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maio 17, 2011

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A evolução da empatia

Fonte: Com Ciência – SBPC

Autor: Frans de Waal

Tradução: Germana Barata

Era uma vez o presidente dos Estados Unidos conhecido por uma expressão facial peculiar. Em uma ato de controle emocional, ele mordia o lábio inferior e dizia aos ouvintes: “Sinto a sua dor”. A questão não é se havia ou não sinceridade em sua expressão, e sim como somos afetados pelo sofrimento do outro. A empatia é nossa segunda natureza, tanto é que qualquer um desprovido dela nos parece como perigosos ou mentalmente doentes.

No cinema, não conseguimos deixar de estar na pele dos personagens da tela. Nos desesperamos quando seu navio gigantesco afunda; exultamos quando eles fitam os olhos da pessoa amada finalmente reencontrada.

Parece lógico supor que a empatia inspirou a regra de ouro

Estamos tão acostumados à empatia que a tomamos como certa, contudo ela é essencial à sociedade humana como a conhecemos. Nossa moralidade depende dela: Como se pode esperar que alguém siga a regra de ouro sem a capacidade de colocar-se mentalmente no lugar de outro ser humano? Parece lógico supor que essa capacidade surgiu primeiro, originando a própria regra de ouro. O ato de tomar a perspectiva do outro é somado a uma das definições mais duradouras de empatia que temos, formulada por Adam Smith como “trocar de lugar na imaginação com o sofredor”.

Mesmo Smith, pai da economia, mais conhecido por enfatizar o interesse próprio como sendo o sangue da economia humana, entendia que os conceitos do interesse próprio e da empatia não entram em conflito. A empatia nos aproxima dos outros, primeiro apenas emocionalmente, e mais tarde também na vida, através da compreensão de sua situação.

Esta capacidade provavelmente evoluiu porque auxiliou na sobrevivência dos nossos antepassados de duas maneiras. Primeiro, como todo mamífero, precisamos ser sensíveis às necessidades de nossa prole. Em segundo, nossa espécie depende da cooperação, que significa que fazemos melhor se estivermos cercados de grupos de parceiros saudáveis e capazes. Tomar conta deles é apenas uma questão de interesse próprio.

Empatia animal

É duro imaginar que a empatia – uma característica tão básica da espécie humana, que surgiu cedo na vida e está acompanhada por fortes reações fisiológicas – passou a existir somente quando nossa linhagem se separou da dos macacos. Ela deve ser bem mais antiga do que isso. Exemplos de empatia em outros animais poderiam sugerir uma longa história evolutiva dessa capacidade nos seres humanos.

A evolução raramente descarta algo. Ao invés disso, as estruturas são transformadas, modificadas, associadas a outras funções, ou ajustadas de outra maneira. As barbatanas frontais dos peixes transformaram-se nos membros dianteiros dos animais terrestres, que, ao longo do tempo, tornaram-se cascos, patas, asas, e mãos. Ocasionalmente, uma estrutura perde toda a função e torna-se supérflua, mas esse é um processo gradual, e as características raramente desaparecem por completo. Assim, encontramos minúsculos vestígios dos ossos do pé sob a pele das baleias e remanescentes da pélvis nas serpentes.

Ao longo das últimas décadas, vimos uma crescente evidência de empatia em outras espécies. Uma parte das evidências veio, involuntariamente, de um estudo sobre o desenvolvimento humano. Carolyn Zahn-Waxler, uma pesquisadora em psicologia do National Institute of Mental Health Instituto Nacional da Saúde Mental, visitava a casa de pessoas para descobrir como as crianças respondiam às emoções dos familiares. Ela instruiu as pessoas a fingirem soluçar, chorar, ou sufocar, e descobriu que alguns animais de estimação da casa pareceram tão preocupados quanto as crianças ficaram pelo sofrimento fingido pelos membros da família. Os animais de estimação rodeavam seus donos e colocavam suas cabeças no colo deles.

Aqueles primatas estavam morrendo de fome para evitar o choque no outro

Mas talvez a evidência mais forte sobre o poder da empatia animal veio de um grupo de psiquiatras liderados por Jules Masserman da Universidade Northwestern. Os pesquisadores relataram, em 1964, no American Journal of Psychiatry, que os macacos rhesus se recusaram a puxar uma corrente que lhes forneceria alimento caso essa ação desse um choque em um companheiro. Um macaco parou de puxar a corrente por 12 dias depois que testemunhou um outro macaco recebendo um choque. Aqueles primatas estavam, literalmente, morrendo de fome para evitar o choque em outro animal.

