Stoa :: USP Notícias :: Blog :: Programas de reabilitação do Centrinho têm corais como símbolo de eficiência do trabalho desenvolvido

dezembro 08, 2008

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Postado por USP Notícias

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Reabilitação
Corais de surdos em Bauru encantam com música e superação 
 A maioria dos centros de educação infantil utiliza a música como atividade lúdica e pedagógica. As crianças, que costumam ter grande afinidade com a arte, ficam muito felizes em cantar – e os pais em assistir às suas apresentações. Mas em um lugar do Brasil, talvez único na iniciativa, esta atividade é mais do que especial: representa a vitória dos pequenos cantores em uma luta, desde o nascimento, para levar uma vida como outra criança qualquer. É o Coral do Centro Educacional do Deficiente Auditivo (Cedau), programa do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP em Bauru.

O coral começou como uma atividade educacional comum do programa, como conta a diretora do centro, Maria José Monteiro Benjamin Buffa. “Quando o Cedau completou 10 anos, fizemos uma apresentação e o público ficou 'maluco' de ver as crianças, porque elas encantam mesmo. A partir daí, para qualquer evento realizado no Centrinho éramos chamados – e acabamos virando um coral de verdade.”

Todas as crianças que estão no Cedau participam do coral. “Não tem como não querer participar, todos querem. Sabe como é criança: se vê o outro cantar... quer cantar também. Para eles é mais empolgante ainda poder mostrar 'olha, eu sei falar! Hoje estou ouvindo e consigo cantar'. E para nós, que somos profissionais, é a maior satisfação saber que valeu a pena o nosso trabalho”, afirma Maria José.

Satisfação redobrada para os pais. “Quando eles vêem os filhos cantando, é bastante emocionante – alguns até choram. Ninguém mais do que eles sabem comparar a situação anterior do filho com a evolução de vê-lo cantando”.



Lilian Trevisan é uma destas mães. “O trabalho que é feito aqui no Cedau tem ajudado muito a minha filha, apesar de ela estar aqui há pouco tempo. A Helena já está falando muitas palavrinhas. Melhora tudo: melhora linguagem, melhora comportamento”, relata.

Renata Paula, mãe de Linyker, que já está há oito meses no Cedau, também relata um ótimo desenvolvimento do menino. “Mudou tudo. Agora temos uma rotina. Mesmo o acompanhamento dele na escola, onde tivemos alguns problemas, já está evoluindo”.

Valderes da Silva, pedagoga
e intérprete de Libras do NIRH
Aprendizado
Os dispositivos que devolvem a audição são apenas parte da solução do problema em caso de deficiência auditiva. “Não adianta colocar o aparelho e achar que a criança vai sair falando. O surdo que o utiliza, para desenvolver a oralidade, precisa ter a percepção da fala”, explica a pedagoga. E é nisso que atua o Cedau. “O objetivo de tudo que é realizado aqui, inclusive o coral, é fazer com que a criança que fez o implante coclear ou utiliza um aparelho de amplificação sonora individual aprenda a ouvir e a falar”.

O requisito para a obtenção de uma vaga em um dos programas de reabilitação de surdez do Centrinho é estar usando aparelho ou já ter feito o implante coclear no próprio hospital. Os participantes têm transporte gratuito até o local. “A partir do momento em que elas entram aqui, todas as atividades são orientadas para que desenvolvam as habilidades auditivas. Já no lanche que tomam quando chegam, os itens são nomeados para a criança, para que ela vá aprendendo a se comunicar oralmente: 'isso é o quê? Leite?' Tudo é terapêutico. Se a criança está no parquinho e passa um avião, por exemplo, questionamos: 'olha, que barulho é esse? Passou um avião?'", explica Maria José.

Durante a semana as crianças ficam em grupos com uma pedagoga e, duas vezes por semana, passam por atendimento individual de fonoaudiologia, para suprir necessidades mais específicas de cada uma. Há também atendimento psicoterapêutico em grupo.

Às sextas-feiras, acontece a atividade de música, quando todas as turmas são reunidas para cantar e ensaiar. “Os que estão iniciando a reabilitação vêem as crianças que estão há mais tempo cantando e ficam mais estimulados para aprender”, conta Maria José.

Maria José Buffa, diretora dos
programas de reabilitação
Tripé
Mas, além do trabalho profissional especializado, há dois outros fatores significativos para o êxito da reabilitação: a família e a escola. “As três bases deste tripé precisam estar bem firmes para que a criança possa se desenvolver”, enfatiza a pedagoga. Quando a criança não é trazida todos os dias, ou é trazida sem o aparelho – ou quando os pais não comparecem às reuniões e ao curso de orientação, por exemplo, o esforço fica comprometido. “Se não houver envolvimento da família, dificilmente conseguimos reabilitar com sucesso. Por isso, todo semestre a família é avaliada, e também mantemos atividades com assistentes sociais para as mães que queiram permanecer com os filhos no local durante o programa”.

No caso da escola, também é necessário um trabalho de esclarecimento. “No ensino regular, muitas vezes os professores não sabem como lidar com estas crianças. Acham que não precisam conversar com elas, ou que é necessário falar gesticulando, com uma voz mais forte ou mais devagar – e não é o caso, pois elas precisam estar habituadas à normalidade.” Para resolver este problema, as pedagogas do Centrinho promovem cursos de capacitação para os professores, e fazem acompanhamento direto nas escolas em que os alunos dos programas estão matriculados . “Também é importante saber que o deficiente auditivo vai aprender – normalmente num ritmo mais lento – mas ele aprende”, completa Maria José.

“É preciso saber viver...”
Desde 2000, a área de reabilitação do Centrinho passou a atender também deficientes auditivos que não têm condições de ouvir, mesmo com aparelhos, e que até então não tinham nenhum tipo de atendimento específico em Bauru. Este é o caso daqueles que demoraram muito tempo para realizar o implante ou colocar o aparelho – para quem é praticamente impossível aprender a fala dos ouvintes.

“Eles vêm aqui para aprender a Libras [Língua Brasileira de Sinais] e a Língua Portuguesa escrita, e são atendidos pelos profissionais do NIRH, o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação. Uma criança que chega aqui com 5 anos, por exemplo, com uma perda auditiva profunda, sem nunca ter usado aparelho, e que não tem nenhuma intenção comunicativa. Ou com uma família inadequada, para quem tanto faz a freqüência ou não ao programa. Ficar no Cedau pode ser até um atraso, pois esta criança precisa, o quanto antes, desenvolver alguma forma de comunicação, ou seja, a Libras”, esclarece a diretora.

Mas se estas crianças e adolescentes não conseguem falar nem cantar, as atividade musicais estão fora de questão, certo? Errado. As pedagogas do NIHR, especializadas em Libras, também criaram um coral para este público. As professoras cantam ou ligam um aparelho de som, e os garotos também “cantam”, por meio da língua de sinais. No repertório, canções como “É preciso saber Viver e "Jesus Cristo”, de Roberto Carlos. A alegria é a mesma dos participantes do outro coral, pois é um momento em que eles podem se expressar e mostrar que também têm condições de se comunicar e 'curtir' a música. À sua maneira.

Fotos: Marcos Santos

Palavras-chave: nnpp

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