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outubro 16, 2009

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Postado por USP Notícias

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nazismo
Arqshoah revela postura do governo brasileiro diante da perseguição de judeus no Holocausto

Fajga Rajzla Boguchwal é uma garota de 10 anos que mora na cidade de Opatow, na Polônia, junto com a mãe e a irmazinha de sete anos. O que ela mais deseja é sair da Europa e vir para o Brasil onde seu pai aguarda ansioso a chegada da família. O ano é 1938 e as coisas estão cada vez mais difíceis para os judeus radicados na Europa. Fajga resolve então escrever uma carta para a embaixada brasileira em Varsóvia onde, literalmente, implora por um visto de entrada no Brasil, país onde seu pai estava refugiado há meses.

A carta de Fajga é um dos documentos que estarão disponíveis para consulta no Arquivo Virtual do Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah) que entrará no ar neste sábado (17). O Arquivo vai tornar público documentos oficiais que revelam a postura do governo brasileiro diante do antissemitismo e da perseguição aos judeus desde a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha em 1933. Além de importante documentos produzidos por diplomatas durante a Segunda Guerra Mundial, o arquivo vai disponibilizar testemunhos e inventários dos sobreviventes do Holocausto que vivem no Brasil. O portal conta também com farto material didático para professores trabalharem o tema em sala de aula, além de vídeos das entrevistas com os sobreviventes e uma biblioteca virtual, entre outros materiais.

O projeto está ligado ao Laboratório de Estudos de Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER), do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e tem a coordenação da professora Maria Luiza Tucci Carneiro. O Arqshoah vai tornar pública uma vasta documentação conseguida ao longo de 30 anos de pesquisas da professora Tucci por arquivos do Brasil e do exterior. A inauguração do portal vai acontecer durante a X Jornada Interdisciplinar sobre o Ensino da História do Holocausto, que acontecerá em Curitiba.

Sensibilizar o internauta
“Queremos sensibilizar a opinião pública e acadêmica para a história do Brasil contemporâneo relacionada à perseguição nazista aos judeus e ao antissemitismo”, conta a coordenadora do projeto. O Portal terá ainda uma galeria com os nomes e histórias das pessoas que ajudaram a salvar judeus da perseguição; as rotas de fuga usadas pelos refugiados, um link para os artistas e intelectuais judeus que se refugiaram no Brasil, além de um inventário de sobreviventes, contendo dados pessoais, documentos como passaportes, fotografias, passagens de navio, etc, e uma bibliografia sobre o tema. Há também espaço reservado para documentação e estudos sobre ciganos, homossexuais e Testemunhas de Jeová, minorias também excluídas pela política intolerante da Alemanha nazista.

Maria Luiza aponta que existe um certo distanciamento por parte de educadores, pois nas salas de aula eles sempre abordam o Holocausto como um adendo da Segunda Guerra Mundial. “A idéia é romper esse distanciamento, quebrar o silêncio imposto pelas histórias oficiais oferecendo aos professores material didático que favoreça o ensino e o debate sobre o Holocausto enquanto genocídio singular e crime contra a Humanidade. O material foi produzido por especialistas em múltiplas áreas do conhecimento: teatro, cinema, história, literatura, psicologia, etc.”, comenta. Um dos exemplos de como o tema pode ser abordado pelos professores é a carta de Fajga Rajzla Boguchwal e os discursos de Thomas Mann pela BBC de Londres (1940-1945), que foram transformados em peças teatrais pela pesquisadora Leslie Marko, uma das integrantes do Arqshoah/LEER-USP.  

Conscientização

Para a professora Maria Luiza, a idéia central do Arquivo Virtual é sensibilizar o internauta e mostrar o perigo e a extensão da aplicação das idéias antissemitas, principalmente enquanto elas são acionadas como instrumentos de poder do Estado. “É uma forma de alertar o consulente de que aquela situação não pode acontecer novamente e nem pode ser negada por revisionistas, neonazistas e outros grupos da extrema direita, como acontece hoje em dia”, aponta a pesquisadora.

Maria Luiza destaca também o papel do historiador que é o “de procurar conscientizar a sociedade da importância de se reavaliar o passado, interpretar o presente e investir em futuro melhor”. Para a pesquisadora, “Cabe ao historiador reescrever a história, que muitas vezes está comprometida com as versões oficiais que negam a verdade histórica e procuram anular a identidade de um povo. Daí a importância da abertura dos arquivos ditos “secretos” e “confidenciais” e a divulgação de documentos até então desconhecidos. Este é um dos objetivos do Arqshoah: tornar público parte destes documentos já disponibilizados por alguns arquivos, mas até então inéditos”, destaca.

O Arquivo Virtual do Holocausto e Antisemitismo tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), das Pró-Reitorias de Cultura e Extensão Universitária e de Pesquisa da USP, da B’Nai B’rith, do LEER e da Cyrela Brazil. Além destes apoios, o projeto abriu o segmento “Adote um bolsista”, direcionado para a captação de recursos junto a empresas e fundações interessadas em participar da iniciativa.

Leia a série completa de reportagens sobre o Arquivo Virtual do Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah)

Palavras-chave: nnpp

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