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Maio 09, 2012

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Ele estava sentado naquele banco de cimento fumando o último cigarro do maço, que infortunadamente, era ainda o primeiro do dia. Não havia mais trocados no bolso, não o suficiente para aquele momento e mais um cigarro. Apenas algumas ideias vagavam pela sua mente, que nada faziam a não ser remeter para o movimento de algumas pessoas que passavam ao seu redor.

Finos dedos, delicados e com unhas ligeiramente desenhadas, de cores vivas e diversas, mulheres bem maquiladas e perfumadas, bolsas de alças douradas e alguns ruídos de saltos apressados vinham de todas as direções. Homens transitavam com suas camisas de golas engomadas, cabelos brilhantes e a pele facial machucada.

O acúmulo sobre a pele humana, de adornos, adereços, símbolos de uma vida além de um ego estático, parte de um grande emaranhado de material conecto, que aspirava a sensualidade plástica de um perfume de luxo, de uma alegoria quase sinteticamente melódica, recorria em sua mente como em momentos anteriores, porém toda recorrência era uma nova ramificação, mesmo que referente ao próprio vazio humano.

Ao caminhar, sentia que para todos aqueles seres que transitavam, a humanidade era tão insuportavelmente louca quanto para si próprio, e longe de julgar isso repugnante, a comicidade da disputa ególatra era o alívio de sua tensão, enquanto para outros era apenas a motivação que tornava a vida tolerável.

Em um relapso levantou-se do banco e abordou o sujeito que passava a sua frente, solicitando um cigarro. Cedido pelo sujeito, acendeu o fumo, seguindo à este ato de um longo trago, colocou-se em um andar satisfeito, caminhando pela longa avenida que se estendia diante da praça.

Havia perdido o último emprego há duas semanas, em partes, pelo desequilíbrio do álcool que de alguns tempos pra cá estava sujeito. Bebia nesses últimos tempos e não pouco. Como sempre, de tempos em tempos alternava intensamente de vícios. E a ironia se localizava no fato de que mesmo necessitando estar preso a algo, para então concentrar-se no futuro e organizar o presente, sempre precisava de não menos que dois vícios simultâneos. Contudo, sabia que era impossível compactuar uma vida sem o mínimo nível de regras, sentia-se em uma tênue linha entre dois vértices da loucura: Uma causada pela libertinagem generalizada e outra, pela privação total.

Como se buscasse um caminho paralelo, ele dobrou a esquina. Um sujeito mendigava a sua direita, enquanto um bêbado no ponto de ônibus alternava a conversa entre o nada e as pessoas que esperavam sentadas, e estas, simplesmente coisa nenhuma faziam, além de esperar e ignorar a existência do sujeito bêbado.

A figura a sua frente, um retrógado do ócio, um símbolo perdido entre a arte da loucura, agora marginalizada, alheia ao compartilhamento de um sentido comum e massificado entre os homens. Alheio ao sentido das obrigações, excluído também da leve anestesia de café digerido em goles sucessivos durante todo horário comercial, somado a sacies de um almoço engolido as pressas pelo prazer insano da ansiedade, um ser que ao invés das incessantes queimações provocadas pelo café, sentia apenas os efeitos do álcool barato do bar da esquina.

Observando ao bêbado e ao mendigo, sentia certo grau de liberdade em ambos. Ambos de certa forma não compartilhavam de deveres e mazelas das obrigações sociais que ele também não compartilhava agora. Contudo, havia ali resquícios de uma rejeição enorme, que também ele e seu próprio desemprego estavam sujeitos. A rejeição de uma solidão pela falta de dinheiro e de inserção social.

Inevitavelmente, bem via e sabia, a solidão do ser semi-invisível como daqueles dois homens, é uma nova fonte de loucura que também é um desvairo muito diferente da esterilização dos prazeres das massas e das distrações coletivas. A loucura real da segregação é um fechamento do raciocínio no próprio eu. A loucura do falar sozinho, do afloramento do primitivo e do humano, também da arte e da mais intensa e bela natureza humana.

Colocou-se a caminhar novamente, jogando as últimas cinzas do cigarro no escuro do asfalto molhado e sujo, e por um sorriso quase latente, sentia que nada mais restava ao homem pós-moderno, senão a loucura advinda das mais incessantes formas contra a pretensão do raciocínio humano.

 

Palavras-chave: bêbado, loucura, segregação

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Setembro 20, 2011

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Buscando aplicar a um contexto intrinsecamente atual e regional, procurarei apresentar nesse breve ensaio, um assunto levantado em uma das séries de conferências realizadas por Aldous Huxley, intituladas “A Situação Humana”, apresentada na Universidade da Califórnia, EUA, em 1959, mais especificamente no tópico que tratou sobre a história das visões. A primeira questão, levantada por Huxley, no inicio dessa conferência, cabe para iniciarmos o ponto principal dessa análise: Por que as pedras preciosas são preciosas?

As pedras preciosas, em geral, minérios vezes transparentes e coloridos, nas mais diferentes formas de entalhamento, são cobiçadas pelos homens desde os tempos primórdios da civilização humana, ou até mesmo antes da civilização. Em suma, o valor atribuído às pedras preciosas, a princípio, não vai além de um valor meramente estético, uma vez que elas não são capazes de atender a nenhuma de nossas necessidades humanas, biológicas ou sócio-estruturais. Logo, não podemos nos alimentar de pedras preciosas, não podemos arar a terra com pedras preciosas, mas mesmo assim, o valor atribuído a elas é extremamente alto, dado sua aparente utilidade potencial.

Muito tem se avançado nos estudos da psicanálise, desde o início do século passado, o subconsciente humano, cada vez mais é dissecado pelos estudos que se iniciaram com Freud e Breuer, e, quando investigamos algumas experiências inerentes a nossa mente humana, sem dúvida não podemos ignorar as chamadas experiências visionárias.

