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Março 08, 2008

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Estive no último final de semana em uma reunião dos organizadores de áreas de uma conferência importante sobre visão computacional. O processo de avaliação desses eventos é interessante, dadas as restrições. Em primeiro lugar, tem um número muito grande de artigos submetidos: em torno de 1600. A organização para seleção dos artigos começa pelos chairs da conferência no topo (3 chairs). Abaixo deles existe um grupo de Area Chairs, cobrindo as diferentes áreas (em torno de 34). Finalmente, cada artigo passa por 3 revisores externos (total de quase 4800 revisões...). Aproximadamente 1/3 dos artigos são aceitos.

 

O processo é bastante delicado e todo cuidado é pouco. Trata-se de artigos do mundo todo. Todas as pessoas, de lugares e culturas diferentes, querem obviamente ver seu artigo aceito. Todo tipo de drama e jogo de emoções está em jogo, desde vaidades de professores e líderes de grupo até a angústia de doutorandos querendo ver seu trabalho passar.  

 

O processo de avaliação é mais ou menos assim: em primeiro lugar, a conferência adota o sistema double-blind review, o que quer dizer que os revisores e os Area Chairs (AC) não sabem que são os autores e vice-versa. O intuito é, obviamente, tornar o processo menos dependente das pessoas e mais do conteúdo do artigo em si (nem sempre, isso é possível, mas em geral, funciona bem). Os únicos que conhecem tudo (autores, revisores, area chairs) são os 3 Chairs da conferência.  Esses chairs designam um grupo de artigos para cada AC. Cada AC indica 3 revisores para cada artigo (eu recebi 43 artigos). Uma vez tendo as revisões, as enviamos aos autores, que podem rebater as críticas levantadas.

 

Ocorre, então, uma reunião em que todos os AC se encontram (este ano, foi na University of Central Florida, em Orlando). Vem gente do mundo todo, quase 50 pessoas. Os ACs são divididos em dois níveis: pares de ACs são criados, ie cada AC ganha um "buddy" (chapa, companheiro, bro :). Grupos de buddies são reunidos em painéis (6 a 8 pessoas). O processo então é:  cada AC verifica a documentação (artigo, avaliações, resposta-aos-revisores) e sugere uma decisão (aceita/rejeita). Tendo feito isso, as decisões de cada AC são mostradas e discutidas com o buddy (e vice-versa). Questões conceituais ou casos espinhosos (eg submissão duplicada, situações limite, problemas éticos) são discutidos com todos do painel. No final de dois dias de trabalho, todos os artigos têm suas decisões sugeridas e justificadas.

 

A etapa final consiste nas decisões finais dadas pelos Chairs, que observam as decisões sugeridas pelos ACs para detectar anomalias ou casos mal justificados. As decisões finais são, então, anunciadas. 

 

 

Palavras-chave: avaliação por pares, conferências, processo de divulgação científica, publicações

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Postado por Roberto Marcondes Cesar Junior | 2 usuários votaram. 2 votos | 1 comentário

Agosto 18, 2007

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que de tempos em tempos conversam sobre como a evolução da ciência e da tecnologia está destruindo a cultura humana, as relações sociais, as crianças, a humanidade. De minha parte, em relação à evolução da cultura humana (incluindo aí, tudo,
inclusive tecnologia), sempre fico com a impressão que não conseguimos
capturar tudo que vai acontecendo com o mundo, e isso acaba por nos angustiar
um pouco. As crianças e os mais jovens, que vão crescendo imersos em estágios
diferentes dessa cultura (quer queiramos ou não, é impossível evitar),
conseguem apreender mais efetivamente as novidades. Olhando para trás, vejo
que muita gente se angustiou no passado, mas que o ser humano achou muitas
vezes caminhos alternativos que não levaram à catástrofe prevista. Por outro
lado, é verdade que algumas vezes a catástrofe chegou, como o final de
civilizações que se auto-destruíram, como o povo da Ilha de Páscoa, os Maias
ou os anasazis no Novo México. Na minha opinião, a ciência e a razão (e não
sua negação) são nossas melhores armas para detectar problemas, compreendê-los
e propor soluções.

