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outubro 11, 2007

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Postado por Rafael Prince

(texto publicado na Faculdade de Direito, no início de 2007)

 

“Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevete e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico.” (Antonio Prata – Meio intelectual, meio de esquerda)

Seria cômica se não fosse trágica a página central do último Pátio. No alto, encontramos declarações simplistas de uma gestão que busca se eximir de suas responsabilidades. Pouco abaixo, um texto em defesa da moradia, escrito pela mesma gestão, condenando a situação do Prestes Maia. Minha crítica é direcionada à hipocrisia e ao discurso vazio e não à defesa da moradia, que é uma atitude admirável.

A atual gestão lançou um documento contra a higienização do centro, e agora parece ser contraditória quando se manifesta a favor do fechamento da casa.

Por que os pobres da Sé são melhores que os nossos?

Por que se defende com tanto vigor uma posição do poder público, mas quando se tem a oportunidade de se realizar algo com as próprias mãos, simplesmente caímos no velho discurso da reserva do possível?

O XI passa por um momento de crise financeira, e ficam claras as suas prioridades. Se uma gestão dita de esquerda escolhe privilegiar baladinhas, certamente não é uma escolha “de esquerda”, nem democrática.

Desde que a Casa foi fundada, há mais de 50 anos, os presidentes do XI, representantes da pessoa jurídica dona do imóvel, sempre responderam por ele. Isso aconteceu em todas as gestões: a suposta “gestão de zoeira” da Escória se mostrou muito preocupada com o problema, a gestão “apática” do Resgate também. Todos tiveram suas posições firmes a favor da Casa. Já a gestão “de esquerda”...

Lembrando que a candidatura ao XI é voluntária e que se pode renunciar a qualquer momento, quando se acredita não estar pronto para as responsabilidades e exigências do cargo.

É muito fácil fazer caridade com o chapéu alheio. Para ilustrar o grau de esquizofrenia da gestão temos num texto sobre a Casa: “...o XI expediu um ofício proibindo a entrada de novos alunos na moradia” e logo depois: “Apesar de partirem de autores diferentes,” (inclusive do XI) “a retirada dos moradores de rua das praças do centro e as desocupações de cortiços e prédios assemelham-se muito ao despejo dos moradores do Prestes..” (e da Casa) “parte de um ação conjunta de valorização imobiliária que tem sido protagonista das políticas púbicas para o centro da cidade...”

É de profundo mau gosto ou da mais extrema ignorância a diferença na abordagem, quando se trata de responsabilidade da gestão. Para não deixar espaço pro discurso de vítima que teve um texto descontextualizado, convido todos a olharem a bizarrice ocorrida na página da gestão. Leiam os textos, comparem o tratamento, conversem com os envolvidos e percebam como nós, que não somos pobres autênticos, não temos direito de morar no centro... “E o pior é que tem gente que pensa assim.”

Renata Gomes - 4NP (moradora da Casa do Estudante)

Postado por Rafael Prince

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