(esqueceu?)

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Agosto 01, 2007

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Postado por Rafael Sampaio
Lançado em São Paulo para protestar contra a crise do setor aéreo, o movimento "Cansei" dividiu a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Enquanto o presidente da OAB paulista, Luiz Flávio D'Urso, define o 'Cansei" como um movimento cívico, apartidário e apolítico "a favor do povo brasileiro, da cidadania e do Brasil", o presidente do OAB fluminense, Wadih Damous, classifica o protesto como um movimento golpista e de extrema-direita.

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OAB do Rio diz que movimento 'Cansei' é golpista

O Globo - 31/07/2007

BRASÍLIA - Lançado em São Paulo para protestar contra a crise do setor aéreo, o movimento "Cansei" dividiu a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Enquanto o presidente da OAB paulista, Luiz Flávio D'Urso, define o 'Cansei" como um movimento cívico, apartidário e apolítico "a favor do povo brasileiro, da cidadania e do Brasil", o presidente do OAB fluminense, Wadih Damous, classifica o protesto como um movimento golpista e de extrema-direita.

- A OAB do Rio lembra que, em determinados momentos da vida nacional, a extrema-direita já se assanhou, como agora está se assanhando novamente, e que isso não fez bem ao país. O 'Cansei' é um movimento de fundo golpista, estreito e que só conta com a participação de setores e personalidades das classes sociais mais abastadas do estado de São Paulo - afima.

Segundo Damous, a OAB do Rio não considera esse movimento de caráter nacional. Diz que a seccional da Ordem cobra a regularização dos serviços do sistema aéreo e tem defendido os usuários, como na proposta de instalação de Juizados Especiais nos aeroportos, mas frisa que o movimento tem provocado reações até mesmo de setores conservadores esclarecidos. Segundo ele, o 'Cansei' estaria tentando tirar proveito do acidente com o avião da TAM para fazer política.

- É, na verdade, um movimento estritamente paulista. A OAB do Rio de Janeiro quer, sim, e cobra das autoridades rigorosas investigações em relação ao lamentável acidente da TAM no aeroporto de Congonhas. No entanto, não aceita que essa tragédia seja utilizada de forma golpista das classes mais abastadas de São Paulo - afirma.

http://oglobo.globo.com/pais/mat/2007/07/31/297053276.asp

Palavras-chave: brasil, Cansei, direita, esquerda, política

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Julho 31, 2007

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Postado por Rafael Sampaio

 

Eu me pergunto o que quer esta gente que organiza um protesto como o tal "Cansei". O Brasil não mudou muito desde a gestão de Fernando Henrique Cardoso, e as classes ricas continuam sendo as principais beneficiadas pelos investimentos públicos. Não houve qualquer tentativa do governo em fazer programas sérios de distribuição de renda - o que há são apenas políticas sociais compensatórias e assistencialistas.
A tão-falada corrupção já existia antes do governo petista, e havia atingido o descalabro durante o segundo mandato de FHC. Podemos dizer que ela persiste com Lula porque ele fez uma concessão aos setores mais conservadores, incluindo alianças com partidos de direita e notoriamente corruptos como o PTB e o PMDB (esse principalmente nos estados do Norte, Nordeste e no Rio de Janeiro, com Anthony Garotinho).
As grandes obras de infra-estrutura continuam a todo o vapor, incluindo os investimentos no setor privado. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) beneficiará principalmente os governos e municípios tucanos, como os de São Paulo e de Minas Gerais.
O valor do dólar continua baixíssimo, os juros continuam altos e está em curso um programa de Parceria Público-Privada (PPP) em diferentes setores do país. No âmbito das universidades públicas, o desmonte continua e o financiamento do setor privado se deu através de um programa de renúncia fiscal, o chamado Prouni.

Nunca as grandes classes ricas tiveram tanta oportunidade na história do país, exceto talvez durante o governo tucano. O que eles querem? Poder político? Querem derrubar o governo????

Não precisa disso tudo, é só deixar que o curso natural da História siga e que o governo desgaste sua imagem, por ter que fazer concessões cada vez mais para as elites e por se afastar do povo e dos movimentos sociais. asta ver quem são os atuais 'manda-chuvas' do governo, quase todos alinhados com o que há de mais conservador na política e com a antiga gestão FHC: Nelson Jobim, Geddel Vieira, Hélio Costa, Henrique Meirelles, Márcio Fortes...

Além da ridicularização a que a campanha "Cansei" está sendo submetida pela sociedade (e a reboque segue a grande imprensa, certa de que se aplaudir o "Cansei" levará ovos também), cabe ressaltar aqui os aspectos de caricatura que têm certos organizadores do protesto. O empresário João Dória Júnior, um dos principais arrecadadores e financiadores da campanha de Geraldo Alckmin à presidência, concedeu a seguinte entrevista à Revista Veja há algumas edições.

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"Meu estilo João Doria Júnior"

Conhecido pelo dom de reunir convidados famosos em festas e eventos empresariais, João Doria Jr., de 47 anos, faz questão de manter seu visual tão impecável quanto suas duas mansões, uma nos Jardins e outra em Campos do Jordão. Só usa camisas feitas sob medida (quase todas com colarinho italiano e monograma) e ternos Ermenegildo Zegna. Generoso, quando um serviço lhe agrada, não economiza nas gorjetas.

Veja - Você tem algum cuidado especial com a aparência?

João Dória Jr - Além de fazer a barba pela manhã, no decorrer do dia costumo passar um barbeador elétrico no rosto para não ficar com a aparência cansada e desleixada.

Veja - E o cabelo, como faz para mantê-lo sempre assim, no lugar?

João Dória - Uso gel, mas não coloco muito. Tomo cuidado para que o produto seja sem álcool ? aprendi que álcool faz mal ao cabelo.

Veja - Como é o seu guarda-roupa?

