Stoa :: USP Notícias :: Blog :: Pesquisas do Nepaids destacam educação, saúde e prevenção como direitos humanos

fevereiro 10, 2009

default user icon
Postado por USP Notícias

http://www4.usp.br:80/index.php/saude/16151-pesquisas-do-nepa

saúde coletiva
Pesquisadores do Nepaids completam 18 anos ampliando horizontes na prevenção da aids
 O grupo que formou o Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids (Nepaids), e que completa a sua "maioridade" em 2009, foi o primeiro dentro da USP a se dedicar a estudos interdisciplinares sobre a doença - além de ser um dos primeiros do país a trabalhar com prevenção e cuidado em HIV/aids no Brasil em um campo não estritamente biomédico. A aids não pode ser abordada com noções superadas como "grupos de risco" ou mesmo "comportamentos de risco", que estigmatizavam parcelas populacionais. Assim, o núcleo consolidou a noção de vulnerabilidade sócio-cultural, desenvolvendo trabalhos no campo da sexualidade e gênero e no plano do cuidado, abordando a prevenção em comunidades as mais diversas possíveis: trabalhadoras do sexo, usuários de drogas, juventude em escola, juventude na favela, juventude caiçara, quilombolas, movimento negro, movimento de mulheres, entre outros.

Formado por pesquisadores de disciplinas que vão desde a psicologia, ciências sociais, medicina, enfermagem, nutrição e estatística até geografia e educação física, o Nepaids tem também como característica o trabalho com organizações não-governamentais. Além disso, como explica a professora Vera Paiva, do Instituto de Psicologia (IP) da USP, no grupo desde sua criação no início da década de 1990, “o Nepaids funciona como um coletivo que envolve, além de professores e alunos da USP, pessoas que estão ‘com a mão na massa’”, com as quais o núcleo desenvolve vários projetos de pesquisa e, eventualmente, formação: enfermeiros nas Unidades Básicas de Saúde, psicólogos do Programa de Saúde da Família, médicos de centros de referência de aids, enfim, todos os profissionais de saúde que prestam atendimento relacionado à doença.

 Professora Vera Paiva
Acomodação
As maiores dificuldades para se trabalhar a aids são bem diferentes atualmente em relação às da época em que a doença começava a se espalhar. "Primeiramente, as pessoas não entendiam que se tratava de uma epidemia; achavam que era uma doença que ocorria só com 'os outros': lá na África, ou aqui somente com pobres, trabalhadores do sexo ou usuários de drogas. O nosso problema hoje é diferente, na medida em que a epidemia no Brasil está estabilizada. Mas epidemia ‘controlada’ não quer dizer o final da epidemia, e sim apenas a diminuição da aceleração do número de infectados”, afirma Vera.

O resultado de uma certa despreocupação é que tem crescido a taxa de infecção entre alguns grupos, como jovens homossexuais e meninas que estão iniciando a vida sexual. Em relação à geração anterior, continua aumentando a porcentagem de pessoas que utilizam camisinha na primeira relação sexual entre quem têm menos de 25 anos. Entretanto, esta é uma geração que sabe menos sobre aids. “A escola ensinou muitas pessoas na década passada sobre prevenção, e algumas acham que não é preciso mais abordar o assunto, porém, é preciso entender que o público mudou”, ressalta.

Direitos humanos
Tendo seus membros como conselheiros e assessores de programas públicos, o núcleo é um dos grupos que mais contribuiu, no campo da prevenção, para a construção da chamada “resposta brasileira de aids”, bem sucedida e exemplar para outros países. E para Vera, o que marca esta resposta é que ela é realizada no âmbito dos direitos humanos. Isso quer dizer, primeiramente, defender o Sistema Único de Saúde (SUS) e seus princípios de acesso universal.

