e entender o  sistema de trocas, impulsionado pela "comunista" China, ou ainda relacionar os fundamentos economicos chilenos com sua geografia única, bem como o perfil de sua indústria.

Como Historiador, Leandro teria por obrigação buscar nos fatos argumentos para embasar suas teses (afinal de contas, ele não é jornalista) mas ele opta por "não relativizar¨, talvez porque isso exigiria um mergulho em documentos, estatísticas, relações de causa e efeito, e como se sabe isso dá trabalho. Ler pesquisa da FGV só traz dor de cabeça. Melhor pousar de bacana para galera descolada e que também já sabe tudo.

Segue o link para o artigo: 

http://sergyovitro.blogspot.com/2010/11/sim-eu-tenho-preconceito-leandr

 

Palavras-chave: Eleições, Preguiça, Sociologia

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Agosto 22, 2010

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O palco político e as opções reais de intervenção na sociedade estão cada vez mais restritos, mas quão isso é preocupante?

Escrevi um post no último dia 03 falando sobre as reais possibilidades da candidatura do PT sair-se vencedora do pleito presidencial e ontem o DataFolha corroborou esta possibilidade, confirmando 17 pontos de vantagem da candidata Dilma Roussef sobre José Serra, com grandes possibilidades de vitória já em primeiro turno.

Obviamente que o sucesso da candidata oficial não se encontra somente em seu marqueteiro, tampouco nos truques televisivos e piruetas retóricas em debates e declarações à imprensa. A liderança de Dilma reflete fundamentalmente a boa aceitação do governo Lula, a situação econômica atual e a falta de um contraponto crítico por parte da oposição.

O fato de Lula ter se apropriado dos chamados fundamentos econômicos da era FHC e expandido o raio de atuação do estado para o combate a pobreza, reforço das empresas estatais, uso do BNDES para grandes obras e grandes conglomerados fez com que, como bem descrito por Paulo Henrique Amorim, seu governo tenha sugado todo oxigênio da oposição.

Hoje não há campo de discussão em que não o discurso Lulista não se sobreponha ao oposicionista ora por méritos do próprio Lula, que escolheu sua gerente executiva para substituí-lo, ora pela falta de compreensão da oposição de que o Brasil não é só Sâo Paulo e  o “denuncismo” delirante e Udenista, fiado por boa parte da mídia, não reverberam nem entre a própria classe média, no que dirá nos mais pobres.

A falta de oxigênio no campo das idéias faz o cérebro oposicionista operar entre rompantes de direita golpista e pulsos cada vez menores de um discurso social democrata, alternando pequenos momentos de velho - e bom - PSDB com discursos pré queda do Muro de Berlin, em uma situação estranha, onde ora classifica-se o presidente de vagabundo ora o candidato Serra tanta tirar proveito de certa proximidade com Lula.E isso é muito ruim.

Se é imperativo afastar a possibilidade de golpe de estado e restrição a correntes de idéias divergentes, é também imperativo um discurso e uma oposição presente e ativo, com massa crítica para fiscalizar adequadamente, propor idéias e provar, quando chegar a oportunidade, de que sabe fazer melhor.

Se as pesquisas se confirmarem e Dilma de fato for eleita, caberá aos poucos vencedores do campo minoritário, administrar uma massa falida. Tentar reunir os cacos, compor discursos e executar projetos que os conduzam novamente ao centro do poder.

No entanto, a tarefa será enorme por vários motivos e, talvez, o principal seja descolar-se da imagem do maior lider de centro que o país já conheceu Lula. O mito Lula será difícil de ser superado como figura popular e, passada a fase onde ele ainda será avaliado por seus atos, no dia 31 de dezembro, terá apenas sua imagem e aceitação como capital político - e que capital! A figura de Lula pode fiar ações interessantes, mas pode interditar o debate político, pois nem a oposição ousa peitá-lo frente a frente. 

Portanto, os próximos anos oscilarão entre um ranço golpista à direita e um “centrismo” pragmático extremo, com poucas alternativas. Hoje, o grande desafio é reconstruir a oposição crítica e inteligente, capaz de propor executar e superar desafios, além de entender o país. Caso isso não ocorra, os riscos para a democracia serão enormes.