João Dória - Os ternos são de Ermenegildo Zegna. Tenho blazers dele e outros de Paul & Shark. As camisas eu faço sob medida no Agostinho, um camiseiro impecável. Tenho o cuidado de pedir colarinho italiano: custa o mesmo preço, mas deixa o homem mais elegante na foto.

Veja - Você usa monograma em suas peças?

João Dória - Sim, "JDJ". As camisas já vêm do Agostinho com a minha marca.

Veja - Vai muito a restaurantes?

João Dória - Almoço pelo menos duas vezes por semana no Parigi e uma vez no La Tambouille.

Veja - Você costuma dar gorjetas?

João Dória - Dou, especialmente quando sou bem tratado. E nesses lugares que mais freqüento, no fim do ano, presenteio todos os garçons, maîtres, porteiros. Um pequeno gesto de lembrança faz uma grande diferença. E garante sempre um bom serviço.

Veja - É verdade que no Rancho Doria, sua mansão em Campos do Jordão, ao voltar de um passeio a pé, os hóspedes antes de entrar na sala têm seus tênis limpos por um empregado?

João Dória - Fazemos de tudo para ter a qualidade de um hotel cinco-estrelas. Tenho um bom time que poderia muito bem trabalhar em qualquer hotel dessa categoria. Eu e a Bia (sua mulher, a designer de jóias Bia Doria) gostamos muito de receber. As pessoas que convidamos para ficar lá são sempre muito bem tratadas e usufruem esse tipo de cuidado, sim.

Veja - Onde você faz consumoterapia?

João Dória - No supermercado. Gosto especialmente de dois aqui em São Paulo: o Pão de Açúcar da Gabriel Monteiro da Silva e o Empório Santa Maria.

Veja - E fora do Brasil?

João Dória - A Fauchon, em Paris, e a Dean & DeLuca, em Nova York.

Veja - Coleciona cartões de crédito?

João Dória - Tenho todos. Acho que é a forma mais segura e melhor de pagar as contas.

Veja - E relógios?

João Dória - Uso três ou quatro modelos. O favorito é um Rolex que era do meu pai. Cada vez que o coloco no pulso, sinto o pulso dele.

Palavras-chave: cansei, corrupção, direita, Lula, Política, PT

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Postado por Rafael Sampaio | 3 comentários

Julho 23, 2007

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Postado por Rafael Sampaio

Nesta entrevista concedida com exclusividade à Carta Maior, Fred Zeroquatro fala do novo álbum, cujo nome faz uma alusão ao célebre 'Combat Rock', do grupo de punk inglês The Clash. Além do disco, que deve ser lançado em breve, Zeroquatro faz um inventário do movimento Mangue Beat desde os seus primórdios e traça um balanço da nova cena musical pernambucana.

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'Combatsamba' será o mais novo trabalho do
Mundo Livre S/A


Maurício Reimberg e Rafael Sampaio – Carta Maior


Em entrevista concedida para a Carta Maior, Fred Zeroquatro, líder da banda Mundo Livre S/A, fala sobre o novo projeto do grupo, que ainda não tem data para ser lançado. O nome já está definido, assim como a imagem de capa. “A coletânea vai se chamar Combat Samba: Doze Anos Assaltando o Trem das Onze”, revela Zeroquatro.

O álbum Combat Samba será composto de canções como Meu Esquema, Super Homem Plus, Negócio do Brasil, Loirinha Americana e Samba Esquema Noise, sempre no estilo rítmico que marca muitas músicas da banda: o samba-canção. O novo projeto do Mundo Livre, entretanto, tem um problema maior a vencer: a resistência das gravadoras multinacionais.

O vocalista informa que a banda tem pensado em lançar uma coletânea há algum tempo. “Já conversamos com uma gravadora. Estamos esperando que o nosso selo, o Ôia Records, fique mais estruturado para ter uma distribuidora que banque o trabalho”, diz.

Nesta segunda parte da entrevista concedida com exclusividade à Carta Maior, Fred Zeroquatro, além de falar do novo trabalho a ser lançado em breve, faz um inventário do movimento mangue beat desde que foi lançado até os dias atuais e traça um balanço da nova cena musical pernambucana.

Carta Maior - Qual o novo projeto do Mundo Livre S/A?
Fred Zeroquatro - Estamos numa briga para lançar uma coletânea com fonogramas dos primeiros discos, que estão fora de catálogo. Músicas dos álbuns: Samba Esquema Noise, Carnaval na Obra, Guentando a Ôia, que não conseguimos recuperar. Os fonogramas ainda são das gravadoras multinacionais e das editoras que distribuíram na época. Porque quando você está fora das panelinhas das grandes gravadoras, eles dificultam mais para liberar os fonogramas.

A coletânea vai se chamar Combatsamba: Doze Anos Assaltando o Trem das Onze. Temos o conceito de capa. Queremos faixas como Samba Esquema Noise, Free World, Ultrapassado, Negócio do Brasil, Super Homem Plus, Loirinha Americana. Queremos músicas que sejam sambas politizados.

Alguns sambas, também, do álbum Manuela Rosário e tem que entrar Soy Loco por Sol. Já conversamos com uma gravadora. Estamos esperando que o nosso selo, o Ôia Records, fique mais estruturado e que consigamos uma distribuidora que banque o trabalho.

Desde 2001, vemos que o caminho é ter completo controle sobre a nossa obra. Se o Mundo Livre for gravar um disco ao vivo ou um DVD, vai ter que ser com músicas desde o Manuela Rosário porque não temos controle dos fonogramas produzidos antes, estão todos sob controle das gravadoras.

CM – O mangue beat morreu?
FZ - Críticos que eu admiro, do Rio de Janeiro e de São Paulo, chegaram a anunciar o fim do mangue beat, em frases como: “todo o potencial da cena musical de Recife morreu naquele acidente com Chico [Science]”.

Depois, nós do Mundo Livre soltamos um manifesto na internet chamado “Quanto vale uma vida?”, em que explicamos a precipitação desses críticos e colunistas, que mostra o quanto eles desconhecem o circuito musical complexo de Recife.