Em ordem, a religião pode ser apontada como uma das principais responsáveis pela indução de visões. Entidades religiosas como santos católicos, budas do Dharma, entidades hindus, o paganismo nórdico ou africano, todos esses, e mais muitos outros, são comumente relatados por pessoas, como visionados em rituais religiosos, a grande maioria, em situações de isolamento parcial ou total. Grande parte dos casos, são relatados como luzes semi-formes, auras luminosas, ou mesmo sem personificação de nenhum tipo de divindade externa, como uma simples luz, ou focos de luzes que se apresentam diante de seres humanos.

Por outro lado, partindo para a perspectiva das visões quimicamente produzidas, teremos experiências visionárias comumente relatadas com substâncias como a mescalina, extraída do peyote mexicano, ou o LSD. Todos os relatos de experiências visionárias induzidas por substâncias químicas, a exemplo das visões religiosas, também exprimem, paralelamente assim como nos ritos religiosos, relatos referentes a visões de luzes, ou focos de luzes, e avatares iluminados ou relativamente sagrados.

O subconsciente humano classifica a luz como algo sobre-humano, o iluminado tende a conjurar-se no místico, e assim tornar-se o além da existência limitada pelas condições evolutivas do homem. As experiências místicas, tanto químicas quanto religiosas, refletem símbolos que são considerados relativamente santos pelos homens. A etimologia da palavra “santo”, se refere ao que é separado das questões humanas comuns, do mundo consciente e ordenado.

Nesse ponto, cabe a nós talvez entendermos a vinculação entre o valor atribuído às pedras preciosas e as experiências místicas. Não podemos dizer que as pedras preciosas são simplesmente belas, como qualquer obra de arte, pois a obra de arte é considerada bela devido à harmonização existente entre seus elementos constituintes, enquanto a pedra preciosa é como se fosse uma simples nota tirada de uma peça musical.

Platão, em seu diálogo Fédon, apresenta-nos o mundo ideal sob a ideia básica da metafísica onde nosso mundo apresenta-se como uma cópia bastante ruim do mundo idealizado, de modo que, o próprio Platão, através dos diálogos socráticos, relaciona o fato de que as pedras preciosas de nosso mundo inferior são apenas minúsculos fragmentos das pedras preciosas do mundo idealizado.

Podemos então começar a chegar à conclusão do porque de fato as pedras preciosas são preciosas. O são, pois são os objetos do mundo exterior que mais se assemelham com as coisas que as pessoas veem no mundo visionário. A exemplo, citemos os vitrais coloridos de igrejas, em palácios da idade média, todos eles buscam de alguma forma aproximar a percepção do homem do divino.

A maior parte de nós raramente tem experiências visionárias, dado o mundo materialista, mais do que nunca voltado para o viés do consumo altamente fatigante e circular, não mais somos capazes de nos aproximarmos tão facilmente das experiências místicas, ou os ritos religiosos propiciantes de visões. E estes objetos, cristais, vitrais, joias, ouro e prata, de alguma maneira nos lembram o que se passa no mundo visionário e nos impelem a apreciarmos sua beleza mística.

Concluindo, o homem, por questões subjetivas, de seu próprio subconsciente, sempre possuiu a inclinação latente de buscar o místico, tanto por experiências religiosas ou através de inclinações químicas. E mesmo que a constituição social atual macule o homem de tal modo a torna-lo um ser insensível e puramente materialista, complexamente, em sua própria mente, ele sempre carregará aquilo que chamamos de inclinação natural do mundo das visões.

Palavras-chave: pedras preciosas, química, religião, vísões

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Agosto 28, 2011

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Certamente, qualquer análise que se proponha a investigar a constituição social de qualquer grupo de pessoas, necessita, antes de tudo, de uma profunda observação das relações humanas que se dão no ambiente em questão. No intuito de avaliar a cidade de São Paulo, como um conglomerado mega-urbano multifacetado, nos caberia sem dúvida alguma, discorrer historicamente sobre a formação socioeconômica e antropológica dessa macrorregião, contudo, ao viés de um ensaio crítico, irei limitar-me apenas a contemporaneidade dos fatos, mesmo correndo o risco de talvez, apresentar determinadas ponderações sem explorar a fundo suas totalidades.

É inegável que, São Paulo já é a dezenas de anos, um dos maiores centros sociais do mundo, economicamente, o desenvolvimento da cidade alcança patamares que pouco já foram alcançados. Contudo, não é meu intuito analisar a economia, ou o desenvolvimento urbano ali instituído, pois muito já foi abordado a respeito disso, o que pretendo explorar nesse contexto é o comportamento humano dentro dessa cidade, e as relações e as organizações humanas, através de suas instituições e programações predefinidas.

Em São Paulo, nos dias de hoje, vemos pessoas nas regiões mais pobres, idealizando sonhos de consumo aliados a status pessoal, jovens idealizam carros, roupas de marca, celulares e outros utensílios, frutos de uma predisposição cultivada em longo prazo, na maioria dos casos, motivadas pela mídia em massa, das novelas televisivas, as propagandas e apelos de consumo nas ruas e centros comerciais. Nas classes sociais médias e altas, ostentar certo padrão de vida, também vem a ser um indicador de inserção social. As atividades de consumo estão intrinsecamente ligadas às relações sociais, de modo que, caso o indivíduo não compartilhe da motivação do consumo, ele se individualiza a certo ponto de se tornar um excluso daquele meio ao qual pertence.

Sabemos que as sociedades se organizam através de direitos e deveres, e que o mundo baseado em um sistema econômico de um mercado global, exige que os seres humanos assumam funções específicas dentro da sociedade. A sociedade urbana moderna, a imagem de São Paulo, gera um mundo de consumo predefinido, todo o valor que é atribuído às coisas produzidas através do trabalho, necessita do consumo sem controle, que dessa maneira, tona-se necessário para a subsistência de qualquer cidade do tamanho de São Paulo.

