Stoa :: Pedro Henrique Quitete Barreto :: Blog

Setembro 25, 2011

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O pretório que matou Cristo é o modelo da democracia liberal. Basta um apanhado de gente burra exigindo que se sacrifique a verdade, por algum motivo de "liberdade"; o Estado - Pôncio Pilatos - com medo, o faz. Mas sempre lavando as suas mãos. Se um sistema como esse não só mente, mas mata a própria Verdade encarnada, por que raios defendê-la? Democracia é o sistema político mais eficaz para destruir a verdade. Destruiu a representação da verdade dialética - Sócrates - e a verdade encarnada - Cristo. Qual dos dois quereis que eu vos solte, a Verdade, o Caminho, e a Vida; ou a Morte, o Assassinato, a Libertinagem? A sociedade liberal moderna responde: NÓS QUEREMOS A MORTE; NÓS QUEREMOS BARRABÁS.

Este post é Domínio Público.

Postado por Pedro Henrique Quitete Barreto | 1 comentário

Janeiro 15, 2010

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A nave voadora do professor Lúcifer silvava atravessando as nuvens como dardo de prata; a sua ponta, de límpido aço, refulgia no vazio azul-escuro da tarde. Que a nave se achava a grande distância da terra é dizer pouco; aos dois ocupantes parecia-lhes estar a grande distância das estrelas. O professor mesmo inventara a máquina de voar e quase todos os objetos do seu equipamento. Cada ferramenta, cada aparelho tinha, portanto, a aparência fantástica e atormentada própria dos milagres da ciência. Porque o mundo da ciência e o da evolução são muito mais enganosos, inominados e quiméricos do que o mundo da poesia e o da religião — nestes últimos, imagens e idéias permanecem eternamente as mesmas, ao passo que a idéia toda de evolução funde os seres uns com os outros, como sucede nos pesadelos.

Todos os instrumentos do professor Lúcifer eram os antigos instrumentos humanos levados à loucura, desenvolvidos em formas desconhecidas, esquecidos da própria origem, esquecidos do próprio nome. Aquela coisa que parecia uma chave enorme com três rodas era, em verdade, um revólver, patenteado e muito mortífero. Aquele objeto que parecia feito de dois saca-rolhas tortuosos era, em verdade, a chave. A coisa que teria podido confundir-se com um triciclo de pernas para o ar era o instrumento, de imponderável importância, a que servia de chave o saca-rolha. A todas essas coisas, como já disse, inventara-as o professor; inventara tudo quanto levava a nave voadora, com exceção talvez da sua própria pessoa. O professor nascera demasiado tarde para que a pudesse descobrir realmente, mas acreditava, ao menos, tê-la melhorado muitíssimo.

Ademais, ia naquele momento outro homem a bordo, digamo-lo assim. Tampouco a este, coincidência curiosa, inventara-o o professor, nem o melhorara grande coisa, conquanto o tivesse pescado tirando-o com laço do retiro do seu horto, na Bulgária ocidental, com o único desígnio de melhorá-lo. Era homem de extrema santidade, coberto quase por inteiro de pêlos brancos. Só se lhe podiam ver os olhos, e dir-se-ia que falava com eles. Monge de imenso saber e agudo entendimento, lavrara a sua felicidade, numa casucha de pedra e num pedregoso horto dos Bálcãs, escrevendo, antes de tudo, esmagadoras refutações e comentários de certas heresias, cujos últimos doutores, abrasados uns pelos outros, em geral, tinham perecido mil cento e dezenove anos antes, precisamente. Eram heresias muito plausíveis e meditadas; a circunstância de que o velho monge tivesse sido bastante sagaz para descobrir-lhes a falácia merecia estima e até glória; o que havia unicamente de mau era que no mundo moderno não havia ninguém capaz de lhe compreender os argumentos. Não obstante, o velho monge, um de cujos nomes era Miguel, e o outro um nome impossível de repetir ou de recordar na nossa civilização ocidental, conseguira, como já disse, plena felicidade enquanto vivera na ermida da montanha, em companhia de animais silvestres. E agora que o seu destino o subia mais alto que as montanhas, em companhia de um físico extravagante, também era feliz.

— Não me proponho, meu bom Miguel — disse o professor Lúcifer — a converter-te por meio de argumentos. A imbecilidade das vossas tradições pode ser demonstrada, a fundo, a qualquer pessoa que possua o mais superficial conhecimento do mundo, esse gênero de conhecimento que ensina a não expor-se às correntes de ar e a não entabular amizade com gente sem recursos. É loucura falar de tal ou qual demonstração da filosofia racionalista. Demonstram-no todas as coisas. Dando-nos com gente de todas as classes...

— Com o seu perdão — disse o monge, mansamente, de sob a carga de barbas brancas — receio não ter compreendido. Por acaso me pôs o senhor neste aparelho para que possa dar-me com gente de todas as classes?

— Réplica espirituosa, no modo dedutivo e mesquinho da Idade Média — retomou o professor, com calma. — Mas ainda no teu próprio campo vou demonstrar a questão. Subimos aos céus. Na tua religião, e em todas as religiões, que eu saiba (e sei tudo), o céu vale como símbolo de tudo quanto há de sagrado e de misericordioso. Pois bem: agora estás nos céus, e os conheces melhor. Chama-o como quiseres, desfigura-o quanto quiseres: tu sabes que os conheces melhor. Tu sabes agora qual o verdadeiro sentimento de um homem com respeito ao firmamento, quando se encontra sozinho no meio dele, rodeado dele. Tu já conheces a verdade, e a verdade é esta. O firmamento é mau, o céu é mau, as estrelas são más. Este espaço puro, esta pura quantidade aterram o homem mais que os tigres ou que a terrível peste. Tu sabes que, quando falou a nossa ciência, o céu ficou sem fundo. Agora o céu é coisa sem esperança, ainda mais sem esperança que qualquer inferno. Se há algum bem-estar para a vossa miserável progênie de macacos doentios, tem de ser na terra, debaixo de vós, sob as raízes da relva, onde esteve outrora o inferno. As criptas candentes, as lôbregas masmorras do mundo subterrâneo, a que antanho eram condenados os maus, são verdadeiramente horrendas, mas ao menos oferecem melhor abrigo que o firmamento por onde estamos a viajar. Virá o tempo em que ireis todos esconder-vos lá, para livrar-vos do horror das estrelas...

— Espero que me desculpe se o interrompo — disse Miguel, com uma tossezinha — mas sempre notei...

— Prossegue, peço-te. Prossegue — disse o professor Lúcifer, radiante. — Gosto verdadeiramente de trazer à luz as tuas idéias de simplório.

— Pois bem, o caso é que — recomeçou o outro — admirando muito, de um ângulo meramente verbal, a sua retórica e a retórica da sua escola, pelo curto estudo que do senhor mesmo e da sua escola na história humana pude fazer, cheguei a uma... con... conclusão algo estranha, que me é muito custoso expressar, sobretudo em língua estrangeira.

— Vamos lá, vamos lá — disse o professor, animando-o — eu te ajudarei. Que impressão te causaram as minhas idéias?

— Pois bem, a verdade é, reconheço perfeitamente que não o expresso como devido, mas, de certo modo, parece-me que os senhores formulam idéias desse gênero com a maior eloqüência, quando... bem... quando... bem...

— Anda, adiante! — gritou Lúcifer, furioso.

— Bem, vou direto ao assunto. Quando a sua nave voadora está prestes a espatifar-se contra algo, pensava eu que o senhor não esperaria que eu o advertisse disto, mas neste momento estamos indo direto a um choque.

Lúcifer soltou uma blasfêmia, ergueu-se de um salto e pôs todo o peso sobre a manivela que servia de timão da nave. Durante os últimos dez minutos tinham descido velozmente por entre grandes grotas sombrias, qual cavernas de nuvens. Naquele ponto, através da névoa purpúrea, pôde ver-se, relativamente próximo, o que parecia a parte superior de uma enorme e escura esfera ou orbe, isolada no mar de nuvens. Os olhos do professor faiscaram como os de um louco.

— É um mundo novo — gritou, com riso pavoroso. — É um planeta novo, que levará o meu nome. Esta estrela, e não aquela outra, demasiado vulgar, será “Lúcifer, o sol da manhã”. Aqui não haverá loucuras privilegiadas, não haverá deuses. Aqui o homem será tão inocente como as margaridas, tão inocente e tão cruel; o intelecto...

— Parece — disse Miguel timidamente — que há uma coisa fincada no meio.

— Assim é — disse o professor, inclinando-se sobre uma borda da nave, brilhantes os seus óculos como o fogo da sua excitação mental. — Que poderá ser? Naturalmente, não pode ser mais que...

Soltou de súbito então um grito indescritível, e deixou cair os braços, como quem perde o ânimo. O monge empunhou o timão com gesto de cansaço; não parecia muito espantado, porque vinha de uma parte do mundo por demais ignorante, onde não é raro que a gente perdida de espírito solte um grito ao ver a curiosa forma que o professor acabava de perceber no cimo do orbe misterioso, mas empunhou o timão com o tempo preciso para, volvendo-o vigorosamente para a esquerda, impedir que a nave voadora se espatifasse na catedral de São Paulo.

Uma nuvem plana, negrusca, estendia-se em torno do remate da cúpula da catedral, de modo que a esfera e a cruz pareciam uma bóia ancorada num mar de chumbo. Enquanto a nave deslizava para ela, a planície de nuvem parecia tão seca, concreta e dura como um deserto arenoso. Daí espírito e corpo terem uma sensação aguda e como sobrenatural quando a nave fendeu a nuvem e a penetrou como se fora névoa ordinária, matéria sem resistência. O que se deu é que receberam uma pavorosa sacudidura, pelo fato mesmo de não haver choque. É como se tivessem fendido antigos penhascos feitos de manteiga. Mas aguardavam-nos outras sensações, mais estranhas que a de afundar-se em terreno sólido. Por um momento olhos e narizes se obstruíram com a escuridão e a nuvem opaca; depois, a escuridão clareou numa espécie de névoa parda. E longe, muito longe, por baixo deles, a névoa parda descia até acender-se em fogo. Através da atmosfera densa de Londres puderam ver, em baixo, o brilho das luzes da City; luzes que traçavam quadrados e retângulos de fogo. Névoa e fogo mesclavam-se num vapor ardente; podia-se dizer que a névoa estava sufocando as chamas, ou que as chamas tinham ateado fogo à névoa. Junto à nave (que mal se punha abaixo do nível da esfera) e debaixo dela, a imensurável cúpula brotava e afundava-se no escuro, como uma cachoeira muda. Ou era como um ciclópico animal marinho posto sobre Londres, e a largar desconjuntadamente os seus tentáculos por todos os lados, uma monstruosidade naquele céu sem estrelas. Porque as nuvens pertencentes a Londres se tinham fechado sobre a cabeça dos viajantes, tapando a saída do ar superior. Era como se tivessem perfurado um telhado e penetrado no templo do crepúsculo.

Estavam tão próximos da esfera, que Lúcifer apoiou nela a mão, empurrando a nave para fora, como se impele um barco que desatraca. Em cima, a cruz, envolta já em névoa escura, parecia quimérica, mais terrível de tamanho e forma.

O professor Lúcifer deu duas palmadas na superfície da grossa esfera, como se acariciasse um animal enorme.

— Esta jóia me encanta. É quanto preciso — disse.