Eu comparo o que aconteceu [ao Chico Science] com o destino de Bob Marley e Peter Tosh na Jamaica. Da mesma forma, Science tornou-se uma espécie de ícone, de mártir. E toda aquela galera que acompanhou o início da cena musical de Recife sentiu-se cúmplice dele, em uma espécie de guerrilha, uma revolução. Algo no sentido mais cultural, cuja marca é a renovação.

CM - Segundo o DJ Dolores, “o mangue beat morreu quando a imprensa foi atrás de novidades”. Você pensa dessa forma?
FZ - Esse tipo de polêmica com o DJ Dolores criou um clima de isolamento. Ele começou a perder diálogo com todo mundo em Pernambuco. O primeiro clipe do Mundo Livre S/A foi dirigido por ele. Somos amigos desde a época de punk rock. Mas o Dolores sempre foi de muitas polêmicas.

A mídia diz que a “nova geração” não liga para Pernambuco. Mas, desde o início do nosso grupo, não levantamos a “bandeira de Pernambuco”, nem tocamos tambor de maracatu. Na verdade, a gente tem um vínculo maior com o samba do que o maracatu.

CM - Mas a cena musical pernambucana já foi apelidada pela mídia de pós-mangue...
FZ - É a necessidade da mídia em ter o novo. Tentaram vender a tese de que novas bandas não têm a influência do mangue beat. A gente achou isso esquisito. Só que, recentemente, passamos a encontrar mais os membros das bandas novas, porque começaram a tocar em festivais maiores. Para a minha surpresa, eles vem me falar de Chico Science.

O pessoal do Mombojó me disse: “A gente tirava som do Mundo Livre toda hora na garagem”. A imprensa tenta alimentar polêmica, porque cria assunto. Desde o início, o mangue beat é a diversidade, sempre foi. No primeiro disco da nossa banda havia hardcore.

O Mundo Livre S/A nunca precisou tocar tambor. Aliás, sofremos pressão da gravadora no nosso primeiro disco, dizendo: “Vocês tem um contrato na hora que quiserem, mas tem que botar um tambor, isso e aquilo”. E o grupo recusou, entendeu?

Há pouco tempo fizemos dez anos de manifesto, dez anos do primeiro disco. Pela primeira vez surge um movimento musical que não é um movimento. Um gênero musical que não é gênero. Um manifesto que não é manifesto. É um release. E ao mesmo tempo colocou uma cidade [Recife] no mapa da música pop.

CM – Vocês sofreram algum tipo de cerceamento da imprensa por causa desta postura libertária que sempre assumiram?
FZ - Nós, do Mundo Livre S/A, somos boicotados pelos meios de comunicação de Recife, pelas rádios e até pela TV Universitária. A despeito disso, o público não pára de crescer e hoje os filhos da primeira geração [do mangue beat] continuam indo aos nossos shows.

É um pouco parecido com o que houve na Jamaica e com o que aconteceu em Salvador depois da Tropicália. Você acha que se Gilberto Gil houvesse sofrido uma morte trágica na década de 60, teria deixado de existir os Novos Baianos? Não, porque a Tropicália é uma coisa que mexeu com o inconsciente coletivo de toda uma geração.

CM – O que há de novo na cena pernambucana?
FZ - O Mundo Livre S/A tem mais contato com as bandas que estão emergindo. Há uma banda cujo disco atual foi produzido pelo nosso baixista, o Areia, e que já está no segundo álbum. O nome da banda é "Maciel Salu e o Terno no Terreiro", que é inacreditável. O ano passado eu subi no palco durante o show deles no Sesc Pompéia. É ótimo em termos de sonoridade e de show.

Da cena underground de Recife, tem o grupo Variante, que é uma coisa mais moderna, puxando pro dub, pro ska. O Coquetel Molotov é um coletivo de produtores, que tem programas de rádio, selo de álbuns, festivais, revistas. São jovens universitários que dominam totalmente a técnica para mobilizar o público, para realizar shows, captar recursos.

O Coquetel Molotov tem uma curadoria fantástica. A revista é linda, a melhor que eu já vi. Muitas bandas de Recife estão vinculadas a estes produtores. Tem o Rádio de Outono, tem o Superoutro, tem o grupo Volver. São muitas bandas na cena musical recifense. Tem uma, que eu gosto muito, chamada Azabumba, que logo vai chamar a atenção da mídia.

Há uma cena undergound na capital e no interior de Pernambuco, dividida em estilos, como hip-hop e o choro. Do interior do estado, eu destacaria a banda Sangue de Barro. No caso do samba e do choro, da musica instrumental, eu destacaria a banda Choro Brasil, que lançou recentemente um disco com a cantora recifense Mônica Feijó, produzido também pelo nosso baixista.

Há circuitos fortes em Recife de acordo com o estilo. Há blues, jazz, samba, choro. Se eu nomear mais bandas, vou acabar sendo injusto com muita gente. Há uma segunda geração depois da nossa, muito boa, que continua com o mesmo estilo e não é “pós-mangue-beat”. São bandas como Eddie, Bonsucesso Samba Clube, o ex-vocalista do Jorge Cabeleira, chamada Itacarina, que lançou disco agora...

CM - Você falou das novas gerações em Recife. Mas na sua opinião, a “velha guarda” conseguiu se renovar? Vocês conseguiram se renovar do primeiro cd para cá?
FZ - No caso do Mundo Livre, tem uma marca da banda que remete a essa coisa da letra, do verso temático. O mundo insiste em repetir-se de forma tão tediosa que fica difícil a gente variar tanto de tema quanto há muitas coisa em que se aprofundar. Como diria Chomsky, persistem “as novas e velhas ordens mundiais”. Ou seja, o colonialismo e o imperialismo retorna com roupagens diferentes. Então mudamos as expressões, os termos e o ritmo, mas os temas continuam. A canção assinatura do primeiro disco, Samba Esquema Noise, diz que ou você explora o próximo ou o próxima a você. Abordamos variações desse tema, que é humano, político e irônico. Basta ver Soy Loco por Sol.