A natureza humana busca suprir as necessidades de modo evolutivo, o homem é capaz de desejar além das necessidades básicas, como a fome e o sono, pela simples capacidade de organizar o raciocínio, de modo a tomar consciência ordenada de seu passado e futuro. O planejamento, fruto da compreensão do futuro pelo homem, e só pelo homem, elenca o acúmulo e a segurança como bens primordiais para sua existência. O homem racional estoca as coisas que obtém por segurança, desejo e prazer.

O prazer normalmente ocorre como uma satisfação do desejo, o homem é capaz de se organizar de modo a estruturar meios de obtenção de prazer e desejo contínuo. Uma sociedade desenvolvida necessita que o homem que ali esteja inserido, sinta a constante necessidade de acumular, planejar e buscar ilimitadamente prazeres para satisfazer sua vida.

Obviamente, as consequências do consumo sem limites, do prazer não remediado, são os vícios humanos. O vício é tudo aquilo que tem o poder de consumir pelo próprio consumo exagerado.

São Paulo é movida pelo consumo, é movida pelo vício, o trabalho é uma ferramenta para obtenção do consumo, da satisfação de pequenos desejos diários. A ordenação da vida em obrigações, horários definidos, e prazos apertados, são consequências da elevação do trabalho ao nível máximo suportado pela vida, de modo que a garantia do potencial de consumo possa ser atingida em seu nível máximo.

Logo, vemos ao redor de toda a cidade de São Paulo, pessoas apressadas, com prazos apertados, todos eles motivados por planos, obrigações e deveres, de trabalho rotineiro, exaustivo, na maioria dos casos acima de qualquer consumo de energia humana natural. O trabalho ocupa a maior parte do dia do paulistano, e quando não obstante, dedica-se exaustivamente a estudos voltados para certa carreira profissional, e qualquer tempo livre é preenchido com alguma motivação que de uma forma ou de outra esteja ligado a uma maior obtenção de renda, fonte de um consumo maior, ou de um acúmulo maior.

Sociedades orientais, e a maioria dos fundadores de religiões, sabiam dos malefícios do consumo sem controle para uma sociedade, pois o desequilíbrio é explícito, fonte óbvia de todo o vício que afasta uma virtude. Mara Lao Tsé ou Kung Fu Tzu (Confúcio), o consumo e o vício, afastam a sutileza das características humanas naturais, a exemplo os sentimentos como o amor, a alegria constante e certa paz e satisfação individual. O consumo gira entorno do próprio consumo, pois ele é um vício por si só.

Utilizemos como exemplo um viciado em qualquer tipo de droga alucinógena, qualquer um daqueles que circulam em regiões do centro de São Paulo, como na república. Tão logo se acostumam a extrair qualquer forma de prazer e sentimento químico daquela droga, tornam grosseira a percepção a qualquer outro tipo de sentimento humano (uma vez que sabemos que todos os sentimentos humanos se dão por reações químicas internas), afastando-os da natureza primordial, de modo a permitir que estes vivam sempre em função do canal único do vicio que os domina.

De uma maneira geral, em São Paulo, as atividades de lazer, o tempo ocioso criativo, as atividades artísticas, sejam elas de prática ou apreciação, não são necessárias a uma vida preenchida pelo trabalho que consome toda energia acumulada e o consumo sem limites. O trabalho incessante, basta para a cessação do pensamento inquisidor, das preocupações intrínsecas e dos receios frutos do raciocínio. A lógica no pensar e a transferência das preocupações para o meio externo, garantem um ser autômato, semiperfeito (àquela condição específica), híbrido da condição social e das obrigações diárias.

Status e impressões pré-formam a moldura dos paulistanos. Na Avenida Paulista, não encontramos seres humanos com sentimentos independentes. Encontramos gerentes, advogados, profissionais especializados, burocratas de toda a sorte com um valor predefinido em suas mentes, com uma postura a prezar, com deveres constantes a martelar em suas cabeças, e nenhuma liberdade autêntica, nenhuma característica individual capaz de se sobressair frente a uma postura esperada, a alguma característica considerada de sucesso.

O maior problema, é que mesmo apesar de toda a complexidade dos estereótipos presentes e ostentáveis dentro da nossa sociedade, o ser humano continua com uma constituição biológica frágil, e detentor de uma breve vida curta, que incessantemente afoga em meio a um complexo sistema de busca incessante por seus planos e condições de mantimento dentro da sociedade, classificada também por estabilidade financeira.

As doutrinas descritas como as de Buda, Jesus, Alá, e o Deus dos judeus, de uma maneira mais ou menos parecida, sabiamente sempre recriminaram uma vida pelo consumo, e qualquer atitude que aproximasse o ser humano de um determinado vício. Paradoxalmente, esses ensinamentos entendiam de forma clara, que todo vício humano é capaz de individualizar o homem, e afastar desse qualquer inclinação ao altruísmo e consciência coletiva humana, logo a destruição da própria sociedade. Muito embora, o próprio ato de viver em sociedade, e as relações humanas, pela natureza do homem, tendessem a inclinar o ser humano ao comportamentalismo (ou behaviorismo), que leva o homem a uma conduta e acúmulo e consumo.

A individualização é o paradoxo maior, dentro da sociedade urbana. O homem, em sua existência, jamais viu tamanho grupo organizado de pessoas, um organismo tão complexo e heteróclito, como em uma metrópole, ao mesmo tempo, o homem nunca esteve tão individualizado, tão preocupado com seu próprio ser, como em tal sociedade contemporânea. Observamos os trens, metrôs e ônibus de São Paulo, pessoas se espremem aos milhares, em pequenos espaços, sem relações de diálogo, e sem qualquer interação humana, agem, na maioria dos casos, como seres alheios a qualquer sentimento, como egos suprimidos e confinados em uma pequena quantidade de matéria-viva, ou semiviva.