— Posso perguntar, com todo o respeito — inquiriu o antigo monge — de que o senhor está falando?

— Como de quê?! — gritou Lúcifer, golpeando outra vez a esfera. — Isto que vês aqui é um símbolo único, meu caro. Tão rotundo. Tão satisfeito. Não é como o ser descarnado que estende ali os braços com sumo cansaço. — E, ensombrecida a face por um esgar, apontava para a cruz. — Precisamente te ia dizendo, Miguel, que posso demonstrar o principal da tese racionalista e o embuste cristão valendo-me de qualquer símbolo que me queiras dar, de qualquer exemplo com que topemos. E aqui há um exemplo que me convém perfeitamente. Como se poderia significar melhor a tua filosofia e a minha do que com a forma dessa cruz e a forma desta esfera? Este globo é razoável; a cruz é irrazoável. É um animal de quatro patas com uma pata mais longa que as outras. O globo é inevitável. A cruz é arbitrária. Sobretudo, o globo constitui unidade em si mesmo; a cruz está, primordialmente e acima de todas as coisas, em discórdia consigo mesma. A cruz é o conflito de duas linhas hostis, de duas direções inconciliáveis. Esse objeto silencioso que se ergue aí é em essência uma colisão, um crucifixo, uma luta em pedra. Esse vosso símbolo sagrado veio em verdade dar nome a uma situação desesperada e rude. Quando falamos de homens que se ignoram e ao mesmo tempo se estorvam mutuamente, dizemos que têm desígnios cruzados. Abaixo com ele! A sua própria forma é uma patente contradição.

— O que o senhor diz é absolutamente certo — interveio Miguel com serenidade. — Mas gostamos das contradições patentes. O homem é uma contradição patente; é um animal cuja superioridade sobre os outros animais consiste em ter caído. Esta cruz é, como o diz o senhor, uma colisão eterna; também eu o sou. É uma luta em pedra. Cada forma de vida é uma luta em carne. A forma da cruz é irracional, tão cabalmente como a forma do animal humano é irracional. O senhor diz que a cruz é um quadrúpede com uma extremidade mais longa que as demais. Eu digo que o homem é um quadrúpede que usa somente duas pernas.

O professor, meditabundo, franziu um instante a testa, e disse:

— Tudo é relativo, naturalmente, e não vou negar que o elemento de luta e contradição interna, representado pela cruz, ocupe um lugar necessário em certa fase da evolução. Mas certamente a cruz é o ponto mais baixo do desenvolvimento, e a esfera é o mais alto. Além disso, é muito fácil ver onde está o equívoco no plano arquitetônico de Wren.

— E onde está esse equívoco, se me faz o favor? — inquiriu Miguel suavemente.

—A cruz está no alto da esfera — disse simples­mente o professor Lúcifer. — É um erro, sem dúvida alguma. A esfera devia estar no alto da cruz. A cruz não é mais que uma estaca bárbara; a esfera é a perfeição. Além disso, a cruz é a árvore amarga da história do homem; a esfera é o fruto final, carnoso e maduro. O fruto deveria estar no alto da árvore, não ao pé dela.

— Oh! — disse o monge, a testa vincada por uma ruga. — Quer dizer, então, que num esquema simbólico do racionalismo o senhor poria a esfera em cima da cruz?

— Isso resume por completo a minha alegoria — disse o professor.

— Bem, tudo isso é por certo muito interessante — continuou Miguel, bem devagar — porque, a meu juízo, em tal caso, o senhor veria o efeito mais singular, efeito a que geralmente chegaram todos os sistemas poderosos e hábeis que o racionalismo, ou a religião da esfera, produziu para guiamento ou ensinamento da humanidade. O senhor veria, creio eu, ocorrer uma coisa que é sempre a última personificação e a saída lógica desse sistema lógico

— De que estás falando? — perguntou Lúcifer. — Que sucederia?

— Quero dizer que a esfera cairia — disse o monge, olhando com avidez para o vazio.

Lúcifer fez um movimento de cólera e abriu a boca para falar, mas, antes que pudesse articular palavra, Miguel, mui resolutamente, prosseguiu:

— Certa feita conheci um homem como o senhor, Sr. Lúcifer — disse, articulando com lentidão e monotonia desesperadoras. — Opinava também...

— Não existe outro homem como eu — gritou Lúcifer com tal violência, que estremeceu a nave.

— Como ia dizendo — continuou Miguel — esse homem opinava também que o símbolo do cristianismo é um símbolo de barbárie e de sem-razão. A história dele é um tanto divertida. Vem a ser também uma alegoria perfeita do que sucede aos racionalistas como o senhor. Começou, obviamente, negando-se a tolerar um crucifixo em casa, nem sequer pintado nem pendente do pescoço da esposa. Dizia, como o senhor, que é uma forma arbitrária e fantástica, uma monstruosidade, amada por ser paradoxal. Depois se foi tornando cada vez mais violento e excêntrico; queria derrubar as cruzes dos caminhos, porque vivia num país católico romano. Finalmente, num a­cesso de fúria subiu ao campanário da igreja paroquial e arrancou a cruz, brandindo-a no ar, e proferindo atrozes solilóquios, lá no alto, sob as estrelas. Uma tarde, ainda no verão, quando voltava para casa por um caminhozinho ladeado de estacarias, o demônio da sua loucura veio sobre ele com aquela violência e desfiguração tão intensas que transtornam o mundo. Parara por um momento, fumando, diante de uma estacada infinda, quando os seus olhos se abriram. Não fulgia nem uma luz, não se mexia nem uma folha, mas ele viu, como numa mutação súbita do contorno, que a paliçada era um exército inúmero de cruzes ligadas entre si, desde a colina até ao vale. Brandiu o bastão e arremeteu contra elas, como contra um exército. E quilômetro após quilômetro, em todo o caminho até a sua casa, as foi partindo e derrubando. Porque aborrecia a cruz, e porque cada paliçada era um muro de cruzes. Quando chegou a casa, estava completamente louco. Deixou-se cair numa cadeira, e depois se levantou dela porque as tábuas do assoalho repetiam a imagem insuportável. Atirou-se numa cama, o que serviu para lembrá-lo de que a cama, como todas as coisas lavradas pelo homem, correspondia ao desenho maldito. Quebrou os móveis, porque eram feitos de cruzes. Ateou fogo à casa, porque era feita de cruzes. E acabaram por encontrá-lo no rio.

Lúcifer olhava-o mordendo um lábio.

— É verdadeira essa história? —perguntou.

— Oh, não! — disse Miguel vivamente. — É uma parábola. É a parábola de todos os racionalistas como o senhor. Os senhores começam quebrando a cruz, e acabam destruindo o mundo habitável. Quando os deixamos, estão os senhores a dizer que ninguém deve ir à igreja contra a vontade. Quando os encontramos de novo, estão a dizer que ninguém tem a menor vontade de ir a ela. Quando os deixamos, estão os senhores a dizer que não existe um lugar chamado Éden. Quando os encontramos novamente, estão a dizer que não existe um lugar chamado Irlanda. Começam os senhores por odiar o racional, e acabam por odiar tudo, porque tudo é irracional, e...

Lúcifer saltou para ele com um grito de animal selvagem.

— Ah! — vociferou. — Cada louco com a sua mania. Tu tens a loucura da cruz. Pois ela que te salve! 

E com força hercúlea atirou, de costas, o monge fora da nave por sobre a parte mais alta da esfera de pedra. Miguel, com não menos pronta agilidade, agarrou um dos braços da cruz e livrou-se da queda. No mesmo instante Lúcifer baixou uma alavanca, e a nave partiu levando-o a ele só.

-- Ah-ah! — uivou. — Que tal esse apoio, meu velho?

— Como apoio — replicou Miguel, asperamente — é, sem sombra de dúvida, muito mais útil que a esfera. Posso saber se o senhor tem a intenção de me deixar aqui?

— Sim, sim. Eu subo, subo — gritou o professor, com incontível excitação. — Altiora peto. A minha rota é para cima.

— Quantas vezes o senhor me disse, professor, que no espaço não há realmente mais alto nem mais baixo? — disse o monge. — Eu subirei tanto como o senhor.

— Certo — disse Lúcifer, olhando por cima da borda da nave. — Posso saber o que pretendes?

O monge apontou para baixo, para Ludgate Hill.

— Disponho-me — disse— a subir a uma estrela.

Os que olham a questão mui superficialmente consideram que o paradoxo é coisa unicamente de gracejadores ou do jornalismo ligeiro. Paradoxo desta índole contém o dito de um galã em certa comédia decadente: “A vida é demasiado importante para levá-la a sério.” Os que olham a questão com mais profundidade ou delicadeza vêem que o paradoxo pertence especialmente a todas as religiões. Paradoxo desta índole está presente em sentenças como: “Os mansos possuirão a terra.” Mas aqueles que vêem e sentem o ponto fundamental da questão sabem que o paradoxo não pertence somente à religião, mas a todas as crises vitais e violentas na prática da existência humana. Claramente perceberá um paradoxo deste gênero todo o que se encontre sus­penso no meio do espaço, seguro por um braço da cruz de São Paulo.

O padre Miguel, apesar da idade, apesar do ascetismo (ou por causa dele, pelo que entendo), era um ancião muito robusto e disposto. E, enquanto pendia de uma barra sobre o vertiginoso vazio do ar, comprovou, graças à mortal inibição inerente ao juízo de quem se acha em perigo, a perdurável e desesperada contradição que implica a simples idéia de coragem. Era um ancião robusto e disposto, e por isso é que não perdeu a serenidade. Sentiu o que sente qualquer homem em tão duro transe de terror: que o risco mais grave é o terror mesmo; a sua defesa possível consistiria somente na frieza à beira do descuido, descuido equivalente quase a uma bravata suicida. A única contingência de salvação consistia em não desejar salvar-se com demasiado desespero. Talvez encontrasse onde apoiar o pé ao descer a tremenda fachada, contanto que não o preocupasse se tais apoios existiam ou não. Se fosse temerário, podia salvar-se; se fosse prudente, permaneceria onde estava, até desprender-se da cruz como uma pedra. E esta antinomia, presente sem cessar no seu espírito, envolvia uma contradição tão ampla e espantosa como a imensa contradição da cruz. Lembrava-se de ter ouvido muitas vezes estas palavras: “Quem perde a sua vida a salvará.” Lembrava-se, com uma espécie de lástima, de que por elas sempre entendera que quem perdesse a vida corporal salvaria a vida espiritual. Agora sabia uma verdade sabida de todos os lutadores, caçadores e alpinistas. Sabia que até a sua vida animal só poderia salvar-se graças a uma forte disposição para perdê-la.                  

