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Fevereiro 2010

Fevereiro 26, 2010

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JC e-mail 3956, de 25 de Fevereiro de 2010.

*23. Justos por natureza*


Cérebro reage mais fortemente à igualdade do que à busca de benefício
próprio

A desigualdade que vemos mundo afora não tem a cumplicidade de nosso
cérebro. Um estudo publicado hoje pela revista "Nature" mostra que,
dentro de nós, a satisfação é muito maior quando todos têm direito a
benefícios. Cientistas do Instituto Californiano de Tecnologia (Caltech)
e do Trinity College, de Dublin, reuniram imagens de ressonância
magnética que comprovam como o cérebro humano aprecia a igualdade. A
descoberta põe em xeque a ideia de que a noção de justiça seria cultural.



O material obtido comprova que o centro de recompensa existente no órgão
responde mais fortemente quando vemos uma pessoa pobre receber algum
benefício (mesmo que sejam algumas garrafas d'água, como na foto ao
lado) do que quando o mesmo ocorre com um rico. Para surpresa dos
estudiosos, a conclusão é a mesma até na análise do cérebro de
endinheirados.



- Esta é a figura mais recente em nosso álbum sobre a natureza humana -
comemora Colin Camerer, professor de Economia Comportamental da Caltech
e um dos co-autores do artigo. - Temos, agora, muitas ferramentas para
estudar as reações do cérebro.



Resposta além da regra social



Há muito se sabe que nós, humanos, não gostamos da desigualdade,
especialmente no que se refere a dinheiro. Diga a duas pessoas com o
mesmo emprego que seus salários são diferentes, e vai haver
descontentamento. Não se sabia, porém, o quanto esse desgosto é embutido.



- A aversão à desigualdade não é regra social ou fruto de uma convenção
- rejeita John O'Doherty, professor de psicologia da Caltech. - Há
realmente algo a ser considerado no processamento de recompensas em
nosso cérebro.



Áreas cerebrais como o córtex pré-frontal ventromedial e o estriado
ventral, que criam respostas positivas no corpo, foram analisadas em 40
voluntários, submetidos a uma série de situações envolvendo transações
financeiras.



Antes de começar o processamento de imagens por ressonância magnética,
os participantes foram divididos em duplas. Um ganharia o que era
chamado de "grande doação financeira" (US$ 50); outro começaria a
experiência de bolsos vazios. O modo como os voluntários - ou, mais
especificamente, os centros de recompensa de seus cérebros - reagiram
aos vários cenários apresentados dependia fortemente de sua riqueza no
início do estudo.



- Quem começou pobre tinha uma reação cerebral mais forte a situações em
que recebia dinheiro, e quase nenhuma resposta a cenários em que os
ganhos eram para outras pessoas - explica Camerer.



Até aqui, nenhuma surpresa. O que chamou atenção foi o outro lado da moeda.



- Os ricos do início da pesquisa reagiam mais fortemente quando outros
ganhavam dinheiro do que nas situações em que eles mesmos eram
beneficiados - lembra Camerer. - Em outras palavras, seus cérebros
achavam melhor ver os outros enriquecendo.



O'Doherty também se encarregou de resumir o estudo: o cérebro não
responde apenas ao interesse próprio do organismo. Os centros de
recompensa também reagem à premiação de outros indivíduos.



- Reagimos de forma muito diferente às desigualdades vantajosas e às
desvantajosas - conclui. - Somos sensíveis a diferenças sutis no
contexto social. De certa forma, isso é contrário às visões
prevalecentes que temos sobre a natureza humana. Como psicólogo e
neurocientista cognitivo que trabalha com recompensa e motivação, vejo o
cérebro como um dispositivo feito para maximizar nosso próprio
interesse. O fato de que essa estrutura parece tão adaptada em responder
aos benefícios obtidos por outros dá uma nova referência.



Camerer, economista, assume no artigo que sua visão foi derrubada.
Também acostumado a pensar que as pessoas estão mais interessadas em seu
próprio benefício, o pesquisador admite que, "se isso fosse verdade, não
teríamos as reações apontadas pelo artigo quando outras pessoas ganham
dinheiro".



Ricos podem ter sentido culpa



Ainda assim, Camerer lança uma nova interpretação aos resultados do
levantamento. É provável que as reações dos participantes ricos tenham
sido parcialmente motivadas por interesse próprio: ou a redução de seu
desconforto.



- Pensamos que, para as pessoas ricas do início da pesquisa, ver os
outros ganhando dinheiro reduz sua culpa por serem mais afortunados - opina.



O próximo passo dos pesquisadores é entender como esta avaliação que o
cérebro faz da desigualdade traduz-se no comportamento.



- Uma pessoa que descobre ter salário menor do que outra com o mesmo
emprego pode acabar trabalhando com menos afinco, e, além disso, ter
pouca motivação - avalia O'Doherty. - Será interessante entender que
mecanismos cerebrais dão suporte a essas mudanças.

(O Globo, 25/2)

Postado por João Carlos Holland de Barcellos em Meta-Ética-Científica | 0 comentário