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Agosto 02, 2010

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Uma análise sobre o atual processo eleitoral e o qual o resultante do mesmo.

A vantagem de Dilma Roussef é hoje bastante significativa e as premissas para o cálculo de vitória pendem inexoravelmente para seu lado: possui um grande cabo eleitoral, a economia vai bem, se posicionou claramente como continuísta do modelo atual e suas alianças regionais são sobremaneira mais consistentes do que as de Serra.

O modelo político que virá de seu possível triunfo eleitoral marcará uma ruptura com o modus operandi criado por FHC e herdado, com algumas, adaptações por Lula: figura forte do presidente, que investe grande parte de sua energia domando  o Congresso e buscando alianças.

Uma das características dos útimos 16 anos é o predomínio paulista na política, seja na situação (período FHC) seja na oposição (período Lula), cuja prática  claramente solapou lideranças regionais e o próprio federalismo. No caso de Lula, além de atrasar o desenvolvimento de massa crítica com bom senso (e educação) para tocar nas grandes feridas de seu governo, como a questão dos fundos de pensão, da excessiva oligopolização da economia (com a colaboração do BNDES) e uma política econômica errática, dividida entre os rentistas e bancos de um lado e o setor produtivo de outro, além da questão fundamental das novas reservas estratégicas de energia recém descobertas, o pré-sal.

Mas o que me leva a crer que o modelo mudará radicalmente?

Dentre os diversos motivos, o principal é a queda do último grande bastião de São Paulo, Serra, tendo como “sucessor” Alckmin, cuja amplitude deve ser considerada regional e, provavelmente, não alçará vôos maiores por conta da envergadura de suas asas, sufucientes para a política regional mas curtas para o plano nacional.

Além deles, as prováveis vitórias consistentes de Eduardo Campos (PSB) em Pernambuco e Sérgio Cabral (PMDB), no Rio, darão fôlego e cacife político para ambos. Ambos apóiam Dilma, mas podem tomar um caminho próprio se a conjuntura permitir. Cabral ainda terá os holofotes da Copa 2014 e as obras do Rio 2016.

Do lado tucano, uma possível reconstrução da oposição, demolida por Lula (e por sua própria incompetência), deverá caber a Aécio Neves (levando-se em conta que ele conseguirá manter a estrutura partidária com a eleição de Anastasia, seu vice, para o governo de Minas), conforme boa análise feita por Luis Nassif em seu blog. Aécio tem um poder aglutinador bastante interessante e poderá amealhar lideranças de centro e centro esquerda  descontentes com o Petismo, como Ciro Gomes e outros, além de levantar bandeiras importantes para o país, como a gestão pública e o papel de estatais com gestão profissional, o que é o caso da Cemig.

Mas qual o discurso que deverá permear esta nova era? Dentre as hipóteses mais prováveis estão o plano estratégico do País e gestão tanto administrativa quanto financeira do Estado. O advento do pré-sal deverá ocupar parte expressiva da agenda política e econômica, além do controle dos fundos de pensão (briga política e policial, até o momento) e a formação de grandes oligopólios estimulados pelo BNDES (etanol, celuloses e papel e petroquímica), além da política externa brasileira, que já não é  fazer discurso na Sorbonne em frances ou negociar com o Clube de Paris um novo empréstimo emergencial. Teremos o desafio de um país global de se posicionar de maneira firme e inteligente às demandas diplomáticas futuras. 

Dentre estes temas, a oposição poderia ter levantado pelo menos três durante a era Lula mas optou, junto com a classe média, e parte da mídia, em ridicularizar a figura do presidente, o que rendeu ao país uma enorme perda de tempo e desperdício de oportunidades para melhoria das políticas públicas além  de, é claro, facilitar a alta aprovação do presidente.

A falta de rumo da oposição chega a um tal ponto que FHC publicou um artigo no final de 2009 entitulado "Para onde vai a oposição?". Ora,a pergunta de nosso ex presidente é uma contradição em si. Não cabe a oposição perguntar aos outros onde ela deva ir. Ela deveria responder esta pergunta...

Portanto, não é arriscado afirmarmos que haverá um salto qualitativo nas discussões políticas, onde determinadas faixas radicais à direita serão devidamente substituídas por um centro e oposição mais pragmáticos e conhecedores da nova realidade do país.