Alguém considerará improvável que um ser humano a balançar-se desesperadamente no meio do céu pensasse em              certas contradições filosóficas. Mas é perigoso dogmatizar acerca de situações tão extremas. Amiúde elas produzem certa atividade, inútil e sem alegria, do intelecto puro, divorciado o pensamento não só da esperança mas também do desejo. E, se é impossível dogmatizar acerca de tales estados, é ainda mais impossível descrevê-los. Ao espasmo de sensatez e clareza seguiu-se, no espírito de Miguel, um espasmo de terror elementar; o terror do animal que levamos dentro, do animal que vê no universo inteiro um inimigo; e que, saindo vitorioso, se olvida da piedade, como se olvida da esperança se sai derrotado. Daqueles dez minutos de terror não é possível falar com palavras humanas. De novo, porém, começou a apontar na odiosa escuridão um estranho alvor, cinzento e polido como de prata. Desta resignação ou certeza derradeira ainda é menos possível escrever; é coisa ainda mais descomunal que o próprio inferno; é talvez o último dos segredos de Deus. Na mais dura crise de uma agonia insuportável, cai súbito sobre o homem a calma de um contentamento insensato. Não é esperança, sempre entrecortada, romântica, e referida ao porvir; é cabal, e presente. Não é fé, porque a fé, pela sua própria natureza, é impetuosa, e parece unir à fraqueza da dúvida a segurança e a audácia do desafio; é simples satisfação. Não é conhecimento, porque o intelecto parece não tomar parte especial nisso. Nem é (como os idiotas modernos diriam que é) um novo embotamento ou uma paralisia da faculdade de sofrer. Absolutamente não é negativo; é tão positivo como uma boa nova. E, em certo sentido, é verdadeiramente uma boa nova. É quase como se houvesse certa igualdade entre as coisas, um equilíbrio entre as contingências possíveis que não nos é permitido conhecer se não tivermos aprendido a ser indiferentes tanto aos males como aos bens, mas que às vezes se mostra a nós um instante, a modo de derradeiro auxílio na nossa derradeira agonia.

Certamente, Miguel não teria podido dar-se racionalmente conta dessa vasta satisfação sem conteúdo que lhe calava o ser e o enchia até a borda. Sentiu, com uma espécie de lucidez minguada, que a cruz estava ali, que a esfera estava ali, que o zimbório estava ali, que ele ia deixar-se escorregar, e que não pensava nem minimamente em se morreria ou não. Essa disposição misteriosa durou o bastante para impulsá-lo a uma espantosa descida e forçá-lo a prosseguir. Mas antes que tivesse alcançado a galeria exterior mais alta, o terror abateu-se sobre ele seis vezes, como borrasca tenebrosa e tonante. Enquanto buscava chegar a ponto seguro, quase sentiu (como num possível paroxismo de embriaguez) que tinha duas cabeças: uma tranqüila, despreocupada e eficaz; outra que via o perigo como num mapa, e era prudente, cuidadosa e inútil. Imaginara que teria de deixar-se cair verticalmente por toda a fachada do edifício abaixo. Quando caiu na galeria mais alta, sentiu-se ainda tão longe do globo terrestre como se tivesse saltado somente do sol à lua. Deteve-se um pouco, arquejante, na galeria em baixo da esfera, e, batendo atoleimadamente com os calcanhares, andou alguns passos. E andando estava quando um raio lhe fulminou a alma. Um homem, maciço, vulgar, de rosto indiferente e insulso como de burocrata, com uma espécie de uniforme prosaico guarnecido de uma fileira de botões, fechou-lhe a passagem. Miguel não pôde sequer perguntar-se se aquele latagão, de bigode negro e botões de níquel, chegara também numa nave voadora. Sentiu somente que o seu espírito flutuava numa felicidade sem limite por causa daquele homem. Pensava quão belo seria viver naquela galeria para sempre, só com ele. Pensava quanto se deleitaria com os matizes desconhecidos da alma daquele homem, e em escutá-lo, com interesse incalculável, acerca dos matizes desconhecidos da alma de todos os seus tios e tias. Um momento antes estivera para morrer sozinho. Agora vivia com outro homem num mesmo mundo; inesgotável delícia. Na galeria em baixo da esfera, o padre Miguel encontrara o homem mais nobre, mais divino, mais amável dentre todos os homens, melhor que todos os santos, maior que todos os heróis: Sexta-feira.[1]

Nas confusas cores e músicas do seu novo paraíso, Miguel ouviu apenas, e de modo débil e distante, certas observações que aquele homem tão belo e tão sólido lhe parecia estar fazendo; observações acerca de algo que estava fora de hora e que era contrário aos regulamentos. Pareceu também perguntar como Miguel subira até ali. Evidentemente, o belo homem acreditava, como Miguel, que a terra é uma estrela engastada no firmamento.

Ao cabo, Miguel saciou-se da mera sensação musical produzida pela voz do homem dos botões. Começou a escutar o que dizia, e ainda tentou responder a uma pergunta que, ao que parecia, lhe fizera já várias vezes, e que agora repetia com excessiva ênfase. Miguel percebeu que a imagem de Deus com botões de níquel lhe perguntava como chegara ali. Respondeu que tinha ido na nave de Lúcifer. Ouvida a resposta, a imagem de Deus sofreu uma mudança notável. De dirigir-se a Miguel asperamente, como se tratasse com um malfeitor, passou súbito a falar-lhe com certa solicitude e amabilidade calorosa, como a uma criança. Pareceu especialmente cuidadoso em afastá-lo da balaustrada. Conduziu-o, tomando-o pelo braço, à porta que dava ao interior do edifício, lisonjeando-o o tempo todo. Disse-lhe tanto dos prazeres suntuosos e das diversas vantagens que o esperavam abaixo, que Miguel (apesar de ser escasso o seu conhecimento do mundo) o julgou inverossímil. Miguel todavia o seguiu, ainda que só por cortesia, descendo uma interminável escada de caracol. Em certa altura se abria uma por­ta. Miguel passou-a, e o estranho homem dos botões atirou-se sobre ele e manteve-o imóvel onde estava. Mas Miguel não desejava senão deter-se e admirar. Passara a porta como se entrasse em outro infinito, sob a abóbada de um firmamento feito pelo homem. O ouro, o verde e a púrpura do poente não estavam em nuvens uniformes, mas em forma de querubins e serafins, em terríveis formas humanas, com asas de chama. Os astros não estavam em cima, mas muito em baixo, como estrelas caídas, em constelações ainda não dispersas; a abóbada mesma estava cheia de escuridão. E muito abaixo, ainda mais abaixo que as luzes, se viam, imóveis ou rampantes, grandes e negras massas de gente. A voz de um órgão terrível pareceu estremecer o ar em toda a cavidade; e com ela subiu até Miguel o som de uma voz mais terrível: a pavorosa e perdurável voz do homem a clamar aos seus deuses desde o começo até o fim do mundo. Miguel sentiu algo assim como se ele fosse um deus, e como se todos os clamores lhe estivessem destinados.

— Não, as coisas belas não estão aqui — disse carinhosamente o semideus dos botões. — As coisas belas es­tão abaixo. Venha comigo. Há uma coisa que vai surpreendê-lo muito; uma coisa que precisa ver.

Evidentemente, o homem dos botões não sentia como um deus, razão por que Miguel não tentou explicar-lhe seus próprios sentimentos, e o seguiu docilmente pelo caminho de coleante escada abaixo. Não tinha noção de onde ou em que nível se achava. Ainda estava cheio do frio esplendor do espaço e do que um escritor francês chamou ­brilhantemente “a vertigem do infinito”, quando se abriu outra porta, e com surpresa indescritível se achou no nível familiar, numa rua repleta de rostos humanos, com casas e até lampiões mais altos que a sua cabeça. Sentiu-se súbito feliz, e de chofre indescritivelmente pequeno. Afigurou-se-lhe que tornara a ser criança; baixou os olhos para a calçada, seriamente, qual fazem os pequenos, como se fosse coisa aproveitável para algo divertido. Sentiu em toda a sua vivacidade o prazer de que se privam os orgulhosos: o prazer que não somente acompanha a humilhação, mas que é quase humilhação. Os homens que se livraram da morte por um triz conhecem-no; também os homens cujo amor por uma mulher é correspondido inesperada­mente, e aqueles a que são perdoadas as faltas. Cada coisa em que punha os olhos o alegrava, não esteticamente, mas com o jovial e simples apetite de uma criança comendo doces. Comprazia-se na quadratura das coisas; agradavam-lhe as esquinas, límpidas como se as tivessem acabado de cortar com uma faca. O quadro luminoso das vitrinas das lojas o excitava, como a um pequeno as luzes do palco de uma pantomima que promete. E, como visse uma loja que avançava ostentosamente até a calçada um magote de caixas com potes de conservas, pareceu-lhe tal uma alusão a alegres e magníficos chás servidos numa infinidade de ruas do mundo. Talvez fosse o mais feliz dos filhos dos homens. Porque no insofrível instante que passou pênsil, e prestes a cair, da cúpula de São Paulo, o universo inteiro fora destruído e tornara a criar-se.

De repente, no tumulto das ruas escuras, ressoou o estrépito de vidros partidos. A multidão, com sua misteriosa prontidão de pacóvios, precipitou-se na direção devida, uma agência lúgubre, vizinha à loja dos potes de conserva. O vidro da porta jazia em pedaços no chão. E a polícia já apanhara um moço muito alto, de cabelo preto e liso, olhos negros brilhantes, e um sobretudo cinza, e que com um porrete acabara de quebrar a lua da vitrina.

— Tornaria a fazê-lo — dizia o moço, com o semblante pálido de furor. — Qualquer pessoa teria feito o mesmo. Viram o que fiz? Juro que voltaria a fazer o mesmo.

Então ele, ao toparem-lhe os olhos com o hábito monacal de Miguel, saudou-o com reverência de católico.

— Padre, o senhor viu o que dizem? — exclamou, tremendo. — O senhor viu o que se atrevem a dizer? No princípio não o entendia. E, quando já havia lido a metade, quebrei o vidro.

Miguel não o compreendia. Toda a paz do mundo se lhe refugiara dolorosamente no coração. Os homens não viam nada do mundo novo e pueril que ele vira de repente. Seguiam entregues às antigas disputas, desconcertantes, triviais, inúteis, falando muito uns e outros, sendo tão pouco o que se precisa dizer. Uma inspiração violenta lhe veio repentinamente: sobressaltá-los, no lugar onde estavam, com o amor de Deus. Não sairiam dali até que penetrassem o sabor e o prodígio da sua existência. Não se iriam daquele lugar senão para retornar a casa, abraçados como irmãos e aclamando a liberdade recuperada. Da cruz que Miguel acabara de deixar provinha a sombra da sua piedade quimérica; e as três primeiras palavras que disse, com a voz de uma trombeta de prata, deixaram as pessoas como petrificadas. Se tivesse, na sua iluminação, falado durante uma hora, talvez pudesse ter fundado uma religião em Ludgate Hill. Mas a pesada mão do seu guia caiu-lhe de súbito sobre um ombro.

— Este pobre homem está desorientado — disse, risonho, ao gentio. — Encontrei-o vagando pela catedral. Diz que veio num navio pelos ares. Há algum policial que se encarregue dele?

Havia um policial para isso. Outros dois se ocuparam do moço alto, com sobretudo cinza; e um quarto se entendia com o dono da loja, que mostrava certa propensão à turbulência. Levaram o moço alto à autoridade competente, aonde o seguiremos no próximo capítulo. E ao homem mais feliz do mundo, meteram-no num sanatório.

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Jean de Viguerie

A revolução foi uma ruptura em todos os domínios.

Primeiramente, no domínio político: depois de mil anos de estabilidade na França, começou o reinado da instabilidade, isto é, a sucessão de regimes, de repúblicas, de governos, de partidos. Desde 1789, a França anda à busca de uma legitimidade. O assassinato do rei Luiz XVI, crime premeditado, crime deliberado bem antes do processo que lhe foi intentado, como mostra um recente livro de Madame Coursac, revestiu-se de uma significação profunda: foi um parricídio.

