Stoa :: Luciana Santos :: Blog :: Bourdieu express - a educação como reprodução de capitais dominantes

setembro 04, 2011

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Postado por Luciana Santos

"Por que a escola, ao invés de alterar, pode até confirmar a reprodução das desigualdades? As crianças chegam às escolas 'capitalizadas' ou não: herdam capital cultural (tipo de literatura, manipulação de instrumentos digitais, artísticos, etc., uso da linguagem 'correta' inculcados por suas famílias), incorporam-no e constituem-no para si, cristaliza-se um habitus orientador das formas de se aprender.

Diante disso, as crianças de classes menos favorecidas ficam em dupla desvantagem: primeiramente porque, na ordem de importância dos saberes, no olhar do supervisor, na arquitetura, na disciplina corporal exigida, na escolha do currículo escolar, nas manifestações do corpo do professor, os critérios de avaliação escolar ocultam as significações ligadas ao capital cultural das classes dominantes (violência simbólica), universalizados; em segundo lugar, chegam sem a herança desse capital cultural.

Essas crianças encaminham-se para o fracasso escolar legitimado por discursos que incorporam os modos de percepção, de pensamento e de corpo das classes que detêm o capital econômico (bens, serviços, etc.) e cultural (valores, habilidades, etc.). Como lentes oculares que aderem profundamente aos olhos a ponto de não serem percebidas, a violência simbólica é a introjeção de valores da classe social ou segmento dominante, de forma que o dominado vê-se com os olhos dos dominantes. Julgando-se por esses 'óculos', as classes sociais inferiores assumem rótulos e aprofundam perversos mecanismos de exclusão escolar, social, econômica, sexual e religiosa. Os mecanismos de exclusão nunca estão isolados, mas em conjunto. Para desarticular esses mecanismos, por conseguinte, é necessário um vasto repertório de medidas sociais, culturais e econômicas, bem como a mobilização da sociedade e dos políticos."

Emerson Sena da Silveira - Bourdieu Delivery: traços quase sagrados, in revista Sociologia, nº33

 

Palavras-chave: Bourdieu, Educação, habitus, herança cultural

Postado por Luciana Santos

Comentários

  1. Felipe Pait escreveu:

    Talvez seja verdade na França. No Brasil ninguém entre os que detêm o capital econômico dá a menor bola para a cultura pedante. Só os acadêmicos da torre de marfim que ficam papagaiando o Bourdieu é que não veem isso. Porque se vissem iam ter que fazer ciência social de verdade, olhar para o Brasil, em vez de ficar papagaiando o Bourdieu em suas confortáveis sinecuras acadêmicas.

    Felipe PaitFelipe Pait ‒ sábado, 03 setembro 2011, 22:29 -03 # Link |

  2. Luciana Santos escreveu:

    Não se trata apenas de capital econômico, mas também de capital cultural, mesmo que um costume favorecer o outro. Ainda assim, gostaria de saber: o que indica que os que detêm capital econômico não dão bola para a "cultura pedante"? Algum estudo sobre isso?

    Pelo menos do que conheço, existe sim uma forte valorização de uma cultura "sofisticada" pela elite, em especial se o seu entendimento é dificultado às classes mais baixas (arte abstrata, música clássica, cinema europeu). Se a simples percepção não basta, acho que teremos que tirar a prova com um estudo de "ciência social de verdade", não?

    Quanto a "papagaiar Bourdieu", me causou estranhamento que isso seja associado à torre de marfim, exatamente pelas críticas que o próprio Bourdieu faz à academia da torre de marfim.

    De que forma citar Bourdieu representa a falta de visão de acadêmicos da torre de marfim sobre o desdém da elite quanto à "cultura pedante"?

    Luciana SantosLuciana Santos ‒ sábado, 03 setembro 2011, 22:45 -03 # Link |

  3. Renato escreveu:

    Tinha um mendigo aqui na rua gritando "A reforma ortográfica tá acabando com a cultura do Brasil!", então eu dei um real para ele, e portanto existe ao menos um brasileiro que detém poder econômico, e que dá bola para a cultura pedante.

    Renato Callado BorgesRenato ‒ sábado, 03 setembro 2011, 23:12 -03 # Link |

  4. emerson. escreveu:

    Olá Luciana! É bom ver que um artigo se espalha assim pela internet. Bem, sou o autor do referido artigo. Penso que o comentário de Felipe é deselegante, ao extremo, e mostra que ele não leu o artigo e nem leu Bourdieu direito. Bourdieu tece críticas ferrenhas as "torres" de marfim. Agora, sinceramente, com leitores como este Felipe, as torres de mafrim não só continuma de pé, mas se multiplicam. Emerson José Sena da Silveira.

    default user iconemerson. ‒ segunda, 05 setembro 2011, 18:16 -03 # Link |

  5. Luciana Santos escreveu:

    Sinta-se elogiado Emerson! Gostei da matéria justamente porque Bourdieu é de difícil entendimento e nela ele foi bem colocado! 

    Luciana SantosLuciana Santos ‒ segunda, 05 setembro 2011, 20:22 -03 # Link |

  6. Felipe Pait escreveu:

    P: o que indica que os que detêm capital econômico não dão bola para a "cultura pedante"?

    R: O desinterresse que os endinheirados têm pela alta cultura. Caricaturando: [tex][/tex]Quem vai a concerto são profissionais liberais, os professores empobrecidos. Quem tem grana vai na Daslu. 

    P: existe sim uma forte valorização de uma cultura "sofisticada" pela elite, ... não?

    R: Não pelos donos do poder e do dinheiro. Talvez pelos sofisticados de Higienópolis e da V Madalena, gente como eu que não manda nada ;-)

    P: De que forma citar Bourdieu representa a falta de visão de acadêmicos da torre de marfim sobre o desdém da elite quanto à "cultura pedante"?

    R: Boa pergunta! Como e quando os acadêmicos resolveram adotar teorias aparentemente libertárias (outro exemplo é o marxismo) para defender suas sinecuras? Criar teorias abstrusas, incomprováveis e portanto irrefutáveis, para se colocar numa posição superior aos não iniciados nas artes mágicas? Valia um bom estudo, que não tenho as ferramentas e nem a disponibilidade para fazer........

    Felipe PaitFelipe Pait ‒ sábado, 24 setembro 2011, 16:07 -03 # Link |

  7. Luciana Santos escreveu:

    Ainda não vejo embasamento para os "fatos" que você apresenta. Algum estudo aponta isso? Quanto aos estudos serem incomprováveis, duvido, enquanto não for tentado. E conheço alguns sociólogos que fazem estudos a partir das teorias de Bourdieu.

    Luciana SantosLuciana Santos ‒ sábado, 10 dezembro 2011, 11:28 -02 # Link |

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