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Maio 2011

Maio 17, 2011

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A evolução da empatia

Fonte: Com Ciência – SBPC

Autor: Frans de Waal

Tradução: Germana Barata

Era uma vez o presidente dos Estados Unidos conhecido por uma expressão facial peculiar. Em uma ato de controle emocional, ele mordia o lábio inferior e dizia aos ouvintes: “Sinto a sua dor”. A questão não é se havia ou não sinceridade em sua expressão, e sim como somos afetados pelo sofrimento do outro. A empatia é nossa segunda natureza, tanto é que qualquer um desprovido dela nos parece como perigosos ou mentalmente doentes.

No cinema, não conseguimos deixar de estar na pele dos personagens da tela. Nos desesperamos quando seu navio gigantesco afunda; exultamos quando eles fitam os olhos da pessoa amada finalmente reencontrada.

Parece lógico supor que a empatia inspirou a regra de ouro

Estamos tão acostumados à empatia que a tomamos como certa, contudo ela é essencial à sociedade humana como a conhecemos. Nossa moralidade depende dela: Como se pode esperar que alguém siga a regra de ouro sem a capacidade de colocar-se mentalmente no lugar de outro ser humano? Parece lógico supor que essa capacidade surgiu primeiro, originando a própria regra de ouro. O ato de tomar a perspectiva do outro é somado a uma das definições mais duradouras de empatia que temos, formulada por Adam Smith como “trocar de lugar na imaginação com o sofredor”.

Mesmo Smith, pai da economia, mais conhecido por enfatizar o interesse próprio como sendo o sangue da economia humana, entendia que os conceitos do interesse próprio e da empatia não entram em conflito. A empatia nos aproxima dos outros, primeiro apenas emocionalmente, e mais tarde também na vida, através da compreensão de sua situação.

Esta capacidade provavelmente evoluiu porque auxiliou na sobrevivência dos nossos antepassados de duas maneiras. Primeiro, como todo mamífero, precisamos ser sensíveis às necessidades de nossa prole. Em segundo, nossa espécie depende da cooperação, que significa que fazemos melhor se estivermos cercados de grupos de parceiros saudáveis e capazes. Tomar conta deles é apenas uma questão de interesse próprio.

Empatia animal

É duro imaginar que a empatia – uma característica tão básica da espécie humana, que surgiu cedo na vida e está acompanhada por fortes reações fisiológicas – passou a existir somente quando nossa linhagem se separou da dos macacos. Ela deve ser bem mais antiga do que isso. Exemplos de empatia em outros animais poderiam sugerir uma longa história evolutiva dessa capacidade nos seres humanos.

A evolução raramente descarta algo. Ao invés disso, as estruturas são transformadas, modificadas, associadas a outras funções, ou ajustadas de outra maneira. As barbatanas frontais dos peixes transformaram-se nos membros dianteiros dos animais terrestres, que, ao longo do tempo, tornaram-se cascos, patas, asas, e mãos. Ocasionalmente, uma estrutura perde toda a função e torna-se supérflua, mas esse é um processo gradual, e as características raramente desaparecem por completo. Assim, encontramos minúsculos vestígios dos ossos do pé sob a pele das baleias e remanescentes da pélvis nas serpentes.

Ao longo das últimas décadas, vimos uma crescente evidência de empatia em outras espécies. Uma parte das evidências veio, involuntariamente, de um estudo sobre o desenvolvimento humano. Carolyn Zahn-Waxler, uma pesquisadora em psicologia do National Institute of Mental Health Instituto Nacional da Saúde Mental, visitava a casa de pessoas para descobrir como as crianças respondiam às emoções dos familiares. Ela instruiu as pessoas a fingirem soluçar, chorar, ou sufocar, e descobriu que alguns animais de estimação da casa pareceram tão preocupados quanto as crianças ficaram pelo sofrimento fingido pelos membros da família. Os animais de estimação rodeavam seus donos e colocavam suas cabeças no colo deles.