Até a Constituição de 1988, o SUS não existia, e apenas algumas categorias de trabalhadores – em geral as sindicalizadas – poderiam utilizar serviços de saúde gratuitos. “As pessoas mais pobres conseguiam no máximo serem atendidas pela Santa Casa”, conta a professora. “A saúde para os pobres era 'beneficente', não existia como princípio universal. O movimento social por saúde, que então defendia os princípios do SUS, e já respondia à epidemia de aids que começava, foi fundamental para garantir o acesso universal à saúde e educação em saúde. Nos países da África, por exemplo, não temos, como aqui, tantas crianças que mesmo ao nascerem com o vírus por contaminação vertical [da mãe para o feto] crescem saudáveis, chegando à adolescência, por terem acesso garantido aos medicamentos que podem impedir a infecção de se desenvolver. Até mesmo em nações ricas, como os Estados Unidos, se a pessoa não tiver dinheiro para pagar um seguro-saúde pode morrer sem medicação”.

Além da saúde, os direitos humanos implicam respeito à diversidade sexual, combate ao racismo, direito à liberdade de expressão e manifestação de crenças. Implicam também um estado laico, isto é, em que as políticas púbicas não discriminem as religiões, mas também não sejam influenciadas por elas. “A camisinha tem que ser distribuída para todos, mesmo o papa católico, por exemplo, sendo contra. Hoje, segundo uma pesquisa do Ministério da Saúde com a qual o Nepaids colaborou, 85% dos católicos no Brasil são a favor da distribuição de camisinha na escola, coisa que não vemos acontecer em outros países”.

Outros obstáculos
Ainda que o problema mais recente seja aquela espécie de acomodação frente ao controle da epidemia, o primeiro grande obstáculo para se lidar com a aids, seja na prevenção ou no dia-a-dia dos portadores do vírus, foi o estigma associado à doença. E ele permaneceu. “As pessoas que tem HIV/aids sofrem discriminação permanente, violações de seus direitos humanos. No início eram maltratadas, expulsas mesmo. Até na própria Universidade isto acontecia. Em 1989 foram proibidas pesquisas sobre aids aqui dentro do IP; os portadores simplesmente não podiam frequentar o ambiente pois tinha gente com medo de ser infectada.”

Mesmo que o problema tenha sido amenizado, ainda são numerosos os relatos de soropositivos sendo discriminados. “Um dos estigmas mais fortes é a associação das pessoas com HIV/aids à promiscuidade e, derivando disso, a recriminação do desejo destas pessoas de terem filhos [discutida pela professora em sua livre-docência].” Mesmo que atualmente haja pessoas com até 20 anos de convivência com o vírus sem desenvolver a doença, ou que o bebê tenha avós e pai que não são soropositivos e poderão continuar a dar suporte à criança. E até mesmo sabendo-se que a portadora de HIV que toma medicação tem uma probabilidade de menos de 1% de ter um bebê soropositivo. “Em geral, há uma tentativa de extirpar das pessoas com HIV/aids o direito de ter filhos, de reconstituir a vida e manter sua relação conjugal.”

Tais assuntos não podem estar fora do escopo da prevenção, como explica a psicóloga. Devem que fazer parte de um processo de esclarecimento e informação. "O combate a todo tipo de estigma e discriminação é central para a prevenção".

 Cartilha para jovens e adolescentes
 produzida pelo Nepaids e GPTOS
Novas questões
Com o desenvolvimento das drogas de controle do HIV, novas questões surgiram que demandam mais reflexão. “As crianças crescendo com HIV e a integração delas na escola e, futuramente, na faculdade e na vida profissional, são um bom exemplo de situação que precisa ser trabalhada”.

Também os jovens homossexuais que não viveram na fase mais aguda da epidemia e não a reconhecem como grave constituem um novo problema. “Alguns pensam que é possível, por exemplo, fazer o chamado serosorting: detectar os soropositivos para evitá-los ou não ter relações sexuais com eles sem camisinha. Para isso, tentam descobrir sinais de quem toma medicação pelas deformações no rosto. Acontece que as medicações mudaram e não produzem mais os mesmos efeitos”.

Enfim, a educação para prevenção entre estes públicos precisa ser repensada e, algumas vezes, reformulada. Sinais de que, mesmo com o controle relativo da epidemia, o trabalho do Nepaids não tem data próxima para terminar.

Palavras-chave: nnpp

Postado por USP Notícias

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.