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dezembro 19, 2008

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Postado por USP Notícias

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FFLCH
Neho: histórias para contar, historiadores para ouvir
 
Pré-história e História. Entre uma e outra, diferenciando-as, está a escrita. O que deixa de fora todos os grupos que não registram por este método sua realidade. A história oral, estudada há 17 anos por um grupo de pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, veio para subverter este conceito pouco inclusivo.

“A concepção mais antiga de história deixava a oralidade à margem, como um território nebuloso, incerto, improvável. Só que com [o conceito de] história oral começa a haver uma consciência de que existem histórias que não são contempladas pela documentação convencional”, explica o professor José Carlos Sebe Bom Meihy, coordenador do Núcleo de História Oral (Neho) da USP.

Analfabetos, índios, empregadas domésticas são como que candidatos naturais aos projetos da disciplina. Também grupos de realidades cerceadas, como mulheres e pessoas com orientação sexual que não eram contempladas rotineiramente. Mas podem ser estudados famílias, instituições esportivas, musicais, grupos de trabalhadores, enfim, todos aqueles que reivindicam o direito de contar a sua própria história.

“É importante salientar que a história oral não é um patrimônio da universidade, mas da cidadania. Todos podem se mobilizar em torno de suas preocupações básicas. Desde a Escola Paulista de Medicina, que faz 75 anos e resolveu contar sua trajetória a partir da vida das pessoas envolvidas, até o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra – talvez um dos casos mais expressivos de pessoas com uma causa social exposta, e que se constituíram em um organismo vivo capaz de comunicar sua história”.

Mais sobre o Neho
O Neho surgiu como uma proposta pedagógica, como relata José Carlos. “Fiz meus primeiros contatos com a história oral em 1989, nos EUA, onde existe uma tradição muito desenvolvida na disciplina. Quando retornei, trouxe estas experiências para alunos em sala de aula". Se o curso dado era sobre a Guerra Civil Espanhola, por exemplo, uma das tarefas propostas era entrevistar imigrantes que vieram ao Brasil por causa da guerra. “Com isso, foi havendo um entrosamento excelente dos alunos da graduação com esta metodologia – muitos passaram para a pós-graduação e acabaram entrando no Núcleo”.

O Neho é um grupo extremamente dinâmico, composto por 16 pessoas que agregam conhecimentos de acordo com seus interesses específicos. Já há cerca de 20 teses defendidas na área de história oral, e uma produção de livros considerável, fora a revista e o site do grupo. Além disso, foi a partir do Neho que foi proposta a fundação da Associação Brasileira de História Oral, em 1992.

Origens
Desde meados do século XX, a noção de documento como aquilo que está escrito, cartorial e arquivado passou a ser contestada, por não incluir a iconografia, a fotografia, a estatuária, os monumentos e, principalmente, a palavra oral. “Particularmente após a segunda guerra mundial, quando muitas vítimas voltaram para casa mutiladas e com uma situação de vida completamente modificada, as pessoas sentiram necessidade de contar suas histórias. Este fenômeno se deu principalmente em Nova Iorque, por meio do rádio”, conta o professor. Não por acaso, é na Universidade de Colúmbia – também na “Big Apple” – que surge pela primeira vez o termo “história oral”.

Hoje este tipo de história é aceito quase que universalmente. Mesmo assim, ainda há algumas restrições dependendo do segmento acadêmico. “Historiadores convencionais, forjados no pó dos arquivos, na ditadura da palavra escrita, e na provação dos documentos, acabam achando que a história oral é uma história imprecisa, não objetiva, sem compreender que esta é exatamente a sua 'graça'”, lamenta José Carlos. “Desde que estes historiadores comecem a entender que os esquecimentos, as mentiras, as deformações, e a seleção de elementos pela memória são importantes, eles passarão a respeitar nossa metodologia”.