O desequilíbrio humano, as ações humanas, ao se estenderem em larga escala, provocam o natural desequilíbrio, não desconhecido por nós, de modo que, torna-se infantilidade nossa, crer que qualquer esforço de restauração ambiental, de contenção da destruição, realmente tenha alguma motivação autêntica, além do mero desejo individual de algum benefício próprio para ser praticável. É extremamente vergonhoso ver empresas industriais, e outros, também responsáveis pelo desequilíbrio da existência humana, forças que mantém e controlam o vício, maquiarem pequenos esforços de contenção ambiental, quando a engrenagem principal, a contribuição fundamental para o consumo, para o desvirtuamento humano, continua a ser empregado em larga escala.

Eis o homem e sua condição, eis as consequências da vida motivada pelos ideais do progresso social e tecnológico, creio que talvez não seja ainda nossos intuito traçar meios de contenção ou amenização dessa realidade, mas sem dúvida alguma, creio que seja nosso dever investiga-la, disseca-la e denunciá-la, a todos aqueles que estejam dispostos a nos darem ouvidos.

Palavras-chave: Comportamento, Consumo, São Paulo

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Maio 25, 2011

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A pretensão humana em dissecar as origens da genealogia da moral, encontra seu primeiro entrave na própria constituição antropológica da sociedade vigente em que este mesmo ser humano está inserido. É praticamente impossível para qualquer indivíduo, tal qual como membro de um organismo social autômato e pré-concebido, almejar qualquer preceito de compreensão do sistema moral, sem se macular pelos próprios preconceitos impostos pela sociedade moderna. A ciência e sua luta in veritas mesmo aliada ao mais cético dos espíritos, talvez não seja suficiente para trazer luz a essa questão. Outro grave problema tem sido a discussão acerca das consequências sociais da queda da moral, e principalmente, da moral ocidental. Muitos tomam como exemplo as máculas da sociedade oriental pelo pensamento ocidental, seja através do imperialismo, seja através dos ideais marxistas e dos regimes comunistas, ambos, mesmo teoricamente opostos, tem em sua constituição, origens ocidentais, e são responsáveis, se não pela destruição de grande parte da cultura oriental, a exemplo, a moral confucionista, ou os preceitos de Lao Tzu, pelo menos, pela intensa mácula da cultura dessa região do planeta.

Eis nosso primeiro problema, o que observamos com o avanço da globalização em um mundo regido pela corporocracia na chamada era da informação, é a imposição clara da moral ocidental, ou pelo menos fragmentos dela, sobre as demais culturas do planeta. Claramente essa miscigenação cultural, aliada a informação enciclopédica disponível com o advento da internet 2.0 de fácil acesso, foi sem dúvida uma das causas do fomento da aceitação da concepção imoral entre os jovens de nossa presente modernidade. O ateísmo declarado, os livros nietzschenianos nos metrôs, as campanhas contra a homofobia, o renascimento do feminismo moderno e da cultura vegana, são  claramente indícios das rupturas da moralidade, principalmente aquelas relacionadas com os preceitos de religião e família passados. O jovem moderno, é através da internet, bombardeado com um emaranhado de conceitos multimorais, imorais e toda sorte de informação que vai muito além do regionalismo que possuíamos até o século passado. Toda limitação provinciana de esvaiu com a era da informação e da comunicação.

                Obviamente, teremos menos guerras interculturais, frutos de regionalismos e limites de fronteiras de toda sorte de moral existente. Contudo, apesar de abolirmos chumbo e pólvora, radio e urânio em nossas guerras, juntamente com a extinção de nossa limitação moral e antropológica, nos sobra, ao pano de fundo, um mundo corporocrata regido obviamente pelos ideais do consumo sem limites. Obviamente, a mesma mão que fornece aos jovens de hoje a capacidade de se informarem sobre o mundo, adquirirem consciência multi moral e a lutarem contra o regime corporocrata através do acesso a informação pelo Google e propagação de ideologias e protestos pelas mídias sociais, é a mesma mão que cria e regula todos esses sistemas pelas próprias engrenagens da corporocracia.

                Com exemplo, os mesmos estudantes da Universidade de São Paulo, que hoje organizam passeatas na paulista contra toda sorte de moralidade, são os mesmos estudantes que não obstante, se encontram espalhados pelos corredores da faculdade de ciências humanas da USP com seus Iphones e Imacs as dezenas. Eis a consequência de que apesar de  claramente cada vez fazermos menos guerras que nos culminam em destruições humanas, sociais e até mesmo naturais, hoje, acertando nossas diferenças morais, produzimos um mundo imoral, a luz da razão e da ciência que, movido pelo consumo, traga da natureza muito além de qualquer nível de sustentabilidade. A organização coporocrata é um organismo instaurado e que assume um nível de autocontrole que dificilmente qualquer intervenção humana seria capaz de macular. Ela vive do consumo de toda sorte de recursos obviamente seguindo uma linha tênue rumo a um caos e a um colapso global, pela desregulagem do autocontrole natural do planeta.

Creio que até mesmo Friedrich W. Nietzsche não seria capaz de visionar um mundo onde a imoralidade não produz um Übermensch, mas sim outro ser humano, tão igual em características quanto aquele outro repleto de moralidade social. Evitando aqui qualquer conclusão de cunho eugenista do ser humano, mesmo assim, creio, contudo, que cada vez mais nossas hipóteses e possibilidades para classificar as máculas humanas e consequentemente sociais, simplesmente em preceitos behavioristas, para nunca além de uma organização social, perfeitamente comportamental e tão logo, claramente mutável, está a cada segundo obviamente se esgotando.

