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Agosto 2010

Agosto 10, 2010

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Postado por Sady Carlos

Nosso objetivo primeiro seria justapor, através de uma análise semiótica, elementos diferenciados enquanto expressões de materiais simbólicos representativos do que nos chega de uma visão de mundo ocidental americana, tal como é visto a posição do outro, em sua relação de alteridade. O filme “King Kong” seria nosso campo de amostra. Encontramos vários duplos de opostos significantes equiparáveis nesta história cinematográfica, nas suas três conhecidas versões (1933 de M. Cooper, 1976 de De Laurentiis, e 2005 de P. Jackson). Mais especificamente, tomamos o gorila gigante, de um lado, contrapondo-o as representações sígnicas arquitetônicas do “Empire State Building/World Trade Center” de outro lado. O paisagismo de arranha-céus como o de Manhattan seria um ponto para reconhecimento de estruturas marcantes ideológicas de uma cultura. Estas representações por si só ratificam os ícones de uma sociedade de pujança e valor. Em 1931, o “Empire State Building” distinguia-se como o edifício mais alto do mundo. Na segunda versão o “World Trade Center” o substitui, pois as Torres Gêmeas se tornam, como edifícios paralelos, duplamente superiores ao anterior. É neste confronto que estas dimensões gigantes estão, no discurso, fundidas e equiparadas: a do macaco versus os arranha-céus nova-iorquinos.

A metodologia usada para a apreensão do problema desta abordagem seria o modelo de análise da semiótica greimasiana: seu quadrado semiótico. A semiótica complexa do discurso, e sua relação contrastiva, fortalecem tanto o sujeito/identidade quanto o desmantelamento do actante rival, enublando significações da alteridade. Na análise da estrutura de superfície as versões de “King Kong” aparecem como plano de expressão diferenciados. O roteiro do filme, os significantes desta primeira apreensão, promove um “programa narrativo” em plano figurativo, ou seja, há toda uma história convencional e linear do roteiro original: a viagem ao desconhecido, o contato com a ilha primitiva, a captura de “Kong”, o retorno à Nova Yorque, a morte do mega-monstro Kong, entre outros. Quanto à sua estrutura profunda diríamos que as diversas versões têm um plano do conteúdo similar. Elas se diferenciam plasticamente entre si, todavia o conteúdo subjacente é o mesmo. Vimos a percepção do Ser/Não Ser semióticos (ex: os EUA e os Outros, o conhecido/desconhecido, e outros). Há também o Ser/Parecer que, ideologicamente, equivaleria às relações EUA/Empire States, EUA/Sujeito da ação, e outros valores culturais metafóricos ou duais da interpretação discursiva existentes na forma intertextual.

A nação norte-americana – EUA insurge diante do “antagônico”. Através do sincrético “King Kong”, encontramos inúmeras oposições: nos termos “Empire States vs King Kong” emergem elementos que se valem de semas opositivos articulados ao modelo. Estas relações ensejam a possibilidade de uma semiótica de significações culturais, no qual sobredeterminam uma forma ideológica de poder. Consoante a dominação de uma superpotência político-econômica, nela subjaz, metamorfoseada, uma cultura que lhe faz oposição. Notadamente, neste filme explora-se a imagem da ameaça estrangeira - o mal que uma grande nação poderia eventualmente sofrer. Neste sentido, o gigantesco Kong é o Outro da destruição, do medo, e deste mal. Junto a esta oposição idealizada poderemos inferir alguns outros contrários que resultariam na apreensão e semiose de algumas relações lingüísticas, conforme um programa narrativo comum. São eles: pré-história/civilização, região desconhecida/região reconhecida internacionalmente, ilha do pacífico/ilha de Manhattan, animal gigantesco/construção maior do mundo, negro/branco, mal/bem, emoção/razão, fera/bela, natureza/engenharia, destruição/construção, queda do gorila gigante/queda do império americano, entre outros.

Esta análise contribuiu para uma explicação possível de um panorama singular que encontramos no memorável 11 de setembro de 2001. Estas relações idealistas atualizaram um imaginário prognóstico que terminou por acontecer realmente. Nesta data compactuam a ficção e a realidade na leitura da estrutura profunda manifesta. O simbólico das “Torres Gêmeas” prefigura, junto ao “Empire State”, os mesmos valores dinâmicos da ficção que culminaram na escalada aos Edifícios e o ataque aéreo final, com a queda de King Kong - de um lado, e a das “Torres Gêmeas” de outro. Ideologicamente, surgem outras conotações que a imagem se apropria para induzir a cisão do actante rechaçável. King Kong ritualiza o enfrentamento do Bem com o Mal. Ademais, qualquer símbolo pode significar muito mais do que a coisa em si, neste sentido a queda das Torres Gêmeas foram uma afronta gritante que continua a repercutir entre nós. As conturbações políticas são mais convulsivas na aparência de um significante indigesto do que sobre o significado daquilo que representaria sua alteridade. Assim, a destruição terrorista do “World Trade Center”, com o choque de aviões em sua estrutura, foi na verdade um ataque à fonte de um poder central estabelecido e também gerador do confronto.

Palavras-chave: 11 de setembro, Alteridade, Cultura, King Kong, Semiótica

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