Os macacos antropóides, nossos parentes mais próximos, são ainda mais notáveis. Em 1925, Robert Yerkes relatou como seu bonobo, Príncipe Chim, era extraordinariamente preocupado e protetor de seu companheiro chimpanzé adoentado, Panzee, que a instituição científica não aceitaria suas colocações: “se eu contasse sobre seu comportamento altruísta e obviamente solidário com Panzee, eu seria suspeito de idealizar um macaco”.

Nadia Ladygina-Kohts, uma primatóloga pioneira, observou tendências similares de empatia em seu jovem chimpanzé, Joni, a quem criou no início do século XX, em Moscou. Kohts, que analisou minuciosamente o comportamento de Joni, descobriu que a única maneira de o retirar do telhado de sua casa após uma escapada – muito mais eficaz do que qualquer recompensa ou ameaça de punição – era despertando empatia:

O efeito mais comum do consolo é que ele cessa gritos, ganidos e aflição

“Se finjo chorar, fechando os olhos e gemendo, Yoni imediatamente pára a brincadeira ou qualquer outra atividade e vem correndo. Chega todo agitado e preocupado dos lugares mais remotos da casa, como o telhado ou o teto de sua jaula, de onde eu não consegui tirá-lo apesar de meus persistentes chamados e súplicas. Ele corre impacientemente à minha volta, como se procurasse quem me fez mal; olha meu rosto, segura meu queixo com carinho na palma da mão, toca suavemente meu rosto com seu dedo, como se tentasse entender o que está acontecendo, vira-se fechando seus dedos do pé como se fosse um punho fechando”.

Estas observações sugerem que, à parte da conexão emocional, os macacos têm apreço pela situação do outro e mostram um grau de perspectiva sobre o outro. Um relatório surpreendente sobre isso trata de uma bonobo chamada Kuni, que encontrou um pássaro ferido em sua jaula no jardim zoológico de Twycross, na Inglaterra. Kuni pegou o pássaro, e quando seu tratador a incitou a libertá-lo, ela escalou o topo da árvore mais alta, desdobrou cuidadosamente as asas do pássaro e as deixou bem abertas, cada asa em uma mão, antes de atirá-lo com toda força dentro dos limites de sua jaula. Quando o pássaro caiu rapidamente, Kuni desceu e o protegeu até o final do dia, quando voou em segurança. Obviamente, o que Kuni fez seria impróprio para um membro de sua própria espécie. Tendo visto pássaros voarem muitas vezes, parece que ela tinha noção do que era bom para um pássaro, dando-nos assim uma imagem antropóide de Smith “simular a troca de lugares”.

Isso não quer dizer que tudo que temos são anedotas. Estudos sistemáticos foram conduzidos no chamado comportamento de “consolo”. O consolo é definido como um comportamento amigável ou tranqüilizador de um espectador em relação a uma vítima de agressão. Por exemplo, o chimpanzé A ataca o chimpanzé B, depois o espectador C passa e abraça ou faz grooming pentear os pelos do outro em B. Baseado em centenas de tais observações, sabemos que o consolo ocorre regularmente e excede os níveis básicos de contato. Ou seja, é uma tendência demonstrável que, provavelmente, reflete empatia, já que o objetivo de quem consola parece ser o de aliviar a angústia do outro. De fato, o efeito mais comum desse tipo de comportamento é que ele cessa gritos, ganidos, e outros sinais de aflição.

Uma visão bottom-up sobre empatia

Os exemplos acima ajudam a explicar por que, para o biólogo, uma boneca russa é um brinquedo tão satisfatório, especialmente se ele tem uma dimensão histórica. Eu tenho um boneco do presidente russo Vladimir Putin, dentro do qual descobrimos Yeltsin, Gorbachev, Brezhnev, Kruschev, Stalin, e Lenin, nesta ordem. Encontrar um pequeno Lenin e Stalin dentro de Putin dificilmente surpreenderá a maioria dos analistas políticos. O mesmo é verdadeiro para as características biológicas: o velho permanece presente no novo.