Aqueles primatas estavam morrendo de fome para evitar o choque no outro

Mas talvez a evidência mais forte sobre o poder da empatia animal veio de um grupo de psiquiatras liderados por Jules Masserman da Universidade Northwestern. Os pesquisadores relataram, em 1964, no American Journal of Psychiatry, que os macacos rhesus se recusaram a puxar uma corrente que lhes forneceria alimento caso essa ação desse um choque em um companheiro. Um macaco parou de puxar a corrente por 12 dias depois que testemunhou um outro macaco recebendo um choque. Aqueles primatas estavam, literalmente, morrendo de fome para evitar o choque em outro animal.

Os macacos antropóides, nossos parentes mais próximos, são ainda mais notáveis. Em 1925, Robert Yerkes relatou como seu bonobo, Príncipe Chim, era extraordinariamente preocupado e protetor de seu companheiro chimpanzé adoentado, Panzee, que a instituição científica não aceitaria suas colocações: “se eu contasse sobre seu comportamento altruísta e obviamente solidário com Panzee, eu seria suspeito de idealizar um macaco”.

Nadia Ladygina-Kohts, uma primatóloga pioneira, observou tendências similares de empatia em seu jovem chimpanzé, Joni, a quem criou no início do século XX, em Moscou. Kohts, que analisou minuciosamente o comportamento de Joni, descobriu que a única maneira de o retirar do telhado de sua casa após uma escapada – muito mais eficaz do que qualquer recompensa ou ameaça de punição – era despertando empatia:

O efeito mais comum do consolo é que ele cessa gritos, ganidos e aflição

“Se finjo chorar, fechando os olhos e gemendo, Yoni imediatamente pára a brincadeira ou qualquer outra atividade e vem correndo. Chega todo agitado e preocupado dos lugares mais remotos da casa, como o telhado ou o teto de sua jaula, de onde eu não consegui tirá-lo apesar de meus persistentes chamados e súplicas. Ele corre impacientemente à minha volta, como se procurasse quem me fez mal; olha meu rosto, segura meu queixo com carinho na palma da mão, toca suavemente meu rosto com seu dedo, como se tentasse entender o que está acontecendo, vira-se fechando seus dedos do pé como se fosse um punho fechando”.

Estas observações sugerem que, à parte da conexão emocional, os macacos têm apreço pela situação do outro e mostram um grau de perspectiva sobre o outro. Um relatório surpreendente sobre isso trata de uma bonobo chamada Kuni, que encontrou um pássaro ferido em sua jaula no jardim zoológico de Twycross, na Inglaterra. Kuni pegou o pássaro, e quando seu tratador a incitou a libertá-lo, ela escalou o topo da árvore mais alta, desdobrou cuidadosamente as asas do pássaro e as deixou bem abertas, cada asa em uma mão, antes de atirá-lo com toda força dentro dos limites de sua jaula. Quando o pássaro caiu rapidamente, Kuni desceu e o protegeu até o final do dia, quando voou em segurança. Obviamente, o que Kuni fez seria impróprio para um membro de sua própria espécie. Tendo visto pássaros voarem muitas vezes, parece que ela tinha noção do que era bom para um pássaro, dando-nos assim uma imagem antropóide de Smith “simular a troca de lugares”.

Isso não quer dizer que tudo que temos são anedotas. Estudos sistemáticos foram conduzidos no chamado comportamento de “consolo”. O consolo é definido como um comportamento amigável ou tranqüilizador de um espectador em relação a uma vítima de agressão. Por exemplo, o chimpanzé A ataca o chimpanzé B, depois o espectador C passa e abraça ou faz grooming pentear os pelos do outro em B. Baseado em centenas de tais observações, sabemos que o consolo ocorre regularmente e excede os níveis básicos de contato. Ou seja, é uma tendência demonstrável que, provavelmente, reflete empatia, já que o objetivo de quem consola parece ser o de aliviar a angústia do outro. De fato, o efeito mais comum desse tipo de comportamento é que ele cessa gritos, ganidos, e outros sinais de aflição.

