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Outubro 08, 2008

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Quando me perguntam se considero tal ou qual pessoa bonita, duas respostas possíveis: no que tange à aparência, costumo não muito fugir ao que ora se estabelece como 'bonito' -- tenho cá meus gostos e minhas predileções, mas nada que do comum difira; no que concerne à beleza, diverso talvez seja o modo de pensar.

·a aparência seria o que com olhos vemos, com ouvidos escutamos, com mãos tocamos -- tudo quanto se possa registrar ou perceber por meios outros que não os da empatia e da intelecção;
·a beleza é o que admiramos, o que vislumbramos além do externo -- aquilo que sem palavras apreendemos.

·a aparência seria o doce que com formas e cores, odores e sabores, nos convida, nos atrai, nos seduz -- e, efêmero, vai-se;
·a beleza seria o que sabemos nos nutrir, o que sobrevive àqueles breves instantes de degustação -- e subsiste.

·a aparência, nós a observamos dia após dia, tornando em comum o incomum;
·a beleza, cada um de nós em seu íntimo saberá quando a tiver encontrado.

·a aparência gera sensações, valendo-se de opiniões e adulações;
·a beleza traz à tona o que de melhor temos, mostrando-nos quão melhores podemos ser.

·a aparência apela para o que há de primitivo em nós, incitando-nos a desejar sempre mais;
·a beleza perscruta nossa essência, inspirando-nos a almejar sempre mais.

·a aparência agrada, apraz, acalma ânimos;
·a beleza cria, desperta e favorece gáudias horas, instantes jamais lamentados, mormente não olvidando poder quiçá ruir, subitamente, toda uma vida.

Na efemeridade de cada existência, a elaborada aparência na fugacidade do tempo perece, enquanto a beleza, simples, permanece. Findo o dia presente, teremos em conta inumeráveis aparências de que nos lembrarmos; a seu próprio passo, afortunado quem, ao fim da vida, não puder contar em ambas as mãos as pessoas de real beleza.

A aparência pode carecer de um cerne que a verdadeiramente sustente, mas suplanta quaisquer figuras a beleza verdadeira.

···---···

Nem em todas as quimeras jamais imaginadas, nem mesmo em todos os devaneios jamais sonhados, nem sequer na mais sublime arte jamais criada, forma alguma elaborou-se que moldasse amálgama de aparência e beleza. Ainda assim, ela existe.

Ainda que imaginar nada me custe, a sonhar prefiro a realidade que no cotidiano enfrento, pois criação alguma poderá jamais se comparar ao sorriso que me cativa, à voz que me encanta, à existência que me anima. Que exponham escultores as mais áureas formas. Que escrevam poetas os mais inspirados versos. Que cultive a Natureza as mais vicejantes rosas. Nada se lhe compara.

-originalmente postado alhures em 2004.11.03

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Postado por Walter Tsuyoshi Sano | 0 comentário

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Curioso como certas situações, por mais triviais ou diminutas, cotidianas ou singelas, provocam-nos.

Quinta-feira (2004-10-14) fui ao barbeiro para "ter meu cabelo cortado" (pequeno lembrete do uso causativo de 'ter'). Fui não uma, mas duas vezes, pois na primeira encontrava-se ele já em horário de almoço. Na segunda, logrei êxito.

Mas gostaria de concentrar este breve relato na volta da primeira vez, quando, vencendo um pequeno aclive, cruza-me o caminho uma desconhecida. Ela descendo, nada haveria digno de nota, não fosse o que pude perceber um ou dois instantes logo após sua passagem.

Quem me conhece sabe que pouco (ou nulo) uso faço de adereços. Mesmo meu relógio de pulso (que uso como cronômetro), comprado em dezembro passado, até hoje não fez jus ao nome, entrelaçado em meus dedos que deixo -- daí minha opção por um relógio de bolso, para as verificações horárias cotidianas. Tampouco de odores me tinjo, temente que sou das impressões errôneas que se possam expressar -- na verdade, nem tanto, mas isso já são outros quinhentos.

Após aqueles poucos segundos, pensei em tornar e perguntar-lhe o nome e onde o encontrara -- talvez pensasse eu em presenteá-lo, um dia. Mas ela já se encontrava distante. Uma pena idéias assim ocorrerem-me com retarde. Ou não. Se uso não faço dessa sorte de artifícios -- conquanto não o reprove em outrem --, careceria de coerência agir em desacordo com meus próprios preceitos. Por que, então, por um átimo almejar algo por mim mesmo tido como tão externo, supérfluo até?

Talvez, quem sabe, esteja eu cedendo às pressões do que me rodeia e que minha fortaleza mina. Talvez, quem sabe, não haja assim tanto mal nessa ação por tantos praticada. Talvez, quem sabe...


Nota: Título remetente ao filme Perfume de mulher (Scent of a woman, EUA, 1992).

 

-originalmente postado alhures em 2004.10.22

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