Ruptura no domínio das instituições e das leis: mil anos de leis, de costumes, de instituições, de privilégios, de liberdades, abolidos de repente, sem motivos.

Ruptura e degradação de uma sociedade: de um dia para o outro acabaram-se as ordens, as corporações, as confrarias, as companhias, e o indivíduo se viu sozinho diante do Estado.

E o que dizer de todas as conseqüências que se seguiram?

O atraso econômico em primeiro lugar. No século XVIII a França multiplicara por quatro seu comércio exterior. Vira uma notável expansão de sua costa atlântica. O crescimento só retornará no Império, mas não passará de uma recuperação das perdas sofridas durante a Revolução.

Em seguida, o atraso demográfico. Desde 1801, na França, a curva de jovens é constantemente decrescente. No século XVIII, sua população crescia no mesmo ritmo que a da Inglaterra. A partir de 1800 nota-se o crescimento da população britânica, a estagnação da população francesa. Em 1901, a densidade britânica é de 163 habitantes por km2, a francesa de 73.

Atraso enfim no ensino. De um dia para o outro, dissolveu-se uma rede de escolas que era a mais completa e a mais bela de toda a Europa (vinte e uma universidades, mais de duzentos colégios, milhares de escolas primárias) e não a substituíram por nada ou quase nada.

Depois da Revolução, foram necessários 30 anos para reconstruírem uma rede escolar tão densa quanto a do "Ancient Régime". Em 1790, a supressão das ordens religiosas teve, no domínio da vida espiritual, conseqüências desastrosas incalculáveis; milhares de mosteiros com seus arquivos, suas bibliotecas, eram centros de vida intelectual erudita. A Revolução expulsou os monges, os edifícios foram deixados ao abandono, grande quantidade de livros e manuscritos foram perdidos.

Mas tudo isso não é nada ao lado da apostasia. A Constituinte provocou o cisma. A Assembléia e a Convenção perseguiram a religião católica e descristianizaram sistematicamente a França. O resultado é fácil de ver: em 1801, no momento da Concordata, a proporção de franceses católicos praticantes caiu de 99% para 50%. A metade da nação francesa deu as costas para Deus. Um século mais tarde, depois de prodígios de apostolado e de santidade, o inventário era o mesmo: em 1914, 50% dos franceses fazem a Páscoa. O que quer dizer que a metade perdida entre 1789 e 1801, a Igreja nunca mais recuperou.

("Caractères de l´Histoire de la France" -- Itineraires no. 271. Tradução: Permanência).

Palavras-chave: francesa revolução catolicismo cristianismo efeitos

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Dezembro 16, 2009

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Aprovada por unanimidade, em 2º turno, a Lei Orgânica do Município de São Bento do Sapucaí, cuja revisão demandou trabalhos desde o início da atual legislatura, com formação, encontros, debates, formação de Comissão Especial para analisar ponto por ponto, os 129 artigos da lei orgânica municipal, que há quase vinte anos não havia sido revisada. Foram meses de trabalho, formação, busca de consenso com as lideranças da comunidade, do poder público e da sociedade civil, para viabilizar a revisão do texto constitucional local, para afirmar oficial e solenemente que “o direito à vida, desde a conc epção até a morte natural” é “primeiro e principal de todos os direitos humanos”; que já consta no preâmbulo da lei orgânica e também assegurado no capítulo 1, parágrafo 2º, inciso I, como objetivo fundamental do Município “garantir o direito à vida humana”. Estabelece ainda entre as atribuições da Câmara Municipal (Seção III, art. 23º, XVIII, m) “ao estabelecimento e à implantação de políticas públicas que promovam a família”, merecendo capítulo especial sobre a proteção e valorização da família. No preâmbulo da lei orgânica, o Legislativo Municipal afirma que “inspirado nos princípios da lei natural”, enfatiza a defesa da vida humana, “a partir dos valores do humanismo integral”.

São Bento do Sapucaí tornou-se agora, oficialmente, o primeiro Município pró-vida do País, comprometido com políticas públicas que garantam a primazia do direito à vida, “da concepção à morte natural”. Foi um primeiro passo importante para alavancar outras iniciativas concretas em defesa da vida.

A seguir, o pronunciamento (na íntegra) do Ver. Hermes Rodrigues Nery (foto), Presidente da Câmara Municipal, após a aprovação desta histórica votação.


Caríssimos amigos, colegas Vereadores,

Com grande alegria concluímos hoje um processo de revisão da Lei Orgânica do Município, cumprindo assim mais um dos dez pontos assumidos em campanha eleitoral: “item 4) Reforma da Lei Orgânica, com destaque à criação da Frente Parlamentar Municipal em Defesa da Vida, com políticas públicas de promoção da família e a dignidade da pessoa humana”1. Em um ano de mandato (o primeiro como Vereador e Presidente desta Casa Legislativa), mais da metade das propostas já estão cumpridas, o que muito me alegra, pois assumimos este mandato com o imperioso dever de trabalhar especialmente “por políticas públicas em defesa e promoção da estrutura natural da família, da vida humana, em todas as suas fases, e da dignidade da pessoa humana”2. Por isso, propomos, desde o início, trabalhar “pela reforma da Lei Orgânica do Município”3, “e outras ações nesse sentido, para que possamos conjugar “legislação e vida”4, tendo “a Doutrina Social da Igreja como base norteadora das ações políticas que desejamos viabilizar (base esta também indicada pelo Partido Humanista da Solidariedade – PHS)”5, visando o humanismo integral, ressaltado pelo papa Bento XVI na sua encíclica Caritas in Veritate.

Para o papa, “os aspectos da crise e das suas soluções bem como de um possível novo desenvolvimento futuro estão cada vez mais interdependentes, implicam-se reciprocamente, requerem novos esforços de enquadramento global e uma nova síntese humanista.” 6, pois “que não é suficiente progredir do ponto de vista econômico e tecnológico; é preciso que o desenvolvimento seja, antes de mais nada, verdadeiro e integral” 7; daí que, cabe “sobretudo aos governantes que estão empenhados a dar um perfil renovado aos sistemas econômicos e sociais do mundo, que o primeiro capital a preservar e valorizar é o homem, a pessoa, na sua integridade”, pois “com efeito, o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida econômico-social ”. 8

Ainda na Caritas in Veritate, Bento XVI enfatiza que “um dos aspectos mais evidentes do desenvolvimento atual é a importância do tema do respeito pela vida, que não pode ser de modo algum separado das questões relativas ao desenvolvimento dos povos. Trata-se de um aspecto que, nos últimos tempos, está a assumir uma relevância sempre maior, obrigando-nos a alargar os conceitos de pobreza”.9 E salienta que “nos países economicamente mais desenvolvidos, são muito difusas as legislações contrárias à vida, condicionando já o costume e a práxis e contribuindo para divulgar uma mentalidade antinatalista que muitas vezes se procura transmitir a outros Estados como se fosse um progresso cultural”. 10 E ainda chama a atenção de que “também algumas organizações não governamentais trabalham ativamente pela difusão do aborto, promovendo nos países pobres a adoção da práti ca da esterilização, mesmo sem as mulheres o saberem. Além disso, há a fundada suspeita de que às vezes as próprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadas políticas de saúde que realmente implicam a imposição de um forte controle dos nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislações que prevêem a eutanásia e as pressões de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu reconhecimento jurídico.”11

Tudo isso nos leva à motivação em trabalhar ainda mais intensamente pela causa da vida, atendendo assim ao apelo pela cultura da vida: “A abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento. Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e energias necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à vida social. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda recíproca. Os povos ricos, cultivando a abertura à vida, podem compreender melhor as necessidades dos países pobres, evitar o emprego de enormes recursos econômicos e intelectuais para satisfazer desejos egoístas dos próprios cidadãos e promover, ao invés, ações virtuosas na perspectiva duma produção moralmente sadia e solidária, no respeito do direito fundamental de cada povo e de cada pessoa à vida”.12

Quero lembrar aos colegas Vereadores, que há pouco mais de quatro anos, mais exatamente em 28 de outubro de 2005, num encontro de legisladores do Vale do Paraíba, com presença de Dom Carmo João Rhoden, em evento ocorrido neste Município, no Acampamento Paiol Grande, ocasião em que foi fundado na Diocese de Taubaté, o Movimento Legislação e Vida, como um sinal de esperança e comprometimento com a defesa da vida, com o compromisso de trabalhar, no âmbito legislativo, para evitar leis contrárias à promoção da família e da vida humana, e buscar aprovar leis que realmente garantam o protagonismo da pessoa humana, seriamente ameaçado pela crescente descristianização e despessoalização, e conseqüentemente, uma desumanização que ameaça a dignidade do homem e da mulher, em todos os sentidos.

Na ocasião, em entrevista à Agência ZENIT (http://www.cnbbsul1.org.br/index.php?link=news/read.php&id=293), afirmamos que evangelizar os políticos é um grande desafio (o que não é nada fácil, porque há muitos interesses em jogo e pouco espaço para a gratuidade e o espírito das bem-aventuranças). Mas é preciso evangelizar nos campos mais difíceis. Há trigo entre o joio. Os políticos tomam decisões que influem no nosso dia-a-dia, determinando situações que, muitas vezes, podem tornar legal o que não é moral, segundo a ética cristã. Vivemos hoje este perigo. As leis civis estão tornando legal o que é condenável moralmente, contrariando assim a lei natural. É um contexto que reflete evidentemente um combate espiritual. O tema “Legislação e Vida” se propõe também a fazer os políticos retomarem a perspectiva moral na com preensão das questões sociais. Temos convicção de que a grave crise social que vivemos tem como causa a grave crise moral do nosso tempo, que o papa João Paulo II tão soube explicitar na encíclica Veritatis Splendor. Não é possível o reformismo social, quando a legislação legitima a permissividade moral e relativiza os valores humanos.

No campo da bioética, vamos percebendo a dimensão desse conflito. As múltiplas possibilidades biotecnológicas, no contexto de um horizonte cultural explicitamente anti-cristão, têm sido o pano de fundo para o combate entre a lei anti-natural e a lei natural. A legislação permissiva pode criar condições para a manipulação da vida, com critérios puramente utilitários e, portanto, desumanos.

A lei natural garante o agir que conduz à verdade da vida, pois “quem ama o próximo cumpre a Lei”13, lembra João Paulo II, na Veritatis Splendor.

Ao defender a família, a lei natural visa, portanto, a felicidade da pessoa humana.

É natural que o ser humano, para que tenha a dignidade de pessoa, nasça fruto de uma relação entre um homem e uma mulher, que assumam o compromisso de uma paternidade e maternidade responsável, com a missão de acompanhar o filho ou a filha, da infância à vida adulta, educando-o para o amor, dando-lhe suporte afetivo e educativo para que venha a se desenvolver como uma pessoa humana capaz de realizar-se como alguém com o senso da responsabilidade, que vive o valor do trabalho e da solidariedade, auxiliando os demais da comunidade da qual faz parte (da família e/ou grupo social que pertence e tem ligação) a viver melhor.

