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fevereiro 20, 2009

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Postado por USP Notícias

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Osvaldo Barros é uma dessas pessoas apaixonadas pelo que faz. E confessa seu amor pelo samba de São Paulo. Paulistano do Bom Retiro, esse exímio cuiqueiro faz parte da história do samba de São Paulo, até mesmo lá em Pirapora, como bem lembrou Dalva. “Durante um bom tempo participei dos festejos de Pirapora, junto com Dona Maria Esther”, conta.

Osvaldinho viveu e vive o samba de São Paulo em todas as suas transformações. Nostálgico, fala com propriedade sobre os cordões, quando ainda não havia regras tão rígidas para os desfiles. “Hoje há pouca diferença entre as escolas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os ritmos, como marchas, as letras...Enfim, tudo é muito parecido nos dias de hoje. As diferenças, segundo o músico, ficaram para trás. Enquanto no Rio de Janeiro eram os ranchos, em São Paulo tínhamos os cordões. “Nosso samba tem muito da ruralidade, religiosidade, incluindo a umbanda!”, lembra.

Para Osvaldinho da Cuíca, pouco se vê do samba lá da origem de Pirapora. “Eu o chamo de samba de bumbo! Mesmo o que resiste ainda hoje perdeu um pouco daquela batida da festa do Divino”, diz. Histórias não faltam na memória de Oswaldinho, que chega a se emocionar quando fala dos aspectos ligados à religiosidade do samba de São Paulo.


 

Na avenida
“Se minha memória não estiver falhando, 1972 foi último desfile dos cordões”, relata. Persistente, Osvaldinho conta que entre os anos de 2000 e 2005 organizou desfiles de um cordão pelas ruas do centro de São Paulo. “O ponto de partida era a Igreja da Mãe Preta, no Largo do Paissandú. Íamos pela Dom José de Barros e adjacências”, relembra.

Sem apoio e tendo de pagar as despesas com seu próprio dinheiro, o sambista interrompeu seu tão sonhado projeto de reviver os cordões carnavalescos de São Paulo.

Osvaldinho que é uma espécie de figura universal do samba de São Paulo tem seu coração ligado à Vai-Vai, escola tradicional da Bela Vista. Ele reconhece a beleza dos desfiles atuais, mas alerta para a perda da qualidade. “Há muita beleza, muita estética, mas não há alma”, lamenta.

Nós tínhamos o caipira no samba. Faço samba urbano, nos padrões cariocas, que dominou o mundo. E quando quero abordar um tema que tem algo de regional, procuro fazer um pouco na linha do caipira.

Em Monólogo de um Sambista, Osvaldinho da Cuíca relata sua estreita relação com o samba de São Paulo e nos traz um pouco da história do gênero, na cidade dos Demônios da Garoa, tradicional grupo de samba paulistano da qual o percussionista também fez parte em duas oportunidades:

“Sou sambista!
Não por modismo ou opção
É que nasci em pleno carnaval sob o lamento da cuíca
Da batucada de Campos Elíseos
Minha formação musical
Não se fez em academia ou faculdade
Aprendi na escola da vida
Principalmente nos batuques dos cordões
Ainda não existiam escolas de samba com estrutura pra gente ensaiar e cobrar ingressos
O samba era praticado somente pelos mais humildes
Tudo era feito na base do sacrifício e artesanato
O surdo e a cuíca eram feitos de barrica ou tambor de carboreto
Não havia carros alegóricos, samba enredo, mestre sala.
Isso tudo existia no Rio de Janeiro.
Aqui a gente cantava músicas do rádio ou alguns refrãos da comunidade
E a batucada não tinha hora pra acabar
E às vezes parava com a chegada da cavalaria que baixava o sarrafo, furava os couros
E a gente dormia na delegacia
Não era instituído um desfile organizado
Não existia passarela, arquibancada
E tudo isso que está aí
O samba começava nos bairros
A gente ia pra Rua Direita, Praça da Sé, Avenida São João, Avenida Paulista e por ai a fora
Eta! São Paulo da garoa
Não era escola de samba
Era um cortejo nos moldes imperiais
Com rei, rainha, princesa e rumbeira
Era marcante a presença dos balizas como atração
Salve! Genésio do Bixiga, Dito Preto, Bajico, Cara Torta da Barra Funda.
E o apitador? Que hoje é chamado de “diretor de bateria”
Que saudade!!! O valente Pato N´agua, Rubinho da Galvão Bueno, Bolinha “Apito de Ouro”
E os sambistas que jogavam a “Tiririca” e comandava a rapaziada
O grande Dionísio Barbosa, que em doze de março de 1914, fundou o primeiro grupo “Barra Funda”
Depois “Camisa Verde” e finalmente “Camisa Verde e Branco”
Geraldo Filme, Seu Zezinho do Morro, Elpídio Rosa de Faria, Seu Nenê da Vila Matilde, Chico Pinga, Xangô da Vila Maria, Pé Rachado, Germano Mathias e tantos bambas.
Na época tinha que ser valente pra se garantir. E o apitador tinha que por ordem no batuque, na moral
Mas eu nunca fui valente, sempre fui respeitado pela arte de fazer samba. E hoje fico muito feliz em ver toda a sociedade abraçando e cultivando nosso samba. E fico mais feliz ainda em saber que faço parte desta história.

Eu sou Osvaldinho da Cuíca, o primeiro Cidadão Samba Paulistano”

*Monólogo de um sambista improvisado e inspirado em Plínio Marcos para relembrar fatos e alguns personagens que ajudaram a sedimentar o samba paulista

(*Nota que consta no encarte do CD Osvaldinho da Cuíca Convida Em Referência ao Samba Paulista, lançado em 2006 pelo selo Rio8)

Fotos: Marcos Santos

Palavras-chave: nnpp

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