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fevereiro 20, 2009

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Postado por USP Notícias

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  Banhada pelas águas do rio Tietê, na Grande São Paulo, Pirapora do Bom Jesus está distante 54 quilômetros do centro de São Paulo, no sentido Oeste. Fundada em 1730, a cidade recebia naquela época a visita de muitos religiosos, a maioria fazendeiros que iam agradecer pelas boas colheitas.


No início do século 18, o achado de uma imagem em Pirapora fez com que a cidade passasse a receber muitos religiosos. “Essa visitação à cidade passou a ser anual e ocorre até os dias de hoje, no mês de agosto”, conta Márcio Michalczuk Marcelino.

O pesquisador conta que durante estas visitas a Pirapora, muitos senhores levavam consigo alguns de seus escravos. “A maioria o fazia para ostentar, como uma demonstração de poder”, lembra. Contudo, após a abolição da escravatura, os negros continuaram a freqüentar a cidade durante os festejos de agosto. Tanto que após a década de 1920 até meados de 1940, a festa era quase que exclusivamente dos negros.

A igreja possuía os barracões, e permitia que os viajantes de outros pontos do estado dormissem durante os festejos de agosto. “Durante o dia os negros acompanhavam as cerimônias religiosas. À noite, nos barracões, aconteciam os batuques, as danças, e os desafios”, descreve Marcelino. “Foi nesse momento que surgiu a figura do Chefe do Samba, que era o tocador do bumbo. Esse instrumento aliás, teve extrema importância no ‘samba rural’.” O pesquisador conta que o Chefe do Samba era o responsável por todo andamento dos desafios e danças, a maioria em improvisações, e acabava sendo a pessoa mais respeitada nas rodas.

Com o crescimento dessas manifestações, na metade da década de 1940 a igreja passou a proibir os encontros junto aos eventos religiosos, chegando a destruir os barracões. “Foi quando a igreja efetivamente considerou toda aquela manifestação como profana”, diz o pesquisador.

Espaço preservado

E o samba ainda resiste em Pirapora! Na área central da pequena cidade fica o Espaço Cultural Samba Paulista Vivo Honorato Missé, fundador do Samba de Roda da cidade, na década de 1940. O imóvel que abriga o espaço foi construído em 1913 e é um dos mais antigos de Pirapora. O prédio foi restaurado sob a orientação do Projeto Oficina Escola de Artes e Ofícios de Santana de Parnaíba, que fica próxima a Pirapora, e fazia parte da igreja. “Era um local que abrigava pequenas casas com dois cômodos, cada uma com uma porta e uma janela”, conta Dalva Matias dos Santos, que é coordenadora do Espaço. Nas paredes rústicas de tijolo antigo, olhando mais atentamente é possível notar que as divisões das casas foram derrubadas, formando um salão amplo.

O espaço foi inaugurado oficialmente em 2003 e destina-se à prática e à divulgação do Samba de Roda de Pirapora do Bom Jesus e de outras formas tradicionais de samba. A coordenadora lembra que as iniciativas de resgate do samba de roda tiveram início em 1994.

Além de Honorato Missé, como o principal fundador do Samba de Roda, Dalva cita Dona Maria Esther que, aos 82 anos, ainda canta e dança no samba de roda. “Ela está no samba de roda desde os seus 12 anos. Muitas pessoas passaram pelo samba, como Miguel, Romeuzinho...”, recorda-se. Dalva faz questão de ressaltar que parte das histórias que conta ela ouviu de pessoas mais antigas ligadas ao Samba de Roda. Hoje, o Espaço abriga um grupo de Samba de Roda, que foi montado naquele ano de 1994, e tem como principal objetivo preservar a cultura. “O grupo hoje tem umas quatro pessoas antigas, ainda daquela época. Os outros são mais novos, na faixa de 30, 40 ou 50 anos”.

Em Pirapora no mês de agosto, no aniversário da cidade, o Espaço reúne outros grupos para apresentações como grupos de Piracicaba, Mauá. “Nós também fazemos nossas apresentações. Somos chamados para vários lugares para exibições em faculdades, festas e eventos culturais. De fevereiro a julho temos várias apresentações."

“No mês de agosto a cidade ferve! Não há como estimar o número de pessoas. A Prefeitura traz outros grupos. Mas quando o samba de roda se apresenta a casa fica lotada”, conta a coordenadora. Ela lembra que o sambista paulistano Oswaldinho da Cuica participa, sempre que possível, dos festejos em Pirapora. Em agosto, nos dias 5 e 6 (aniversário da cidade) o samba de roda permanece no espaço. Depois vêm as procissões.

O grupo Samba de Roda também se apresenta para turistas, por vezes até em ocasiões especiais. “Sempre aguardamos convites. Tem mês que não temos nenhuma atividade, mas em outros, sempre nos apresentamos em eventos culturais, faculdades.” A casa também abriga reuniões de outros grupos, mesmo que não ligados ao samba. “Este é um espaço da cidade mantido pela Prefeitura”, enfatiza Dalva.

Os instrumentos são antigos, bumbos, surdos, caixinhas, chocalhos, recos-recos e o grupo atual possui 18 componentes.

Fotos: Marcos Santos

Palavras-chave: nnpp

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