Em termos de sonoridade, no caso do Mundo Livre há algo bem evidente, que até a própria formação da banda mudou. Primeiro houve a saída do Otto, depois trocamos o baixista em 2003 e o percussionista também. Esse disco, Bebadogroove, que foi gravado no ano passado reflete explicitamente essa nova formação da banda. O Mundo Livre nunca teve tanto “groove”, tanta fluência de criar batidas e de compor coletivamente. Houve um tempo em que, além de ser letrista, eu concentrava a coisa da criação da harmonia e da melodia. Às vezes chegava com o repertório do disco inteiro pronto e a banda preparava o arranjo depois. Na fase atual, nós nunca tivemos tanto entrosamento em termos de composição.

Quanto mais a gente vem assumindo a autonomia sobre a condução da nossa carreira, paradoxalmente isso tem trazido uma interação cada vez maior com o circuito de música independente. Nunca tocamos em tanto festival independente quanto agora. Como reflexo disso, foi a primeira vez em 12 anos de discografia que tocamos no Norte do Brasil. Tocamos no festival Sines lá em Belém. No ano passado, fizemos 34 shows e, neste ano, terminamos o mês de setembro com 40 e poucos shows nas capitais e no interior, em regiões que não visitávamos nem quando éramos o primeiro lugar com um clipe na MTV, quando éramos de gravadoras grandes, mixadas em Los Angeles etc.

CM - Há 12 anos, quando surgiu o Mundo Livre S/A e o Nação Zumbi, a música brasileira vivia um momento de tédio. Você acha que nos encontramos em um novo tédio?
FZ - Hoje eu vejo um cenário mais interessante para a música brasileira do que há 12 anos. Até porque houve uma desconstrução do modelo da indústria fonográfica. A indústria vem sendo inviabilizada por uma série de fatores, como as novas tecnologias. Por conta disso, surge uma reconfiguração das cenas musicais. Os circuitos locais de música e arte ganharam visibilidade e autonomia.

Tanto é que cada vez mais existem festivais independentes de música pelo Brasil. Os organizadores dos festivais, inclusive, conquistaram uma entidade representativa, a Abrafin [Associação Brasileira de Festivais Independentes, criada em dezembro de 2005]. A Abrafin está se articulando para oferecer apoio para a realização de novos festivais. Paralelamente, os selos alternativos utilizam as novas tecnologias com propriedade e entraram de vez na internet.

link da entrevista: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=13090

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Junho 23, 2007

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Postado por Rafael Sampaio
Mautner é o criador de canções como "Lágrima Negra" e “Maracatu Atômico”, regravada por Chico Science. Uma parceria com Caetano Veloso rendeu-lhe o álbum "Eu não Peço Desculpa". O compositor também escreveu dez livros, como "Dança da Chuva e da Morte" e "Kaos com K".

 

Jorge Mautner, o grande artista do Kaos


Rafael Sampaio – Carta Maior

Jorge MautnerRIO DE JANEIRO - Henrique George Mautner, mais conhecido como Jorge Mautner, iniciou sua carreira artística em 1958, quase por acaso. “Fui artisticamente descoberto na Revista Diálogo, onde textos meus foram publicados por Paulo Bonfim, Guilherme de Almeida e pelo filósofo Vicente Ferreira da Silva”, afirma ele, em entrevista à Carta Maior concedida durante a Bienal de Arte e Cultura da UNE.

“Filiei-me ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1963 e publiquei minha saudação a Brasília, que é o livro Kaos. Antes mesmo da cidade estar pronta, estive por lá, em 1958 e 1959”, afirma Mautner, que segue como um dos mais vigorosos artistas de sua época.

Premiado com o Jabuti de Revelação Literária, em 1962, pelo livro Dança da Chuva e da Morte, Mautner participou do Tropicalismo, movimento artístico tupiniquim capitaneado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Gal Costa, entre outros. Conhecido pela alcunha de “artista maldito”, Mautner inspirou-se nos hippies e no movimento beatnik para criar, escrever e compor.

Autor de dez livros, como Kaos (1963), Narciso em Tarde Cinza (1965), Vigarista Jorge (1965), Fragmentos de Sabonete (1973), Sexo do Crepúsculo (1982) e Floresta Verde Esmeralda (2002), Mautner ainda é poeta, cartunista, violinista, pianista, compositor, artista plástico, cineasta e cantor. Há três meses, ele lançou uma autobiografia, chamada O Filho do Holocausto, na qual conta detalhes de sua vida que até então permaneceram obscuros.

Seu lado mais famoso é o de compositor musical. Mautner é considerado um dos mais gravados compositores em vida no Brasil. Dentre as suas criações, estão as músicas Lágrimas Negras, gravada por Gal Costa; O Rouxinol e Herói das Estrelas, gravadas por Gilberto Gil; e também Maracatu Atômico, que fez história na década de 70 e retornou como sucesso retumbante na voz e na ginga de Chico Science, morto há exatos dez anos em um acidente automobilístico.

Dentre tantas criações de Jorge Mautner, encontra-se o filme O Demiurgo, considerado por Glauber Rocha como “o melhor filme já feito sobre o exílio”. Gravada em Londres em 1970, esta película reúne diversos artistas expulsos do país, como Jards Macalé, Dedé Veloso, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Leilah Assunção, Roberto Aguilar, Sandra Gadelha e o próprio Mautner, em uma trama chamada pelo artista de “chanchada filosófica”.

Hoje, Mautner mantém o Pontão da Cultura do Kaos, que já visitou 22 pontos em cinco estados do país (São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Rio Grande do Norte). As apresentações performáticas de Mautner e Jacobina, montadas com causos, poesias e canções, abordam temas históricos que inspiram novos olhares sobre o mundo. No próximo dia 10 e fevereiro, fará a primeira apresentação do Pontão de Cultura do Kaos de 2007. O evento, aberto ao público, acontecerá às 15h no Instituto Pensarte (Alameda Nothamnn, 1029), e terá a participação do maestro Jacobina e do músico Jean Kuperman.