Pensei em angústias passadas e me lembrei do Bunuel, que nasceu e cresceu em
Calanda na primeira metade do século XX. Ele uma vez disse que uma coisa ruim
que inventaram foi o registro fonográfico (ie discos). A razão é que, na
pequena cidade onde ele morava, uma vez por ano, passava uma orquestra para
fazer um concerto, e aquele dia era aguardado o ano todo. Era uma sensação
fantástica, pois eles só podiam escutar a orquestra 1 vez por ano e tinham que
aguardar o resto do ano! A tecnologia destruiu aquela sensação, pois as
pessoas passaram a poder ouvir aquela orquestra (e outras...) qualquer dia do
ano.

Lembrei-me, também, de outra angústia mais antiga ainda: existe um mito
egípcio que dizia que a escrita tinha sido um presente dos demônios para a
humanidade. A razão é que, antes da invenção da escrita, as pessoas tinham que
exercitar o cérebro para memorizar as coisas importantes. Os demônios tinham
presenteado a humanidade com a escrita para que o ser humano se tornasse
preguiçoso, ao não precisar mais memorizar as coisas escritas, e assim seu
cérebro atrofiasse.


ps: conto essas história de cabeça, pois já faz mto tempo que as li. Perdoem-me as imprecisões históricas, mas a essência, acho, está aí.

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Agosto 17, 2007

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...em ranking mundial de produção científica: http://jc.uol.com.br/tvjornal/2007/08/14/not_132979.php

 

De vez em quando vem alguma notícia mais animadora... Esses rankings costumam refletir um fato importante em relação ao sistema universitário brasileiro: temos apenas algumas poucas universidades com bom padrão de pesquisa (mas, ainda precisamos caminhar muito para chegar a um excelente padrão de pesquisa em termos internacionais). Temos dois desafios importantes: melhorar ainda (muito) mais a pesquisa realizada nessas melhores universidades e criar condições para que outras possam aparecer. 

 

Infelizmente, o típico no Brasil é pensar o contrário: dar um jeito de piorar o que está funcionando melhor.  

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Agosto 10, 2007

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um caso sério de doença na família? Tais situações são sempre delicadas, o momento que se descobre, como cada pessoa reage, as implicações, os desdobramentos. Dentre as diferentes coisas que pode-se fazer para ajudar a todos (o doente e o resto da família), sempre me pareceu importante que pessoas com treino científico, que conhecem a importância do racional, possam agir de maneira positiva, estudando o que puder sobre a doença, suas causas, gravidade, tratamento, etc e contando, com jeitinho, tudo isso. Isso pode parecer insensibilidade para muitos, mas eu às vezes percebo como isso ajuda. Quando conversado de maneira amiga, isso auxilia na compreensão da situação, pode tranqüilizar, pode unir. O ponto de vista científico é extremamente natural no sentido de nos ver como parte da natureza. Um vírus ou bactéria agindo são também parte da mesma natureza, e estão apenas fazendo o que sabem fazer, programados por milhares de anos de evolução. Existe uma engrenagem em movimento, somos parte natural dessa engrenagem. E, ao compreender essa engrenagem, podemos, inclusive, muitas vezes, alterar seu funcionamento, curando, diminuindo o sofrimento, fazendo o que está ao nosso alcance. Quando a cura está fora do alcance, essa abordagem ajuda a compreender o porquê, e ajuda a aceitar a ordem natural.

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Agosto 03, 2007

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Bom, este post vem atrasado, devia ter anunciado *antes* do evento, para dar chance de mais gente ir ("Who wants yesterdays papers", já perguntavam Jagger & Richards :). Bom, mas já que não deu antes, vai atrasado mesmo. Hj terminou o 26 Coloquio Brasileiro de Matematica no IMPA (http://www.impa.br/opencms/pt/eventos/extra/2007_coloquio/). Eita, festa bonita! Esses colóquios são muito 10, chance ótima de encontrar gente e conversar. O colóquio sempre tem um clima ameno diferente de conferências em gera, não sei dizer exatamente por que. Tem algo de velhos e novos amigos se encontrando e discutindo coisa interessante, sempre achei isso. O fato de sempre atrair muitos estudantes provavelmente ajuda muito nesse clima. Eu e meu amigo Alejandro, da UFAL, organizamos a sessão de Computação Gráfica desta vez ( eis a programação). O colóquio este ano comemorou 50 anos, o que não é pouca coisa!

