Stoa :: Samantha Martins :: Blog :: Neve em São Paulo – SP (25/06/1918). Aconteceu ou não?

julho 12, 2011

default user icon
Postado por Samantha Martins

Eu sei gente, já nem está tão frio essa semana. Inclusive o problema é outro: a baixa umidade relativa. Mas eu estou escrevendo este post há semanas e o terminei hoje.

Olhando todos os registros da Estação Meteorológica do IAG-USP (desde 1933), noto que não há nenhum registro de ocorrência de neve. Voltando ainda mais no tempo (porque Estações Meteorológicas nos permitem isso!), no período em que existia o Observatório da Avenida Paulista, sob direção de José Nunes Belfort Mattos (de 1916 a 1930 - datas aproximadas), não vejo nenhum registro de ocorrência de neve.

Porém dia desses eu estava procurando algumas coisas na Wikipedia e acabei me deparando com este verbete. O verbete informava que houve neve na cidade de São Paulo no dia 25/06/1918.

Curiosa a respeito do assunto, comecei a pesquisar mais pela internet. Acabei encontrando uma entrevista do Prof. Rubens Belfort Junior, que é um renomado médico oftalmologista e é bisneto de José Nunes Belford Mattos.

Como já adiantei anteriormente, José Nunes Belford Mattos foi diretor do Observatorio da Avenida e foi um dos pioneiros em meteorologia no Brasil. Na entrevista do Prof. Rubens Belford Junior, ele ressalta o suposto feito de seu bisavô: ter observado neve em São Paulo.

Sobre este observatório na Av. Paulista e sobre a provável ocorrência de neve, fui conversar com o Prof. Dr. Paulo Marques dos Santos (que escreveu este maravilhoso livro sobre a história do IAG). Inclusive todas as informações que sei sobre José Nunes Belford Mattos foram retiradas deste livro.

O Prof. Paulo então me disse que em certa ocasião, o dono de uma conhecida empresa de meteorologia o procurou, interessado em desevendar este mesmo 'mistério'. A resposta dada pelo dono da empresa pode ser encontrada aqui.

Prof. Paulo então me mostrou as páginas das antigas cadernetas correspondentes ao dia 25/06/1918 e me mostrou evidências concretas de que essa história de neve em São Paulo neste determinado dia é um equivoco. Abaixo, como curiosidade, a página da caderneta correspondente ao dia:

Eu circulei em verde algumas informações meteorológicas importantes, que nos fornecem pistas sobre o que realmente aconteceu nesse dia:

Clicando na figura é possível ver com mais clareza e de maneira mais ampliada. A informação é de que foi registrado geada naquele dia (mais informações sobre geada, aqui). A nebulosidade registrada durante todo aquele dia foi 0. Ou seja, um daqueles típicos dias de inverno com céu  totalmente (ou quase totalmente) sem nuvens, frio pela manhã e um pouco mais quente de tarde: o domínio total de uma massa de ar polar e acho que eu PAGARIA por uma carta sinótica daquele dia, assim poderíamos ver melhor a situação em grande escala. Eu acredito que dias antes uma frente fria estava atuando sobre o Estado de São Paulo (pois olhando as folhas dos dias 21-23/06/1918, noto que houve muita nebulosidade. Após a passagem da frente fria, tivemos o domínio do ar polar, e portanto, frio. Tivemos situações assim, quando registramos aqueles 2,4°C no dia 28/06/2011.

No dia 25/06/1918, as temperaturas mínima e máxima dentro do abrigo meteorológico foram respectivamente -1,0°C e 12,6°C. Do lado de fora do abrigo, tivemos máxima de 14,5°C e mínima de -3,0°C (que legal!!!).

Como curiosidade, também coloco a folha da caderneta referente ao dia anterior (24/06/1918):

Podemos ver que no final da tarde do dia anterior e no início da noite, não tivemos a presença de nebulosidade.

Mas, por que não houve neve?

Diferentemente da geada, que deposita-se sobre as superfícies e suas chances de ocorrência são muito maiores em noites de céu completamente sem nuvens, devido a maior perda radiativa, a neve é uma forma de precipitação. Como o Prof. Paulo bem ressaltou, nesse dia em questão o céu estava sem nuvens, conforme ressaltamos o relato o observador da época

Para que tenhamos neve é necessário ter nuvens do tipo Nimbustratus, responsáveis pela precipitação em forma dos lindos flocos.

Imagem retirada daqui. A foto foi tirada no NASA Langley Research Center, em Hampton, no Estado americano da Virgínia.

Em conversas minhas com o Prof. Dr. Paulo Marques dos Santos e com Dr. Frederico Funari, eles me disseram que além da geada, pode ter ocorrido também um fenômeno chamado sublimação do nevoeiro.

Nevoeiros (cerração, neblina, ruço, etc) são classificados de acordo com sua formação (veja aqui), mas basicamente, para que tenhamos a ocorrência de um nevoeiro é preciso que a superfície resfrie-se consideravelmente, em uma noite de muito frio sem nuvens, por exemplo. Assim, o vapor d'água do ar em contato com essa superfície condensa-se, formando o nevoeiro, que nada mais é do que uma nuvem tênue do tipo Stratus.