Isso é relevante para o debate sobre as origens da empatia, particularmente, por causa da tendência de algumas disciplinas, tais como a psicologia, de colocarem as capacidades humanas em um pedestal. Eles adotam essencialmente uma postura top-down de cima para baixo, hierárquica que enfatiza a singularidade da língua, da consciência, e da cognição humana. Mas em vez de tentar colocar a empatia nas regiões superiores da cognição humana, é melhor provavelmente começar examinando os processos mais simples possíveis, talvez mesmo alguns no nível celular.

De fato, as pesquisas mais recentes em neurociência sugerem que os processos mais básicos estão subordinados pela empatia. Pesquisadores da Universidade de Parma, na Itália, foram os primeiros a relatar que macacos têm células especiais no cérebro que se tornam ativas não apenas quando o macaco pega um objeto na mão, mas também quando ele simplesmente vê um outro fazendo o mesmo. Como tais células são ativadas tanto quando ele faz alguma coisa como quando vê alguém fazendo, elas são conhecidas como neurônios-espelho, ou neurônios “macaco vê, macaco faz”.

Formas avançadas de empatia foram precedidas por formas mais elementares

Parece que em termos de desenvolvimento e da evolução, formas avançadas de empatia foram precedidas por formas mais elementares e cresceram a partir destas. Os biólogos preferem essas causas bottom-up da base para o topo. Eles supõem sempre a continuidade entre passado e presente, a criança e o adulto, o ser humano e o animal, e até mesmo entre os seres humanos e os mamíferos mais primitivos.

Assim, como e por que esse traço teria evoluído nos seres humanos e nas outras espécies? A empatia, provavelmente, evoluiu no contexto do cuidado parental que caracteriza todos os mamíferos. Indicando seu estado através do sorriso e do choro, os infantes humanos incitam seu responsável a tomar uma atitude. Isto também se aplica a outros primatas.

O valor da sobrevivência dessas interações fica evidente no exemplo de uma chimpanzé surda que conheci pelo nome de Krom, que deu à luz a uma sucessão de filhotes e que tinha um interesse intenso neles. Mas porque ela era surda, ela não podia nem mesmo atentar os chamados de angústia de seus bebês mesmo se sentasse sobre eles. O caso de Krom ilustra que, sem o mecanismo apropriado para compreender e responder às necessidades de um infante, a espécie não sobreviverá.

Durante os 180 milhões de anos da evolução dos mamíferos, as fêmeas que atendiam às necessidades da sua prole tiraram do cenário aquelas que eram frias e distantes. Tendo descendido de uma longa linhagem de mães que nutriram, alimentaram, limparam, carregaram, confortaram, e defenderam seus filhotes, nós não devemos nos surpreender pelas diferenças de gênero na empatia humana, tais como aquelas propostas para explicar a desproporcional taxa de meninos afetados pelo autismo, que é marcada por uma falta de habilidades sociais de comunicação.

A empatia ocorre naturalmente. Não é algo que aprendemos mais tarde na vida

A empatia também desempenha um papel na cooperação. É preciso prestar bem atenção às atividades e objetivos dos outros para se cooperar de maneira eficaz. Uma leoa precisa observar rapidamente quando as outras leoas vão caçar, de modo que possa se juntar a elas e contribuir para o sucesso do grupo. Um chimpanzé macho prestar atenção aos rivais e às disputas dos outros para que possa ajudar sempre que necessário, assegurando assim o sucesso político de suas parcerias. A cooperação eficaz requer que se esteja extremamente antenado aos estados emocionais e objetivos dos outros.

Dentro de uma estrutura bottom-up, o foco não está tanto nos níveis mais elevados de empatia, mas, pelo contrário, em suas formas mais simples, e em como estas se combinam para aumentar a cognição de modo a produzir formas mais complexas de empatia. Como essa transformação ocorreu? A evolução da empatia vai de emoções e intenções compartilhadas entre indivíduos para uma maior distinção entre indivíduo/outro – que é, uma linha nítida entre indivíduos. Conseqüentemente, a experiência de cada um é distinta de qualquer outra pessoa, mesmo que sejamos afetados ao mesmo tempo pela experiência do outro. Esse processo culmina em uma avaliação cognitiva do comportamento e da situação do outro: Adotamos a perspectiva do outro.