Leia a entrevista exclusiva que Mautner concedeu à Carta Maior:

Carta Maior - O que você acha que está sendo feito de mais importante, em termos de cultura afro-brasileira, no Brasil?
Jorge Mautner - A cultura afro-brasileira inaugurou, desde uma nova possibilidade de mundo, uma nova visão, que é algo além da mistura e da miscigenação. É um amálgama, nas palavras de Jorge Caldeira [autor do livro Noel Rosa, de Costas para o Mar], que não foi só feito com a independência de José Bonifácio em 1823, mas foi muito mais.

O amálgama brasileiro é reinterpretado a toda hora. E existe uma absorção dos elementos que compõem esta alquimia, sejam eles indígenas, negros, europeus. Os bantos [grupo étnico africano] logo se misturaram com os índios e inventaram o Cururu [dança típica do Mato Grosso, organizada nas festas de São Benedito], o Cateretê ou Catira [típico do interior de São Paulo e Minas Gerais], e também esse amálgama criou a nossa viola caipira, e o nosso samba, que é antiqüíssimo.

É bom lembrar a obra artística maravilhosa de Abdias Nascimento, que foi homenageado aqui, na Bienal da UNE. E também lembrar que a cultura negra invade tudo. O que é o Rock n’ Roll? O que é Rhythm and Blues?

Veja você: o próprio Pavarotti quer cantar com o Caetano Veloso. Então, hoje em dia, a cultura negra tem uma abrangência enorme. A nossa música, assim como o futebol, tem ginga afro-brasileira. É a manha e a artimanha, e isso me lembra a capoeira, que é uma arte marcial inacreditável.

Muita gente acha que a capoeira é só música e luta, mas não. Há uma linguagem simultânea, tríplice, que mistura a brincadeira, a dança, e a luta também. Ou seja: quando hoje se fala em multiplicidade, em simultaneidade, no mundo digital e quântico, basta olhar para a nossa cultura e vamos ver que isso já existe há muito tempo. Nossa cultura renova-se sempre, apesar de ter raízes antigas. Veja o hip-hop, o funk e o rap.

Quero lembrar, inclusive, que o rap é literatura. Se a letra foi abandonada em outros estilos musicais, como a música eletrônica, com o rap a letra ganha importância. A letra está ligada às crises sociais, mas também às crises existenciais.

Não existe mais essa separação do gênero musical, como quando comecei minha carreira: “eu faço letra de música social” ou “eu produzo música individual”, não, hoje em dia tudo está amalgamado, e o melhor, que é com clareza total.

O Brasil é um gigante que se fingiu de invisível até agora. Mas não dá mais. Ou o mundo brasilifica-se, ou vira nazista. Nós somos a chave para compreender o futuro. Não é só o futebol, a música, as artes... É como já disse: “Jesus de Nazaré, os tambores de candomblé”.

Na França, de onde vem a nata da realeza da Filosofia mundial, há um grupo de jovens que lançarão um livro chamado Teoria Rebelião conosco [do Ponto de Cultura do Kaos]. Estes jovens se intitulam “Os Sem-Filosofia” e estão desesperados com a situação mundial. Eles pedem auxílio aos artistas e intelectuais brasileiros para acabar com a terrível “compartimentação do conhecimento” que vitimou os europeus.

CM - O que dizer do maestro Julio Medaglia [criador do arranjo musical de “Tropicália”, canção de Caetano Veloso], que considera o hip-hop e o rap como “anti-música” por não haver melodia, apenas um ritmo monocórdico?
JM – Acho estranho, porque o funk, o rap e o hip-hop são de uma grande sofisticação, porque vão além da música tradicional. Tudo no Brasil começou como o mangue beat, que reúne a dissonância da música eletrônica e o ritmo dos tambores recifenses.

Agora, pense: o rock quando surgiu era considerado pecado, considerado subversivo, mas nunca deixou de ser ouvido pelas pessoas. Indo além: o próprio samba era proibido pelo governo federal, até o início do Estado Novo, por ser altamente subversivo. Na década de 30, no Brasil, você poderia ouvir chorinho, lundu, modinha, mas o samba era um perigo.

Está aí a origem do nome da primeira escola de samba do Rio de Janeiro, “Deixa Falar”, da qual faz parte o músico Luiz Melodia e que hoje se chama Escola de Samba Estácio de Sá.

CM – A propósito do tema “Deixa Falar”, você foi o primeiro artista brasileiro a ser exilado e um dos primeiros a ter sua obra censurada. Conte um pouco dessa época.
JM - Eu fui artisticamente descoberto em 1958 na Revista Diálogo, onde textos meus foram publicados por Paulo Bonfim, Guilherme de Almeida e pelo filósofo Vicente Ferreira da Silva. Em 1962, recebi o prêmio Jabuti de Revelação Literária, com Deus da Chuva e da Morte. Eu conto tudo isso numa autobiografia recente, publicada pela editora Agir, chamada O Filho do Holocausto.

Bom, em 1963, eu me filiei ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e publiquei Kaos com K, que para mim é uma saudação para Brasília. Antes mesmo de a cidade ficar pronta, estive por lá, em 1958 e 1959. Na época eu também escrevia uma coluna no jornal Última Hora, chamada de Bilhetes do Kaos. Um ano depois do golpe, em 1965, publiquei dois livros,
Narciso em Tarde Cinza e o famoso Vigarista Jorge; por causa deles e por um disco com as músicas Radioatividade e Não, Não, Não eu fui enquadrado na Lei de Segurança Nacional.

Fui exilado para Nova York, depois para o México e depois fiquei sabendo que Caetano Veloso e Gilberto Gil estavam em Londres. Lá, em 1969, eu os encontrei e filmei uma chanchada-filosófica chamada O Demiurgo, que tem vários artistas no elenco, incluindo os dois e eu mesmo.