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Janeiro 24, 2009

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Embora ignorada pelos analistas, a categoria trabalho exerce um papel central na crise atual

Crise, crise e mais crise. Desde setembro assistimos às mais diversas explicações o que está havendo no sistema financeiro global. Mas afinal, as análises estão indo direto ao ponto?

Para entender melhor a crise precisamos voltar aos primórdios. Retornar aos tempos onde Henry Ford , Rockfeller e Willy Wonka mandavam alguma coisa. Analisar como o legado transformador e “edificante” do trabalho perdeu-se no tempo.

Nenhuma crise é igual à outra, cada uma tem suas razão, momento, atores, enredo, vítimas e vencedores, mas na crise atual existe um DNA, um grau de ancestralidade com mudanças profundas na organização da vida e do sistema produtivo. E onde podemos ler tal peculiaridade na crise? Simples: na organização do trabalho.

Mas...o trabalho?! Sim, o trabalho. Lembremos amigos. O trabalho é atividade que possibilitou aos seres humanos se tornarem mais humanos do que seres. No trabalho estão expressas as equações vitais de transformação da natureza e adaptação do homem aos ambientes hostis, às bruscas mudanças climáticas, à limitação de alimento, às doenças e até à degenerescência da arcada dentária.

Trabalho é transformação - e trabalho no sistema capitalista pós revolução industrial é trabalho elevado à enésima, ou seja, é produtividade, integração, velocidade e produção em massa. Mas o tempo passou, e o homem  pós revolução industrial foi enjoando do binômio trabalho-produção. Esse binômio que multiplicou a expectativa de vida das pessoas nos deu edifícios altos, energia abundante, nos trouxe a vida nas cidades e disseminou livros, discos e dicionários.

Aos poucos, o fator trabalho foi sumindo do sistema produtor de mercadorias. A divisão social do trabalho atingiu tal nível de sofisticação que o trabalho em si virou “operação” e pode ser descartado, mandado para longe, bem longe, lá no Oriente, terra prometida com bilhões de pessoas disciplinadas o suficiente e alienadas de meios de produção o bastante para se submeterem a longas jornadas de trabalho, baixos salários e por aí vai.

Contudo, a separação da fábrica e do consumo nos mostra agora sua face malígna. E por que? Porque pessoas desprovidadas de trabalho não podem consumir, é preciso alavancar financeiramente o ser humano. Incrementar sua relação com os produtos alquímicos dos bancos entupi-las de crédito. E com crédido fácil e mercadorias abundantes, abre-se espaço para a menina dos olhos deste novo sistema capitalista: a prestação de serviços, os shopping centers e outros deuses dessa complexa religião chamada consumo.

Mas afinal, o que produzem os “prestadores de serviços”? Bem, os melhores produzem “intangíveis” ou seja, algo que não se toca e não tem cheiro. Os bons vendedores de hoje, comercializam sensações. E, na verdade, grande parte da papelada emitida no mundo, agora considerada tóxica, possui justamente esta peculiaridade, serem ativos que alguém comprou sem saber bem o que era e que era lastreado por um outro ativo cujo nome pomposo e a possibilidade de um bom retorno financeiro.

Pergunto: é errado fazer isso? Bem, do ponto de vista meramente criminal vender  que não se possui é estelionato, mas neste mega sistema também existem alguns – poucos – benefícios como fluxo de recursos aportados em pesquisas farmacêuticas, internet farta e que facilita a disseminação dos valores democráticos e da livre opinião, além de outras vantagens. Contudo hoje para cada dólar oriundo de um ativo produtivo, existem nove aplicados em ativos intangíveis.

 A conclusão que eu chego não é muito alentadora. De fato teremos uma seca de recursos financeiros nos próximos anos e gente e máquinas demais para produzir de menos. E o que fazer então? “Refundar” o trabalho seria a solução, mas fazê-lo em que bases e em qual direção? Não se sabe ainda.

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Janeiro 13, 2009

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Antes de trucar a renovação da frota dos ônibus em São Paulo, Kassab deveria refletir melhor sobre a questão.