Uma visão bottom-up sobre empatia

Os exemplos acima ajudam a explicar por que, para o biólogo, uma boneca russa é um brinquedo tão satisfatório, especialmente se ele tem uma dimensão histórica. Eu tenho um boneco do presidente russo Vladimir Putin, dentro do qual descobrimos Yeltsin, Gorbachev, Brezhnev, Kruschev, Stalin, e Lenin, nesta ordem. Encontrar um pequeno Lenin e Stalin dentro de Putin dificilmente surpreenderá a maioria dos analistas políticos. O mesmo é verdadeiro para as características biológicas: o velho permanece presente no novo.

Isso é relevante para o debate sobre as origens da empatia, particularmente, por causa da tendência de algumas disciplinas, tais como a psicologia, de colocarem as capacidades humanas em um pedestal. Eles adotam essencialmente uma postura top-down de cima para baixo, hierárquica que enfatiza a singularidade da língua, da consciência, e da cognição humana. Mas em vez de tentar colocar a empatia nas regiões superiores da cognição humana, é melhor provavelmente começar examinando os processos mais simples possíveis, talvez mesmo alguns no nível celular.

De fato, as pesquisas mais recentes em neurociência sugerem que os processos mais básicos estão subordinados pela empatia. Pesquisadores da Universidade de Parma, na Itália, foram os primeiros a relatar que macacos têm células especiais no cérebro que se tornam ativas não apenas quando o macaco pega um objeto na mão, mas também quando ele simplesmente vê um outro fazendo o mesmo. Como tais células são ativadas tanto quando ele faz alguma coisa como quando vê alguém fazendo, elas são conhecidas como neurônios-espelho, ou neurônios “macaco vê, macaco faz”.

Formas avançadas de empatia foram precedidas por formas mais elementares

Parece que em termos de desenvolvimento e da evolução, formas avançadas de empatia foram precedidas por formas mais elementares e cresceram a partir destas. Os biólogos preferem essas causas bottom-up da base para o topo. Eles supõem sempre a continuidade entre passado e presente, a criança e o adulto, o ser humano e o animal, e até mesmo entre os seres humanos e os mamíferos mais primitivos.

Assim, como e por que esse traço teria evoluído nos seres humanos e nas outras espécies? A empatia, provavelmente, evoluiu no contexto do cuidado parental que caracteriza todos os mamíferos. Indicando seu estado através do sorriso e do choro, os infantes humanos incitam seu responsável a tomar uma atitude. Isto também se aplica a outros primatas.

O valor da sobrevivência dessas interações fica evidente no exemplo de uma chimpanzé surda que conheci pelo nome de Krom, que deu à luz a uma sucessão de filhotes e que tinha um interesse intenso neles. Mas porque ela era surda, ela não podia nem mesmo atentar os chamados de angústia de seus bebês mesmo se sentasse sobre eles. O caso de Krom ilustra que, sem o mecanismo apropriado para compreender e responder às necessidades de um infante, a espécie não sobreviverá.

Durante os 180 milhões de anos da evolução dos mamíferos, as fêmeas que atendiam às necessidades da sua prole tiraram do cenário aquelas que eram frias e distantes. Tendo descendido de uma longa linhagem de mães que nutriram, alimentaram, limparam, carregaram, confortaram, e defenderam seus filhotes, nós não devemos nos surpreender pelas diferenças de gênero na empatia humana, tais como aquelas propostas para explicar a desproporcional taxa de meninos afetados pelo autismo, que é marcada por uma falta de habilidades sociais de comunicação.

A empatia ocorre naturalmente. Não é algo que aprendemos mais tarde na vida

A empatia também desempenha um papel na cooperação. É preciso prestar bem atenção às atividades e objetivos dos outros para se cooperar de maneira eficaz. Uma leoa precisa observar rapidamente quando as outras leoas vão caçar, de modo que possa se juntar a elas e contribuir para o sucesso do grupo. Um chimpanzé macho prestar atenção aos rivais e às disputas dos outros para que possa ajudar sempre que necessário, assegurando assim o sucesso político de suas parcerias. A cooperação eficaz requer que se esteja extremamente antenado aos estados emocionais e objetivos dos outros.