Só na dimensão da pessoalidade é possível a realização humana integral. É na relação com o outro que nos completamos e nos tornamos uma personalidade forte e original. “A pessoa humana é feita de realidade e irrealidade, de projetos articulados em diversas trajetórias, realizadas ou não, e em diversos graus de sucesso, abandono ou fracasso. Nisto consiste cada pessoa, e é a que aspira salvar-se, a que espera a perpetuidade”14, explica Júlian Marías. Daí, porque, fora da família, sem a presença amorosa dos pais, a pessoa humana cresce com lacunas, muitas vezes, difíceis de serem preenchidas no futuro, com a dosagem certa do afeto. Como conseqüência disso, sofrem por possuir uma personalidade com níveis de anomalias prejudiciais no convívio com os demais. A dificuldade de se relacionar com os outros – e até de amar – está diretamente relacionada com a formação afetiva da pessoa humana e da segurança ou insegurança que os pais lhe deram, especialmente, na primeira infância. A vida só adquire um sentido verdadeiramente humano quando vivida com amor. E é isso que precisa estar refletido em nossas legislações. Só o afeto é capaz de despertar esta força unitiva que nos leva a nos sentir pessoas autenticamente humanas. Daí o valor da família para afirmar vida plena para todos.

De modo concreto, a partir de 2005, começamos então a engajar-se na causa da vida, militantemente, a partir do conceito de que “não há desenvolvimento, sem envolvimento”. É preciso que as convicções tenham força de movimento e de imantação, para que os princípios e valores sejam capazes de realizar ações, no sentido de realmente promover a dignidade da pessoa humana, de modo integral.

De 2005 para cá, acompanhamos, inúmeras vezes, diversos grupos pró-vida, a Brasília, especialmente para evitar a aprovação do PL 1135/91, que visa despenalizar o aborto no País, tendo obtido importantes vitórias, principalmente em 7 de maio de 2008 (numa votação histórica de 33 x 0, em que a maioria absoluta dos deputados federais presentes na Comissão de Seguridade Social e Família, votaram “pela vida” e contra o aborto; reafirmando este sonoro sim à vida na sessão de 9 de julho, na Comissão de Constituição e Justiça.

Convidado a concorrer as eleições municipais de 2008, fomos motivados a intensificar nosso trabalho em defesa da família e da vida humana, e ainda mais quando eleito Presidente desta Casa Legislativa, buscamos então priorizar a reforma da Lei Orgânica, para declarar oficial e solenemente a opção fundamental pela vida humana, neste Município, e chegamos hoje, nesta Sessão de 9 de dezembro, em 2º turno à aprovação deste importante texto constitucional local, que tem a coragem e a generosidade de afirmar que o direito à vida é o primeiro e o principal de todos os direitos humanos, e que a vida humana deve ser protegida e salvaguardada “desde a concepção até a morte natural”.

Aprovar esta lei agora é um primeiro passo, de um trabalho mais amplo e que nos propomos realizar, visando o humanismo integral proposto por Bento XVI em sua nova encíclica.

Jacques Maritain, lembrando uma nota de Aristóteles sobre o sentido do humanismo, afirmou que “propor somente o humano ao homem, notava ele, é trair o homem e desejar sua infelicidade, porquanto pela sua parte principal, que é o espírito, o homem é solicitado para melhor do que uma vida puramente humana”.15 Ainda recordando Maritain:

“A nota de Aristóteles que acabo de lembrar é humanista ou é anti-humanista ? A resposta depende da concepção que se faz do homem. Vê-se por isto que a palavra humanismo é um vocábulo ambíguo. É claro que aquele que o pronuncia compromete de logo uma metafísica, e que, segundo existe ou não no homem alguma coisa que respira acima do tempo, e uma personalidade cujas necessidades mais profundas ultrapassam toda ordem do universo, a idéia que se fará do humanismo terá ressonâncias inteiramente diferentes.

Contudo, porque a grande sabedoria pagã não pode ser supressa da tradição humanista, devemos ser advertidos em qualquer caso em não definir o humanismo pela exclusão de toda ordenação ao super-humano e pela abjuração de toda transcendência. Para deixar as discussões abertas, digamos que o humanismo (e uma tal definição pode ser desenvolvida segundo linhas muito divergentes) tende essencialmente a tornar o homem mais verdadeiramente humano, e a manifestar sua grandeza original fazendo-o participar de tudo o que o pode enriquecer na natureza e na história (“concentrando o mundo no homem”, como dizia mais ou menos Scheler, e “dilatando o homem ao mundo”); ele exige ao mesmo tempo que o homem desenvolva as virtualidades nele contidas, suas forças criadoras e a vida da razão, e trabalhe por fazer das forças do mundo físico instrumento de sua liberdade.

Assim entendido, o humanismo é inseparável da civilização ou da cultura, tomando-se estas duas palavras como sinônimas.”16

Quando inserimos no preâmbulo da lei orgânica, “inspirados nos princípios da lei natural” e “no compromisso de assegurar o direito à vida, desde a concepção até a morte natural, o primeiro e principal de todos os direitos humanos; a promoção da família, a partir dos valores do humanismo integral, queremos confirmar a convicção da vocação transcendental do ser humano, que começa aqui a edificar a vida que almeja viver na eternidade. “A vocação é um apelo que exige resposta livre e responsável. O desenvolvimento humano integral supõe a liberdade responsável da pessoa e dos povos: nenhuma estrutura pode garantir tal desenvolvimento, prescindindo e sobrepondo-se à responsabilidade humana.”17

O hoje, portanto, é decisivo para alcançar a vocação promissora de cada homem e de cada mulher, de cada um de nós, numa história construída por atos humanos, mas cujo fio condutor e a decisão final sobre o destino de cada um de nós e de toda a humanidade, está nas mãos de Deus.

Nesse sentido, Bento XVI foi explícito em afirmar que “uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento, de não ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas freqüentemente nascem da recusa do amor de Deus, de uma originária e trágica reclusão do homem em si próprio, que pensa que se basta a si mesmo ou então que é só um fato insignificante e passageiro, um ‘estrangeiro’ num universo formado por acaso. O homem aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade, quando renuncia a pensar e a crer num Fundamento. A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projetos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias. A humanidade aparece, hoje, muito mais interativa do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros”.18 E ainda ressalta que “a revelação cristã sobre a unidade do gênero humano pressupõe uma interpretação metafísica do humanum na qual a relação seja elemento essencial.”19 Por isso que “sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem é.”20

Em meio ao relativismo vigente, ao positivismo jurídico, e às novas ideologias que os grupos de poder político e econômico querem impor às nações do mundo todo, estranhos modos de conduta e comportamento, avesso a tudo o que se buscou ao longo dos séculos em civilização e cultura, para elevar o ser humano às suas reais potencialidades enquanto pessoa, propomos cultivar a cultura da vida.
“A vida pública torna-se pobre de motivações, e a política assume um rosto oprimente e agressivo”,21 se não for possível “Deus encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política”.22 Nesse sentido, fé e política não só podem, como devem caminhar juntos, pois “a fé é uma decisão que compromete toda a existência”.23 Sem extremismos, fé e razão dialogam para que haja discernimento e entendimento. “No laicismo e no fundamentalismo, perde-se a possibilidade de um diálogo fecundo e de uma profícua colaboração entre a razão e a fé religiosa. A razão tem sempre necessidade de ser purificada pela fé; e isto vale também para a razão política, que não se deve crer onipotente. A religião, por sua vez, precisa sempre de ser purificada pela razão, para mostrar o seu autêntico rosto humano. A ruptura deste diálogo implica um custo muito gravoso para o desenvolvimento da humanidade.”24

A partir desses pressupostos, com prioridade na “centralidade da pessoa humana em todo âmbito e manifestação da sociabilidade”,25 estamos aqui hoje, nesta Sessão Extraordinária, para em 2º turno, aprovar a Lei Orgânica do Município que propomos ao longo dos debates nesta Câmara Municipal, em 2009.

Em sessão extraordinária de 27 de novembro, esta lei orgânica foi aprovada por unanimidade. Foram meses de trabalho, formação, busca de consenso com as lideranças da comunidade, do poder público e da sociedade civil, para viabilizar a revisão do texto constitucional local, para afirmar oficial e solenemente que “o direito à vida, desde a concepção até a morte natural” é “primeiro e principal de todos os direitos humanos”; que já consta no preâmbulo da lei orgânica e também assegurado no capítulo 1, parágrafo 2º, inciso I, como objetivo fundamental do Município “garantir o direito à vida humana”. Estabelece ainda entre as atribuições da Câmara Municipal (Seção III, art. 23º, XVIII, m) “ao estabelecimento e à implantação de políticas públicas que promovam a família”, merecendo capítulo especial sobre a proteção e valorização da família.

O compromisso em “assegurar o direito à vida, desde a concepção até a morte natural, e a promoção da família”, também constam no Título IV – Da Atividade Social do Município, capítulo I, do objetivo geral, art. 133, ressaltando “a primazia do direito à vida, para assegurar o real direito à saúde” (art. 134, parágrafo 1º), destacando “a proteção à gestante, à maternidade, à infância, a adolescência e à velhice” (art. 136, I). No Capítulo III (Da Família), a Lei Orgânica explicita que “o Município dispensará proteção especial ao casamento e assegurará condições morais, físicas, sociais e religiosas indispensáveis ao desenvolvimento, segurança e estabilidade da família, estabelecendo-se a igualdade de direitos e deveres entre homem e mulher na administra ção familiar, no r espeito pela dignidade da pessoa humana (art. 1º, inciso III, da Constituição Federal), reconhecendo o direito à vida como o primeiro e principal de todos os direitos humanos, para proteger e salvaguardar a vida humana, desde a concepção até a morte natural” (Art. 136A), prevendo medidas de “amparo às famílias numerosas e sem recursos; ação contra os males que são instrumentos da dissolução da família; estímulo e apoio aos pais e às organizações sociais para a formação ética, moral, cívica, física, intelectual e religiosa da juventude; colaboração com as entidades assistenciais que visem a proteção e educação da criança; amparo às pessoas idosas, garantindo seu direito à vida, assegurando a sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar” (art. 136A, parágrafo 3º, incisos I a V). E reforça o compromisso pela promoção da família, salientando que “O Município apoiará e protegerá os legítimos interesses da família, reconhecendo-se esta como instituição humana fundamental, em sua estrutura natural, constituída entre homem e mulher, a partir de uma base eminentemente afetiva e contratual, que de forma estável e duradoura prossigam uma comunhão plena de vida” (Art. 136B), destacando ainda “a primazia dos pais no processo educativo permanente na formação dos filhos” (Art. 138A, I).

No preâmbulo da lei orgânica, o Legislativo Municipal afirma que “inspirado nos princípios da lei natural”, enfatiza a defesa da vida humana, “a partir dos valores do humanismo integral”.
O desenvolvimento humano integral no plano natural, enquanto resposta a uma vocação de Deus criador, procura a própria autenticação num “humanismo transcendente, que leva [o homem] a atingir a sua maior plenitude: tal é a finalidade suprema do desenvolvimento pessoal”.26

Antes de finalizar este pronunciamento, gostaria de expressar minha gratidão a todos os que colaboraram para viabilizar esse processo, especialmente aos funcionários desta Casa Legislativa, ao Dr. Robson Rezende Ribeiro e Dr. Lucas Salomé e Dra. Roberta Bizarria de Souza, que deu a assessoria específica para a análise dos 129 artigos desta Lei Orgânica, para que fosse possível hoje chegar às condições legais para a deliberação em 2º turno da votação, e lembrar, mais uma vez, o sentimento de fidelidade à causa da vida, à doutrina social da Igreja, à visão positiva e propositiva que tenho da política, e a consciência do quanto tenho que me pautar nos princípios éticos, para que este mandato seja realmente exemplar, em todos os aspectos, pois urge que saibamos dar o bom exemplo, especialmente em nossos tempos convulsivos, de corrosão ética e moral, no meio político.