Bom, inicio esse texto já desqualificando-o. Não sei afirmar com certeza qual é o tamanho do subsídio do transporte em São Paulo. Também não tenho a menor idéia se ele equivale ao montante liberado em outras grande capitais da Europa, como Londres, Paris e Berlin. O que posso afirmar é que somos a única na lista que não possui uma malha de metro condizente com o tamanho da cidade, tampouco uma integração inteligente dos meios de transporte. O fato é que o Bilhete Único veio, viu e venceu e de resto nenhuma grande revolução no transporte público na cidade de São Paulo foi feita neste sentido. A não ser a integração entre o bilhete único e o metrô, mas para quem conhece os pacotes oferecidos pelas "SPTrans" mundo afora, chega a ser risível.

Hoje, escutando a rádio Joven Pan fui informado que o prefeito Kassab cortará a renovação da frota de ônibus em São Paulo, reduzindo a compra dos mesmos para apenas 170 unidades. A alegação é que a prefeitura não quer subir o preço das passagens (proposta demagógica de campanha, diga-se), tampouco aumentar o subsídio já conferido às empresas que operam o sistena. Direto ao ponto: foi a medida mais idiota adotada desde o início da crise. E por que?

Bom, ônibus novos poluem menos, têm rendimento superior e, dependendo da quantidade de unidades articuladas e bi articuladas, podem dar mais conforto aos usuários e retirar alguns carros da rua. Ajuda bastante no sentido de não complicar mais o transito em São Paulo e confere um conforto a mais às pessoas que já pagam R$2,30 na catraca mais subsídios.

Outra questão que me chamou a atenção nesta "brilhante" decisão, foi a completa falta de visâo de estado de nosso prefeito. Na ânsia de agradar a classe média, compradora da idéia de que o governo deveria evaporar - mesmo depois de tudo que tem ocorrido no mundo - Kassab não exitou em fazer uma demagogia para mostrar austeridade. Mas para mim, austeridade seria abrir a planilha das empresas, tornar públicos os dados e tentar aumentar a eficiência do sistema via redução de custos de O&M e outros, afinal de contas ele é azeitado com dinheiro público. Se não houvesse tal possibilidade, ele poderia mexer por dois ou tres anos na na rentabilidade das empresas obrigando-as a analisar os custos gerenciáveis e otimizá-los.

Kassab ainda poderia encomendar um estudo à SPTrans analisando o montante de investimentos e bater em duas portas: A do BNDES afim de obter uma linha de financiamento (lembremos que com o advento do bilhete único, o caixa do setor de transportes ficou mais previsível, o que facilitaria a obtenção de uma linha de financiamento com menor custo financeiro).

Além disso, poderia chamar os fabricantes de ônibus e negociar bons descontos na aquisição dos veículos. Lembrem-se que VW, Mercedes e outras montadoras estão salivando por conta da queda das vendas e seguramente reduziriam seus preços.

Para concluir, se tais medidas fossem ao menos pensadas iriam manter o mercado automobilístico aquecido com suas fábricas de automóveis, fornecedores de matérias primas e toda cadeia produtiva, além de assegurar um bom punhado de empregos "salvos."

Se Lula é populista com "os de baixo", Kassab consegue ser populista com "os do meio". Essa doutrina dominou a economia brasileira por um bom número de anos e, pelos números do PIB e de desempregados, sabe-se bem no que ela deu. Estou indignado!

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Janeiro 08, 2009

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Abobrinhas ideológicas e cobertura falha da mídia nos impedem de fazer as perguntas relevantes sobre o conflito no Oriente Médio

Não sou judeu, não sou PTista e tampouco Palestino. Existem em mim apenas três estados permanentes, a saber: sou paulistano (por determinismo geográfico), sou são paulino e sou historiador. As outras coisas de minha vida ficam mais coerentes utilizando-se o verbo "estar". Portanto, estou solteiro, estou trabalhando em uma empresa de energia e estou me metendo a besta de escrever no blog da USP.

Pois bem, escrevi essa ladainha toda aí em cima para dizer que não tenho preferências no duelo travado na faixa de Gaza entre Israelenses e Palestinos. Até porque considero os extremos de ambos bastante parecidos.

