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junho 23, 2011

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Postado por Luciana Santos

E se, diante de um estímulo intelectual, não recorrêssemos imediatamente ao que nos foi ensinado? E se, ao invés disso, refletíssemos sobre um universo maior de possibilidades que esse estímulo oferece?

Por exemplo: me formei em Ciências Sociais. Em uma das aulas aprendi a diferença percebida por Durkheim entre solidariedade mecânica e orgânica e a tendência de passagem de uma a outra. Assim, é fácil para mim, diante de sinais da divisão e especialização do trabalho, remeter a essa teoria e sentir-me satisfeita com a explicação apreendida.  

Mas e se, ao invés disso, de recorrer imediatamente à conclusão de outro, eu me permitir um pensamento mais livre, uma análise mais solta e, por isso, com potencial de se aproveitar de elementos do meu conhecimento (não só dos de Durkheim) para gerar um novo conhecimento?

Devo eu desprezar todas as minhas experiências e aprendizados em nome do reconhecimento que outra pessoa teve em desenhar teorias sobre o que me intriga? Devo anular de antemão qualquer tentativa de interpretar diferente? Afinal, o conhecimento não é construído justamente por quem se permite ir além? Ou estamos em uma linha evolutiva estreita, em que não posso sair um pouquinho fora do caminho estabelecido para pensar? Um pensamento perde validade por não ter bebido antes (e talvez se viciado) da água dos antigos?

E seu eu não quiser fazer alusão nenhuma, nem favorável nem contrária, à teoria das solidariedades de Durkheim? E se eu quiser usar a minha imaginação e capacidade de análise crítica para enxergar o máximo possível de aspectos relacionados à especialização do trabalho, para, aí sim, remeter à teoria já construída e me permitir relações mais complexas?

Não digo com isso, de maneira alguma, rejeitar o conhecimento construído. Penso, aliás, que ele deve ser consultado para comparação com nosso próprio raciocínio; no entanto, temo que muitos estudiosos anulem a própria capacidade de análise crítica em nome das teorias já construídas. Temo que seja um vício olhar a realidade com olhos alheios e passar a vida a brincar de encaixar peças - fatos em teorias, sem se permitir olhar uma peça e imaginar o seu melhor receptáculo. E depois de imaginado, verificar se existe algo já construído dessa melhor forma, ou se é preciso criar.

Com isso em vista, extrapolo o raciocínio para uma esfera ainda mais difícil de exercitar a liberdade: a crença. Fiquei tentada a escrever "a religião", todavia esta é apenas um sistema de transmissão e manutenção de algumas crenças, ele mesmo questionado e confrontado, de dentro e de fora. Já a crença em si, mais subjetiva, mais íntima, uma conclusão acomodada no indivíduo acerca de algum aspecto da vida ou da morte, essa é mais resistente à liberdade de análise. Seja fruto de convencimento, criação ou lavagem cerebral, a crença mexe com emoções que muitas vezes brigam com a liberdade da razão de se desenvolver no pensamento.

E seu eu enfrentá-las e me permitir pensar? E se, no meu íntimo, em que não há líder espiritual, ente querido ou polícia científica a me coibir, eu abrir os olhos para contradições, fatos, hipóteses e possibilidades? Há um grande risco de amadurecer. Há um grande risco de que esse amadurecimento mude meu comportamento ao ponto de não ser mais suportável aceitar polícias morais a me pedir pra pensar diferente. Há o risco de pensar.

 

 

Palavras-chave: alienação, crença, limitações, pensamento, raciocínio, vício de pensamento

Postado por Luciana Santos | 1 usuário votou. 1 voto

Comentários

  1. Ita escreveu:

    Também há um grande risco de se questionar sobre algum alicece sem tempo de alcançar respostas que lhe salve antes de um catástrofe.



    Em cada trecho escapamos como dá. As linhas são tortas e os escritos estão zippados.

    Não existe método geral ou plano tático padrão, nessa fronteira com o não-conhecido as estéticas ficam longe (amedrontadas, esperando a poeira assentar e competindo pra ver qual delas vai colocar a coleira no novo animal selvagem, caçado e trazido do além).

    Esta parece uma dúvida das ciências pouco pragmáticas. Como o crivo destas verdades é mais subjetivo abre-se tolerância pra idolatria e micro-fanatismo. Nas exatas os grandes estão assentados no topo porque os outros ainda não deram conta de os tirar. De fato, é isso que fazem deles grandes.

     

    [Psiconáutas fazem por diversão, premeditadamente se confrontam com o vagar metaquímico numa completa estranheza imponderável.]

    Itacir Gabral Xavier JuniorIta ‒ sexta, 24 junho 2011, 13:25 BRT # Link |

  2. Luciana Santos escreveu:

    Sim, há esse risco! Não podemos desprezar a teoria, mas acho que vale a pena, ao menos no início de uma questão, não se limitar a pensar só por ela. Depois de feito isso, é importante referir-se a ela antes da "catástrofe". 

    Luciana SantosLuciana Santos ‒ sexta, 24 junho 2011, 14:26 BRT # Link |

  3. Ita escreveu:

    Por que a necessidade de referência? Estamos montando um catálogo de conhecimento onde a indexação tem que ser contínua e suave? Ou o conhecimento é validado por comparação com o canônico?

