Stoa :: USP Notícias :: Blog :: Crianças com deficiência auditiva aprendem a dar significado ao sons do dia-a-dia na Casa Caracol

fevereiro 16, 2009

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Postado por USP Notícias

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Centrinho
Em Bauru, uma casa que ensina as crianças com deficiência a escutar
  “Quanto menores as crianças, menos diferenças elas veem entre si”, diz a psicóloga Salimar Estilac Sandim Demétrio, explicando por que o medo de alguns pais de os filhos com implante coclear serem maltratados na escola é infundado. Talvez esta seja mesmo uma sabedoria que, em vez de adquirir, vamos perdendo ao longo do tempo. Por isso, o trabalho do Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA) do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP é também uma luta para que as crianças implantadas levem uma vida normal e sejam assim reconhecidas.

A Casa Caracol, onde Salimar atua, é uma casa de vivência e demonstração que as crianças com deficiência auditiva que estão em avaliação para receberem o implante coclear ou já o usam frequentam, acompanhadas de seus pais ou responsáveis. A principal função do programa é ensinar os responsáveis como aproveitar sua própria casa como estímulo auditivo na rotina diária. "Não é necessário que compremos objetos ou brinquedos diferentes para que isso motive a criança a se comunicar verbalmente. A própria casa é rica em estimulação auditiva e verbal, se houver interação. Desde uma porta batendo, alguém lavando uma louça, o liquidificador funcionando, a panela de pressão liberando vapor, enfim, tudo pode ser usado para estimulação. Raramente fazemos o atendimento fora da Casa Caracol, no próprio CPA, mas quando isto acontece percebo que não funciona bem. O ambiente não favorece", explica a psicóloga.

Segundo Salimar, a maior dificuldade é que estas crianças, como quaisquer outras, são inteligentes, então mesmo sem ouvir condicionam as sequências em que as coisas ocorrem, passando a fazer tudo dentro do esperado pelos pais – e isso muitas vezes é mal interpretado como audição. "Às vezes me dizem: 'Nossa, mas ele está ouvindo! Chego do trabalho e falo: vá buscar meu chinelo, e ele traz.' Mas na verdade trata-se de um condicionamento, de associação, e não de compreensão oral”. Além disso, como explica, se comparada uma criança ouvinte à outra deficiente auditiva no aspecto percepção visual, “a deficiente vai dar de dez a zero na outra”. Destaca-se porque ela não se distrai com a informação auditiva, aprendendo naturalmente a usar sua percepção visual como primeiro meio de comunicação que desenvolve.

As pessoas com deficiência auditiva também costumam ser extremamentes rígidas quanto à rotina, já que é ela que as norteia. “Se a mãe, por exemplo, muda o caminho porque se esqueceu de passar na padaria, o filho estranha. Se ela comenta a mudança, mas sem focalizar nele, falando no geral, ele perde a informação. Chorar, ficar bravo e gesticular são formas de contestar a mudança do hábito. Não se trata de birra: aquela é a maneira dele de se organizar no mundo. Então orientamos os pais para que, antes de mudar algo na rotina, sentem e conversem com a criança, explicando o que irá acontecer de uma maneira que ela consiga entender”, conta.

O atendimento
A terapeuta atende os pacientes na Casa quando eles chegam ao Centrinho, logo após o diagnóstico, dando orientações básicas aos pais sobre a deficiência auditiva. As crianças que são avaliadas e encaminhadas para o implante também são atendidas na Casa desde o período pré-cirúrgico. "Revemos alguns aspectos já passados pela equipe, falando dos riscos, benefícios, limitações, os cuidados após a cirurgia, como agir com a criança nos 30 dias em que ela ficará em casa, antes de o implante ser ativado." A partir de então, a cada retorno que o paciente fizer ao CPA, será atendido novamente por Salimar - até que as crianças aprendam a se comunicar pela audição e linguagem verbal, ou até que os pais se sintam seguros para caminharem sozinhos.