Temos que fazer a diferença, inspirado nas ações daqueles homens e mulheres que souberam exercer a gestão pública com discernimento, compromisso com o bem comum, a justiça e a sensibilidade em socorrer os mais fragilizados, a partir dos pressupostos e diretrizes da doutrina social cristã. Refiro-me, para encerrar, a dois grande santos da Igreja, homens públicos de notáveis virtudes: São Luís, rei da França (séc. IX), e São Thomas Morus, que souberam testemunhar a verdadeira motivação do serviço público, sendo capazes inclusive, o primeiro de tornar-se cruzado, o segundo de aceitar o martírio, pela causa de Jesus Cristo, o soberano dos soberanos. A eles, peço a intercessão para que este mandato pró-vida seja realmente fecundo e edificante, com a graça de Deus!

Muito obrigado a todos.

Deus seja louvado!

Ver. Hermes Rodrigues Nery
Presidente da Câmara Municipal de São Bento do Sapucaí (SP)

Bibliografia:
Folheto de campanha eleitoral. Ver. Hermes Rodrigues Nery, para as eleições de outubro de 2008.
Discurso de Posse. Ver. Hermes Rodrigues Nery, 1º de janeiro de 2009 (http://diasimdiatambem.wordpress.com/2009/01/02/camara-elege-presidente-pro-)
Discurso de Posse. Ver. Hermes Rodrigues Nery, 1º de janeiro de 2009.
Discurso de Posse. Ver. Hermes Rodrigues Nery, 1º de janeiro de 2009.
Discurso de Posse. Ver. Hermes Rodrigues Nery, 1º de janeiro de 2009.
Caritas in Veritate, 21 (http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/do)
Caritas in Veritate, 23
Caritas in Veritate, 25
Caritas in Veritate, 28
Caritas in Veritate, 28
Caritas in Veritate, 28
Caritas in Veritate, 28
Veritatis Splendor, 17 ( http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/do)
Júlian Marías, A Perspectiva Cristã, Ed. Martins Fontes, 2000, p. 82.
(http://www.maritain.org.br/livros/hi_introducao.htm)
(http://www.maritain.org.br/livros/hi_introducao.htm)
Caritas in Veritate, 17
Caritas in Veritate, 53
Caritas in Veritate, 55
Caritas in Veritate, 78
Caritas in Veritate, 56
Caritas in Veriate, 56
Veritates Splendor, 88
Caritas in Veriate, 56
Discurso de Posse. Ver. Hermes Rodrigues Nery, 1º de janeiro de 2009.

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Dezembro 03, 2009

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Gostaram?

É uma das coisas mais desastrosas da humanidade. É o holocausto silencioso. Deus lhes reserva o inferno.

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Um texto que de Plínio Salgado que eu achei extremamente atual, mostrando de forma bastante clara o último post meu. Retirado d'O pensamento revolucionário de Plínio Salgado, 2ª edição.

Marcha Fúnebre (1931) - Plínio Salgado

O mundo moderno perdeu o senso puro da alegria. Porque confundia a alegria com o prazer. E tendo esgotado todos os prazeres, caminhou para a morte e o aniquilamento.

A liberdade política transformou-se em liberdade moral e essa criou a liberdade dos instintos. O subconsciente cresceu sobre o consciente e clamou pelos seus direitos. Era o mundo ignorado, o segundo plano confuso e impreciso que se transportava ampliando-se como uma escuridão que avulta sobre a inteligência.

Proclamada a libertação de todos os limbos desconhecidos, entrou pela alma do homem moderno o tropel alucinante das formas de pensamento, em estado de elaboração, fastasmal e trágico. O mundo subconsciente (caos gerador ensaiando as expressões em lineamentos disparatados como fetos informes e monstruosos) veio dominar o sentido da vida contemporânea com a violência de forças brutais desencadeadas.

Forças sem governo, forças desordenadas, heterogêneas, sem direção. Forças telúricas do mundo interior, amorfas, nebulosas, de ritmos fragmentários, dissociantes.

***

 

O fenômeno que se dera com as antigas civilizações arrasadas pelos bárbaros repetiu-se de maneira inversa, dentro do próprio homem. Pois todo esse caos que a consciência disciplinava era contido pela pressão de uma força exterior dominadora. O século da máquina virou a alma pelo avesso, porque, tendo-se esta libertado do que se denominou o “terror cósmico”, que mantinha o equilíbrio contendo a deflagração das energias interiores, viu-se, subitamente, dominada pelos estranhos duendes larvais dos instintos desenfreados..

A alma foi invadida pelos hunos dos seus próprios recessos...

A isso fora o homem levado pela sede de liberdade. Essa liberdade chegou às suas últimas consequências. E de tal forma, que o pobre títere humano perdeu o sentido dela.

O homem já não sabe exatamente o que significa ser livre.

Pugnando pela progressão infinita do direito de se afirmar e de agir, acaba negando a própria personalidade e adotando o senso do coletivismo, aceita a subordinação do indivíduo à feição de um grande todo social.

Esse mesmo homem, que ergueu audaciosamente a cabeça para negar a metafísica, e substituiu a teologia pela crítica, o espiritualismo pelo materialismo, o sentimento da disciplina pela utilidade da disciplina, foi prosseguindo de tal forma que acabou por aceitar uma nova metafísica, criando o deus-coletivismo, o misticismo da negação, o cativeiro social em nome de uma coisa tão vaga como o paraíso sonhado e uma humanidade mecânica.

***

De sorte que o homem moderno retornou ao estado de espírito anterior ao monoteísmo e à revelação cristã, para viver apavorado diante dos elementos. Pois, se hoje já não treme diante dos trovões e dos raios começa a tremer e vai até ao delírio, sentindo o rumor “freudiano” do seu subconsciente em tropel, que ele procura decifrar através da psicanálise, como outrora os povos primitivos procuravam conhecer o mundo exterior através dos seus sortilégios e superstições.

E, do mesmo modo que o troglodita recuava apavorado diante de uma tempestade, o, como as “gentleman” recua hoje atordoado diante do seu próprio complexo, que é tão grande ou tão pequeno, ou pelo menos tão incondicional à inteligência, como as complexas nebulosas no infinito do tempo e do espaço.

***

Quem ouvir um marxista, dos mais conhecedores de sua doutrina, discorrer sobre a teoria dos movimentos e das relações da matéria, sobre os processos dialéticos, sobre a concepção evolucionista da natureza, ficará pasmado diante das abstrações a que a sua inteligência é conduzida e dos planos metafísicos em que o raciocínio vai agir, usando da mesma força criadora com o homem da caverna, perdida a luz da graça, idealizava os seus primeiros deuses. E quem atentar melhor sobre os sentimentos que animam o prosélito de Marx, verificará que esse sentimento, analisado à luz crua da crítica, tem muito de misticismo e até de feiticismo.

É o homem, de novo, sob o domínio do terror, que precedeu o monoteísmo e o cristianismo e de onde se originou todo o pavor do infinito.

Tal é o fundo espiritual desta civilização, que finge desdenhar do problema da causa e do fim. Essa expressão do burguesismo libertário, do capitalismo científico, do anarquismo e do socialismo.

***

O equilíbrio do Homem e do seu “sentimento do Universo” provinha exatamente do equilíbrio entre as duas forças, uma que está dentro, outa que está fora de si.

Anulado uma, desaparecida a pressão exterior, rompe-se o equilíbrio e efetiva-se o desdobramento dos planos interiores. É o mundo dos instintos, são as formas larvares do pensamento, que passam a dominar sobre o homem moderno.

Esses espectros de ideias conduzem o homem contemporâneo à interpretação errônea da alegria e do sentimento do prazer e da dor.

Tudo se indefine. O prazer passa a ser uma forma de sensação, sem limites bem traçados com a dor. É uma dor bastarda, como afirmaria um notável escritor brasileiro. E, como todos os planos morais, estéticos e políticos se baseiam na concepção do bem e do mal, do agradável e do desagradável, do útil e do inútil, do feio e do belo, e uma vez que o mundo caótico dos instintos estabeleceu o tumulto crítico, a Humanidade vai hoje caminhando sem disciplina, entregue a essas forças bárbaras que arrastam a todas as degradações e a todos os crimes.

***

Não admira que se afirme que a moral é um ponto de vista. Não admira que se dê hoje ao amor entre o homem e a mulher uma finalidade puramente egoísta. Não admira que se queira anular a personalidade em nome do individualismo. Nem que se queira fazer uma coletividade infeliz, em holocausto a uma pura ideia abstrata, a uma pura concepção ideal de coletividade feliz. Nem, ainda, que se persigam as religiões em nome da liberdade. Que se venham mais tarde a perseguir os próprios indivíduos que clamarem pela liberdade, em nome dessa própria liberdade. Que se atente contra a afirmação integral do amor entre o homem e a mulher, em nome da liberdade do prazer. Que se negue o direito dos pais, em nome da justiça social e dos interesses de uma ideal coletividade. Não admira ainda que se suprima a propriedade em nome dos próprios direitos de propriedade, como faz o capitalismo, como pretende fazer o comunismo. Nem espanta que desapareçam todas as garantias da lealdade e da honra, quando todos estão certos que a moral não passa de um ponto de vista.

É que o Homem perdeu o senso do equilíbrio. E, perdendo esse equilíbrio, torna-se um instrumento imperfeito de interpretação do Universo e dos seus fenômenos.

***

Estamos vivendo o grande período humano da confusão. E, nesse estado de espírito, o Homem é triste. Profundamente triste. Todas as suas barulhentas expressões exteriores não passam de dissimulações.

O mundo pagão, o mundo ocidental, o mundo livre, libertado de todos os terrores religiosos, de todos os preconceitos morais, o mundo opulento, que criou o arranha-céu e o “jazz”, que proclamou todas as liberdades, caminha soturno e trágico, como uma marcha fúnebre...

 

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Novembro 30, 2009

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Que fazer?????

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Outubro 17, 2009

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Há quem pense que na Idade Média o papel da mulher era o de submissão total e completo ostracismo. Há quem cogite que se pensava que a alma da mulher não era imortal - afirmação gratuitamente preconceituosa e contraditória (se a alma é espiritual e imortal, como a alma feminina não seria? Seria uma alma mortal?). Como a Igreja seria hostil a esses seres sem alma, mas durante séculos batizou, confessou e ministrou a Eucaristia a essas criaturas? Não é estranho que os primeiros mártires cristãos tenham sido mulheres (Santas Agnes, Cecília, Ágata etc)? Como venerar a Virgem Maria como cheia de graça e considerá-la desalmada? A historiografia contemporânea simplesmente apagou a mulher medieval.