Como em uma boneca russa, entretanto, as camadas exteriores contêm sempre um núcleo interno. Em vez de a evolução ter substituído as formas mais simples de empatia pelas mais avançadas, as últimas são meramente elaborações da anterior e permanecem dependentes dela. Isto também significa que a empatia ocorre naturalmente. Não é algo que aprendemos somente mais tarde na vida, ou que seja culturalmente construído. Na verdade, é uma resposta instintiva que ajustamos e elaboramos durante o curso de nossas vidas, até que alcance um nível em que se torne uma resposta tão complexa que é difícil reconhecer sua origem em respostas mais simples, tais como a mímica do corpo e o contágio emocional.

Na correia

A biologia nos prende “em uma correia”, nas felizes palavras do biólogo Edward Wilson, e nos liberta somente para longe de quem nós somos. Podemos projetar nossa vida da maneira que quisermos, mas o fato de prosperarmos ou não vai depender de como essa vida cabe nas predisposições humanas.

Eu hesito prever o que nós seres humanos podemos ou não fazer, mas temos que considerar nossa correia biológica ao decidirmos que tipo de sociedade queremos construir, principalmente quando se trata de objetivos como a garantia dos direitos humanos universais.

Se pudéssemos enxergar os povos de outros continentes como parte de nós, atraindo-os para dentro de nosso círculo de reciprocidade e empatia, estaríamos construindo, mais do que indo de encontro, à nossa natureza.

Por exemplo, em 2004, o ministro da Justiça de Israel causou rebuliço político por simpatizar com o inimigo. Yosef Lapid questionou os planos do exército israelense de demolir milhares de moradias palestinas em uma faixa ao longo da fronteira com o Egito. Ele se sensibilizou com as imagens transmitidas pelo noticiário da noite. “Quando vi uma foto na tevê de uma senhora engatinhando nas ruínas de sua casa procurando por medicamentos sob o assoalho, pensei, ‘o que eu diria se fosse minha avó?’”, afirmou. A avó de Lapid foi vítima do Holocausto.

Quando as pessoas se matam, nós as chamamos de “animais”. Mas quando elas doam aos pobres, nós elogiamos por serem “humanos”

Este incidente mostra como uma emoção simples pode ampliar a definição de grupo. Lapid de repente percebeu que os palestinos também faziam parte de seu círculo de preocupação. A empatia é a única arma no repertório humano que pode nos livrar da maldição da xenofobia.

A empatia, no entanto, é frágil. Entre os nossos parentes animais próximos, ela é acionada por eventos dentro da comunidade, tal como um jovem em momento de angústia, mas também é facilmente desativada quando se trata de estranhos ou membros de outras espécies, como as presas. A maneira que um chimpanzé golpeia o crânio de um macaco vivo batendo-o contra o tronco de uma árvore não é nenhuma propaganda para a empatia dos macacos. Os bonobos são menos brutos, mas no seu caso, a empatia também precisa passar por diversos filtros antes de ser expressa.

Freqüentemente, os filtros previnem demonstrações de empatia, porque nenhum macaco pode sentir piedade por todos os organismos vivos a todo o momento. Isso também se aplica a seres humanos. Nossa história evolutiva dificulta que nos identifiquemos com estranhos. Evoluímos para odiar nossos inimigos, ignorar pessoas que mal conhecemos, e desconfiar de qualquer um que não se pareça conosco. Mesmo se somos muito cooperativos dentro de nossas comunidades, quase nos transformamos em um animal diferente ao tratarmos estranhos.

Este é o desafio de nossa época: a globalização segundo uma espécie tribal. Ao tentar estruturar o mundo para servir à natureza humana, o ponto que temos que levar em consideração é que os ideólogos políticos, por definição, mantêm visões estreitas. Eles são cegos para aquilo que não desejam ver. A possibilidade que a empatia faz parte de nossa herança primata deve nos deixar felizes, mas não temos o costume de seguir nossa natureza. Quando as pessoas se matam, nós as chamamos de “animais”. Mas quando elas doam aos pobres, nós elogiamos por serem “humanos”.


(*) Frans B. M. de Waal, Ph.D. , primatólogo da Universidade de Emory e diretor do Living Links Center do Centro de Pesquisa Nacional de Primatas de Yerkes, em Atlanta (EUA). Este ensaio é adaptado de seu mais recente livro, Eu, primata: porque somos como somos (Companhia das Letras, 2007).

http://metropolis.livrespensadores.org/existe-moralidade-sem-deus


Postado por João Carlos Holland de Barcellos em Meta-Ética-Científica

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