Caetano e Gil sempre quiseram voltar para o Brasil. Mas o comando da ditadura estava com os militares “linha-dura”, com [Garrastazu] Médici no poder. E os partidos não acreditavam que o regime estivesse chegando ao fim. Então a linha moderada do regime militar deu um sinal de que nós, artistas, poderíamos voltar para acelerar o processo de redemocratização. Então eu, Gil e Caetano chegamos ao Brasil em 1972.

CM – Enquanto você esteve no exílio, o regime militar chegou a monitorar suas atividades?
JM– Sim. Havia um sujeito que me procurava a toda hora, pedia meu endereço, e dizia ser meu fã, em Nova York. Eu recebia a visita do companheiro Roberto Schwartz, do PCB, uma vez por mês. Esqueci de dizer, mas fiz parte do Partidão por 30 anos.

Bom, lá nos EUA, eu continuei minhas atividades políticas e reunia-me com os Panteras Negras, com os Students for a Democratic Society e outros grupos. A minha esposa, a Ruth, desconfiava desse sujeito que me seguia, ela dizia haver algo estranho. O sujeito disfarçava bem, porque conhecia a minha produção artística e também tinha uma “bagagem artístico-literária”.

Anos depois, em 1985, eu já estava no Brasil e participei de um show no Rio de Janeiro. O tal sujeito foi me procurar no show para dizer: “Você lembra de mim? Naquela época, eu estava em missão pelo SNI [Serviço Nacional de Inteligência] e acabei virando seu fã”. Foi uma história engraçada. Além desse fato, eu sabia que havia espiões da ditadura seguindo de perto os passos de Gil e de Caetano, em Londres.

CM – Como ex-militante do PCB, qual tua opinião sobre a pauta racial dentro da esquerda brasileira, nos anos 1960? Pergunto isso porque foi tema de um debate ocorrido aqui na Bienal da UNE.
JM – O problema é o seguinte: a concepção do Partido era européia, e ele atuava no plano abstrato. Para o Partido, estas questões raciais eram alienadas. Não podia haver etnia, isto era coisa dos fascistas. Então, na esquerda, existia esse preconceito errado, que limitava a nossa atuação. Limitou a tal ponto que alguns setores da esquerda negavam o indivíduo e o desejo de prazer.

Eu vou lembrar aqui o Leon Trotsky que, na véspera de sua morte, nos últimos escritos publicados no México, fez uma autocrítica. Ele assume que errou muito ao menosprezar a importância das etnias, do indivíduo, dos nacionalismos locais e das culturas. Acho que foi o grande erro dele, que era o mais abstrato e internacionalista de todos os revolucionários. Enfim, ele mesmo admitiu isso por escrito.

Não tenho dúvidas de que o turbilhão existencialista, a realidade tão múltipla, a realidade aguda do ser humano, foi negada por tradição. É, de certa forma, uma herança do colonialismo. Existia esse favorecimento da erudição, do militante que é doutor e dos que não são doutores.

Mas acho que tudo isso foi refeito no Brasil, de um jeito ou de outro. Porque aqui é a nação onde há o amálgama da predominância negra na sociedade, incluindo na esquerda. Aqui o candomblé foi reinventado e na África ele é imanentista, geográfico. Por uma genialidade, no Brasil, foram criados os arquétipos muito antes de Carl Gustav Jung [psicanalista suíço].

CM – Mautner, conte para nós sobre seus mais recentes projetos com os Pontos de Cultura.
JM – Pois é, tem o Ponto de Cultura do Kaos, onde eu trabalho. E desde março do ano passado estou visitando vários Pontos pelo país todo, viajando para a Amazônia, para Brasília, para São Paulo, para Goiás, para Pernambuco, para Pirinópolis, para Natal...

O primeiro Ponto de Cultura que visitei foi em Belém do Pará, para encontrar o mestre Verepeto, um ícone do carimbó [dança indígena surgida na Ilha de Marajó]. Depois fui para a pequena cidade de Abaetetuba [localizada no Pará], em que fiquei duas semanas para ver os remanescentes de quilombos.

Visitei Pontos de Cultura na zona da mata do Recife, como o terreiro de Xambá [primeiro quilombo urbano de Pernambuco]. Trata-se da única casa de candomblé com uma memória histórica preservada, com lembranças das perseguições sofridas. Há até um museu, em um dos andares da casa. Também na zona da mata, eu conheci muito do maracatu.

É impressionante o que você encontra pelo Brasil afora. Em São Paulo eu encontrei um Ponto de Cultura evangélico, cuja música tradicional é o reggae. Trata-se de uma novidade antropológica sem fronteiras. Neste lugar, Nelson [Jacobina] e eu tocamos música de candomblé, de umbanda, e todos os presentes nos acompanharam e cantaram. Cada Ponto de Cultura vai além da imaginação, o entusiasmo é total e o amor pelo Brasil é absoluto, mas não é xenófobo, é de um otimismo inacreditável.

Palavras-chave: África, Caetano, cinema, cultura, literatura, MPB, música, Tropicália

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Postado por Rafael Sampaio

Pois é meus amigos, estou aqui aprendendo como funciona o Stoa, que tem muito mais ferramentas do que um simples blog. Já percebi que vai servir para pesquisas de trabalho e também para me comunicar com outros colegas e camaradas espalhados pelo universo virtual uspiano.

Apesar de até agora só ter publicado artigos e reportagens que envolvem temas estritamente políticos e polêmicos com relação à universidade, em princípio eu penso em alimentar o Stoa com notícias diversas, desde resenhas de livros, críticas de filmes, entrevistas com artistas e também com professores da universidade.

Espero, pelo menos por enquanto, fugir destes debates polarizados em termos de política, como foi com relação à ocupação da Reitoria da universidade. Eles são muito polêmicos e fazem as pessoas agirem de forma muito emotiva, defendendo uma posição como se estivessem torcendo para um time de futebol.