Por exemplo, no plano social. Dentro dessa perspectiva desapareceram da história personagens como Hilda de Whitby, que no século VII fundou sete mosteiros e conventos, ou quem sabe a religiosa alemã Hroswitha de Gandersheim, autora de dezenas de peças de teatro. Em Bizâncio, numerosas eram as mulheres na universidade. Anna Comnena fundou em 1083 uma nova escola de medicina onde lecionou por vários anos. Eleonora da Aquitânia, enquanto rainha, desempenhou um importante papel político na Inglaterra e fundou instituições religiosas e educadoras.
Nos tempos feudais a rainha era coroada como o rei, geralmente em Rheims ou, por vezes, em outras catedrais. A coroação da rainha era tão prestigiada quanto a do Rei. A última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis em 1610, na cidade de Paris. Algumas rainhas medievais desempenharam amplas funções, dominando a sua época; tais foram Eleonora de Aquitânia (+1204) e Branca de Castela (+1252); no caso de ausência, da doença ou da morte do rei, exerciam poder incontestado, tendo a sua chancelaria, as suas armas e o seu campo de atividade pessoal. Verdade é que a jovem era dada em casamento pelos pais sem que tivesse livre escolha do seu futuro consorte. Todavia observe-se que também o rapaz era assim tratado; por conseguinte, homens e mulheres eram sujeitos ao mesmo regime.

A mulher na Igreja

Precisamente por causa da valorização prestada pela Igreja à mulher, várias figuras femininas desempenharam notável papel na Igreja medieval. Certas abadessas, por exemplo, eram autênticos senhores feudais, cujas funções eram respeitadas como as dos outros senhores; administravam vastos territórios como aldeias, paróquias; algumas usavam báculo, como o bispo... Seja mencionada, entre outras, a abadessa Heloisa, do mosteiro do Paráclito, em meados do século XII: recebia o dízimo de uma vinha, tinha direito a foros sobre feno ou trigo, explorava uma granja...Ela mesma ensinava grego e hebraico às monjas, o que vem mostrar o nível de instrução das religiosas deste tempo, que às vezes rivalizavam com os monges mais letrados. Pena faltar estudos mais sérios sobre o tema...É surpreendente ainda notar que a enciclopédia mais conhecida no século XII se deve a uma mulher, ou seja, à abadessa Herrade de Landsberg. Tem o título "Hortus Deliciarum" (Jardim das Delícias) e fornece as informações mais seguras sobre as técnicas do seu tempo. Algo de semelhante se encontra nas obras de S. Hildegard de Bingen.Gertrude de Helfta, no século XIII conta-nos como se sentiu feliz ao passar do estado de "romancista" ao de "teóloga". Conforme Pedro, o Venerável, ela, em sua juventude, não sendo freira e não querendo entrar num convento, procurava, todavia, estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola de uma jovem. Ao percorrer o ciclo de estudos preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade. Veio da abadia feminina de Gandersheim um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa rimada, imitação de Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, da qual, há muito tempo, conhecemos a influência sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos. Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como prova de uma tradição escolar que terá contribuído para o teatro da Idade Média.

Mulheres líderes

Algo inédito e que nos dias de hoje - tão democráticos - jamais aconteceria:
No século XII, Robert d'Arbrissel, um dos maiores pregadores de todos os tempos resolveu fixar a multidão de seguidores seus na região de Fontevrault. Para isso ele criou um convento feminino, um masculino e entre os dois uma Igreja que seria o único local aonde os monges e as monjas poderiam se encontrar. Ora, este mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não de um abade, mas de uma abadessa. Esta, por vontade do fundador, devia ser viúva, tendo tido a experiência do casamento. Para completar, a primeira abadessa que presidiu os destinos da Ordem de Fontevrault, Petronila de Chemillé, tinha 22 anos. 


No período feudal o lugar da mulher na Igreja apresentou algumas diferenças daquele ocupado pelo homem, mas este foi um lugar iminente, que simboliza, por outro lado, perfeitamente o culto, insigne também, prestado à Virgem Maria entre os santos. E não é curioso como a época termine por uma figura de mulher - Joana D'Arc, que seja dito de passagem, não poderia, jamais, nos séculos seguintes obter a audiência do rei, sendo ela mulher, plebéia e ignorante, conseguindo mesmo assim suscitar a confiança que conseguiu, afinal. Pobre Joana D'Arc! Recentemente Luc Besson fez um filme de S. Joana D'Arc digna dos melhores hospícios, completamente esquizofrênica e que confundia sua vingança pessoal com o que seria a voz de Deus. Sem comentários.

A mulher comum

Faltaria falar das mulheres comuns, camponesas ou citadinas, mães de família ou trabalhadoras. A questão é muito extensa, e os exemplos podem chegar através de diversas fontes como documentos ou mil outros detalhes colhidos ao acaso e que mostram homens e mulheres através dos menores atos de suas existências. Através de documentos, pôde-se constatar a existência de cabeleireiras, salineiras (comércio do sal), moleiras, castelãs, mulheres de cruzados, viúvas de agricultores, etc. É por documentos deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como em um mosaico, a história real - muito diferente dos romances de cavalaria ou de fontes literárias que apresentam a mulher como um ser frágil, ideal e quase angélico - ou diabólico - mas que não tinha voz nem vez. Existem documentos demonstrando como em muitos locais, mulheres e homens votavam em assembléias urbanas ou comunas rurais. Ouve um caso curioso: Gaillardine de Fréchou foi uma mulher e a única pessoa que, diante da proposta de um arrendamento aos habitantes de Cauterets, nos Pirineus, pela Abadia de Saint Savin, votou pelo Não, quando a cidade inteira votou pelo Sim. Nas atas dos notários é muito freqüente ver uma mulher casada agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido. Enfim, os registros de impostos, desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII, mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora, etc.

Extraído de "O mito da Idade Média" de Régine Pernoud.

Só uma pergunta: em que época a mulher era mais valorizada? Na Idade Média ou hoje em dia, onde nem pode ser mãe direito?

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Outubro 09, 2009

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Trata-se de uma coisa estranha. O jovem estudante, principalmente o mais de esquerda, vê as coisas de forma bastante curiosa: o utilitarismo é o que predomina em seu pensamento. Tentando evitar generalizações, e reconhecendo as próprias exceções, diria que tal jovem não aceita algo que não seja funcional, somente aceita o que tenha tendência à objetividade (embora falsa e falaciosa).

Em suas propostas da resolução da pobreza, não considera jamais uma coisa que falta na nossa sociedade orgânica de contracto (tal como designa Spencer), que é a compaixão. Sem tratar de meros e vazios sentimentalismos para com o pobre, diria que essa ausência de compaixão e de amor ao próximo são algumas das principais razões pelas quais o pobre tem ódio do rico, e o rico, pejo do pobre. Não há nada de luta de classes, como os marxistas (embora tenham um início de problemática nobre, a filosofia infectada pelo hegelianismo distorceu-a) propõem: uma luta que vai levar a uma síntese de uma nova Era da História. Isso é falso, o que o pobre não precisa, o "proletário" não precisa é de luta física e política: ele precisa de compaixão. E essa necessidade sempre esteve na História, e também no rico. Exemplifico com as próprias Escrituras, grandessíssima fonte de Sabedoria, pelo jovem rico, aflito pelas mesmas razões que os pobres, correndo vai até Jesus Cristo e pergunta-lhe o que deve fazer: ter compaixão (S. Marcos 10,17-21).

Eu desenvolvo essa ideia de compaixão segundo -- sim -- uma perspectiva cristão católica de amor ao próximo, mas tomo também uma ideia bastante esquecida do nosso grande pensador católico -- esquecido -- chamado Gustavo Corção, onde trata em sua obra O desconcerto do mundo (toma ideia poética de Camões) o fato de que o homem está sempre em conflito com o mundo devido a sua natureza espiritual (tomo aqui como vocação à transcedência, através da vontade, da previsão e da razão = uma visão finalista sobre o mundo), donde se infere uma própria característica do ser humano, de sempre ter o mundo como lhe sendo errado e impróprio. Essa ideia de desconcerto, ela está presente em todo ser humano e gosto de exemplificar por algo bastante elucidativo: o homem pobre moderno não se suicida porque está triste, mas porque há nele uma fagulha de esperança de que, quando estiver com dinheiro, seus problemas estarão resolvidos; já o homem rico, ele desespera-se e suicida-se, porque tal alternativa morreu, por já ter sido efetivada, e lhe sobrou apenas o desconcerto, que o aflige a todo momento.

Digo a todos: a único solução ao desconcerto é a compaixão, e o entendimento mútuo entre as pessoas, mas não por passividade ou por ausência de influência, mas por uma imposição moral diretamente ativa e racional, donde se pode trazer uma unidade social de volta ao que era antes, na Idade Média, mas de modo diverso. Parar com a ideia de emancipações de minorias, que não passa de uma pútrido artificialismo, e tratar da própria ideia do universal do homem, e através dele, mitigar tal desconcerto. Todos devem ser homens, e como homens, agir e ver os outros como homens; mas não como inferiores, mas como eles mesmos.

Combater-se-á a pobreza quando o mendigo antes de receber a esmola, for inquirido, perguntando-lhe o que faz, quem é, por que, entre outras coisas, de forma piedosa, sem desdém e diminuição, mas vendo nele a si próprio! Antes da medida pública, falar com cada uma das pessoas, perguntar-lhes. E agindo, e incentivando, e tratar-lhe não como um problema de números, mas um problema pessoal, individual. Usar do artifício que fez com que o cristianismo tornasse universal, a sua própria universalidade! Porque é universal, porque todos estamos desconcertados com o mundo! Somente quando tratarmos o pobre como nós poderemos trazer opções que o desenvolva: eis o problema moderno. O homem moderno nega-se a isso: tenho mais, logo sou mais.

Palavras-chave: catolicismo, causa, comunismo, cristianismo, desconcerto, jesus, social, socialismo, tristeza

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Setembro 20, 2009

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"A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma falácia, de fato, muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes. É como dizer que porque o homem pode andar somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos. O homem não pode viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas, sugerir que esses têm sido os motivos para todos os seus movimentos na história é como dizer que o objetivo de todas as suas marchas militares ou peregrinações religiosas deve ter sido a Perna Dourada da Senhora Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do Senhor Willoughby Patterne. Mas, são esses movimentos que constituem a história da espécie humana e sem eles não haveria praticamente história. Vacas podem ser puramente econômicas, no sentido de que não podemos ver que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas ações externas, pelo menos; mas, essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios, importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais ativo quadrúpede não inspirou um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes.

Mas, com relação a serem econômicos os movimentos que fazem a historia do homem, podemos dizer que a história somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena. Será difícil afirmar que os Cruzados saíram de suas casas em direção a uma horrível selvageria da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Ártico foram em direção ao norte imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o sul. E se deixarmos, de fora da história humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará de ser humana, mas deixará de ser história. O esboço da história é feito dessas curvas e ângulos decisivos, determinados pela vontade do homem. A história econômica não seria sequer história

Mas há uma falácia mais profunda além deste fato óbvio; os homens não precisam viver por comida meramente porque eles não podem viver sem comida. A verdade é que a coisa mais presente na mente do homem não é a engrenagem econômica necessária a sua existência, mas a própria existência; o mundo que ele vê quando acorda toda manhã e a natureza de sua posição geral nesse mundo. Há algo que está mais próximo dele que a sobrevivência e esse algo é a vida. Pois, tão logo ele se lembre qual trabalho produz exatamente seu salário e qual salário produz exatamente sua refeição, ele reflete dez vezes que hoje é um dia lindo, ou que este é um mundo estranho, ou se pergunta se a vida vale a pena ser vivida, ou se seu casamento é um fracasso, ou se ele está satisfeito ou confuso com seus filhos, ou se lembra de sua própria juventude, ou ele, de alguma forma, vagamente revê o destino misterioso do homem.

