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maio 09, 2012

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Ele estava sentado naquele banco de cimento fumando o último cigarro do maço, que infortunadamente, era ainda o primeiro do dia. Não havia mais trocados no bolso, não o suficiente para aquele momento e mais um cigarro. Apenas algumas ideias vagavam pela sua mente, que nada faziam a não ser remeter para o movimento de algumas pessoas que passavam ao seu redor.

Finos dedos, delicados e com unhas ligeiramente desenhadas, de cores vivas e diversas, mulheres bem maquiladas e perfumadas, bolsas de alças douradas e alguns ruídos de saltos apressados vinham de todas as direções. Homens transitavam com suas camisas de golas engomadas, cabelos brilhantes e a pele facial machucada.

O acúmulo sobre a pele humana, de adornos, adereços, símbolos de uma vida além de um ego estático, parte de um grande emaranhado de material conecto, que aspirava a sensualidade plástica de um perfume de luxo, de uma alegoria quase sinteticamente melódica, recorria em sua mente como em momentos anteriores, porém toda recorrência era uma nova ramificação, mesmo que referente ao próprio vazio humano.

Ao caminhar, sentia que para todos aqueles seres que transitavam, a humanidade era tão insuportavelmente louca quanto para si próprio, e longe de julgar isso repugnante, a comicidade da disputa ególatra era o alívio de sua tensão, enquanto para outros era apenas a motivação que tornava a vida tolerável.

Em um relapso levantou-se do banco e abordou o sujeito que passava a sua frente, solicitando um cigarro. Cedido pelo sujeito, acendeu o fumo, seguindo à este ato de um longo trago, colocou-se em um andar satisfeito, caminhando pela longa avenida que se estendia diante da praça.

Havia perdido o último emprego há duas semanas, em partes, pelo desequilíbrio do álcool que de alguns tempos pra cá estava sujeito. Bebia nesses últimos tempos e não pouco. Como sempre, de tempos em tempos alternava intensamente de vícios. E a ironia se localizava no fato de que mesmo necessitando estar preso a algo, para então concentrar-se no futuro e organizar o presente, sempre precisava de não menos que dois vícios simultâneos. Contudo, sabia que era impossível compactuar uma vida sem o mínimo nível de regras, sentia-se em uma tênue linha entre dois vértices da loucura: Uma causada pela libertinagem generalizada e outra, pela privação total.

Como se buscasse um caminho paralelo, ele dobrou a esquina. Um sujeito mendigava a sua direita, enquanto um bêbado no ponto de ônibus alternava a conversa entre o nada e as pessoas que esperavam sentadas, e estas, simplesmente coisa nenhuma faziam, além de esperar e ignorar a existência do sujeito bêbado.

A figura a sua frente, um retrógado do ócio, um símbolo perdido entre a arte da loucura, agora marginalizada, alheia ao compartilhamento de um sentido comum e massificado entre os homens. Alheio ao sentido das obrigações, excluído também da leve anestesia de café digerido em goles sucessivos durante todo horário comercial, somado a sacies de um almoço engolido as pressas pelo prazer insano da ansiedade, um ser que ao invés das incessantes queimações provocadas pelo café, sentia apenas os efeitos do álcool barato do bar da esquina.

Observando ao bêbado e ao mendigo, sentia certo grau de liberdade em ambos. Ambos de certa forma não compartilhavam de deveres e mazelas das obrigações sociais que ele também não compartilhava agora. Contudo, havia ali resquícios de uma rejeição enorme, que também ele e seu próprio desemprego estavam sujeitos. A rejeição de uma solidão pela falta de dinheiro e de inserção social.

Inevitavelmente, bem via e sabia, a solidão do ser semi-invisível como daqueles dois homens, é uma nova fonte de loucura que também é um desvairo muito diferente da esterilização dos prazeres das massas e das distrações coletivas. A loucura real da segregação é um fechamento do raciocínio no próprio eu. A loucura do falar sozinho, do afloramento do primitivo e do humano, também da arte e da mais intensa e bela natureza humana.

Colocou-se a caminhar novamente, jogando as últimas cinzas do cigarro no escuro do asfalto molhado e sujo, e por um sorriso quase latente, sentia que nada mais restava ao homem pós-moderno, senão a loucura advinda das mais incessantes formas contra a pretensão do raciocínio humano.

 

Palavras-chave: bêbado, loucura, segregação

Este post é Domínio Público.

Postado por Fernando Henrique Ramos Souza

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