Dentro de uma estrutura bottom-up, o foco não está tanto nos níveis mais elevados de empatia, mas, pelo contrário, em suas formas mais simples, e em como estas se combinam para aumentar a cognição de modo a produzir formas mais complexas de empatia. Como essa transformação ocorreu? A evolução da empatia vai de emoções e intenções compartilhadas entre indivíduos para uma maior distinção entre indivíduo/outro – que é, uma linha nítida entre indivíduos. Conseqüentemente, a experiência de cada um é distinta de qualquer outra pessoa, mesmo que sejamos afetados ao mesmo tempo pela experiência do outro. Esse processo culmina em uma avaliação cognitiva do comportamento e da situação do outro: Adotamos a perspectiva do outro.

Como em uma boneca russa, entretanto, as camadas exteriores contêm sempre um núcleo interno. Em vez de a evolução ter substituído as formas mais simples de empatia pelas mais avançadas, as últimas são meramente elaborações da anterior e permanecem dependentes dela. Isto também significa que a empatia ocorre naturalmente. Não é algo que aprendemos somente mais tarde na vida, ou que seja culturalmente construído. Na verdade, é uma resposta instintiva que ajustamos e elaboramos durante o curso de nossas vidas, até que alcance um nível em que se torne uma resposta tão complexa que é difícil reconhecer sua origem em respostas mais simples, tais como a mímica do corpo e o contágio emocional.

Na correia

A biologia nos prende “em uma correia”, nas felizes palavras do biólogo Edward Wilson, e nos liberta somente para longe de quem nós somos. Podemos projetar nossa vida da maneira que quisermos, mas o fato de prosperarmos ou não vai depender de como essa vida cabe nas predisposições humanas.

Eu hesito prever o que nós seres humanos podemos ou não fazer, mas temos que considerar nossa correia biológica ao decidirmos que tipo de sociedade queremos construir, principalmente quando se trata de objetivos como a garantia dos direitos humanos universais.

Se pudéssemos enxergar os povos de outros continentes como parte de nós, atraindo-os para dentro de nosso círculo de reciprocidade e empatia, estaríamos construindo, mais do que indo de encontro, à nossa natureza.

Por exemplo, em 2004, o ministro da Justiça de Israel causou rebuliço político por simpatizar com o inimigo. Yosef Lapid questionou os planos do exército israelense de demolir milhares de moradias palestinas em uma faixa ao longo da fronteira com o Egito. Ele se sensibilizou com as imagens transmitidas pelo noticiário da noite. “Quando vi uma foto na tevê de uma senhora engatinhando nas ruínas de sua casa procurando por medicamentos sob o assoalho, pensei, ‘o que eu diria se fosse minha avó?’”, afirmou. A avó de Lapid foi vítima do Holocausto.

Quando as pessoas se matam, nós as chamamos de “animais”. Mas quando elas doam aos pobres, nós elogiamos por serem “humanos”

Este incidente mostra como uma emoção simples pode ampliar a definição de grupo. Lapid de repente percebeu que os palestinos também faziam parte de seu círculo de preocupação. A empatia é a única arma no repertório humano que pode nos livrar da maldição da xenofobia.

A empatia, no entanto, é frágil. Entre os nossos parentes animais próximos, ela é acionada por eventos dentro da comunidade, tal como um jovem em momento de angústia, mas também é facilmente desativada quando se trata de estranhos ou membros de outras espécies, como as presas. A maneira que um chimpanzé golpeia o crânio de um macaco vivo batendo-o contra o tronco de uma árvore não é nenhuma propaganda para a empatia dos macacos. Os bonobos são menos brutos, mas no seu caso, a empatia também precisa passar por diversos filtros antes de ser expressa.

Freqüentemente, os filtros previnem demonstrações de empatia, porque nenhum macaco pode sentir piedade por todos os organismos vivos a todo o momento. Isso também se aplica a seres humanos. Nossa história evolutiva dificulta que nos identifiquemos com estranhos. Evoluímos para odiar nossos inimigos, ignorar pessoas que mal conhecemos, e desconfiar de qualquer um que não se pareça conosco. Mesmo se somos muito cooperativos dentro de nossas comunidades, quase nos transformamos em um animal diferente ao tratarmos estranhos.

