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Autor A Navalha de Ocam

I.1-A Navalha de Ocam

Por Jocax

Extraido do Livro ("Genismo")

A “Navalha de Ocam” (“Navalha de Occam”, “Navalha de Ockham”, ou ainda “Occam's Razor”, em inglês) é um princípio lógico-filosófico que estabelece que não se deve agregar hipótese(s) desnecessária(s) a uma teoria, ou de uma outra forma: pluralidades não devem ser postas sem necessidade (no seu original em latim: ‘pluralitas non est ponenda sine neccesitate’.) [1]

 

A Navalha de Ocam também é conhecida como “Princípio da Economia” ou “Princípio da Parcimônia”, que afirma que "as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário, a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão".

 

Acredita-se que Willian de Ockham (ou Guilherme de Occam), frade franciscano do século XIV, tenha sido o criador deste princípio. Willian nasceu na vila de Ockham, na Inglaterra, em 1285,  foi um controverso teólogo e um dos mais influentes filósofos do século XIV. Willian de Ockham morreu em Munique em 1349, vítima da peste negra que assolava a Europa naquela época. [2]

 

 

Simplicidade

 

A “Navalha de Ocam” também é conhecida como o “Princípio da Simplicidade” e estabelece que teorias mais “simples” são preferíveis às teorias mais “complexas”. Mas esta forma de conhecer a “Navalha de Ocam” pode ser enganadora, a menos que se defina qual o significado da palavra “simplicidade”. Pode ser um erro considerar a teoria mais “simples” como aquela de mais fácil compreensão. Simplicidade, na Navalha de Ocam, não é necessariamente o que é mais fácil compreender. Por exemplo, para alguns, pode parecer mais simples pensar que o “deus da chuva” provoca a chuva do que entender um complicado processo físico de evaporação da água pelo Sol e posterior condensação das águas nas nuvens. Portanto, é sempre arriscado associar a “Navalha de Ocam” ao “Princípio da Simplicidade” se não estiver claro qual o conceito de simplicidade que se deve ter em mente. Uma associação correta seria através do número de hipóteses, quando elas são equiprováveis. Ou então pela relação de pertinência: se todas as hipóteses de uma teoria-1 estão contidas numa teoria-2, então a teoria-1 é a mais simples. Considere, por exemplo, uma teoria-1 que utiliza as hipóteses (A e B) e uma teoria-2 que utiliza as hipóteses (A, B e C). Como todas as hipóteses da teoria-1 estão contidas no conjunto de hipóteses da teoria-2, então a teoria-1 pode ser considerada a mais simples (com menos hipóteses), e, este conceito de simplicidade, está de acordo com a “Navalha de Ocam”.

 

Hipóteses Desnecessárias

 

A “Navalha” propõe que “não devemos acrescentar hipóteses desnecessárias a uma teoria”, mas qual seria o significado da palavra “desnecessária” neste contexto?

 

“Desnecessárias” seriam as hipóteses que não estão relacionadas aos fatos que a teoria se propõe a explicar. Por exemplo, hipóteses sem evidências de sua necessidade, ou hipóteses sem relação causal com os fatos observados.

 

Exemplo Ilustrativo

 

A “Navalha de Ocam” é, na verdade, um princípio bastante intuitivo, e o utilizamos corriqueiramente em nosso cotidiano mesmo sem perceber. Um exemplo ilustrativo poderá mostrar isso. Suponha que você, por exemplo, está andando numa rua e observa, mais ao longe, uma caixa de sapatos na calçada. Sem nenhuma outra informação a respeito, qual das seguintes teorias abaixo você escolheria em relação à caixa de sapatos observada?

 

1-A caixa esta ‘vazia’.

2-A caixa contém 20 mil reais.

3-A caixa contém 20 mil reais e a coroa da rainha.

4-A caixa contém 20 mil reais a coroa da rainha e o segredo da vida eterna.

5-A caixa contém um duende verde que criou o universo e que poderá te realizar três desejos quaisquer.

 

Qual destas teorias sobre o conteúdo da caixa você escolheria? Principalmente, tente responder qual a razão de sua escolha.