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Julho 24, 2007

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Notícia recente sobre o Centro de Tecnologia Linux (LTC) IBM - UNICAMP

http://www.estadao.com.br/tecnologia/not_tec23558,0.htm

Um aspecto positivo que sempre me chama atenção em tais notícias é que parcerias como essa representam uma boa oportunidade de atrair pessoas brilhantes para a pesquisa e para o desenvolvimento de tecnologia. Boas universidades são feitas de sua matéria prima mais fundamental: pessoas pesquisando, ensinando e aprendendo. Quando a universidade perde a capacidade de recrutar gente capaz de realizar essas atividades de maneira competente, começa a cavar o próprio declínio. No Brasil, perdemos freqüentemente a chance de recrutar pessoas boas nessas atividades por várias razões (isso não vale só para Ciência da Computação, embora seja especialmente verdade nessa área). Esse tipo de parceria representa um modo concreto pelo qual pode-se atrair jovens brilhantes para a pesquisa em parceria com a universidade mas que não possuem interesse, em princípio, de seguir uma carreira acadêmica.

 

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A minha foi escalar o Pico das Agulhas Negras, no Parque Nacional do Itatiaia:

 

 

 

 

 

 

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Julho 04, 2007

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"[...] A busca pela verdade científica em contraposição à cultura do irracional sempre esteve presente na história humana. No caso das ciências há demonstrações claras dessa luta intestina nos dois últimos séculos. As conseqüências da universidade moderna na Alemanha se fizeram ver de maneira absolutamente clara no século 19. Era uma universidade baseada sobre o mérito. Seu sucesso foi tal que a Alemanha ultrapassou, em técnica, a própria Inglaterra, venceu a França nos campos de batalha e a cultura científica alemã teve em seus estertores, no início do século 20, a representação maior da ciência moderna. A língua teutônica passou a ser a língua da ciência na época. A química alemã era a primeira. [...]" O texto do prof. Elcio Abdalla pode ser lido http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2007/jusp801/pag02.htm

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Junho 23, 2007

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Semana passada foi a última antes do início das provas finais em uma das disciplinas que estou ministrando (MAC115, Introdução à Ciência da Computação para a Licenciatura em Física, este semestre). Como sempre, ouvi muitas perguntas tipo "isso cai na prova?" e pedidos tipo "a prova vai se fácil?" Eu já tenho respostas prontas para essas perguntas que se repetem: "sim, isso cai na prova" (para qq coisa que perguntarem Piscar)  e "eu não procuro bolar provas fáceis, procuro sempre criar provas justas". 

O dia que abrirmos mão de procurar avaliação acadêmica na USP, estaremos colocando a universidade rumo à sua ruína, ou seja, perda de credibilidade. Se seu pai ou sua mãe estiverem seriamente doentes, você gostaria que um médico que estudou em  uma universidade com provas fáceis cuidasse deles? Se um dia você tiver filhos (se ainda não tem), gostaria que eles estudassem com professores que se formaram em faculdades com provas fáceis? A avaliação de mérito acadêmico na universidade torna as atividades de alunos e de docentes diferentes da maioria das outras atividades no mundo, é isso que diferencia um ambiente de excelência. Ah, não estou colocando alunos e docentes em campos opostos (avaliados e avaliadores, respectivamente), muito pelo contrário. Estou dizendo que ambos devem ser continuamente avaliados: alunos em relação ao conhecimento que aprendem e docentes em relação ao conhecimento de qualidade que criam, mantém e transmitem.

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Junho 19, 2007

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Outro dia, mencionei a importância de a universidade discutir e definir objetivos para tentarmos nos colocar entre as melhores universidades do mundo. Eu tenho algum material colecionado sobre critérios de avaliação, formas de atuação e planos traçados por algumas grandes universidades mundiais. Vou disponibilizar, de tempos em tempos, o material aqui, na medida que for encontrando. Recomendo sua leitura, é bastante instigante! Por outro lado, mostra que as grandes universidades internacionais não estão paradas, nos esperando chegar, mas muito pelo contrário, estão se mexendo rapidamente. Nosso desafio não é dos mais fáceis!