O que não quer dizer que eu não acredite em um mundo mais justo, mais igualitário, com menos desigualdades sociais. Enfim, acredito em um outro mundo possível, como ensina a frase-síntese do Fórum Social Mundial.

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http://www.cartamaior.com.br/templates/blogMostrar.cfm?blog_id=1&

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22/06/2007

USP: um movimento vitorioso


A greve e invasão da Reitoria da USP chega a seu final com vitória dos estudantes, funcionários e professores mobilizados pelos interesses públicos da universidade. Fazia tempo que um movimento dessa ordem não conseguia tanta adesão – das três categorias -, tanta repercussão política, tanta simpatia da população e, como resultado, uma vitória tão clara.

Seus participantes diretos estão de parabéns, deram uma lição de mobilização popular, de espírito de defesa da universidade pública, de criatividade de métodos de ação e de capacidade de negociação política – intermediados pela excelente comissão de professores que serviram como facilitadores. A USP, seus professores, estudantes, funcionários, tem que sair muito contentes e incentivados a seguir na organização e na luta pelo fortalecimento do caráter público da USP.

Grande parte das reivindicações internas à USP foram conseguidas, foi freado o projeto do governador de São Paulo para violar mais ainda a autonomia universitária, foi impedida a intervenção militar preparada pelo governo tucano no campus da universidade, foi chamada a atenção sobre a situação da USP e ficou claro que há força entre os estudantes, professores e funcionários, para defender os interesses da universidade. O que não é pouco em tempos de grandes desmobilização – em particular da juventude -, de ataques sistemáticos às universidades públicas – veja a violenta ação da polícia em Araraquara -, de ideologia da privatização do ensino, de mídia que desqualifica tudo o que é público, de desvalorização das mobilizações e das lutas de massa diretas.

O ódio concentrado da direita e de seus porta-vozes, a ação totalitária da mídia contra a mobilização servem para confirmar como ela tocou em um ponto sensível do neoliberalismo – a autonomia das universidades públicas – e como incomoda ao coro uniforme dos papagaios bushistas na imprensa oligárquica. Saem derrotados, uma vez mais.

É assim que se combate ao neoliberalismo. Com um Congresso como o do MST, em Brasilia, com 18 mil participantes fazendo um balanço sério e profundo das lutas pela reforma agrária e elaborando novo plano político e de massas para dar seguimento a suas lutas –que são as de todo o Brasil – e com mobilizações como a de 50 dias na USP. A ação desinformadora da mídia oligopólica, o enfoque redutivo nos escândalos no Congresso, a desqualificação de tudo o que não seja neoliberal – saem derrotados dessas mobilizações. Querem demonstrar que as lutas não valem a pena, que estão derrotados de antemão, que não há força contra o poder do dinheiro e o do monopólio da palavra que pretendem exercer.

Quando as lutas unificam, fortalecem a confiança em todos de que governos prepotentes como o de São Paulo podem ser derrotados, que as mobilizações populares previsam ser revigoradas, com uma nova plataforma anti-neoliberal, que articule reivindicações dos mais amplos setores sociais, que concentre seus esforços na ruptura do modelo predominante e proponha não apenas objetivos, mas meios pelos quais chegar até eles.

O pós-neoliberalismo terá no fortalecimento da esfera pública um eixo fundamental de reorganização do Estado e de sua relação com a sociedade no seu conjunto. Nessa direção, a vitoriosa luta dos estudantes, funcionários e professores da USP pode ser um passo na construção da força social e política do movimento popular brasileiro.

Palavras-chave: Emir, governo, neoliberal, ocupação, política, pública, Sader, universidade, usp

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Junho 18, 2007

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Polícia na USP é 'mais do que autoritarismo' , diz filósofa

A renomada filósofa Olgária Matos e outros 300 intelectuais firmam abaixo-assinado no qual rejeitam a 'ação violenta de desocupação do prédio [da Reitoria]' da USP. Para ela, os estudantes deram 'uma aula de democracia ao poder instituído na universidade'.

Rafael Sampaio - Carta Maior

SÃO PAULO - Signatária de um abaixo-assinado que pede novas negociações da reitora Suely Vilela com os estudantes que ocuparam a Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), no campus Butantã, em São Paulo, a professora titular de Filosofia, Olgária Matos, chama de "absurda" a hipótese de a Tropa de Choque realizar o despejo forçado da ocupação. Olgária é especialista em filosofia política e História da Filosofia, com enfoque no iluminismo. Ela lançou livros como "Discretas Esperanças".

Assim como Olgária, outros 300 professores da USP assinam a petição e rejeitam "qualquer ação violenta de desocupação do prédio [da Reitoria], tendo em vista a justeza de sua causa política em defesa da universidade pública". Dentre os que assinam o documento estão os professores Antonio Candido, Alfredo Bosi, José Miguel Wisnik, Marilena Chauí, Franklin Leopoldo, Luiz Tatit, Paulo
Arantes, Maria Victoria Benevides e Leda Paulani.

"Em vários países do mundo, a universidade está a salvo das ingerências policiais, porque ela é a única capaz de garantir pensamento livre", diz Olgária, para quem as "novas idéias" não podem ser limitadas.

"É claro que muitos professores não acham [a ocupação] uma atitude que deve ser promovida ao status de arma política ou forma de luta política", pondera a professora. Porém, ela faz questão de lembrar que "enviar a Polícia Militar, neste caso [de ocupação], é como intimidar um movimento civil, intelectual e político dos estudantes".

Confira, abaixo, a edição das melhores partes da entrevista:

Carta Maior - Como a senhora vê uma provável desocupação da reitoria da universidade mediante uso da força policial?
Olgária Matos - Seria gravíssimo se isso viesse a acontecer. Parece-me que o significado das reivindicações dos estudantes é legítimo, o que deve ser discutido com a Reitora e não com a Polícia Militar.