Palavras-chave: corporocracia, imoralidade, multimoralismo

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Maio 21, 2011

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A janela semi aberta trazia para dentro do pequeno cômodo uma leve brisa constante e incomoda. As portas da casa continuavam trancadas, e uma cozinha simples se dispunha dentro daquele minúsculo espaço onde ela se encontrava, tudo era demasiadamente organizado e limpo. Os primeiros raios de sol pela fresta da janela traziam consigo o fim de mais uma madrugada. Ao fogão, uma leiteira com água, fervia aquilo que deveria se tornar o café daquela nova manhã. Ao fogo, duas mãos suaves denunciavam algumas rugas do tempo. Eram mãos femininas, delicadas e atenciosas, que atentamente preparavam aquele novo café, para o filho e o marido, que ainda repousavam em seus quartos. Morava apenas ela e mais os dois homens na casa, havia antes um segundo filho, que faleceu a cerca de três meses passados, vitima de uma complicação broncopulmonar. Ele era o mais velho, contava já com dezessete anos quando ocorreu o infortúnio.

O menino jamais havia sofrido com nada além de pequenas crises de bronquite, realmente o fato ocorrido soava mais como um imprevisto e triste acidente do que qualquer outro tipo de recordação, e a recordação sem dúvida era uma recorrente lembrança na vida daquela mulher de agora em diante. Ela não por mais de 60 segundos, conseguia afastar as constantes lembranças do filho da mente. O coração apertado não acusava externamente aquele sentimento de inconformismo e negação diante do fato.

 Aquela pobre mulher, que já havia sofrido tantos anos com as constantes crises de bebedeiras do marido, pois desde que este se tornou alcoólatra, e isso já contava cerca de 20 anos, jamais havia demonstrado qualquer sentimento de carinho explicito por ela, a somar pelas traições conjugais recorrentes em seu relacionamento desde o matrimônio. De fato aquele homem possuía algum tipo de bloqueio sentimental, pois ambos os filhos também haviam sido criados sem nenhum indício de proximidade paterna. As exortações do pai eram rústicas, incompletas e carregadas de autoridade e convicção, não havia argumentos, sentimentos, ou qualquer indicio retórico na comunicação daquele homem com seus filhos, e não só com os filhos, como também com a esposa. E não se sabe ao certo se foi pela distância daquele homem, ou pela rústica relação interpessoal que se formou dentro daquela família, fruto das discussões entre ela e o marido embriagado, que aquela simples mulher encontrou um dia o seu maior conforto em uma denominação evangélica, como ela mesma intitulava.


     Ela havia se convertido ao cristianismo a cerca de quinze anos, até então fora criada por pais católicos e nada além disso, e apesar de ter seguido todas as recomendações religiosas católicas até os dezesseis anos de idade, pouco sabia acerca dos fundamentos e dogmatismos catolicistas, na verdade pouco se interessada por qualquer assunto relacionado a religiões até se tornar neoprotestante. Na verdade nem mesmo hoje ela saberia responder o que significaria o neoprotestantismo. Contudo, quase todos os dias, nos últimos quinze anos, se dedicava arduamente aos chamados estudos bíblicos durante as folgas de seu serviço domestico.

     A religião era para ela tudo que possuía, todas as promessas presentes no velho testamento eram como juras de aliança em um matrimonio que jamais fora real. Ela passava a maioria de seus dias sozinha em casa, enquanto seus filhos estudavam e seu marido trabalhava até a noite. E no meio da solidão, encontrava a palavra contida naquelas escrituras como sua principal fonte de apego. Apego. Essa é talvez a palavra mais adequada para definir o sentimento daquela mulher, ela descobrira, mesmo que não racionalmente, que necessitava sempre possuir um fundamento legítimo para uma vida de solidão dentro de uma família que apenas cumpria duramente um figurino há anos.

     Os louvores, que emanavam do seu pequeno rádio de mesa, as mesmas melodias que ela já sabia de cor, os programas, as orações e as exortações eram diariamente acompanhados com grande devoção, lágrimas, risos, palmas, e toda sorte de sentimento era dissipado ao lado daquele pequeno rádio de mesa, encontrava ela ali toda a força que necessitava para continuar idealizando algum sentido em sua humilde existência. Durante as quartas, sextas e domingos, ela levantava cerca de duas horas mais cedo, concluía seus afazeres por volta das duas horas da tarde, para que ás três em ponto, pudesse estar presente naquela pequena igreja que existia em seu bairro, uma entre muitas que similarmente se dispunham rua a rua naquele bairro semiperiférico. Durante os cultos, novos choros e risos, palmas e músicas. Novamente ela se sentia mais leve, ao final de tudo, ela lembrava de sua família e pedia a Deus pelo bem estar de cada um deles, pois, apesar dos problemas, seu bem maior era aquela distinta família, que raramente se sentava a mesa com mais de duas pessoas reunidas.

     Aquela mulher, que por uma vida teve plena confiança na fé que professava, há exatos três meses via-se gradativamente mais confusa com tudo ao seu redor, não aceitava o fato ocorrido, e, por mais que as pessoas próximas lhe dissessem coisas a respeito da vontade de Deus, ela não podia se conformar com tal fato, sentia que um pedaço seu, uma das poucas coisas que realmente tinham valor em sua pequena vida, fora simplesmente arrancada dela. Não sentia mais forças para continuar a sua rotina beatificada, e a cada esforço no intuito de controlar o inconformismo que vinha sentindo, provocava uma reação contrária, uma amargura com a motivação da vida, daquele momento em diante.

     O filho, apesar do quadro brônquico, era perfeitamente saudável, e além de tudo um bom menino, não entendia por que a vida lhe foi tirada de uma maneira tão inesperada e acidental, sentia uma fenda aberta em seu forte seguro, que ruía com toda devoção que possuía, era inaceitável que Deus pudesse consentir aquilo, no fundo se sentia traída, mas um misto de medo e condicionamento religioso, e uma moral ainda resistente, impedia que aquela mulher sentisse qualquer desprezo em relação a toda sua dedicação. Sabia que a partir de então, sua vida nunca mais seria a mesma, e embora percebesse que não poderia jamais se afastar do caminho que seguia, entendia que nunca mais poderia amar incondicionalmente aquele Deus novamente, sentia-se traída como fora pelo marido durante muitos anos, e na servitude de um Deus até então perfeito, como concebeu durante anos, aprendia novamente que uma traição poderia ser mais uma vez perdoada, mas nunca em sua totalidade, muito menos esquecida completamente.

