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outubro 16, 2009

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Postado por USP Notícias

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nazismo
Governo brasileiro negava vistos de entrada para judeus

De acordo com Maria Luiza, o governo brasileiro teve uma postura (pública) ambígua diante do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial.. Se por um lado, na Liga das Nações, o governo se posicionava como solidário ao que acontecia com os judeus na Europa e se comprometia a fornecer, por mês, 3 mil vistos de entrada para esses refugiados, internamente a posição era oposta. Maria Luiza cita vários ofícios secretos do Ministério das Relações Exteriores direcionados a diplomatas brasileiros em que é clara a recomendação de dificultar ao máximo a entrada de judeus no Brasil, por serem eles “indesejáveis por sua raça semita”. Milhares de vistos foram indeferidos por não serem os judeus arianos puros, conforme demonstra os documentos inseridos no portal do Arqshoah.

A partir de 1933, com a ascensão de Adolf Hitler, iniciou-se o processo de perseguição aos judeus na Alemanha, ampliado em seguida para outros países desse continente. Intelectuais judeus começaram a ser expulsos das universidades e teve início um processo de fuga da Europa. Várias vilas foram exterminadas, judeus perderam seus empregos e direitos como cidadãos. “Foram publicadas leis que proibiam o casamento entre judeus e arianos”, lembra a professora. Ao mesmo tempo, o fluxo imigratório de judeus que queriam sair da Europa começou a aumentar em diferentes direções sendo os EUA, a Argentina e o Brasil um dos pontos de acolhimento mais visados.

Segundo a professora, até 1936 ainda era possível conseguir um visto de imigração para o Brasil, mas a partir deste ano, a liberação de vistos de entrada de judeus em nosso País vai foi ficando cada vez mais difícil. Neste momento surgem vários movimentos de ajuda humanitária internacional de auxílio aos refugiados. “Enquanto isso, no Brasil, o governo varguista começa a publicar circulares secretas direcionadas às missões diplomáticas brasileiras no exterior. Elas traziam orientações claras para dificultar, por todos os meios, a concessão de vistos a judeus. Ao mesmo tempo, na Liga das Nações, a postura do governo brasileiro era exatamente outra. Como não podia declarar abertamente sua simpatia pelo nazifascismo, o governo usava de falsos argumentos afirmando que estava oferecendo ajuda aos refugiados judeus. No entanto, nos bastidores o discurso era outro: antissemita, nacionalista e xenófobo. Entretanto, as circulares secretas enviadas às embaixadas provam que a ação do governo foi exatamente outra”, explica.

Maria Luiza explica que a população brasileira (católica) apresentava sinais de antissemitismo e o governo Vargas, por sua vez, transformou este sentimento em política de Estado. “Tal postura explica a persistência, até 1949, de uma política imigratória restritiva aos judeus. Temos vários documentos do Itamaraty, do Arquivo Nacional, de arquivos alemães e franceses que provam que o governo brasileiro fechou as portas aos refugiados. Milhares de vistos foram indeferidos. A idéia da criação deste Arquivo Virtual é de tornar público esta documentação, um fragmento importante do nosso passado intolerante sem perder de vista a ação daqueles que foram solidários em tempos de tragédia”, destaca.

Justos e salvadores
Através do link “galeria dos Justos & Salvadores” fica evidente que nem todos os diplomatas cumpriram as ordens de Vargas. Luis Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil na França entre 1922 e 1944, foi preso durante a ocupação deste país pelos nazistas. Ele passou por processo administrativo no Brasil, onde perdeu o cargo de embaixador e foi aposentado para o bem do serviço público. “No processo, foram anexadas provas de que ele havia concedido vistos a judeus de maneira irregular”, conta a professora, que prepara um estudo inédito a ser publicado em 2010 sobre a ação humanitária de Souza Dantas. Este tema é parte da sua tese de Livre Docência – Cidadão do Mundo- no prelo pela editora Perspectiva.

Em um dos documentos que estarão disponibilizados no portal, Souza Dantas faz as seguintes afirmações: “Fiz o que teria feito, com a nobreza d’alma dos brasileiros, o mais frio deles, movido pelos mais elementares sentimentos de piedade cristã” e que “quase todos [os vistos] foram concedidos somente para facilitar a saída da França de infelizes votados ao suicídio”.

Tucci conta que em 2001, ela reuniu uma série de documentos — cerca de 230 concessões de vistos emitidos por Souza Dantas — e encaminhou para o Yad Vashem (Museu do Holocausto em Jerusalém,) através do Consulado de Israel em São Paulo, para que o nome dele fosse reconhecido como um dos Justos entre as Nações, título outorgado à todos aqueles que arriscaram seus cargos e/ou suas vidas para ajudar a salvar uma ou muitas vidas,  e em especial a de judeus perseguidos pelos nazistas. Após uma série de análises, o nome de Souza Dantas foi reconhecido, com a colaboração de outros historiadores que apresentaram testemunhos e outros documentos, para integrar a restrita lista dos “Justos”. Além dele, a outra personalidade brasileira reconhecida pelo Yad Vashem é Aracy Guimarães Rosa, e que era funcionária no consulado de Hamburgo, onde estava Guimarães Rosa, com quem se casou.

O projeto teve iniciou em junho de 2007 com recursos da Fapesp. Participam da equipe os pesquisadores Pedro Ortiz (responsável pelas gravações em video), além de André Luiz Briant, Ana Carolina Duarte, Dianaluz C. L. Corrêa, Lilian F. Souza, Luiz Moraes, Caio Ribeiro, Laura Lemmi Di Natale, Luiz Moraes e Priscila Freitas. O grupo conta com a colaboração da psicóloga Rosana Meiches e da restauradora Roseli Klapp Zimmermann, ambas da comunidade judaica. No Rio de Janeiro, as pesquisas estão por conta da equipe da professora Helena Lewin, do Programa de Estudos Judaicos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da professora Silvia Lerner. Está em curso uma importante parceria com o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro que irá disponibilizar para o Arqshoah os processos de naturalização dos judeus refugiados no Brasil. Uma equipe de pesquisa deverá atuar nesta nova frente, pois um acordo está para ser firmado entre o LEER/ FFLCH e o Arquivo Nacional.  No link “Parcerias” estãrão registrados dezenas de outras instituições envolvidas em nível nacional e internacional.

Leia a série completa de reportagens sobre o Arquivo Virtual do Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah)

Palavras-chave: nnpp

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