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Novembro 07, 2008

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Três cenas do Japão, vistas pela TV:

Sete de janeiro 2007: O programa Aruaru Daijiten, categorizado como "programa de variedades" mas que se tornou famoso por reportagens investigativas e novidades "científicas" vai ao ar pela Fuji Telebi. Nessa versão japonesa do "Globo Repórter" uma soja fermentada e gosmenta, o natto, é apresentada como a nova tendência para emagrecer. Pesquisadores americanos devidamente entrevistados e dublados, fotos conhecidas do antes e depois. Explicações convincentes e modo de uso [1].

Nas semanas que se seguem corrida frenética aos supermercados, mesmo aqueles que não suportavam nem o cheiro (imaginem feijão cru com quiabo cheirando a gorgonzola) estocam o produto na esperança de seguir o modelo estético quase convertido a lei. Os supermercados enlouquecendo as distribuidoras, que convencem os produtores a deslocar a produção para fermentar mais soja. No dia vinte do mesmo mês a produtora Kansai Telecasting, responsável pelo programa, admite ter falsificado dados, manipulado fotos e inventado as traduções. A notícia chega às páginas da revista científica Nature [2]. E os supermercados amargaram os estoques gigantescos de natto, sem poder comemorar o fim do programa que, como revelado mais tarde, nunca foi afeito a distinguir fatos de ficção.

Março de 2008: Começam a surgir na blogosfera japonesa relatos sobre o poder das bananas na dieta. A origem dos links era um post no site http://mixi.jp/, a versão japonesa do facebook. A dieta consiste basicamente em substituir o café da manhã por bananas. Logo um livro é publicado (algo como "banana da manhã"), e consumidores correm às pencas aos mercados após atrizes aparecerem na TV com relatos positivos da dieta - mesmo sendo elas esbeltas como sempre. Dessa vez, nada de pesquisadores de jaleco e principalmente nada de pânico em relação aos importadores - os donos de supermercado devem ser os mesmos que passaram 2007 à base de natto encalhado. Mas os consumidores continuam esperando os resultados que não virão e as bananas que não chegam [3].

Dezembro de 2007: A NTV japonesa apresenta um especial de duas horas sobre um brasileiro (um tal de Da Luz) capaz de prever o futuro com precisão arbitrária. As previsões são todas feitas após os eventos, mas a corriola de artistas entrevistando o sábio parece não se importar [4]. E ninguém questiona sua autoridade em dizer o que quiser sem precisar de provas (suas provas eram cartas carimbadas com data anterior aos fatos). Em setembro e outubro de 2008, ele vai à TV japonesa novamente prever o imprevisível [5]: terremotos no Japão! Mesmo sendo corriqueiros os terremotos pequenos (ocorrem diariamente, para felicidade de suas "margens de erro" [6]), o iluminado consegue errar fragorosamente. Mas as portas da TV com seus excelentes tradutores e artistas entediados estarão sempre abertas.

 

Há várias formas de se analisar as situações acima, mas a que me salta à vista é um problema análogo à falácia do argumento de autoridade [7]. Obviamente os verdadeiros culpados são os charlatães, que geralmente tem uma agenda que passa desapercebida dos crédulos. Mas não se pode cobrar honestidade de um salafrário. E os ingênuos, tem culpa? Obviamente. Fossemos o homo economicus [8], capazes de tomar atitudes racionais utilizando toda a informação disponível, talvez estivéssemos imunes ao charlatanismo. Mas nós, humanos, dependemos de argumentos de autoridade (que nem sempre são falaciosos) em vários momentos onde não queremos reinventar a roda. Publicações científicas são a minha muleta.