Palavras-chave: amor, devoção, dogmatismo, , traição

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Maio 02, 2011

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Não muito longe do centro urbano daquela grande cidade, um jovem senhor de cabelos brilhantes e penteados, saíra de sua casa naquele condomínio fechado que morava a vinte anos, andava a passos largos rumo a uma das largas ruas que cruzavam a avenida curva e íngreme. Visivelmente incomodado por uma questão recursiva em sua mente já a algumas semanas. Contudo, a muito tempo não era ele de se incomodar com a quebra de axiomas ou paradigmas, principalmente aqueles que serviam como base para a construção da moral que ele mesmo confessava. E já que tocamos no assunto, vale destacar que não era qualquer moral, pois era ele mesmo um modelo pré-concebido de um bom capitalista e um gentil cristão, de cotidiano aprumado e verbos bem ilustrados.

Mas eis o caso, este não era um indivíduo que tomava simplesmente a concepção das coisas como verdades transcendentais, este senhor bem vestido que impacientemente agora se dirigia a um portão grande em uma das entradas avenida  que quase escalava, tinha consigo aquele inseto chato que todo mal filósofo conserva em um de seus tímpanos. Digo mal filósofo pois, como convicta consciência que sou hoje do homem que narro, não posso preconceber nenhum indivíduo que investigue o porquê das coisas e insiste em se opor a ordem natural-racional dos acontecimentos, como um individuo que traga algum bem real para a sociedade. E é esta a questão que necessito pontuar, este meu senhor, por um impulso quase intuitivo, rasgava algumas noites comparando as limitações evolutivas dos seres vivos, e como ele mesmo um dia definiu: os códigos pré-concebidos da linguagem, e a limitação de um raciocínio afunilado pelo cérebro humano.

A tarde que recordamos hoje, era uma tarde de neblina em um sábado do meio do mês de julho. Ao adentrar o portão destrancado, ele avançou por um caminho arborizado e agora tocava impacientemente a campainha da vistosa porta de madeira envernizada e maciça que se punha a frente dele, ao caminhar de três passos e ao ranger duplo da dobradiça, eis que surgiu na ocasião, um homem da mesma faixa etária, pálido e de cabelos pretos e longos, ocasionalmente vestido, tossindo uma tosse seca e com um sorriso nos lábios. Era Pedro, um companheiro antigo, amigo de negócios e íntimo dos jogos, outro grande e bom exemplo de empreendedorismo e inteligência dedicada ao mercado de consumo. Sem trocar uma palavra, e como de uma repetição cotidiana, se dirigiram a uma ampla sala, de móveis lustrados e de algum veludo nobre nas poltronas, dispostas ao longo do cômodo que ambos se situavam, sentados e confortavelmente dispostos, onde por vezes passadas, debatiam satisfatoriamente sobre tempo, dinheiro e bons recursos aplicados aos negócios. Contudo, na tarde de hoje, fixaram eles o olhar um no outro, antes de iniciar qualquer debate. Há algum tempo atrás, haviam de vez abandonado as partidas de pôquer e os jogos de bilhar que muitas vezes animaram ambos, em meio aos longos goles de uísque, quando sempre discutiam sobre as suas particularidades econômicas e parcerias sinérgicas. Se divertiam agora com os erros e acertos dos próprios negócios que constituíam há tempos entre si, haviam criado um mundo paralelo com sentido próprio e até então, alheio a qualquer mal estigma do mundo externo.

Ambos eram sagazes, nenhum deles ignorava aquilo que definiam como "a negação do homem primitivo": o sono, a preguiça e o descanso. Negavam e negavam por vontade própria, ou ao menos por dedicação a outras ambições e desejos, pois  ambos tiveram a oportunidade de participar de relativo sonho de liberdade na juventude, aquele mesmo sonho que, em um misto de hormônios e pressão transitória, remete esses jovens indivíduos a requererem a liberdade a qualquer custo. E isso não se deve somente a cultura beat da década de 70 que piamente todos seguiam, pois desde essa época, já julgavam grande maioria dos movimentos sociais conhecidos como subvertidos e estereotipados desde seu fundamento. Logo, longe de qualquer behaviorismo, concebiam o grande problema contido na organização social como um problema inerentemente humano e fruto de suas ambições individuais. Porém, produto talvez da perspicácia que julgavam possuir, sentiam grande indisposição em protestar contra tudo aquilo, pois a taxação eugenista realmente preocupava ambos, principalmente pelo que leram sobre a teoria de Marx acerca do politicamente correto, que fazia relativo sucesso pop na época, e não simplesmente por julgarem desperdício de vitalidade expor qualquer pensamento contra as concepções da juventude que compartilhavam ambos. Pois todo aquele radicalismo que viam na TV, metia medo nos dois.