Este é o desafio de nossa época: a globalização segundo uma espécie tribal. Ao tentar estruturar o mundo para servir à natureza humana, o ponto que temos que levar em consideração é que os ideólogos políticos, por definição, mantêm visões estreitas. Eles são cegos para aquilo que não desejam ver. A possibilidade que a empatia faz parte de nossa herança primata deve nos deixar felizes, mas não temos o costume de seguir nossa natureza. Quando as pessoas se matam, nós as chamamos de “animais”. Mas quando elas doam aos pobres, nós elogiamos por serem “humanos”.


(*) Frans B. M. de Waal, Ph.D. , primatólogo da Universidade de Emory e diretor do Living Links Center do Centro de Pesquisa Nacional de Primatas de Yerkes, em Atlanta (EUA). Este ensaio é adaptado de seu mais recente livro, Eu, primata: porque somos como somos (Companhia das Letras, 2007).

http://metropolis.livrespensadores.org/existe-moralidade-sem-deus


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Maio 18, 2011

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01/01/2011 - 00:44

"Não acreditar em Deus é um atalho para a felicidade"

Em novo livro, o filósofo e neurocientista americano Sam Harris propõe a criação de uma 'ciência da moralidade' para acabar de uma vez por todas com a influência da religião

Marco Túlio Pires

"A tolerância à intolerância nada mais é do que covardia"

"Na ciência não existem dogmas. Qualquer afirmação pode ser contestada de maneira sensata e honesta"

"O Papa é culpável pelo escândalo do estupro infantil dentro da Igreja Católica"

—Sam Harris

Quando o filósofo americano Sam Harris soube que o atentado ao World Trade Center em Nova York (Estados Unidos), no dia 11 de setembro de 2001, teve motivações religiosas, a briga passou a ser pessoal. Harris publicou em 2004 o livro A Morte da Fé (Companhia das Letras) — uma brutal investida contra as religiões, segundo ele, responsáveis pelo sofrimento desnecessário de milhões. Para Harris, os únicos anjos que deveríamos invocar são a ‘razão’, a ‘honestidade’ e o ‘amor’.

Divulgação

"A Ciência é capaz de dizer o que é certo e o que é errado", diz Sam Harris

"A Ciência é capaz de dizer o que é certo e o que é errado", diz Sam Harris

Ao entrar de cabeça em um assunto tão delicado, o filósofo de 43 anos conquistou uma legião de inimigos e deu início a uma espécie de combate literário. Em resposta à repercussão de seu primeiro livro, que levou à publicação de livros-resposta sob as perspectivas muçulmana, católica e outras, os ataques de Harris à fé religiosa continuaram em 2006, com o lançamento do livro Carta a Uma Nação Cristã (Companhia das Letras).

Criado em um lar secular, que nunca discutiu a existência de Deus e nunca criticou outras religiões, Harris recebeu o título de Doutor em Neurociência em 2009 pela Universidade da Califórnia (Estados Unidos). A pesquisa de doutorado serviu como base para seu terceiro livro, lançado em outubro de 2010: The Moral Landscape (sem edição brasileira). Nele, Harris conquista novos inimigos, dessa vez cientistas.

Agora, Harris tenta utilizar a razão e a investigação científica para resolver problemas morais, sugerindo a criação do que ele chama de "ciência da moralidade". Ele afirma que o bem-estar humano está relacionado a estados mentais mensuráveis pela neurociência e, por isso, seria possível investigar a felicidade humana sob essa ótica — algo com que a maioria dos cientistas está longe de concordar.

A ciência da moralidade substituiria a religião no papel de dizer o que é bom ou mau. Esse ‘novo ateísmo’ rendeu a Harris e outros três autores proeminentes — Daniel Dennet, Richard Dawkins e Christopher Hitchens — o título de 'Cavaleiros do Apocalipse'.

Em entrevista ao site de VEJA, Harris explica os pontos mais sensíveis de sua argumentação, e afirma que descrer de Deus é um atalho para a felicidade.

