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fevereiro 20, 2009

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Postado por USP Notícias

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  Samba e carnaval são íntimos. Sempre foram! Os saudosos da época dos desfiles dos cordões sempre recordam da maior participação popular. Atualmente, como a maioria diz, o carnaval virou espetáculo de mídia. “Me impressionou quando vi uma transmissão sendo feita para TV no Sambódromo em São Paulo. Reparei que o narrador não acompanhava o desfile. Do alto de uma cabine, ele transmitia o que via por um monitor de TV. E por ali ia narrando...”, conta a pesquisadora Nanci Frangiotti. Ela é autora do estudo O espaço do carnaval na periferia da Cidade de São Paulo, apresentado como sua dissertação de mestrado na FFLCH. “O narrador não percebia a verdadeira emoção do sambista. O que ele via era um todo, um espetáculo preparado exclusivamente para a TV.”

Ao estudar o carnaval paulistano da periferia, Nanci pôde perceber que nos desfiles dos bairros ainda há a espontaneidade e maior participação do público. “Sem grandes recursos, as escolas de samba da periferia da cidade sobrevivem quase que exclusivamente do esforço de seus componentes, a maioria da própria comunidade”, afirma.

Administradora de empresa por formação, Nanci resolveu estudar o carnaval após ter trabalhado no Parque Anhembi, empresa da São Paulo Turismo responsável pela organização da festa no sambódromo de São Paulo, e por participações em projetos na União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP). “Enquanto a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo organiza o carnaval das escolas maiores, as do grupo principal, a UESP é responsável pelos desfiles nos bairros com os grupos das escolas menores”, explica.

O objeto de estudo da pesquisadora foi a Escola de Samba Valença Perus, localizada no bairro de Perus, na Zona Norte da cidade. “As escolas menores devem ter um número médio de 500 componentes”, lembra Nanci. Mesmo com um número reduzido de pessoas em relação às grandes escolas de samba, a pesquisadora destaca a união da comunidade em torno da realização do carnaval. Ela acompanhou toda a organização da Valença Perus no ano de 2005. No ano seguinte, em 2006, a agremiação desfilou no organizado pela UESP.

“Enquanto nas escolas de samba maiores muitas pessoas são contratadas para idealizar e fazer o carnaval e existem patrocínios, nas escolas da periferia a participação popular é intensa. Não há contratação de costureiras, serralheiros e artistas plásticos, entre outros. Em geral, apenas o carnavalesco é contratado”, descreve.

Espaço socializador

A força da comunidade torna a escola de samba da periferia um espaço socializador de diversas atividades. “Ali se reúnem as famílias com suas crianças e existe uma constante troca de informações, desde uma indicação a um emprego até uma simples receita culinária entre as mulheres”, conta.

E é justamente esse espaço socializador que Nanci considera que poderia ser melhor aproveitado pelo poder público. “Ao contrário do que muitas pessoas podem imaginar, a violência registrada na periferia não atinge estes espaços. Há todo um código moral nas quadras das escolas, de maneira geral. Chegam a proibir consumo de drogas, por exemplo, e mesmo no entorno desses locais há o respeito da população”, destaca. “Ao invés de construir novos espaços para atividades das mais diversas, a administração pública poderia entrar em acordo com estas comunidades e aproveitar estes espaços.”

Produtos de mídia
Nos desfiles que acontecem nos bairros da cidade, Nanci diz que a participação do público é direta, justamente por não haver estruturas tão rígidas como as que existem no espaço do sambódromo. “As pessoas ficam mais próximas, participam mais e se divertem mais”, avalia.

Segundo a pesquisadora, já é tradição da Valença de Perus desfilar pelo bairro na terça-feira de carnaval. Ela conta que o desfile acontece de forma que o público acaba participando integralmente da escola. “Numa das manifestações que acompanhei milhares de pessoas acompanharam o desfile numa grande festa”, lembra a pesquisadora.

Nos bairros, os regulamentos dos desfiles são praticamente os mesmos mas, segundo Nanci, a escola por ter menos recursos não faz um carnaval tão vertical como acontece no desfile principal, com grandes carros alegóricos. “A diferença é que as escolas principais acabam sendo um produto de mídia, enquanto na periferia podemos dizer que ainda há o carnaval solidário e de maior participação popular.”

Fotos: Marcos Santos

Palavras-chave: nnpp

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