Mas, para que alguém possa falar sem uma auto-censura que prive a narrativa de elementos fundamentais é necessária a liberdade de expressão. Em países que sentiram o peso do regime militar a história oral demorou muito a chegar – somente após a abertura política é que se tornaram viáveis projetos nesta área. “Por isso é que no Brasil, como em grande parte da América Latina, houve algo como uma 'fome absoluta'; isto é, imediatamente após a abertura, ex-presos políticos, analfabetos, mulheres, e todos os grupos culturalmente segregados começaram a exigir o direito de contar a própria história”.

Conceitos e métodos

Em termos de conceitos, a história oral parte de uma noção de história viva. “Eu, por exemplo, sou filho de imigrante, então a história da imigração não acabou no meu pai – é uma história que provoca continuidade em mim. Vou olhar para o passado da imigração com olhos bastante contemporâneos e presentificadores”, explica o professor.

Isto põe por terra a noção positivista de história como “a ciência que estuda o passado”. Parte-se de um diagnóstico do tempo presente que vai exigir que se repasse a história a partir do aqui e agora. Assim, trabalha-se a experiência de figuras da vida comum, não sendo necessários heróis, santos, mártires ou generais.

Exemplificam bem esta abordagem os personagens estudados em pesquisas do Neho. “O primeiro projeto do Neho foi o Caiowá. Nos anos 90, um dos grandes temas na mídia era o suicídio de índios que vinha ocorrendo na Região Centro-Oeste. O jornalismo na época dava uma explicação muito simplista para o fenômeno, dizendo que eles queriam 'se exterminar' por não estarem resistindo às pressões externas. Convivendo com estes índios no Mato Grosso do Sul começamos a perceber que existia uma outra realidade, e que o que eles queriam era exatamento o contrário: manter suas tradições, recuperar a sua língua tornando-a oficial nas escolas. A própria noção de morte deles é outra, e ninguém falava disso”, conta José Carlos.

O núcleo tem também muitas pesquisas nas áreas de imigração, gênero, histórias de famílias, e outros de âmbito social mais estendido como o projeto Recuperação de Drogados, de autoria do próprio coordenador. “Nos Narcóticos Anônimos, trabalho com os processos que ocorrem com os viciados e seus familiares na fase de recuperação, o que é pouco abordada na literatura e na mídia”.

Ser ou não ser história oral
Ao contrário do que se pode supor, o corpus da história oral é bastante rígido, com conceitos bem estabelecidos, inclusive com regras éticas e de comportamento a serem preservadas. “Há toda uma sistematização, um conjunto de procedimentos que se inicia com a elaboração de um projeto, passa pelas entrevistas, e depois pela sua documentação, até gerar um texto aprovado. Então não é o simples o fato de alguém sair com um gravador e entrevistar um velhinho que está prestes a morrer que indica que esta pessoa está fazendo história oral”, brinca o professor.

Além dos historiadores propriamente, antropólogos, sociólogos, jornalistas, psicológos, etnógrafos, enfim, uma gama de estudiosos de diversas áreas foram em busca de critérios de apropriação de recursos da história oral – principalmente a entrevista –, mas cada um com suas tradições disciplinares muito particulares.

Fica a pergunta: isto também é história oral? Para o professor, a resposta é que pode ser , desque esta seja considerada num processo de mudança. “Questiona-se muito hoje o estatuto da história oral, e as pesquisas de ponta da área indicam que ela se encaminha para ser não mais uma ferramenta, uma técnica, ou uma metodologia, mas sim uma disciplina”. Isso se explica muito em parte por um mundo tecnologicamente globalizado, com técnicas de registro que não eram possíveis anteriormente. “A virtualidade chega como um desafio para a produção do conhecimento, e a história oral entra como um dos elementos capazes de unir estas possibilidades da eletrônica moderna com um novo tipo de produção do saber, com objetos próprios, que são a memória, a história, e a identidade”, completa.

Palavras-chave: nnpp

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