Um material interessante é o ranking do Times Higher Education. A USP era a única universidade brasileira nesse ranking em 2005, mas caímos fora em 2006 (a variância na borderline deve ser grande, o que explica tais flutuações. Eis a versão de 2006: http://oglobo.globo.com/educacao/arquivos/melhoresuniversidades

Tem uma cópia do ranking de 2005 aqui: http://www.alnaja7.org/success/Education/times_world_ranking_2

Este aqui é interessante, trata-se das universidades ibero-americanas: http://investigacion.universia.net/html_inv/ri3/ri3/jsp/params/pais/baa.ht

Uma experiência interessante é a iniciativa alemã para identificação aprimoramento de centros de excelência: http://www.bmbf.de/en/1321.php

 

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Divulguei outro dia umas transparências que usamos no curso em Lisboa. Criamos uma pg com quase todo o material do curso, incluindo os artigos estudados, em:

http://www.vision.ime.usp.br/~cesar/talks/gulbenkian07/

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Junho 15, 2007

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http://www.vision.ime.usp.br/~cesar/album/europaBioinfo2007/PDBCGrou

 

Ah, antes que me esqueça, cds baratos comprados na viagem: Tom Waits Swordfishtrombones, Bob Dylan Highway 61 Revisited (sim, isso mesmo, how does it feel, to be on your oooown), AC/DC Highway to Hell.  

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Último dia de curso em Lisboa¸ yes! O curso foi bem legal, mas estou com bastaaaaaante saudade de casa... Amanhã estou de volta! Ah, coloquei umas transparências (reconhecimento de padrões e análise de dados de SAGE) que usamos no curso aqui: http://www.vision.ime.usp.br/~cesar/talks/gulbenkian07/

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Junho 11, 2007

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Estive em Barcelona 6a passada, onde visitamos um centro de pesquisa em doenças tropicais (principalmente malária) e apresentamos nosso trabalho sobre criação de redes gênicas a partir de dados do Plasmoium falciparum. No sábado, antes de vir para Lisboa, pude visitar o Museu de la Ciència de Barcelona. Putz, que museu! Criaram uma reprodução da floresta amazônica impressionante, em um tanque com parte de água incluindo peixes, jacarés, pássaros e uma parte da vegetação. Os experimentos de física e biologia são extremamente divertidos, trata-se de divulgação científica de primeiríssima linha em um prédio muito lindo e interessante.

 

museu 2

museu 3

museu 4

Museu de La Ciencia 1

 

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Junho 09, 2007

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Trouxe Colapso, de Jared Diamond, para leitura nesta viagem. Jared Diamond é professor de geografia na UCLA e discute problemas (ambientais, comerciais, diplomáticos, etc) que levaram ao colapso de diferentes civilizações na história da humanidade. Além do tema ser muito interessante e atual, o livro é um belo exemplo de análise racional / científica de eventos do homem e do mundo que o cerca: suas análises envolvem a integração de conhecimentos de geografia, história, antropologia, ecologia, sociologia, química e por aí vai... Estou lendo o capítulo que fala da civilização da Ilha de Páscoa, no pacífico (aquela das grandes estátuas moai.

 

Refs: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jared_Diamond

 

ps: ueeeba, estou com acentos novamente! Sorriso

 

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Junho 08, 2007

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A palestra em Lyon foi muito legal, surgiram umas discussões bem interessantes sobre vantagens e desvantagens da entropia (que usamos para selecionar genes), sobre validação biológica dos resultados, etc. Além desse aspecto mais técnico, gosto muito das visitas a outros grupos de pesquisa no mundo. A estrutura da pesquisa na França possui algumas particularidades interessantes, como algumas organizações que se sobrepõem (universidades, faculdades e departamentos + laboratórios e equipes).  Em particular, o CNRS (o CNPq da França) possui muitas carreiras de pesquisadores que trabalham espalhados em toda a França. Os laboratórios e equipes podem ser grandes, podendo se distribuir em diferentes campus. Um aspecto muito importante é que os laboratórios possuem uma verba que é renovada a cada n anos (n=3 ou 4, acho) com base em avaliações do CNRS (a avaliação inclui uma visita ao laboratório por membros de comissões de avaliação, ie pares-cientistas). Laboratórios mal avaliados podem ter sua verba cortada. A avaliação por mérito é um dos componentes fundamentais para a construção de qualquer sistema de pesquisa científica, e esse tipo de controle sobre os laboratórios deve ajudar a explicar a força da pesquisa científica na França.