Além disso tendo visitado, inclusive, alguns Campos de Concentração, reconheço que a dor inflingida aos judeus foi muito grande; e mais, tenho três amigos judeus que são pessoas muito humanas, inteligentes, de excelente berço e caráter, portanto, não sou anti-semita, pelo contrário. O meu grande amigo Guilherme Susteras quando ainda habitava Terra Brasilis sempre trazia uns bolinhos de mel deliciosos na comemoração do ano novo judaico.

Mas alto lá! Também nada contra os árabes e muçulmanos com sua cultura rica, sua arquitetura espetacular e sua visão de muito peculiar. Infelizmente não conheço pessoalmente nenhum muçulmano mas eles não me incomodam, em absoluto.

Agora o que enche o saco mesmo é a cobertura da guerra pela mídia tupiniquim e os "comentários" de jornalistas e leitores. O festival de abobrinhas é grande e, como de hábito, tudo virou uma imensa batalha entre PT e PSDB. Os de lá dizendo que Israel é ligada umbilicalmente aos EUA e os de cá afirmando que a esquerda é boa em condenar Israel mas tolera o Fidel.

Hoje foi um tal de nota de lá, nota de cá, nota do PT, nota anti-PT e isso é uma pena, pois estamos perdendo a oportunidade de analisar melhor os fatos. As grandes questôes que ficam deste conflito para mim são:

  1. A ONU ainda tem representatividade?
  2. Obama será capaz de domar o Oriente Médio?
  3. Israel conseguirá eliminar o Hammas ou criará mais radicais no médio prazo?

Ah, a primeira é fácil e a resposta é amarga. Não. G.W. Bush desmoralizou a ONU em 2003 ao invadir o Iraque passando por cima do Òrgão.Creio que as bombas que caíram na escola ontem foram a pá de cal na representatividade da ONU.

Claro que ela continuará a existir, mas tende a ter uma papel cada vez mais secundário, eu diria, muito mais assistencialista do que mediador de conflitos doravante.

Com relação a Obama, taí um cara que pode cair como Nixon ou virar um novo Franklin Delano Roosevelt, pois tem tudo contra: a economia dos EUA em frangalhos, a hegemonia economica americana bastante questionada, a América do Sul, aliada de primeira hora, buscando espaço próprio.

E, para melhorar, o Oriente Médio onde a conjuntura é a seguinte: com a queda de Saddam Hussein o equilíbrio da região derreteu, pois o regime Iraquiano fazia um contraponto político, ideológico e bélico ao Irã. Portanto, ao derrubar Saddam, os EUA deram a hegemonia da região de graça para o Irã que, sem dar um tiro, é hoje é o país mais influente do Oriente Médio.

Neste quadro Obama precisará negociar com um Irã por default anti-americano, com Israel querendo demonstrar força para não ser devorado pelos vizinhos e com os outros países árabes que estão relações fragilizadas com Israel por conta dos acontecimentos da última semana.

Portanto, o espaço pra ele negociar e colocar ordem an casa é menor do que a taxa de juro americana. 

Com relação à terceira pergunta, a resposta também é não. Israel criou mais uma ou duas gerações de terroristas que atacarão seu território por algumas décadas, infelizmente.

Um cara que tem publicado bons artigos da mídia internacional (traduzidos) é o Luiz Carlos Azenha. Da mídia Bruzundanga eu desisti faz um tempinho.

Segue o link:

http://www.viomundo.com.br/

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Janeiro 04, 2009

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Análises do pré-sal indicam o despreparo das pessoas para tratar de temas tidos como estratégicos

Tirei o feriadão para colocar algumas leituras em dia e me atualizar sobre assuntos que julgo relevantes, dentre os quais a camada pré-sal. Para mim, este é tema mais fascinante do momento, dado que o petróleo é a commodity mais valiosa da face da Terra, ou de suas profundezas, e influencia toda geopolítica atual. A lei do menor esforço faz com que os homens movam-se em direção ao domínio de matérias-primas que garantam seu conforto e, por serem recursos escassos e finitos, tais matérias-primas são disputadas palmo a palmo pelas potências mundiais.

É fato que potências como a Rússia só podem se afirmar para o mundo, pois detém grandes reservas, assim como países como a Noruega tornaram-se lugares com ótimos IDHs  graças ao petróleo. Portanto, não é necessária uma grande pirueta intelectual para provar a importância do óleo nos países que detém reservas.