Por que a moralidade e as definições do bem e do mal não deveriam ser deixadas para a religião? O problema com relação à Religião é que ela dissocia as questões do bem e do mal da questão do bem-estar. Por isso, a religião ignora o sofrimento em certas situações, e em outras chega a incentivá-lo. Deixe-me dar um exemplo. Ao se opor aos métodos contraceptivos, a doutrina da Igreja Católica causa sofrimento. É coerente com seus dogmas, embora eles levem crianças a nascerem na pobreza extrema e pessoas a serem infectadas pela aids, por fazerem sexo sem camisinha. Através das eras, os dogmas contribuíram para a miséria humana de maneira tremenda e desnecessária. 

Nem toda moralidade é baseada em religião. Existe uma longa tradição de pensamento moral secular por meio da filosofia. O que há de errado com essa tradição?

Não há nada de errado com ela a não ser o fato de que a maior parte das discussões filosóficas seculares são confusas e irrelevantes para as questões importantes na vida humana. Deveria ser consenso o apreço ao bem-estar humano. Se alguma coisa é má, é porque ela causa um grande e desnecessário sofrimento ou impede a felicidade das pessoas. Se alguma coisa é boa, é porque ela faz o contrário. Mas existem filósofos seculares batendo cabeça em debates entediantes, dizendo que não podemos falar de verdade moral. Segundo eles, cada cultura deve ser livre para inventar seus ideais morais sem ser perturbado por outros. Isso é loucura. Hoje reconhecemos que a escravidão, que era praticada por muitas culturas, era fonte de sofrimento. Nesse caso, deixamos para trás o relativismo. Por que não podemos fazer o mesmo em outros casos?

Você parece sugerir que a tolerância a outros credos não é uma virtude, como a maioria pensa. Por quê?

É um posicionamento inicial muito bom. A tolerância é a inclinação para evitar conflito com outras pessoas. É como queremos que a maioria se comporte a maior parte do tempo quando se depara com diferenças culturais. Mas quando as diferenças se tornam extremas e a disparidade na sabedoria moral se torna incrivelmente óbvia, então, a tolerância não é mais uma opção. A tolerância à intolerância nada mais é do que covardia. Não podemos tolerar uma jihad global. A ideia de que se pode chegar ao paraíso explodindo pessoas inocentes não é um arranjo tolerável. Temos que combater essas coisas por meio da intolerância às pessoas que estão comprometidas com essa ideologia. Não acredito que seria possível sentar à mesa com, por exemplo, Osama Bin Laden e convencê-lo que a forma como ele enxerga o mundo é errada.

Por que a ciência deveria ditar o que é certo e o que é errado?

Temos que reconhecer que as questões morais possuem respostas corretas. Se o bem-estar humano surge a partir de certas causas, inclusive neurológicas, quer dizer que existem formas certas e erradas para procurar a felicidade e evitar a infelicidade. E se as respostas corretas existem, elas podem ser investigadas pela ciência. Chamo de ciência o nosso melhor esforço em fazer afirmativas honestas sobre a natureza do mundo, tendo como base a razão e as evidências.

O que é a ciência da moralidade e o que ela quer conquistar?

É a ciência da mente humana e das variáveis que afetam a nossa experiência do mundo para o bem ou para o mal. Ela pretende discutir, por exemplo, o que acontece com mulheres e garotas que são forçadas a utilizarem a burca [vestimenta muçulmana que cobre todo o corpo da mulher]. São efeitos neurológicos, psicológicos, sociológicos que afetam o bem-estar dos seres humanos. Com a burca, sabemos que é ruim para as mulheres e para a sociedade. Se metade de uma sociedade é forçada a ser analfabeta e economicamente improdutiva, mas ter quantos filhos conseguir, fica óbvio que essa é uma estratégia ruim para construir uma população que prospera. O objetivo é entender o bem-estar humano. Assim como queremos fazer convergir os princípios do conhecimento, queremos que as pessoas sejam racionais, que avaliem as evidências, que sejam intelectualmente honestas e que não sejam guiadas por ilusões. A Ciência da Moralidade pretende aumentar as possibilidades da felicidade humana.

O senhor afirma que há um muro dividindo a ciência e a moralidade. No que ele consiste?