Acredito que esta ocupação foi uma fórmula para estes jovens darem uma aula de democracia ao poder instituído na universidade. Eles devem ter consciência total ou parcial do que está acontecendo, e assim se faz o difícil aprendizado democrático que as autoridades universitárias não conseguem entender.

CM - A senhora, que tem uma longa história na universidade, já presenciou este tipo de ação da Polícia Militar dentro do campus?
Olgária - Eu só me lembro da ocupação do prédio da Maria Antônia [batalha ocorrida em outubro de 1968 entre estudantes de Filosofia da USP e da Universidade Mackenzie]. Foi o dia mais triste da história desta instituição e de todas as universidades do Brasil, se você quer saber.

CM - Qual o significado simbólico da presença da Polícia Militar no campus? Trata-se apenas de autoritarismo?
Olgária - Não é autoritarismo, é pior. Porque quando há autoritarismo, ele previne muitas vezes o uso da força policial, porque já faz [implicitamente] o papel de polícia. Não é que os policiais sejam maus. Mas o que significa a presença da polícia armada dentro de um campus, sendo que as nossas únicas armas são os livros e o pensamento?

É muito grave, porque se ocorrer isso, serão armas desiguais, e o recinto universitário é um lugar que fica distante do conflito armado urbano. Enviar a Polícia Militar neste caso é como tentar intimidar um movimento civil, intelectual e político dos estudantes. Seria responder a isso com a força bruta, então é totalmente absurdo.

CM - A senhora diz que as reivindicações são legítimas. O que pensa da ocupação na Reitoria?
Olgária - Eu acho que os estudantes que lá estão têm consciência de que eles não representam todos os estudantes, todos os professores e todos os funcionários da universidade. Se eles discutiram e na dinâmica do movimento estudantil foi decidido assim, não cabe a nós julgar.

Não sei, mas talvez eles se sintam desatendidos e não encontraram quem intermediasse as suas reivindicações. Acho que [ocupar] foi uma atitude extrema, mas toda esta politização amadurece e ensina. Todas as reuniões, estas discussões, tudo isso esclarece a consciência dos atos dos alunos. Isso amadurece a vida política da universidade e dos estudantes. Antes de avaliar se é legítimo ou não, acho que vale olharmos a politização que o ato teve e em como isso vai ficar na história da universidade.

CM - Existe um consenso dentre os professores de que utilizar a força policial para fazer a desocupação da Reitoria é desnecessário?
Olgária - Os professores não querem violência na desocupação. O que não é consenso é sobre a ocupação ou não da Reitoria. Há professores que crêem que ocupar este prédio é um excesso de ativismo. Simbolicamente é um lugar muito importante, é o lugar da autoridade, a Reitoria, que é necessária para coesão de toda a vida universitária.

É claro que há muitos pofessores que não pensam que [a ocupação] é uma atitude que deve ser promovida ao status de arma política ou forma de luta política.
Agora, parece que as últimas gestões da Reitoria e das direções dos cursos vêem os estudantes como uma parte desprezível ou secundária na vida universitária. Na verdade, a razão de ser da USP é a docência e a pesquisa, que não são duas coisas separadas.

A docência existe, então é essencial existirem aulas. Eu acho que os estudantes são a matéria nobre da instituição, e vejo uma desconsideração [da Reitoria].

Se a reitora Suely Vilela marca uma audiência pública e não pode aparecer [primeira razão do protesto dos estudantes], ela deveria enviar alguém, um representante. Os estudantes não estão [fazendo a ocupação] em uma causa vazia.
Eles querem defender a universidade. Em vários países do mundo, a universidade está a salvo das ingerências policiais, porque ela é a única capaz de garantir pensamento livre. As novas idéias não podem ser cerceadas.

Então você tem que responder intelectualmente ao movimento estudantil, que está fazendo uma defesa da autonomia universitária. Não é só autonomia orçamentária, mas é de pesquisa e de deliberações. É uma questão de filosofia política séria.
E mais: é uma questão de dignidade institucional. Não dá para inverter uma lei que foi conquistada com muita luta dos docentes, depois de um longo período de ditadura. Ou seja, estes decretos causam uma reação instantânea de quem entende o que é a universidade.

A sociedade brasileira entende mal o papel de uma universidade, infelizmente.
Nosso país tem elites avarentas no seu conhecimento, que não querem compartilhá-lo com a sociedade. A universidade é mal-entendida, por isso há espaço para a reitora Suely não se dispor a negociar mais. Até agora, os professores tentaram fazer algumas comissões para negociar com ela. Mas Suely não recebe nem estes grupos, formados às vezes por professores universitários e intelectuais renomados.

CM - A senhora acredita que os decretos de fato ferem a autonomia universitária?
Olgária - Claro que ferem! Só a idéia de ter um decreto já fere a autonomia. Não dá para dizer o contrário quando existe uma rotina consolidada na universidade mais importante da América do Sul, e que acaba alterada desta forma.

A universidade sabe o que faz, o que precisa e o que conduz. Ela presta periodicamente contas ao governo, e sabe a dinâmica de seus cursos, de suas publicações, de suas relações com docência, pesquisa, extensão, os congressos, as relações com outras universidades, com o ensino superior estrangeiro. O governo que está fora dela vai deliberar se o que a universidade faz está correto ou não, se tem qualidade ou não?

O governo é uma instância burocrática político-administrativa externa à universidade, que tem que dialogar. Mas não é na forma de decreto que se cria esse diálogo. Fazer os decretos é uma expropriação das práticas e consciência universitária, isso é gravíssimo.

Estamos vivendo o fim da universidade pública, gratuita e de qualidade. Não é um ataque isolado. Trata-se de um processo maior do que o governo de José Serra (PSDB-SP), que é só um emissário desta situação [de mercantilização] das universidades.

Palavras-chave: Filosofia, imprensa, matos, ocupação, olgária, polícia, política, reitoria, USP

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