Mas nas minhas pesquisas sobre o assunto tenho me deparado com alguns textos curiosos, para não dizer outra coisa. E entre as bizarrias com as quais me deparei, o texto de Diogo Mainardi sobre o assunto, publicado na Veja, surpreende e não só pela ignorância absoluta sobre o assunto específico, mas também pela ausencia no autor de ferramentas mínimas para analisar qualquer coisa com relação a economia, política, estratégia e nação.

Vamos às palavras de Mainardi:

“[...] Contrariando o apelo de Robert M. Sanford, desprezamos a possibilidade de eleger um macaco. Em vez disso, o presidente da República é Lula. Ele está numa plataforma da Petrobras, no campo de Jubarte, no litoral do Espírito Santo. A tese de Walter Link e de seu supervisor de Sub-Superfície acabou se confirmando: nosso petróleo está localizado no mar. No caso, no pré-sal. O jingoísmo petrolífero, seis décadas depois de ser empunhado pelo caudilhismo getulista, ainda rende votos. Lula esfrega óleo no macacão – mais um macaco nessa história – e, em meio à promessa de usar o dinheiro do pré-sal no combate à pobreza, declara orgulhoso: "Eu tenho tanta sorte que acho que Deus passou por aqui e resolveu ficar. Porque a sorte aumenta a cada dia".Deus, cinco dias mais tarde, mudou repentinamente de idéia. Fannie Mae e Freddie Mac, as duas paraestatais imobiliárias dos Estados Unidos, foram para o beleléu, dando a largada ao processo de derretimento da economia mundial. O pré-sal, de uma hora para a outra, transformou-se no engodo do ano.

O que o texto acima nos leva a concluir? Que o presidente do Brasil, assemelhado pelo autor a um macaco, ou algo similar, fez demagogia com relação ao petróleo e agora, com o derretimento global,  o pré-sal tornou-se um engodo, ou torno-se inviável. Vamos aos fatos: o petróleo é uma dádiva da natureza.  O problema é que Lula, com toda sua simplicidade, ou falta de sofisticação, está correto. É muita sorte o país, além de tudo, encontrar tais reservas.

Mas as abobrinhas seguem torturando os pobres Tico e Teco que habitam minha mente. Lá pelas tantas informa o colunista:

O barril de petróleo já está em 45 dólares, e continuando a cair. No mesmo período, Lula declarou que o Brasil ingressaria na Opep, e que o presidente poderia usar "aquele pano na cabeça, como se fosse um xeique". A Opep acaba de cortar 8% de sua produção, porque há petróleo em demasia no mundo.”

Ora, com todo respeito, até um chimpanzé sabe que: petróleo é petróleo e que sempre vale a pena ter reservas e explorá-lo. Por outro lado, ninguém toma a decisão de investir 500 bilhões de dólares tomando por base uma série de preços tão curta, ainda mais contaminada pela maior crise da história do capitalismo. Além disso, tais séries de preços farão a Petrobras, ou qualquer outra empresa, fixar uma premissa e modelar os investimentos de acordo com a geração de caixa prevista. 

Modelos de financiamento desse tipo de projeto são amplamente conhecidos e seu esquema básico é tão simples que até um aluno de 8ª série pode entender: A empresa entra com 25% ou 30% de capital próprio nos primeiros anos do projeto obtendo o financiamento dos outros 70%-75% até a conclusão das obras. A empresa inicia o pagamento do financiamento assim que o petróleo começar a jorrar e gerar caixa. Mas a ignorância – ou má vontade – do colunista é representa um apagão intelectual que não vem exatamente da camada mais pobre da população.

Hoje, o interesse de atingir o presidente está acima dos projetos, dos partidos e das idéias. Está acima também da própria economia ou do futuro do país. O pré-sal é o fato mais importante da história econômica do país desde a decisão de Vargas de construir a CSN, na década de 40.

Não sou nenhum fã incondicional do nosso presidente. Se fosse inquirido em algumas das pesquisas que avaliam sua popularidade ou a qualidade de seu mandato, diria que ele tem sido “regular”. Um governo surpreendente para um homem simples que se comunica por metáforas e decepcionante no que tange a projetos de longo-prazo para o país e também com relação à ética e combate à corrupção.