Isso é verdade para a maioria dos homens, mesmo para os escravos assalariados de nosso mórbido industrialismo moderno, que pelo seu caráter hediondo e sua desumanidade tem, realmente, posto a questão econômica em primeiro plano. É muito mais verdade para os numerosos camponeses, caçadores e pescadores que constituem a massa real da humanidade. Mesmo aqueles áridos pedantes, que pensam que a ética depende da economia, devem admitir que a economia depende da existência. E nossos devaneios e dúvidas cotidianos são sobre a existência; não sobre como podemos viver, mas sobre porque vivemos. E a prova disso é simples; tão simples quanto o suicídio. Vire o universo de cabeça para baixo em sua mente e você virará todos os economistas de cabeça para baixo. Suponha que um homem deseje morrer e que o professor de economia se torne um tédio com sua elaborada explicação de como ele deve viver. E todas as iniciativas e decisões que fazem do nosso passado humano uma história têm esse caráter de desviar o curso direto da pura economia. Tal como o economista deve ser desculpado por calcular o salário de um suicida, ele deve também ser desculpado por prover uma pensão de aposentadoria para um mártir. Tal como ele não precisa se preocupar com a pensão de um mártir, ele não deve se preocupar com a família de um monge. O plano do economista é modificado por insignificantes e variados detalhes como no caso de um homem ser um soldado e morrer pelo seu próprio país, de um homem ser um camponês e amar especialmente sua terra, de um homem ser mais ou menos influenciado por qualquer religião que proíba ou permita isso ou aquilo. Mas tudo isso se resume não a um cálculo econômico sobre despesas, mas a uma elementar consideração sobre a vida. Tudo isso se resume ao que o homem fundamentalmente sente, quando ele contempla, dessas janelas estranhas que ele chama os olhos, essa estranha visão que ele chama o mundo."

É apenas um tapa na cara do materialismo que está em voga na nossa sociedade.

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Setembro 16, 2009

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O mundo hoje em dia está com uma enorme grande descrença frente a tudo, e, principalmente, frente a questões religiosas. Sendo consequência do próprio pensamento liberal que veio da Idade Contemporânea, ela vem reduzindo o indivíduo cada vez mais a um senso comum, no qual não se há certeza de nada, nem de si mesmo: as pessoas se tornaram doutas por dizerem meias verdades e por não acreditarem nelas próprias.

The Everlasting Man é um fôlego no meio dessa turbulência, apresentando o Cristianismo como algo extremamente lógico e concatenado, cuja especificidade e superioridade frente as outras religiões ou mitologias faz-nos olhar o Cristianismo não como um liberal da revolução francesa olhava, mas como uma concreção de uma necessidade humana, e até mesmo divina.

Sua perspectiva é comovante, como no seu estilo bastante moderno e que apraz até o leitor mais cético, como usa argumentos fortes contra as meias verdades. Recomendo a todos.

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Abril 24, 2009

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  Comum e recorrente na História, o autoritarismo sempre infectou boas ideias, boas iniciativas, levando-as à decadência. O homem parece que tem em suas entranhas o incrível desejo de impor aquilo lhe parece melhor, não importando a opinião de outros participantes (temos vários exemplos, desde do Partido Bolchevique a trabalhos de escola).

  Quando que se torna possível perceber um crescente autoritarismo em certa organização ou projeto? Quando: a) o seu chefe passa a tomar como exigência tudo que imagina ou deseja. b) o seu chefe passa a mascarar em reuniões aquilo que acha certo, mesmo quando todos ou a maioria discordam (dá um jeitinho para que as opiniões diversas morram e que ele vença, invariavelmente). c) a discordância vem com ameaças de expulsão do projeto e/ou do grupo. d) há escárnio e ironia contínuas por parte do chefe. e) o chefe se entitula chefe (isso é o mais perigoso, um chefe de fato é bom; um chefe formal é destrutivo).

  O que se deve fazer nessas circunstâncias? Ainda não aprendi bem isso (complexidade maldita humana), mas o melhor é abandonar o barco e deixar que o capitão morra com a nave. Levando os canhões e os tesouros consigo, é lógico. Para que as pérolas não fiquem com os porcos e nem afundem com eles.

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Março 15, 2009

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"Em segundo lugar, os suplícios mais horríveis podem acarretar às vezes a impunidade. A energia da
natureza humana é circunscrita no mal como no bem. Espetáculos demasiado bárbaros só podem ser o
resultado dos furores passageiros de um tirano, e não ser sustentados por um sistema constante de
legislação. Se as leis são cruéis, ou logo serão modificadas, ou não mais poderão vigorar e deixarão o
crime impune."

Beccaria, no século XVIII, ainda muito atual... semelhanças com a ditadura brasileira não são mera coincidência.

 Capítulo XV:  Da Moderação das penas

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Março 03, 2009

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  Simples assim. Eu nunca perdi o meu tempo como nesses últimos 9 dias, fazendo aquele ridículo curso que, em tese, tem o objetivo de nos instruir acerca do automóvel, do trânsito e de seus respectivos perigos. No entanto, parece que nada disso acontece... É sempre a mesma lenga-lenga, as mesmas piadas idiotas e o mesmo senso crítico de leitor de Veja que, por sinal, é o pior do Brasil (pior que os panfletários comunistas). Ouvi comentários que chegam ao máximo do ridículo como "hoje em dia, com a televisão, pode-se formar advogados e engenheiros" ou "quadrado não é losângulo"(sic!). Mas o que isso reflete? Reflete o quão ruim é a instrução escolar brasileira e o horizonte de suas consequências, chegando até mesmo no trânsito, o que transforma o que deveria promover valores cívicos em um show de horrores (basta ver os lindos acidentes que ocorrem em rodovias, ou até mesmo nas cidades). Como dizia meu inteligentíssimo professor, "É porque não somos países de primeiro mundo!"(sic, mais uma vez).

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Março 01, 2009

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   Estou achando a atual situação de calouro (bixo franciscano) muito estranha... Foram dois anos malditos de estudo, de couro duro, e, agora, volto a uma situação na qual não estou acostumado, uma situação em que o ócio relativo em certos horários é permitido.

  Creio que ainda não inventaram algo mais cruel que o vestibular, algo que transforme sua vida social em nada, para que, posteriormente, volte de supetão; volte a ver amigos frequentemente, a ir a festas(festas!!!! que nome estranho!!), a beber casualmente, etc.

  Livrei-me dos grilhões.

 Correção:

Não me livrei dos grilhões. É pesada a coisa viu. 

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Fevereiro 28, 2009

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Texto de quando eu estava na 3ª série, EF...
Transcreverei respeitando a minha "gramática" da época...

22/02/99

Era um bicho pequeno e feroz que tinha rugido bem forte, uma vez, um caçador caçou pele do demonio da Tasmania quando ele um o matou mais foi um pouco difícil.
Quando o caçador foi dormir ele viu um fantasma do demonio da Tasmania ele fez um feitiço no caçador saiu do mapa, nem encontram nem no céu nem no inferno. Depois de 1000 anos ele voltou au mapa, ele veio com muita raiva para destruir todos os demônios da tasmania. Depois ele matou todos os demônios da tasmania do mundo.

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Abaixo verás algumas das redações que fiz durante o maldito ano de cursinho, em 2008. Agora estou na USP, no Largo de São Francisco...

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  Desde a 2ª Revolução Industrial, o petróleo é uma importante matéria-prima para a produção de bens industrializados e a principal matriz energética, o que dá a ele grande valor agregado. Foram encontradas recentemente, no litoral, grandes reservas petrolíferas na camada pré-sal, o que tornou o governo e os investidores eufóricos para com a possibilidade de tornar o Brasil um grande produtor e exportador de petróleo. Contudo, essa euforia não leva em conta o benefício que tais reservas trariam se focadas à indústria nacional, à certeza de escassez futura de petróleo e ao elevadíssimo investimento necessário para a prospecção.
  O Brasil desde a sua colonização até a Revolução de 30 objetivou, principalmente, a exportação de produtos agrícolas, o que resultou na ausência de desenvolvimento profundo nesse período. O atual projeto para o pré-sal, retoma, de certa forma, tal objetivação, que visão tão-somente o lucro imediato, sem dar importância ao desenvolvimento nacional. A economia brasileira não tem necessidade de exportar petróleo para obter divisas, pois possui uma diversificada economia industrial, a qual seria beneficiada caso o petróleo pré-sal fosse utilizado como forma de subsidiar custos. A produção industrial, dessa forma, aumentaria, possibilitando um aumento da relevância brasileiro no cenário econômico mundial.
  As principais reservas petrolíferas mundiais acabarão nos próximos cinquenta anos, o que torna relevante a estocagem de petróleo para que a transição a outros recursos energéticos dê-se de modo pacífico, sem crises econômicas profundas. Não obstante, o atual modelo do pré-sal, idealizado pelo governo, por economistas e por investidores não leva em conta o futuro. O resultado disso poderá ser uma catastróficas recessão, a qual levaria décadas para ser superada. A prevenção de crises e a solidificação da economia são claramente melhores do que os perigosos lucros imediatistas atualmente desejados.
  A descoberta de petróleo na camada pré-sal trouxe uma euforia muito mais propagandística do que real: os custos de prospecção ultrapassam a centena de bilhão, dinheiro o qual dificilmente seria investido devido ao seu demorado retorno e ao atual baixo custo do barril.

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  A modernidade provinda da Revolução Industrial mudou, além da visão de tempo, o modo como se vive e se trabalha, transferindo a prioridade social para a econômica. Consequentemente, a vida tornou-se rápida demais para a saúde e para o convívio, o que acarretou a necessidade de se buscar uma vida mais simplória e sociável.
   Como na lógica capitalista tempo é dinheiro, passou-se a trabalhar de modo compulsório, numa velocidade além da capacidade suportável ao organismo, o que leva o indivíduo a ter uma vida artificial, sem outros objetivos além do trabalho. Devido à impossibilidade de se ter relações sociais e ao medo de se perder o emprego, mudou-se fortemente o comportamento da população, que passou a considerar outra atividade além do trabalho como economicamente inútil e, portanto irrelevante. As consequências disso ficam claras na opinião e na saúde das pessoas: tornaram-se desiludidas e depressivas.
   A dificuldade de se sair desse modo de vida entorpecido e deprimente está baseada principalmente no tratamento que a sociedade dispensa a quem não possui um estilo de vida baseado no trabalho; tratam-no como "vagabundo e malandro". Presente no Brasil desde o Estado Novo, tal tratamento propõe aquilo que é básico de uma sociedade capitalista industrial: a competição. Apesar de necessária para impedir a morosidade das atividades econômicas, não pode criar obstáculos ao prazer e à filantropia; a felicidade e o descanso melhoram consideravelmente a qualidade do labor.
   A simplificação do modo de vida permitiria conceder maior tempo às atividades prazerosas, e socialmente gratificantes; no entanto, isso só é possível com uma vida materialmente comedida, de modo a preservar os recursos econômicos. Ao se preservar o dinheiro que se obtém com a remoção de custos menos importantes, permitir-se-ia menos esforço nas atividades econômicas cotidianas, o que concederia um maior tempo livre para o convívio com a natureza, com a família e com os amigos.
    O moderno não é negado com uma vida simplória, mas afirmado: as novidades científicas e as novas invenções são filtradas pelas suas utilidades, e não por puro consumismo. A facilidade e a ampliação da felicidade serão os principais focos da modernidade quando for adotada a simplicidade pela sociedade.

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