 

A opção natural seria a escolha de número 1-“A Caixa está vazia”, a mesma que a “Navalha de Ocam” apontaria, pois todas as outras são teorias com hipóteses desnecessárias, já que não existem evidências de nenhuma delas. Apesar disso, ela poderia não ser a teoria correta sobre o conteúdo da caixa. Assim, podemos perceber, em primeira aproximação, que a “Navalha de Ocam” é um critério racional de escolha, e não um instrumento de prova sobre a veracidade de teorias ou hipóteses. Veremos a seguir que a “navalha” é também um método capaz de funcionar como critério de “prova” quando utilizada para eliminar hipóteses ad-hoc que, por sua vez, são utilizadas  contra as evidências encontradas.

 

O Papel das Evidências

 

Uma evidência pode ser definida como um fato ou evento que pode ir a favor ou contra uma teoria. Dizemos que uma evidência é favorável a uma teoria (corrobora a teoria) quando a teoria prevê que aquela evidência poderia ou deveria ocorrer nas condições previstas pela própria teoria. Caso contrário, isto é, quando a teoria prevê que a evidência não poderia ocorrer, dizemos que a evidência ‘refuta’ a teoria, ou então que a teoria é ‘falseada’ pela evidência. As palavras ‘refutar’ e ‘falsear’ estão entre apóstrofes porque, na verdade, sempre é possível invocar hipóteses adicionais criadas especificamente para contornar o problema criado pela evidência e assim salvar a teoria que não se adequou diretamente às evidências encontradas. Estas hipóteses adicionais são conhecidas como hipóteses ad hoc.

Vamos elucidar o papel das evidências na Navalha de Ocam com um exemplo simples. Consideremos duas teorias rivais, T1 e T2:

 

T1 = “Todos os gansos são brancos”.

T2 = “Todos os gansos são vermelhos”.

 

Consideremos a evidência E1:

 

E1= “Foi avistado um ganso branco”.

 

A evidência E1 corrobora a teoria T1, pois T1 prevê que se um ganso fosse avistado, ele deveria ser branco. Mas E1 ‘refuta’ T2, uma vez que T2 prevê que se um ganso fosse avistado, ele deveria ser vermelho. Aparentemente, a teoria T2 foi refutada pela evidência E1. Mas só aparentemente, pois pode-se invocar uma hipótese ad hoc, H1, que salva a teoria T2 da ‘refutação’. Considere, por exemplo, algumas hipóteses H1 que poderiam salvar T2:

 

H1-a= “O ganso visto como branco, é, na verdade, vermelho, mas foi tingido propositalmente de branco para nos enganar”.

H1-b= “Há alguns dias atrás, uma explosão solar atingiu as penas dos gansos vermelhos, tornando-as momentaneamente brancas”.

H1-c= “Uma fonte de raios alienígenas fez com que nossos cérebros enxergassem todos os gansos vermelhos como brancos”.

 

Estas são apenas algumas das hipóteses que poderiam salvar T2, e quem poderia provar que são falsas? Além disso, para cada tentativa de se provar que as hipóteses H são falsas, poderemos igualmente contra argumentar criando novas hipóteses ad hoc contra estas refutações. E assim sucessivamente.

 

Entretanto, podemos utilizar a “Navalha de Ocam” para descartar todas estas hipóteses que vão contra a evidência observada, pois as teorias corroboradas pelas evidências não precisam de hipóteses adicionais, que são, para elas, desnecessárias. No nosso exemplo, a teoria T1 (“Todos os gansos são brancos”) é mais simples que a teoria T2 (“Todos os gansos são vermelhos”) adicionada às hipóteses ad hoc (H1-a, H1-b etc.) que refutam as evidências observadas, e deve, portanto, ser a teoria mais correta em termos da “Navalha de Ocam”.

 

Podemos concluir que as evidências observadas têm um papel muito importante na utilização da “Navalha de Ocam”, pois fazem com que as teorias que vão contra as evidências, para não serem refutadas, dependem da adição de hipóteses ad hoc extras, que as tornam incompatíveis com a “Navalha de Ocam”.

 

É importante ressaltar que a “Navalha de Ocam” representa um critério racional de escolha entre teorias (ou hipóteses) e deve ser destacado que um critério de escolha racional é sempre melhor que qualquer outro critério não racional ou critério nenhum.

 

A Lógica da Navalha

 

A Navalha de Ocam aponta a hipótese de maior probabilidade, porque a cada hipótese extra e desnecessária acrescentada a uma teoria a torna menos provável. Se não, vejamos:

 

Suponha uma teoria T1 que seja correta e formada com N hipóteses: H1, H2...Hn onde todas elas sejam necessárias para que a teoria funcione corretamente.