O fato é que se queremos construir um país com bons indicadores sociais e econômicos precisamos de uma elite forte. Precisamos de intelectuais, economistas, engenheiros, historiadores, psicólogos, jornalistas, com boa visão de mundo e capazes de produzir massa crítica e não bravatas irônicas jogadas ao vento.

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Janeiro 01, 2009

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A tendência das elites americanas é considerar a nação mais poderosa do mundo em declínio

A hegemonia norte-americana está em declínio? Os grandes desafios da regulação financeira, do clima, do tráfico de drogas e do terrorismo são de natureza global e exigem a construção de amplos consensos e parcerias.No entanto esses caminhos estão severamente limitados pela perda de capacidade regulatória da grande potência mundial e das instituições internacionais.

A crise atual tem muito a ver com o mundo vivendo acima dos seus meios. A era da abundância em recursos naturais já havia terminado. Mais alguns passos errados e a degradação ecológica será irreversível.Como conseguir uma mudança radical no modelo de produção, com a redução do consumismo desenfreado e do sucateamento, se os grandes atores econômicos têm total liberdade de definir seus vetores tecnológicos?Alguém acredita que o próprio mercado se auto-regulará? O colapso do sistema financeiro pode gerar uma nova era de controle do lado perverso do capitalismo global?

A questão é que ele odeia regulações, maximiza seus lucros operando nas faixas cinzentas e adora socializar prejuízos.De fato, o mundo não pode prescindir das virtudes hegemônicas de sua maior potência. A maior delas é favorecer a governabilidade internacional mediando crises e confrontos e possibilitando gestos simbólicos em direção às nações mais precárias -o oposto do que George W. Bush fez. Se os EUA não assumirem um papel sólido e confiável de referência sistêmica da força e da lei, condizente com o seu próprio poder, teremos grandes probabilidades de um século marcado por dores e retrocesso.

Tolerância é um atributo essencial ao exercício da soberania. Na doutrina Bush, tolerância era a permissão para "continuar vivendo desde que se obedeçam nossas regras". Mas o exercício da paz exige a aceitação da alteridade, incluindo as minorias e os diferentes. As necessárias alterações de estruturas e equilíbrios de poder irão exigir muito de Obama, tido como analista frio e construtor de consensos. Ascensão e queda A tendência das elites americanas é considerar a mais poderosa nação do mundo em declínio. General Brent Scowcroft [assessor de segurança dos presidentes Gerald Ford e George Herbert Walker Bush, pai do atual presidente dos EUA]: "O exercício do nosso poder nos revelou que ele é efêmero".Fareed Zakaria [analista de política internacional]: "Os anos Bush foram o apogeu do poder americano". E Richard Haass [presidente do Conselho de Relações Exteriores, nos EUA] : "O momento unipolar dos EUA se foi."

No entanto, gostemos ou não, teremos que continuar vivendo com a hegemonia norte-americana. Salvo crise político-social de grandes proporções na China, a estagnação dos próximos anos trará definitivamente uma mudança de patamar no seu poder. Mas nada para ameaçar a posição dos EUA.Com a China crescendo a 6%, Europa e Japão estagnados e americanos a passo de cágado, em cinco anos os chineses terão um PIB de quase US$ 5 trilhões, ultrapassando largamente a França, a Inglaterra e a Alemanha e igualando-se ao Japão, transformando-se na segunda maior economia do mundo.Só que os EUA estarão com US$ 15 trilhões, três vezes mais do que a China!

Do "voamos mais alto e sabemos o que é melhor para o mundo", de Madeleine Albright [secretária de Estado na era Clinton], ao "quem não está conosco, está contra nós", do fundamentalista Donald Rumsfeld [secretário de Estado nos tempos de George W. Bush], houve uma escalada imensa da hegemonia em direção a uma quase tirania.O que agora o mundo espera como frase emblemática de Hillary Clinton é "Os EUA precisam de sócios". Precisamos cobrar daquele país o exercício de uma hegemonia que leve a consensos multipolares, aliviando tensões mundiais e gerando condições de governabilidade sistêmicas.Assim Obama poderá ter boa parte do mundo como sócia.

GILBERTO DUPAS é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP e autor de "O Mito do Progresso" (ed. Unesp).
Fonte: Folha de São Paulo 27/12/2008


 

 

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