Podem ser atendidas uma ou mais famílias ao mesmo tempo, dependendo dos casos, mas na maioria das vezes o atendimento é individual. A primeira conversa é com os pais, para avaliar como está a criança no momento. "Inicio perguntando a eles com está o desenvolvimento da criança, e uma grande parte dos pais afirma que está tudo ótimo. Mas, no decorrer do atendimento, percebo a criança fazendo uso excessivo de gestos, e a dificuldade que alguns pais encontram para se fazerem entendidos. Então, não há um planejamento. Vou trabalhar em cima do que estiver vendo. Quando tenho mais liberdade com aquela família e há necessidade, sou bem sincera nas críticas: 'Ah, mãe, olha o que você fez. Você não esperou ele expressar o que quer e já abriu a bolsa e deu a chupeta...' Ou então eu mesma descrevo oralmente a situação para o paciente: 'Você quer suco? Olha, a mamãe abriu a bolsa e pegou dentro da bolsa o suco', enfatizando". A meta é proporcionar um modelo em que os pais se referenciem para lidar com os filhos no dia-a-dia, sempre colocando em prática o diálogo e as trocas. "Meu trabalho naquele momento não vai ser tão relevante para a criança; o que esperamos é que os pais aprendam e deem continuidade a ele".

E não são só os pais que acompanham a criança no atendimento, como explica Salimar. "É importante que quem tem mais contato com a criança receba as orientações. Se vierem pai, mãe, avó e madrinha, entrarão todos eles na consulta."


As mães costumam relatar os benefícios advindos das "dicas" da psicóloga. "Algumas crianças, por exemplo, insistem em retirar a parte externa do implante [antena, fio, microfone e processador], que são sensíveis e muito caros, como forma de chamar a atenção e manipular os pais quando são contrariadas. Principalmente nos primeiros seis meses, elas percebem o quanto o implante é importante para a família, mas ainda não têm tanto siginificado para a vida delas. Daí eu os ensino a relacionar a retirada do aparelho a alguma atividade que a criança não goste de fazer, como ir dormir [a criança só deve ficar sem o implante no momento de dormir e tomar banho]. Como toda vez em que tira o implante é colocada para deitar, ela para de tirar para não ter que ir para a cama sem sono."

As orientações incluem também situações rotineiras, como o dia de levar a criança para a escola pela primeira vez. "Os responsáveis ficam temerosos de que a criança com deficiência seja maltrada, então temos que explicar que isso em geral não acontece, que ela não é uma 'vitíma' – e às vezes acontece até o contrário", esclarece. “A criança com deficiência auditiva é uma pessoa normal, que sabe o que quer e sabe lutar por isso.”

Salimar ressalta que o implante "não é mágico", isto é, a criança não vai sair falando após a sua ativação. É preciso que ela aprenda a a perceber que existe som e que cada um tem um significado para, depois, se expressar - daí a importância do acompanhamento profissional e da escola. “No início, logo após a ativação do implante, até mesmo escutar o chamado de seu próprio nome não lhe diz nada. Nosso papel é ensinar aos pais a aproveitarem toda interação com a criança percebendo-a em sua totalidade, pois a ela não é só um par de orelhas. A não se deixarem levar pela permissividade e superproteção, promovendo um desenvolvimento harmonioso de seu comportamento e das habilidades auditivas e verbais para que ela atinja o seu potencial e aprenda a conviver em sociedade ”, conclui.


Implante Coclear

É implantado por meio de cirurgia um dispositivo formado por dois componentes:

Interno
1) Receptor-estimulador colocado cirurgicamente junto ao osso do crânio, atrás da orelha sob a pele
2) Cabo multicanal de eletrodos instalado no interior do ouvido interno, na cóclea ou caracol (3)

Externo
4) Microfone e fios instalados externamente junto à orelha para captar e transmitir o som para o processador de fala
5) Processador de fala (pode ficar junto à cintura ou ao peito. Envia a informação codificada para a antena transmissora)
6) Antena transmissora fixada por um imã em um ponto da cabeça onde se encontra o receptor-estimulador do implante sob a pele.

O ciclo da audição se completa quando o estímulo elétrico e os sinais codificados são transmitidos por radiofrequência para o receptor-transmissor. Este dispositivo, por meio dos eletrodos que estão implantados no interior da cóclea (caracol), estimula as terminações das fibras nervosas do nervo auditivo, que por sua vez envia para o cérebro os impulsos nervosos.

Para o funcionamento do dispositivo interno deve ocorrer a ativação dos eletrodos, realizada cerca de um mês após a cirurgia. O dispositivo externo deve ficar acoplado a um microcomputador para que os eletrodos sejam mapeados e balanceados.

Fonte: Centrinho

Palavras-chave: nnpp

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