 

Por outro lado, a preocupação de alguns pesquisadores franceses no momento está voltada para as mudanças anunciadas pelo presidente recém-eleito, mudanças essas que podem levar a uma competição desnecessária entre universidades e a busca por "pesquisas voltadas para interesses imediatos". Bem, são todos elementos que já se mostraram inadequados para os verdadeiros fins da universidade: gerar conhecimento científico, gerir tal conhecimento e transmití-lo (incluindo, obviamente, a transmissão para os alunos que nela estudam). A universidade não tem estrutura para gerar e comercializar produtos ou para resolver problemas de um país, essa é uma grande ilusão de muitas pessoas (principalmente de fora da universidade). Esperemos que as mudanças anunciadas pelo futuro governo francês não venham atrapalhar (ao invés de ajudar) esse que é um dos melhores sistemas de pesquisa do mundo... 

 

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Junho 05, 2007

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(continuo sem acentuacao, desculpem-me) Comecei domingo passado uma viagem de 2 semanas a Europa voltada  para pesquisa  em bioinformatica, organizada pela pesquisadora Marie-France Sagot e composta de 3 partes: visita ao  grupo de Bioinformatica da Université Claude Bernard, Lyon I (Lyon), visita ao amigo e colaborador Hernando del Portillo em Barcelona e, finalmente, trabalho no programa de doutorado em biologia computacional na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Na verdade, o trabalho em Lisboa eh o principal motivo da viagem, onde eu e meu amigo Junior Barrera vamos ministrar um curso de metodos de processamento de sinais e reconhecimento de padroes em para analise de expressao genica. Depois eu conto um pouco mais!

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Junho 02, 2007

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Infelizmente, estou com um computador em que nao acertei ainda a acentuacao em portugues. Tenham paciencia comigo, tah?

 

Estamos no meio de uma agitacao universitaria envolvendo greve, invasao da reitoria, etc. Ta todo mundo falando disso e, entao, nem preciso resumir a historia aqui. Mas, eu queria falar de um ponto de vista diferente. Os estudantes tem uma energia enorme, e isso explica porque eles conseguiram dobrar o governo e faze-lo voltar atras em seus decretos.

 Me parece que as boas universidades brasileiras, alem dos desafios usuais, tem alguns muuuuuuuuuito mais dificeis, e poucas pessoas pensam nisso: voce jah parou para pensar se pudessemos construir universidades que estivessem entre as melhores universidades do mundo? Me pergunto o que os estudantes, com toda sua energia positiva, fariam se comecassem a refletir e a exigir que os responsaveis (principalmente pesquisadores e administradores) colocassem as universidades brasileiras dentre as top no mundo.  Infelizmente, isso esta bem longe da reflexao atual do movimento estudantil, mas creio que seria um excelente ponto de pauta, e como eu gostaria de discutir isso com todos!

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Estive no açougue hoje e enquanto esperava que o seu Moacyr cortasse e limpasse uma maminha para a freguesa na minha frente, pude aproveitar para conversar com ele. Seu Moacyr me explicava, com muita convicção e com a mesma precisão com que tirava as pelancas da maminha, que os males do mundo tinham uma só fonte principal: a "automação". No centro de todo esse processo estava o computador, cérebro da automação. Sua tese é que a automação de processos leva ao desemprego que, por sua vez, leva à desestruturação da família, aos problemas pessoais, à criminalidade, às drogas, ao narcotráfico, ao terrorismo, e por ai vai. Esse tipo de cadeia de causas e conseqüências me fez pensar no calote do malandro levando a conseqüências sentidas pelos ianques na Ópera do Chico.