Existem razões boas e ruins para a existência desse muro. A boa é que os cientistas reconhecem que os elementos relevantes ao bem-estar humano são extremamente complicados. Sabemos muito pouco sobre o cérebro, por exemplo, para entender todos os aspectos da mente humana. A ciência espera um dia responder essas questões e isso é muito bom. A razão ruim é que muitos cientistas foram confundidos pela filosofia a pensar que a ciência é um espaço sem valores. E a moralidade está, por definição, na seara dos valores. Esse muro não será destruído enquanto não admitirmos que a moralidade está relacionada à experiência humana, que por sua vez está relacionada com o cérebro e com a forma pela qual o universo se apresenta. Ou seja, por elementos que podem ser investigados pela ciência.

Quais avanços científicos lhe fazem pensar que, agora, a moralidade pode ser tratada a partir do ponto de vista do laboratório?

Temos condição de dizer quando uma pessoa está olhando para um rosto, ou uma casa, ou um animal, ou quais palavras ela está pensando dentro de uma lista. Esse nível cru de diferenciação de estados mentais está definitivamente ao alcance da ciência. Sabemos quando uma pessoa está sentindo medo ou amor. Por causa disso podemos, em princípio, pegar uma pessoa que diz não ser racista, colocá-la em um medidor e verificar se ela está falando a verdade. Não apenas isso, podemos descobrir se ela está mentindo para si mesma ou para as outras pessoas. A tecnologia já chegou a esse nível, mas não conseguimos ler a mente das pessoas com detalhes. É possível que futuramente possamos descobrir coisas sobre a nossa subjetividade de que não temos consciência, utilizando experimentos científicos. E isso tudo se relaciona ao bem-estar humano e o modo como as pessoas ficam felizes e como poderemos viver juntos para maximizar a possibilidade de ter vidas que valham a pena.

Por que deveríamos confiar a educação dos nossos filhos aos valores científicos? Os cientistas não se transformariam, com o tempo, em algo como padres, mas com uma ‘batina’ diferente?

Cientistas não são padres. Os médicos, por exemplo, agem sob o pensamento da medicina, que, como fonte de autoridade, não se tornou arrogante ou limitou a liberdade das pessoas de maneira assustadora. É uma disciplina que está concentrada em entender a vida humana e minimizar o sofrimento físico. Seu médico nunca vai até você ‘pregar’ sobre os preceitos da ciência, você vai até ele quando precisa. Pais que se deixam guiar por dogmas religiosos não dão remédios aos filhos e os deixam morrer. Na ciência não existem dogmas. Qualquer afirmação pode ser contestada de maneira sensata e honesta.

O que dizer dos experimentos neurológicos que sugerem que a crença religiosa está embutida nos nossos cérebros?

Não acho que a crença religiosa esteja embutida no cérebro humano. Mas digamos que esteja. Façamos um paralelo com a bruxaria. Pode ser que a crença em bruxaria estivesse embutida em nossos cérebros. A bruxaria matou muitos seres humanos, assim como a religião. Todas as culturas tradicionais acreditaram em algum momento em bruxas e no poder de magia e, na verdade, a crença na reza possui um conceito semelhante. Algumas pessoas dizem que sempre acreditaremos em bruxas, que a saúde humana será afetada pela 'magia' de vizinhos. Na África, muitas pessoas realmente acreditam em bruxaria e isso é terrível porque causa sofrimento desnecessário. Quando não se entende porque as pessoas ficam doentes, ou porque as crianças morrem antes dos três anos, você está num estado de ignorância que a crença em bruxaria está suprindo uma necessidade de maneira nociva. Superamos isso no mundo desenvolvido por causa do avanço da Ciência. Sabemos como a agricultura é afetada, por exemplo. Entendemos os fenômenos meteorológicos e a biologia das plantas. Não é algo que a religião resolve, e sim a ciência. Mas costumava ser assim. A crença na regência de um deus sobre a lavoura era universal.

As pessoas deveriam parar de acreditar em Deus?