E talvez, justamente por esse estranhamento social, desde jovens, em um bar subvertido do centro, em meio a um show de garagem, se conheceram por acaso, debruçados no balcão e sozinhos, ambos com duas ou três vodcas na corrente sanguínea. Contavam na ocasião um com 20, e o outro com 18 anos, um era estudante das letras, e o outro, músico-meio-hippie como era taxado até então, apesar de não professarem nada, no máximo algum interesse de leitura por Kerouac e Borroughs. A princípio mesclavam nas noites a libertinagem da geração que não rejeitavam de forma alguma, sentiam na verdade grande interesse pelo prazer oferecido através do mundo libertino em suas mais variadas formas. A experimentação, fruto daquela geração, foi uma constante durante os próximos anos nas vidas de ambos. A necessidade da vida noturna exigia dos dois um trabalho laboral para o sustento, pois eles não precediam de famílias abastadas, eram no máximo filhos de pequenos burgueses, daqueles que reprimiam aspirantes a artistas e livres pensadores na família, até porque, discutir sociedade nessa época era realmente um perigo. As famílias ainda viviam como as antigas famílias de aspirações aristocráticas. Aristocracia que, depois de D. João VI, creio nunca mais existiu nesse país. Pois bem, trabalhavam ambos em um café no baixo-centro, a ideia era desde o princípio, desenvolver um trabalho que auto-sustentasse e exigisse de ambos, o menor labor possível, para então alcançarem o objetivo de se dedicarem a filosofia, a arte e ao livre pensamento, preceitos até então intocáveis na concepção de ambos.

Após 6 meses, tinham dinheiro suficiente para montar uma pequena loja de gibis e livros "side-b" no centro da cidade. E talvez, pela escassez do comércio literário na época, fruto de uma nova cultura (ou contracultura, como preferirem), em pouco tempo, foram pressionados pelo próprio sistema econômico que estavam submetidos, a elaborar com o passar do tempo, um grande comércio neste segmento, tinham de repente, uma distribuidora de livros em desenvolvimento, que acabou tornando-se emergente, e muito provável, na época, a maior distribuidora de livros da região. Contavam agora com dinheiro suficiente para ostentar toda a libertinagem que podiam suportar. Engajados em debates filosóficos em mesas de bares noturnos, com amigos da mesma classe de intelectuais subversivos como os que povoam hoje alguns dos reclusos bares da vila Madalena. Em Nietzsche, debruçavam-se sobre a convicção de um mundo moralizado, corrompido pela própria genealogia moralista, pela ideologia divina e antropológica.

Mas eis o ponto mais importante e o que move esta vencida consciência a recordar um passado já relativamente distante: Provavelmente, pelo caminho percorrido até então, pelos longos e animados debates e a certeza no coração de ambos, a certeza de que o homem moderno tornava-se doente pela própria sociedade, ao se tonar um complexo organismo condicionado e orientado dentro desse tipo de organização social, tomavam gosto pela rotina civilizada, recursivo sistema burocrático, com regras prontas em um  jogo que estavam submersos, o prazer que poderia ser alcançado em cada embate, fruto das estratégias que traçavam, e até mesmo, a partir de um tempo, começou a ampliar nos dois o desejo pelo mais, pelo maior e pelo além do já conquistado, e confesso que não posso negar que em muitas atitudes, o escrúpulo humano e a ética social era posta disfarçadamente de lado em favor de relativa vantagem em qualquer uma de suas divertidas partidas comerciais.

A atenção aos negócios com o misto de amor e ganância de um colecionador, povoava cada ponto do sentido desses jovens homens. O jogo a ser jogado, o prazer das noites libertinas, aos poucos os próprios debates tornaram-se debates não mais relacionados a críticas e preceitos de nada, o jogo do comércio consumia os dois, mas de olhos abertos, esses homens não de sentiam alienados, tinham plena consciência do caminho que agora professavam, tinham a plena convicção de que dedicavam o tempo humano para algo que dava prazer a ambos, tiveram a consciência de preferir naturalmente uma vida sintética e cuidadosamente projetada à esmagadora realidade da razão humana.

O moralismo, que antes foi condenado, se tornava um aliado para o convívio social, ambos os homens não por mimética, mas por algo que soava como um reflexo além mimesis, assumiram com o tempo o perfil do bom capitalista, jogadores do jogo do consumo. Que a ignorância é uma bênção? De fato é! Pensavam assim de agora em diante, pois necessitavam do prazer humano, do conforto diário, motivado agora pelo consumo infindável dentro da sociedade.

Eis o que estes senhores se tornaram, justamente os investigadores das mazelas da moral, impiedosos céticos como eram, converteram-se então em exemplos de moralismo. E assim se mantiveram nos próximos 30 anos, por uma vida de prosperidade material e sucesso profissional. E hoje, na tarde do dia que narro, meu senhor sentado em frente daquele pálido homem, observava as consequências de um câncer de pulmão já avançado, e apesar das inúmeras responsabilidades acumuladas que tinham a tratar, faltava a estes qualquer aspecto da motivação cotidiana de outrora, e como relatei a pouco, meu senhor tomava após 30 anos de absoluta convicção e doutrina racional, uma avalanche de pensamentos sobre o momento presente.

Além de todo o prazer e conforto de meia vida dedicada aos negócios, o que o amigo lhe confidenciara há algumas semanas atrás era uma constante em sua mente, junto com a notícia da doença, veio a confissão de que sentia que não possuía após uma vida de dedicação ao sistema que ambos criaram, nada além do que itens de consumo, e sentia que cada parte da riqueza acumulada era uma conquista em posses de algo que possuía virtualmente. O amigo lhe confessou que as propriedades e o capital que movimentava livremente dentro das regras sociais, tinham valor apenas no jogo que os divertiu por três décadas, além daquilo, todas as posses eram tão suas quanto o possuir das árvores ao redor de sua casa, ou até mesmo de uma floresta inteira, ou de um rio que um dia cruzara, nada era seu de fato além jogo.

Meu senhor estava odiosamente buscando uma resposta acerca dos valores das coisas em um estado pós-morte, ou mesmo próximo da morte, essa fruto talvez da precipitação de sua velhice, sentia agora como se todo espírito criativo á tempos abandonado e até certo ponto já esquecido, talvez fosse mais seu do que tudo o que possuía materialmente até hoje. E ele, que sempre teve os certos e infalíveis conselhos ao amigo, que em prazer retribuíra na mesma moeda, via-se fitando aquele ser antes pré-onipotente e agora tão debilitado, sem ao mínimo uma sílaba a dizer, nenhum som além de um suspiro que quase era um gemido longo e suave, seguido de recursivos pensamentos sem nenhuma conclusão ao menos clara ou confortavelmente lógica sobre tudo aquilo.