Me fez também pensar na demonização da ciência e da tecnologia, a la Unabomber. Não tenho muita certeza de por que as pessoas pensam assim, mas imagino que possa ter a ver com o temor das conseqüências ruins que a ciencia já trouxe para a humanidade, como a bomba atômica ou as armas químicas. A ciência tem talvez, nessa discussão, uma analogia interessante com a cerveja: se mal usada, pode trazer muita tristeza. O alcoolismo é um dos maiores problemas de diversas famílias hoje em dia, com adolescentes comecando a se viciar muito cedo (12 anos ou menos!), adultos que não conseguem se controlar e desestruturam famílias, etc. Mas, por outro lado, é igualmente inegável que inumeras pessoas já tiveram muuuuuuitos bons momentos em torno de uma boa e gelada garrafa de cerveja ou de uma taça de vinho. Acho que o mundo seria um lugar bem mais sem graça se não tivessemos inventado a cerveja!

A ciência é um pouco assim, mas de maneira amplificada: sua utilização errada pode trazer muitos problemas sérios. Na verdade, nos casos extremos, avanços científicos trazem morte, podendo mesmo levar à destruição completa do planeta e de todos os seres que nela vivem. Mas, isso não significa que o mundo estaria melhor sem ela! Isso atravessou minha mente muito rapidamente e, por isso, decidi continuar a conversa, enquanto ele se preparava para cortar uns bifes para mim: "Seu Moacyr, deixe-me te falar de um certo senhor Malthus e uma lei matemática pessimista que, felizmente, não se concretizou..." :-)

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(mensagem de julho de 2005) Estou de férias e, como de hábito nesse período, encontro várias pessoas diferentes das que costumo ter contato durante o semestre. O que quero dizer é que encontro muito mais gente de fora do meio niversitário.

Uma pergunta que sempre ouço refere-se a sobre o que estou fazendo e,
ao responder que trabalho na USP, querem saber se "apenas dou aula" ou
se faço mais alguma coisa. É bem interessante, essa história. Eu não
sei muito bem qual a imagem que as pessoas de fora da universidade têm
do dia-a-dia de um cientista que atua efetivamente na
universidade. Por exemplo, tentar fazer pesquisa com padrão
internacional é algo que dá muito, muuuuuuuito trabalho. Eu imagino
que eu dedique umas 9 ou 10 horas por dia à pesquisa. Sem exagero. Não
sei se as pessoas de fora da universidade têm idéia que seja assim. É
por isso que fazer pesquisa de qualidade dá tanto trabalho e é tão
difícil.

Eu provavelmente gasto menos de 20% do meu tempo de trabalho com aula,
seja preparando ou ministrando. Com certeza, a atividade que mais me
absorve é a pesquisa. E é também o que eu mais gosto de fazer. Na
verdade, não existe uma única atividade de pesquisa, mas várias:

* reflexão: essa vem em primeiro lugar, ou seja, pensar. Tem dois
tipos: quando estamos pensando durante a realização de alguma outra
atividade, ou quando estamos apenas pensando. Por exemplo, quando
estou programando, ou escrevendo um artigo, a reflexão acontece
normalmente focada nos problemas encontrados na programação ou na
redação. Por outro lado, às vezes estou só pensando, sem fazer outra
coisa associada, como programação ou redação. Minhas duas atividades
prediletas para refletir, nesse contexto, é caminhar e almoçar. Por
isso, adoro caminhar e almoçar sozinho.

* elaboração de rascunhos de idéias: eu tenho vários cadernos, e adoro
rabiscar e escrever idéias neles. Por isso, sempre carrego um caderno
na minha bolsa, além der ter uns dois em casa, mais uns dois na USP,
etc. Gosto realmente bastante de poder pensar, desenhar e redigir
idéias e equações sobre problemas que estou interessado. Nada como
papel e caneta! Quando olho em retrospectiva, vejo que muitas boas
idéias que se concretizaram em artigos e teses de meus alunos nasceram
de algum rabisco nesses cadernos. Uma outra coisa que adoro fazer é
rabiscar essas idéias enquanto assisto a alguma palestra ou
apresentação de trabalhos em congressos.