Se eu acho que as pessoas deveriam parar de acreditar no Deus da Bíblia? Com certeza. Da mesma forma que as pessoas pararam de acreditar em Zeus, em Thor e milhares de deuses mortos. O Deus da Bíblia tem exatamente o mesmo status desses deuses mortos. É um acidente histórico estarmos falando dele e não de Zeus. Poderíamos estar vivendo num mundo onde os suicidas muçulmanos se explodiriam por causa de ideias dos deuses do Monte Olimpo. A diferença entre xiitas e sunitas muçulmanos é a mesma diferença entre seguidores de Apolo e seguidores de Dionísio.

O senhor sempre foi ateu?

Nunca me considerei um ateu, nem mesmo ao escrever meu primeiro livro. Todos somos ateus em relação a Zeus e Thor. Eu era um ateu em relação a eles e ao deus de Abraão. Mas nunca me considerei um ateu, como a maioria das pessoas não se considera pagã em relação aos deuses do Monte Olimpo. Foi no 11 de setembro de 2001, dia do atentado ao World Trade Center em Nova York, que senti que criticar a religião publicamente havia se tornado uma necessidade moral e intelectual. Antes disso eu era apenas um descrente. Eu nunca havia lido livros ateus, ou tivera qualquer conexão com a comunidade ateísta. O ateísmo não é um conceito que considere interessante ou útil. Temos que falar sobre razão, evidências, verdade, honestidade intelectual — todas essas coisas são virtudes que nos deram a ciência e todo tipo de comportamento pacífico e cooperativo. Não é preciso dizer que você é contra algo para advogar em favor da honestidade intelectual. Foi justamente isso que destruiu os dogmas religiosos.

O senhor cresceu em um ambiente religioso?

Cresci em um ambiente completamente secular, mas não havia crítica às religiões ou discussões sobre ateísmo, existência de Deus etc. Quando era adolescente, fiquei muito interessado em religiões e experiências religiosas. Coisas como meditação, por exemplo. Aos vinte, comecei a estudar espiritualidade e misticismo. Ainda me interesso por essas coisas, mas acho que, para experimentar, não precisamos acreditar em nada que não possua evidencias suficientes.

Como o senhor se sente em ser rotulado como um dos ‘Quatro Cavaleiros do Apocalipse’?

Estou muito feliz com a companhia! É uma honra. A associação não me desagrada de forma alguma. Acho que os quatro lucraram por terem sido reunidos e tratados como uma pessoa de quatro cabeças. Em alguns momentos é um desserviço porque nossos argumentos não são exatamente os mesmos e não acreditamos nas mesmas coisas em todos os pontos. Mas tem sido útil sob o ponto de vista das publicações e admiro muito os outros cavaleiros  — os considero mentores e amigos. A parte do apocalipse tem um efeito cômico.

Se o senhor tivesse a chance de se encontrar com o Papa para um longo e honesto bate-papo, qual seria sua primeira pergunta?

Gostaria de falar imediatamente sobre o escândalo do estupro infantil dentro da Igreja Católica. Acho que o Papa é culpável por tudo que aconteceu. A evidência nesse momento sugere que ele estava entre as pessoas que conseguiram fazer prolongar o sofrimento de crianças por muitos anos. Acho que ele trabalhou ativamente para proteger a Igreja do constrangimento e no processo conseguiu garantir que os estupradores tivessem acesso às crianças por décadas além do que deveria ter sido. O Papa deveria ser diretamente desafiado por causa disso. Contudo, é algo que seu status como líder religioso impede que aconteça. Ele nunca seria protegido dessa forma se ele estivesse em qualquer outra posição na sociedade. Imagine o que aconteceria se descobrissem que o reitor da Universidade de Harvard [uma das universidades americanas mais respeitadas do mundo] tivesse permitido que empregados da universidade estuprassem crianças por décadas e ele tivesse mudado essas pessoas de departamento para protegê-las da justiça secular? Ele estaria na cadeia agora. E isso é impensável quando se fala do Papa. Isso acontece por que nos ensinaram a tratar a religião com deferência.

Postado por João Carlos Holland de Barcellos em Meta-Ética-Científica | 2 comentários

Maio 28, 2011

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