    A criatividade cheira a indisciplina. Talvez o paradoxo, ou dilema, ainda não solucionado seja responsabilidade das hipóteses ou métodos da própria formulação. Obviamente o conhecimento já academizado poupará tempo na reinvenção da roda, mas se limitar a ele não dará acesso a tecnologia dos sapatos e tênis.

    Se estivéssemos limitados a não variar (melhorar, ou até mesmo refutar) durkheim não passaríamos de biólogos fazendo classificação botânica. É um trabalho importante e digno, mas... ... Mas só serve pra publicar mais do mesmo e assegurar a bolsa.


    (O que existe em durkheim que não é tipicamente francês? O que é algo próprio e intransferível que não poderia ser justificado como resposta ao contexto? Quero dizer, sem a figura de durkheim quanto tempo demoraria pra mesma configuração teórica estar na praça?)

    Itacir Gabral Xavier JuniorIta ‒ sexta, 24 junho 2011, 16:24 BRT # Link |

  4. Luciana Santos escreveu:

     

    Ita, o que você descreveu expressa bem o que eu quis dizer no post.

    Foi interessante citar a nacionalidade de Durkheim. Durante a graduação eu ficava com uma impressão clara de que muitas das teorias que estudamos têm um universo de aplicação muito delimitado, que, no entanto, foi tomado por muitos como conhecimento geral, aplicável a qualquer contexto. Ex: todos são individualistas, toda a sociedade segue a tendência x ou y, o mundo todo está vivendo tal ou qual coisa. Muitas vezes, era uma classe europeia - se pudermos falar em classe. 

     

    Luciana SantosLuciana Santos ‒ sexta, 24 junho 2011, 19:10 BRT # Link |

  5. Renato escreveu:

    Algo relevante nesta discussão é o ritmo.

    Digamos que o estímulo intelectual venha de um livro. Então temos todo o tempo que quisermos para refletir acerca do assunto. O mesmo ocorre com estímulos que vêm de mídias que não exigem uma "reposta" imediata.

    E se o estímulo vem de alguém, dizendo algo para você, ao vivo, ou por telefone, ou na frente de um auditório, ou na frente de um grupo de amigos, colegas ou desconhecidos?

    Nesses casos, responder imediatamente - de "bate-pronto" como se diz por aí - é essencial. Certamente responder sem hesitação é fundamental quando o mais importante é ganhar um debate, e não apenas expôr idéias corretas.

    Me parece que essa "arte" de ganhar debates é muito mais um esporte do que uma criação intelectual. Ou seja, conta mais, para responder de "bate-pronto", que o respondente tenha na cabeça todo um conjunto de idéias e de explicações, e que tenha treinado defender esse conjunto frente a dúvidas de sua validade, e que seja hábil em desdobrar esse conjunto para abarcar novas informações, quando isso for necessário para "vencer" o certame.

    Creio que é possível sim estar sempre inventando idéias e explicações, e ser plenamente criativo, mesmo num debate. Mas me parece que isso exige uma aptidão específica, a de ser extremamente criativo, e a falta de vergonha de afirmar algo que não recorre a autoridades. Ou seja, isso não é para todos.

    Bem, eu consigo inventar mil derivações dessas idéias, mas vejo que o ponto a que me atenho é aquele tocado no primeiro parágrafo da mensagem original. Eu concordo com o que foi exposto: é preciso se permitir a liberdade de tomar as novas idéias e tentar fazer sentido delas, autonomamente. É parte necessária do desenvolvimento de um intelectual - se a pessoa não faz isso o suficiente, acaba se resumindo a um mero pedante.

    Mas ninguém vive de idéias, né? Precisamos pôr o pão na mesa. E por isso precisamos "aprender" rápido um conjunto grande de conhecimentos, e é impraticável reinventar todo o conhecimento de uma área específica até o ponto em que podemos nos tornar intelectuais "bem-informados" a respeito dessa área.

    De modo que é preciso saber equilibrar essas duas forças: as vicissitudes da vida que exigem que abarquemos uma quantidade de conhecimentos o mais rápido possível, e nosso "espírito" de pensadores, que nos empurra na direção da originalidade.

    Renato Callado BorgesRenato ‒ domingo, 03 julho 2011, 07:47 BRT # Link |

  6. Andre de Souza Freitas escreveu:

    Quanto a religião, há o risco do desencanto ou da reafirmação. O desencanto é geralmente a via considerada progressiva, mas a reafirmação (ou simplesmente afirmação), tem sido sempre considerada regressiva. Examine o porquê disso e entenda o que significa "lavagem cerebral: assim acreditamos porque outros trabalharam uma boa propaganda dessa opinião.

    Andre de Souza FreitasAndre de Souza Freitas ‒ sexta, 13 janeiro 2012, 10:52 BRST # Link |

  7. Luciana Santos escreveu:

    Andre, na verdade considerar o desencanto progressivo ou regressivo depende do contexto em que estamos. Em uma análise sociológica pode aparecer como progressivo, em uma igreja fundamentalista, como regressivo. Se o que você menciona como "sempre" é o que sempre acontece em uma análise acadêmica, posso responder o porquê: é uma análise mais crítica do que o simples "obedeça ou vai para o inferno", "acredite ou será excluído do grupo". Quanto a propagandas, vejo dos dois lados: pelo encantamento e pelo desencantamento. Geralmente a primeira é mais ostensiva/massiva. Para mim, isso é lavagem cerebral. 

    Luciana SantosLuciana Santos ‒ domingo, 04 março 2012, 07:47 BRT # Link |

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