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Setembro 2009

Setembro 28, 2009

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Helio,
permita-me fazer um comentario sobre sua critica aas ideias do Peter Singer que vc publicou na Folha de S. Paulo ontem ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2709200916.htm ).

O Utilitarismo do filosofo Peter Singer, como todo utilitarismo,  eh muito parecido com a "Meta-Etica-Cientifica" (MEC) ( http://stoa.usp.br/mec/files/-1/8604/mec.htm ).

A grande diferenca eh que a MEC possui uma forma cientifica de quantificar a felicidade ao passo que o uttilitarismo de Singer fica um pouco vago, pois baseia-se no "nivel de consciencia", mas nao especifica como esse nivel eh medido ou mesmo avaliado.

Alem disso, na MEC, as acoes consideradas eticas (ou seu "grau de direito") sao baseadas na FELICIDADE TOTAL de todos os seres sencientes medidas ou avaliadas no máximo periodo de tempo que isso for possivel de ser feito.

A MEC eh baseado no utilitarismo mas nao advoga o principio que vc citou no seu artigo:

"...O fundamento de toda ética utilitarista é que os interesses de todos se equivalem: o resultado é um igualitarismo forte...."

Uma vez que o que importa é a felicidade total e nao o interesse do organismo. Por exemplo:
Se um organismo quer se suicidar, mas se seu suicidio, por alguma razao, vai produzir mais infelicidade do que felicidade entao este suicidio nao seria justo, mesmo que TODOS os organismos tivessem interesse que este ser se suicidasse. Ou seja: A felicidade NAO depende apenas dos interesses conscientes mas da felicidade total. Claro que, na maioria das vezes, a satisfacao dos interesses *tambem* fazem aumentar a felicidade, mas nem sempre isso ocorre.

Outro trecho que deve ser rebatido eh o seguinte:

"...É claro que, como todo sistema utilitarista, esse também fica à mercê de paradoxos: em princípio, seria ético matar um paciente saudável e, com seus órgãos, salvar a vida de cinco doentes que precisavam de transplante; um porco saudável poderia ser visto como tendo mais "direitos" que uma criança com retardo mental...."

Nao creio que a MEC apresente qualquer nivel de paradoxo. Veja como seriam resolvidos os aparentes paradoxos que vc apontou:

Suponha que seja instituido o principio de que fosse valido matar um ser saudavel para fazer salvar outros cinco que necessitassem de seus orgaos. E que a pessoa escolhida para ser morta como doadora seria tomada por sorteio da populacao.
O que isso iria acarretar?

Uma diminuicao violenta da felicidade geral, uma vez que o medo e o pavor de ser escolhido para ser morto tomaria conta de milhoes de seres da populacao o que faria a felicidade media cair sobremaneira. Vale notar que, em geral:
**O sofrimento de um unico ser pode suplantar em muito, em termos de felicidade, o prazer de muitos outros organismos**.
 De modo que nem sempre o sofrimento e a dor podem ser contrabalancados comprazeres pois o sofrimento , em geral, tem um peso muito forte no computo da felicidade.

Assim, pela MEC, refutamos esta conclusao de que pessoas poderiam ser recrutadas a forca para aumentar a felicidade geral, embora posssa haver casos particulares em que isso seja admissivel, ou seja, tambem nao podemos tomar como uma regra que isso nunca possa ser feito.

Outra critica que deve ser respondida eh a questao do direito dos porcos em relacao aa crianca com retardo mental. As pessoas tem muito mais empatia por uma crianca, mesmo que ela nao sinta absolutamente nada, do que por um animal, mesmo que este tenha maior capacidade de sentir.

Isto quer dizer que nao podemos considerar SOMENTE o sistema {porco + crianca doente} para fazer o calculo da felicidade/direito, mas sim o sistema {porco + crianca doente + sociedade + todo resto } e, neste caso, haveria uma diminuicao de felicidade da sociedade se uma crianca fosse morta em beneficio de um porco.  

Para maiores detalhes leia ( Terry Schiavo e a MEC : http://www.genismo.com/metatexto30.htm ).

Abs
Jocax


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ANÁLISE

Filósofo influenciou a militância pelos animais

HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE ARTICULISTAS

Um dos pais do moderno movimento de libertação dos animais é o filósofo australiano Peter Singer, cujo livro "Animal Liberation", publicado em 1975, influenciou profundamente a militância política em favor dos "não humanos".

Singer é um utilitarista radical. Isso significa que ele não acredita muito em direitos -nem para animais nem para humanos-, mas apenas em interesses, como o de evitar a dor, buscar o prazer. Quando analisados à luz de certos princípios utilitaristas, como o de minimizar o sofrimento, esses interesses podem resultar em regras que devem ser observadas por todos os agentes morais -e isso é o mais perto de "direitos" que podemos chegar.

A ideia central de "Animal Liberation" é que qualquer ser vivo capaz de sentir dor tem interesse em evitá-la. E nós, humanos, não devemos restringir apenas a outros humanos o universo dos beneficiários de uma regra como a que manda não infligir sofrimento desnecessariamente. Todos os seres sencientes, sustenta Singer, são dignos de igual consideração.

Discriminar um animal senciente apenas porque ele não é humano configura um caso de especismo, que o filósofo põe no mesmo patamar do racismo ou do escravagismo.

É claro que nem todos os seres vivos têm os mesmos "direitos". O nível de consideração que cabe a cada qual é uma função direta de sua capacidade de perceber dor, prazer e até de fruir o transcendente -ou seja, de seu grau de consciência.

Numa leitura histórica, o círculo de solidariedade moral da humanidade vem se expandindo. Nos primórdios, o homem ligava apenas para si mesmo e, às vezes, para a sua família. Com o decorrer do tempo passou a preocupar-se também com seus vizinhos, compatriotas, irmãos de fé e, por fim, com todo o gênero humano. Agora, começamos a olhar para os outros bichos com os quais compartilhamos o planeta.

Essa é uma ideia radical que traz implicações radicais: para o filósofo, a melhor forma de não provocar dor evitável é convertendo a humanidade ao vegetarianismo. E vale observar que essa nem é a mais exuberante das teses de Singer.

Consequente com seus princípios, ele também defende o aborto, a eugenia e até o infanticídio. Se o grau de "direitos" está relacionado ao nível de consciência, seres menos conscientes podem, em certas situações, ser sacrificados, seja para reduzir a dor, seja para produzir benefícios maiores.

Outra tese polêmica de Singer é que todos os que já vivem com conforto têm o dever de doar parte de seus rendimentos para eliminar a pobreza do mundo. Ele próprio afirma abrir mão de 25% de seu salário em favor de organizações como a Oxfam e o Unicef. O fundamento de toda ética utilitarista é que os interesses de todos se equivalem: o resultado é um igualitarismo forte.

É claro que, como todo sistema utilitarista, esse também fica à mercê de paradoxos: em princípio, seria ético matar um paciente saudável e, com seus órgãos, salvar a vida de cinco doentes que precisavam de transplante; um porco saudável poderia ser visto como tendo mais "direitos" que uma criança com retardo mental.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2709200916.htm


Postado por João Carlos Holland de Barcellos em Meta-Ética-Científica | 1 comentário