* leitura (artigos e livros): isso é o que chamamos de "food for
thought", ou seja, alimento para o pensamento, para a reflexão. Existe
uma metáfora bem interessante para o conhecimento científico que se
baseia na idéia do desconhecido, daquilo que ignoramos. Imagine que o
desconhecido seja representado por um campo de alguma vegetação, como
cana-de-açucar ou trigo:

dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd

O conhecimento é como um foco de chama lançado em algum ponto desse
campo:

dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddCdddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd

A área queimada é uma região que o desconhecido morreu, que foi limpa
pelo conhecimento:

dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
ddddddddddddCCCddddddddddddddd
ddddddddddddCCCddddddddddddddd
ddddddddddddCCCddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd

Na medida que o tempo evolui, a área queimada vai aumentando, ou seja,
a área coberta pelo conhecimento vai aumentando gradativamente:

dddddddddddddddddddddddddddddd
ddddddddddddddCCCCdddddddddddd
ddddddCCCCCCCCCCCCCCCCdddddddd
ddddddCCCCCCCCCCCCCCCCCddddddd
ddddddCCCCCCCCCCCCCCCCCddddddd
ddddddCCCCCCCCCCCCCCCCCdCddCdd
dddddddCCCCCCCCCCCCCCCCCdddddd
dddddddCCCCCCCCCCCCCCCdddddddd
ddddddddCCCCCCCdCCCCCddddddddd
dddddddddddddddddddddddddddddd

Esse processo define três regiões interessantes: o desconhecido, o
conhecido (cientificamente) e a fronteira entre os dois. Os bons
cientistas procuram trabalhar na fronteira do conhecimento, ou seja, à
beira do desconhecido. A meta é avançar o conhecimento! Podemos
imaginar o conhecimento científico avançando como uma onda. A ambição
de parte dos cientistas no mundo é surfar a crista dessa onda!

E o que tem a leitura de artigos científicos e livros a ver com isso?
Bom, na verdade, é bem simples. Para que se possa andar na fronteira
do conhecimento, você precisa descobrir onde está essa
fronteira. Quais os conhecimentos que já foram obtidos? Quais os
problemas em aberto para os quais não se conhece ainda uma solução,
uma teoria, um modelo, um algoritmo? O cientista deve acompanhar a
literatura para descobrir onde está a onda que deseja surfar.

* redação de artigos: O item anterior explicou a importância de
descobrirmos onde está a fronteira do conhecimento através da leitura
de artigos e outros textos científicos. Uma outra implicação
interessante decorre desse fato: é preciso que os cientistas que
consigam avançar o conhecimento compartilhem seus avanços com o
restante da comunidade! Existem diferentes maneiras de fazer isso, mas
a maneira mais confiável, estável e ampla é através da publicação de
seus resultados em periódicos científicos, anais de conferências e
livros. Essa é uma das atividades que mais recebem esforço e tempo de
trabalho dos bons cientistas. E, acredite, dá muuuuuuuuuito
trabalho. A publicação de um texto científico em um fórum de qualidade
reconhecida internacionalmente é o ápice do processo de avanço do
conhecimento. Um verdadeiro prêmio para o cientista que se esforçou
muito, muitas vêzes por anos, para avançar o conhecimento em algum
ponto específico.

* programação: Eu realizo pesquisa em ciência da computação (você
lembra em qual blog você entrou, né ;-). Por incrível que pareça, a
pesquisa em CC via de regra envolve programar computadores ;-). Isso
costuma gastar muito tempo e esforço, também. E só quem faz isso
regularmente, e para valer, sabe quão difícil pode ser. É interessante
notar que a criação e disponibilização pública de programas
(bibliotecas, toolboxes, plugins, etc) é também uma maneira de
disseminar o conhecimento.

Essa lista de atividades dos cientistas da computação ainda não
acabou. Depois eu concluo comentando sobre os aspectos abaixo:

* discussão com alunos:

* colaborações científicas:

* reuniões científicas:

* preparação de apresentações:

* avaliação de artigos:

* preparação de projetos e obtenção de verba:

* manutenção do laboratório:

* burocracia:

* transferência de conhecimento para a sociedade:

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