Então chegamos à questão de como uma idéia capenga se torna um fato, que transforma um impostor em uma "autoridade". Mas a autoridade na verdade lhe foi emprestada pelo meio de comunicação, prestigiado de acordo com seu histórico (ou novamente emprestado, como no caso de uma nova revista de uma editora famosa). Nos três casos acima temos vários indicadores de prestígio (o canal de TV, a fama das atrizes, a editora do livro) que são manipulados pelo charlatão a fim de dar veracidade à bobagem da vez. Em mercados competitivos as empresas que não cuidam de seu prestígio pagam caro. Prá continuar no exemplo televisivo japonês, um caso em que é fácil inferir a perda é o da NHK, a emissora pública financiada por "doações compulsórias" de proprietários de TV: dois escândalos em 2007 envolvendo funcionários que usaram informações econômicas privilegiadas custaram à emissora um milhão de contribuintes, que se recusaram a pagar desde então (não havia sanções para inadimplentes) [9]. Em tempo: não tenho TV em casa.

Começamos a observar o mesmo problema aqui no STOA: um dentista que vende (ou doa apaixonadamente, segundo diz) sua imagem a uma pasta de dente, um troll que proclama aos quatro ventos o fascismo de quem não comunga de sua ideologia política, ou um aluno preguiçoso que justifica seu fracasso com uma pseudo-teoria. Em todos esses casos os autores se apropriam do prestígio da Universidade, mesmo que involuntariamente (assim como todos os outros posts, é fato).

Caso o STOA estivesse fora da USP eu creio que os administradores, preocupados em construir uma reputação para o sistema, teriam outros olhos para a questão desses posts vazios de valor e sentido. E os próprios posts - esses problemáticos, que são minoria - talvez tivessem mais foco em criar informação. Caso o STOA estivesse em uma universidade particular de prestígio ou outro tipo de empresa talvez as regras fossem claras e obrigatórias,  mesmo que permissivas: existiria estímulo para que o prestígio da Universidade não fosse afetado (por exemplo, dissociando o sistema do nome da empresa). Mas estando o STOA em uma universidade pública, é pouco dizer que os posts que eu citei acima estão em desacordo com as regras da USP e que primam pelo bom uso da coisa pública [10]: eles não apenas tornam o STOA um local menos interessante, mas reduzem a USP a um programa de entrevista sobre bananas no café da manhã.

No artigo da Nature [2], o então presidente do Conselho Científico do Japão declarou, com relação aos programas de TV: "Their goal is not scientific truth; it's ratings". E o coro foi engrossado pelo pronunciamento de um canal britânico, envolvido em fraude semelhante: "If you're expecting to see the Open University, you're on the wrong channel!". E eu, que acreditei que o STOA seria minha Universidade Aberta, devo sintonizar em que canal?

(OBS: Escolhi o Japão por ser me ser o mais próximo no momento, mas talvez sirva também por ter virtualmente erradicado o analfabetismo e pelo alto nível educacional da população "jovem", de onde eu ingenuamente esperaria menos crédulos [11]. E até por não atiçar nossos instintos ideológicos... Mas não se enganem: o problema é universal.)

Referências

[1] http://blog.livedoor.jp/dqnplus/archives/903174.html
     http://whatjapanthinks.com/2007/01/19/the-great-natto-famine-of-he

[2] http://www.nature.com/nature/journal/v445/n7130/full/445804a.

[3] http://www.time.com/time/world/article/0,8599,1850454,00.ht

[4] http://www.japanprobe.com/?p=3454

[5] http://www.japanprobe.com/?p=6592

[6] http://www.jma.go.jp/en/quake/quake_local_index.html

[7] http://dererummundi.blogspot.com/2007/04/argumentos-de-autoridade.html

[8] http://en.wikipedia.org/wiki/Homo_economicus

[9] http://ja.wikipedia.org/wiki/NHKの不祥事
     http://en.wikipedia.org/wiki/NHK

[10] http://stoa.usp.br/destoa/forum/6289.html#cmt8334

[11] https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook

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Postado por Leonardo de Oliveira Martins | 5 usuários votaram. 5 votos | 8 comentários