Podemos escrever isso, simplificadamente, da seguinte forma:

 

 T1= (H1, H2...Hn).

 

Suponha agora outra teoria T2, rival de T1, que contenha as mesmas N hipóteses de T1 acrescida de uma hipótese extra e desnecessária “D0”. Assim: 

 

T2= (H1, H2.. Hn, D0).

 

Agora, se temos todas as condições nas quais as hipóteses de T1 sejam satisfeitas, então a teoria T1 deverá nos dar as predições corretas. A teoria T2, por sua vez, só dará o resultado correto se a hipótese desnecessária “D0” for verificada. Mas como, por definição, “D0” é uma hipótese desnecessária, a teoria T2 poderá dar um resultado falso quando deveria dar um resultado verdadeiro, pois depende do valor da hipótese desnecessária “D0”.

 

Provamos assim que hipóteses desnecessárias fazem com que uma teoria que poderia ser correta torne-se falsa. Dessa forma, podemos afirmar que teorias que respeitam a “navalha de Ocam” têm maior probabilidade de serem verdadeiras do que aquelas que não satisfazem à navalha.

 

Outro exemplo: suponha que T1 seja uma teoria que diz que um automóvel, para andar, precisa de combustível e motorista. E a teoria rival, T2, diz que um carro, para andar, precisa de combustível, de um motorista e, além disso, da hipótese D0=”O motorista precisa rezar o ‘pai-nosso’ ”. T2 torna-se falsa, pois a última hipótese, D0, é obviamente desnecessária.

 

O Ônus da Prova

 

O “Ônus da Prova” é um termo designado para estabelecer quem, numa contenda ou disputa, deve provar suas alegações. Devemos estabelecer que o “Ônus da prova” deve ser responsabilidade de quem contrariar a “Navalha de Ocam”.

 

A “Navalha de Ocam” e as Religiões

 

A “Navalha de Ocam” costuma ser fortemente combatida pela maioria dos teístas e crentes em geral, pois ela é um critério que bate fortemente contra a idéia de um Deus todo poderoso e criador do universo. Se não, vejamos: suponha que seja necessário um ser que tenha poder de criar o nosso universo. Então, pela “Navalha de Ocam”, é desnecessário que este ser tenha de ter poder infinito! Ele precisa apenas ter o poder de criar o universo, nada mais que isso. É também desnecessário que este ser seja onisciente, pois não se precisa saber tudo para se criar um universo, mas apenas ter o conhecimento suficiente para tal empreitada. E muito menos necessário que este ser tenha de ser bom.

Outro “prato cheio” para a navalha, proveniente do catolicismo, consiste em confrontar a teoria T1: “Um indivíduo ressuscitou da morte e subiu aos céus sem foguetes” com a teoria rival T2: “Alguém escreveu mentiras sobre uma ressurreição e muitas pessoas acreditaram”. T2 é preferível segundo a navalha, pois as hipóteses de ressurreição e a contradição da lei da gravidade são desnecessárias. Ou seja, a “Navalha de Ocam” é uma verdadeira navalha em relação às hipóteses religiosas em geral e não foi à toa que Willian de Ockham, suposto criador da navalha, foi excomungado pela Igreja depois de prestar contas ao Papa em 1324.

 

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De novo essa história da Navalha, Jocax? Posts duplicados, hehehe?

Então vou colar a minha resposta original: http://stoa.usp.br/erd/weblog/54058.html

E tbm uma pra pensar:  http://stoa.usp.br/erd/weblog/63931.html

Interessante que esse lance da navalha é uma crença arbitrária, tbm. É um dogma. Um ato de fé a respeito da organização do Universo ou da natureza.

Enfim... Cada cabeça com as suas sentenças...

ABS!!

 

Helder,

Primeiro: A navalha NAO eh uma crenca arbitraria, se vc ter o texto verificara que eu PROVO que a navalha aponta para hipoteses de MAIOR PROBABILIDADE de serem verdadeiras do que as que nao seguem o criterio.

 

Segundo: Se as religioes SAO ILOGICAS E CONTRADITORIAS, isso nao quer dizer que sejam verdadeiras, muito pelo contrario.

 

Se o ser humano tem NECESSIDADE de acreditar em mentiras azar o dele. Nao podemos estuprar a verdade, a logica e a ciencia por uma necessidade infantil e covarde.


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