Stoa :: USP Notícias :: Fórum

Autor Núcleo José Reis valoriza a divulgação da ciência e a comunicação entre áreas
USP Notícias
USP Notícias

Fev 27, 09

http://www4.usp.br:80/index.php/ciencias/16239-nucleo-jose-re

Comunicação
Na ECA, Núcleo José Reis dissemina cultura da divulgação científica
 
Fazer a maioria dos cientistas se conscientizar da importância de divulgar o seu trabalho nem sempre é tarefa fácil, em particular se esta divulgação for voltada para um público leigo. Além disso, não são todos os pesquisadores que entendem a comunicação entre as diferentes áreas como um dos vetores mais importantes para a velocidade em que o conhecimento científico como um todo avança. Neste processo, profissionais da comunicação podem contribuir tanto para levar a informação científica a um público mais amplo do que o acadêmico, como fornecer técnicas para ajudar os pesquisadores a dialogarem de maneira mais efetiva com outras áreas.

Estas questões são parte dos objetivos da chamada “estrutura José Reis”, na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, que também luta pela valorização da ciência e por uma prática de jornalismo científico socialmente responsável. A estrutura é formada pela Cátedra Unesco José Reis de Divulgação Científica, pioneira no mundo e capitaneada pelo professor Ciro Marcondes Filho, a Associação Brasileira de Divulgação Científica (Abradic), da qual o cientista e professor Crodowaldo Pavan é presidente, e o próprio Núcleo José Reis, que é o "órgão mãe", como definido pela professora Glória Kreinz, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP) e que integra a coordenação.

Entre suas ações fundamentais, o Núcleo conta com cursos dados por professores da própria ECA, com destaque para a Especialização em Divulgação Científica, ministrada anualmente, farta publicação de artigos de seus membros e uma série de livros editados - o décimo-segundo sendo enviado para a gráfica no momento. A Cátedra Unesco envolve treinamentos, pesquisas e outras atividades de produção de conhecimento.

Os professores Osmir Nunes, Glória Kreinz e
Crodowaldo Pavan

Para o professor Pavan, geneticista de renome internacional e com um currículo que impressiona, o curso de divulgação científica oferecido pelo Núcleo é inovador, pois até sua criação os cursos que existiam eram voltados somente para ensinar a divulgar ciência para o "zé povão", como define o docente. "Em francês, chama-se isso de vulgarization. Já o trabalho que fazemos no nosso curso diz respeito muito mais a proporcionar a interdisciplinaridade, aos especialistas de cada área aprenderem a divulgar o que se passa na sua área para as outras". De acordo com Pavan, antigamente até mesmo os docentes das faculdades como medicina e engenharia tinham uma base em filosofia e sociologia. Já hoje, os estudiosos trabalham com áreas muito específicas e não têm quase noções de outros campos - até porque é praticamente impossível acompanhar todos os desenvolvimentos dos diversos os campos da ciência.

Então, mais do que a comunicação para o leigo, que também é abordada, o foco do curso é promover o diálogo entre profissionais qualificados através da comunicação. "Por isso temos um grande número de alunos no curso vindos da medicina e biologia, exemplo. O que eles vêm fazer aqui é aprender com jornalistas a escrever num ritmo jornalístico. Nós, por outro lado, aprendemos a conviver com os cientistas e tentar tornar mais claro aquilo que eles fazem", complementa Glória Kreinz.

Outro destaque do trabalho desenvolvido no Núcleo é o suporte de professores da área de filosofia, como Caetano Ernesto Plastino e Franklin Leopoldo e Silva, explica Glória. "A presença destes docentes dialogando e mesmo publicando em parceria com o Núcleo qualifica nossos cursos e as discussões de uma maneira geral, contribuindo conosco para levantar e discutir os problemas do mundo atual. E sem deixar o debate fechado internamente".

SAIBA QUEM FOI JOSÉ REIS

Problemáticas
Entre as questões mais complicadas quando se pensa neste tipo de divulgação, Glória coloca a terminologia, o trato da linguagem científica e como ela transita na sociedade - tema sobre qual o Núcleo planeja organizar um seminário em 2009, aproveitando a grande presença de médicos no curso de especialização. Ela também cita o entendimento das etapas das experimentações e seus resultados como obstáculos a serem superados pelos comunicadores. Mesmo com os anos de experiência, a professora afirma que - talvez até pela relação de respeito nascida na parceria - ainda se sente "tímida" para relatar experimentos expressivos como os desenvolvidos por Pavan, que, completando 90 anos em 2009 e com uma série de atividades paralelas, permanece mais ativo do que nunca no laboratório.

Acervo José Reis, extensa biblioteca montada
pelo cientista durante sua vida e que o
Núcleo pretende disponibilizar para consulta.

Mas os três pesquisadores ressaltam que a divulgação científica, como entendida pelo Núcleo, não inclui apenas as áreas de biológicas e exatas. "Trabalhamos com um conceito amplo de divulgação científica como queria o doutor José Reis, que inclui as ciências humanas", explica Glória. "Tome-se, por exemplo, esta crise internacional: como explicar o que está acontecendo ao público leigo evitando o 'economês'?", questiona o professor Osmir Nunes, membro do Núcleo. E o mesmo vale para as questões que movem a sociologia e a filosofia, como lembra Pavan.

Assim, para Glória, é essencial que acadêmicos de todos os campos, bem como os comunicadores, aprendam a realizar um intercâmbio claro e eficiente de idéias, utilizando-se das linguagens mais diversas de texto e imagens. "Divulgação científica, como nosso patrono entendia, só fazia sentido na medida em que melhorava a vida do outro."


Carta São Paulo
A base do pensamento do Núcleo e dos objetivos profundamente relacionados com a sociedade que o movem está definida em um documento redigido em agosto de 2002, a "Carta São Paulo em Defesa da Divulgação Científica", elaborada durante o primeiro Congresso Internacional de Divulgação Científica, na USP.

Entre outros pontos, o manifesto afirma que o divulgador científico deve "Propiciar ao maior número de pessoas o livre exercício da crítica e da formação da opinião a partir do acesso ao conhecimento", mas "levar em conta também os avanços da pobreza no País, questionando se há interesses ou compromissos vinculados com a divulgação desses fatos, para evitar que o enriquecimento cultural se dê em benefício prático apenas de algumas nações, de certas sociedades ou de grupos privilegiados."

Junto ao poder público, a carta aponta que "se não houver a divulgação científica no País, o preço que ele terá de pagar no futuro será muito maior, pois a divulgação científica é um complemento da educação básica de grande importância social". E reivindica "meios para que se criem nas comunidades centros de ciência, que permitam aos cidadãos aprenderem fatos da ciência e tecnologia e se habituem no trato com a inovação científica".

Fotos: Marcos Santos

Palavras-chave: nnpp


<< Voltar aos tópicos Responder