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dezembro 01, 2008

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Postado por USP Notícias

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psicologia
Pesquisa mostra tensão dos trabalhadores na antiga Febem
Os trabalhadores da Febem(*) vivem em intenso sofrimento psicológico devido ao cotidiano tenso e hostil das relações com os adolescentes, com a sociedade e com a própria instituição. Essa é uma das constatações de um estudo realizado no Instituto de Psicologia (IP) da USP por Erich Montanar Franco, professor de psicologia do Mackenzie, que pesquisou como os trabalhadores das unidades de internação pensam, entendem e entendem a instituição.

O interesse pelo tema dos trabalhadores surgiu a partir de uma experiência de Montanar Franco como agente de educação na unidade de Franco da Rocha, em São Paulo, onde o ele acompanhou de perto o dia-a-dia da instituição. "Percebi, por exemplo, que os funcionários novatos são orientados a não estabelecer vínculos e sempre manter distância dos internos. Porém, era mais perigoso se afastar, pois os jovens não esquecem as repressões sofridas e se vingam depois", explica o psicólogo.

Segundo Montanar Franco, diferentemente das pesquisas acadêmicas, as práticas técnicas atuais ainda buscam patologizar o problema social. Existem muitas pesquisas dedicadas aos adolescentes e à instituição. Portanto, o foco do estudo foi o trabalhador. Para isso, ele realizou atividades em grupo, nas quais cada um contava a sua história e conversava sobre o que era a Febem. Aconteceram duas entrevistas em grupo e ao todo foram 11 pessoas entrevistadas. "A idéia não era generalizar e descobrir um padrão, embora as histórias fossem parecidas" relata o professor, "há um consenso, por exemplo, que as pessoas que propõem mudanças na instituição não têm idéia do que é trabalhar nas unidades".
 
O ambiente e a vivência na Febem lembram muito um presídio, com um tratamento rígido, baseado na contenção, na repressão e nada educativo. Essa rigidez no tratamento dos internos se reflete no próprio trabalhador. Segundo Montanar Franco, a instituição já nasceu com a proposta de prender jovens, respondendo a uma série de políticas públicas. "Ela não é uma instituição que deu errado, ela é bem sucedida naquilo que se propõe (mesmo que de maneira dissimulada), que é prender e reforçar no jovem uma identidade de criminoso", comenta.
 
Pelas entrevistas, observou-se que os trabalhadores se sentem estigmatizados, numa situação semelhante à dos jovens. Apesar de não serem criminosos, eles são taxados como torturadores e bandidos. A imagem que se produz sobre eles é negativa. "A Febem culpa o funcionário, que é responsabilizado por cumprir as tarefas que lhe são solicitadas. Não se considera que as diretrizes das unidades treinam o trabalhador para agir de forma intransigente, incentivando a contenção e não a recuperação", aponta o pesquisador.
 
Os trabalhadores acreditam no que fazem e acham correta a forma violenta de lidar com os jovens. As conseqüências das incoerências e violências institucionais somadas à inexistência de espaços para falar e pensar sobre o próprio trabalho se desdobram na vida fora da instituição. Nos diversos grupos sociais com os quais convive, a pessoa passa a pensar e agir de uma forma que é própria da instituição. Essa postura, no entender do pesquisador, acaba ocupando as outras formas de agir que a pessoa tinha nos diversos meios sociais em que vive. "A influência da instituição sobre suas vidas é tão intensa e tão invasiva que se sobrepõe a todo um conjunto de vivências que são anteriores e que orientam nossa vida no cotidiano. Abandonar a afetividade, além de ser uma regra de conduta, também pode ser uma forma de o trabalhador suportar a tensão", relata.
 
O futuro da instituição
Em dezembro de 2006, com mudança de nome para Fundação Casa, tentou-se uma transformação na estrutura da instituição. A principal proposta foi a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que preconiza um tratamento mais humano e a possibilidade perspectivas para o jovem.
 
Entretanto, Montanar Franco avalia que a humanização da Febem está longe de se efetivar. Há uma cultura instalada que não muda de uma hora pra outra. Para ele, não basta apenas dizer que o funcionário deve aplicar o ECA. "Os jovens internados ainda têm a cabeça raspada, usam uniforme, os quartos ainda são celas. Ele é tratado como se fosse naturalmente perigoso e criminoso. Eu acredito que os trabalhadores devam participar na discussão das mudanças, pois são pessoas essenciais para a melhora da instituição".
 
Existem pressões reais para uma mudança por parte de setores da sociedade, mas o Estado ainda resiste a elas. "Aplicar o ECA implica proteger a criança antes que ela cometa ato infracional", constata, "o trabalhador é convenientemente responsabilizado pelos problemas da instituição. E o impedimento da reflexão sobre esse contexto de grandes contradições gera muito sofrimento aos trabalhadores, pois eles não conseguem atribuir sentido ao trabalho e à vida", conclui.
 
*Segundo Franco, a simples mudança de nome para "Fundação Casa", em 2006, não apaga toda a história da instituição. Por isso, ele ainda prefere tratá-la como Febem.

 
Mais informações: (11) 9432-7814 ou email efranco@bol.com.br, com o professor Erich Montanar Franco


Palavras-chave: nnpp

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