Como vimos, no dia 25/06/1918 estava muito frio! A temperatura ao relento chegou a -3,0°C. Sendo assim, pode ser que o vapor d'água em contato com a superfície tenha passado diretamente para o estado sólido, ou seja, ocorreu a sublimação do nevoeiro. Nunca vi tal fenômeno ocorrer, mas meus professores citados neste post dizem que é possível e acredito neles pelo conhecimento que eles têm e pela experiência (eles tem em torno de 80 anos, viram mais coisas na atmosfera do que eu...rs). Segundo eles, quem nunca viu neve é muito provável que confunda a sublimação do nevoeiro com neve, já que são bem parecidos.

Além disso, a própria geada que ocorreu naquele dia e foi citada anteriormente no texto, pode ter sido uma geada bem forte, que deixou os campos bem cobertos de gelo nas primeiras horas da manhã. Embora o gelo da geada seja bem diferente dos flocos de neve, quem não conhece neve pode muito bem confundi-los.

É bastante provável que no dia 25/06/1918 tenha ocorrido neve na Serra da Mantiqueira e em outros pontos mais altos do Estado. Porém, como a Av. Paulista é um dos pontos mais altos da cidade, acho pouco provável que tenha ocorrido neve na cidade de São Paulo naquele dia.

Após essas pesquisas, minha conclusão é de que realmente não houve neve no dia 25/06/1918. Sabendo que os registros meteorológicos iniciaram do final do século XIX, posso afirmar que NUNCA REGISTRAMOS neve na cidade de São Paulo. Repito: NUNCA REGISTRAMOS. Pode ser que num passado mais remoto tenha ocorrido, mas ninguém registrou.

 

NOTA FINAL: As cadernetas e outras curiosidades sobre a observação meteorológica poderão ser vistas quando o Museu de Meteorologia, projeto do Prof. Mario Festa, sair do papel. Entretanto, se você quiser visitar a Estação Meteorológica do IAG-USP é só entrar em contato conosco por aqui.

E eu gostaria de agradecer ao Prof. Dr. Paulo Marques dos Santos e ao Dr. Frederico Funari pelas aulas e pelo conhecimento apresentado. É uma honra aprender com pessoas que dedicaram-se tanto a meteorologia no país.

Palavras-chave: dr. frederico funari, em-iag-usp, geada, jose nunes belford mattos, meteorologia, neve, nevoeiro, observatorio da avenida, prof. paulo marques dos santos

© 2019 Todos os direitos reservados

Postado por Samantha Martins | 2 usuários votaram. 2 votos

Comentários

  1. Lu Prado escreveu:

    Pois é, nunca foi registrado, o q não significa q não tenha ocorrido!

    default user iconLu Prado ‒ terça, 12 julho 2011, 14:43 -03 # Link |

  2. Wenderson Alexandre escreveu:

    Fantástico post!

    Cheio de referências, análise clara e conclusão contundente.

    Adorei!

     

    Beijão Sassá e parabéns!

    Wenderson Alexandre de Sousa SilvaWenderson Alexandre ‒ terça, 12 julho 2011, 15:59 -03 # Link |

  3. escreveu:

    Parabéns pelo seu artigo Samantha. Realmente muita gente pergunta se houve ou não neve na capital paulista. Os professores de meteorologia são unânimes em dizer que nunca houve, até pela localização geográfica em relação a proximidade do mar...Dizer que é impossível nevar na capital, acho que pode ser um termo até exagerando, mas acredito também que as chances são praticamente nulas... Muito boa sua explicação...gostei muito!

    Um abraço

    Fernando J.S

     

    default user icon ‒ terça, 02 agosto 2011, 03:47 -03 # Link |

  4. Samantha escreveu:

    Olá Fernando, obrigada por visitar!

    Eu até poderia afirmar que nunca houve. Por exemplo, se pensarmos em toda a história conhecida da área onde hoje fica São Paulo-SP. Sabemos desde 1550, mais ou menos? Não tenho conhecimento de nenhum registro de neve desde então. Certamente se tivesse nevado, sei lá, no séc. XVII, algo teria sido escrito em algum lugar a respeito disso, já que é algo diferente do usual.

    Agora vamos pensar no período anterior a 1550. Baseando nas coisas que você disse, eu até poderia afirmar que NUNCA nevou em São Paulo-SP. Mas e se (olha eu aqui viajando...rs) em uma das eras glaciais as massas de ar polar conseguissem atingir a área onde hoje é a capital com intensidade considerável, possibilitando inclusive a formação de neve, na área onde hoje é a capital. Seria possível?

    Samantha MartinsSamantha ‒ quinta, 04 agosto 2011, 08:40 -03 # Link |

  5. Elis Dener Lima Alves escreveu:

    Gostei do post, ficou bem informativo.

    default user iconElis Dener Lima Alves ‒ sexta, 23 dezembro 2011, 10:47 -02 # Link |

  6. Neto historiador escreveu:

    Diz a lenda que já teve uma massa nevasca em são paulo - SP sim a muito, muito tempo isso é lá em 1930 pra baixo escritores só não escreveram sobre isso pq na quela época era normal neve em são paulo - SP e para eles sempre iria aver neve em todo inverno frio de SP e interior tbm principalmente sul do estado paulista.

    Hoje em dia não neva mais pq a o tempo mudo tudo.

    default user iconNeto historiador ‒ sexta, 02 março 2012, 20:13 -03 # Link |

  7. Nanci Goncalves Ribeiro Guimaraes escreveu:

    Parabéns, seu texto me impulsiona à pesquisa. Obrigada.

     

    Nanci Goncalves Ribeiro GuimaraesNanci Goncalves Ribeiro Guimaraes ‒ segunda, 23 abril 2012, 19:08 -03 # Link |

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.