Palavras-chave: amizade, filosofia, jogo, negócios, Nietzsche

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Abril 15, 2011

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         Ela deu o último trago no cigarro, antes de jogá-lo ao chão e esmagá-lo com a sola de seu sapato. Ela estava encostada em um poste sob a calçada, os postes eram paralelamente dispostos nas principais ruas ao redor do centro da cidade, com suas luzes de mercúrio cintilantes, denunciavam a existência de uma noite tímida que agora era disfarçada cada vez mais pelo incessante progresso humano. Eram cinco horas da manhã, e ela aguardava o ônibus diário que a levaria ao trabalho. Ao lado dela, o ponto de ônibus onde se concentravam mais no mínimo, oito pessoas. A maioria com os cabelos penteados, alguns aparentemente molhados, as mulheres vestiam maquilagens que se embrenhavam em um rosto sonolento e ainda abatido pelo dia anterior, a grande maioria delas muito bem arrumadas, com bolsas e saltos, como se elas se preparassem para uma festa.

         Contudo, a aparência daqueles corpos era como a de uma legião de almas em uma fila infinita para um purgatório divino, aqueles rostos não eram capazes de esboçar nenhum sentimento novo, transpassavam apenas apatia mista com um esgotamento corporal e, apesar da predisposição para se manterem acordados antes mesmo do sol nascer, não demonstravam nenhum contentamento, nenhuma réstia de felicidade que de alguma maneira justificasse aquele ato aparentemente tão penoso. Ela olhava cada uma das faces separadamente, se contendo alguns segundos em cada uma, e todas tinham a mesma expressão mecanizada e aparentemente alheia a qualquer pensamento ou expressão natural humana.

         Aos poucos novas faces se juntavam as demais, e conforme se aglomeravam, não mantinham qualquer tipo de contato, seja ele verbal ou sequer visual, todos eles chegavam e então fixavam-se ao redor do ponto de ônibus, como uma âncora, e a única coisa que o observavam era a longa avenida, aguardando a chegada do próximo ônibus. Ao final de 15 minutos, o ônibus que ela esperava estacionou ao lado do ponto, e em questão de segundos, as pessoas se empurravam para adentrar a porta aberta, ela observava a cada um deles, brigando entre si, como cães pelo alimento, por um assento vago para se acomodarem ao longo da viagem. Alguns que se empurravam, as vezes sussurravam algum pedido de desculpas quase inaudível e tão meramente fático quanto qualquer desejo de bom dia a ser realizado por qualquer uma delas ainda no período daquela manhã.

         Ela em pé ao corredor, observava que aqueles que conseguiram lugares para sentarem em meio aquela semi-guerra entre hienas por alimento, logo repousavam ali como em um sono estendido. Muitos realmente pegavam no sono em poucos minutos após se acomodarem, e profundamente dormiam se esquecendo novamente do intuito de suas viagens naquele momento. Ela percebeu então, que a noite do homem moderno a cada suspiro de nossa sociedade urbanizada se tornava mais curta. Muitos ali provavelmente dormiam 4 ou 5 horas por dia apenas, e aquela luta inicial era apenas para brigar e tão logo cedo, continuar, mesmo que por uma viagem o sono interrompido algumas horas atrás pela obrigação diária. E assim como as hienas brigam entre si para conseguirem alimento e produzir energia, aqueles seres humanos brigavam para assim poupar energia e acumulá-la para conseguirem enfrentar uma jornada diária de trabalho infindável ao longo do dia.

         O ar se tornava rarefeito dento do ônibus, e após três pontos, era impossível qualquer movimento humano além do movimento do próprio ônibus, fazia relativo frio naquela madrugada de meados de julho. A maioria dos vidros permaneciam fechados devido ao inverno e a nostalgia matinal da quentura da cama daqueles seres. Substituída agora pela desesperada tentativa de embalar qualquer sono, mesmo que por escassos minutos, dentro daquele covil improvisado. Alguns em pé, apoiavam a testa nas barras laterais de apoio manual, em uma tentativa quase vã de ali também despertar o mínimo do subconsciente humano. E apesar da grande concentração humana, não se ouvia uma única voz, todos como gado, apenas moviam-se ao embalo do ônibus, e o único som ouvível era de seu motor e de outros motores que vinham de fora do coletivo.

 

         E como se ela pudesse perscrutar aquelas pequenas mentes fatigadas, sentia que todos não possuíam nada além do que meras preocupações rotineiras, mínimas dores com o trânsito, e cerca de duas contas a serem pagas nos próximos 4 dias, com algum atraso burocrático ou qualquer outra coisa que escapava a natureza humana. Eram todos distantes do homem humano. Ela então, como em um insight, pode perceber que o homem civilizado era uma quimera fruto da sociedade pós-industrial e do mundo corporocrata. Nada de humano restava mais ao homem civilizado Nada além da ambição do consumo e da falta de tempo, nada além das dores estomacais crônicas, da fatiga constante e do desejo impulsivo de consumir vitrines e status. E ela como todos eles, sentia que mesmo sem desejar, se alimentava de tudo aquilo que nunca desejou de fato em seu coração. Ela então reclinou a cabeça sobre o braço atravessado e apoiando-o em uma das barras metálicas, e também cochilou um sono que de forma vil, apenas podia recuperar as energias gastas robóticamente no dia anterior. Um sono alheio a qualquer propriedade de nobreza, ou mesmo, a talvez autêntica e esquecida natureza humana.

Palavras-chave: cansaço, ônibus, rotina, trabalho, viagem

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Março 23, 2011

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Carne. Apropriadamente lógica e natural

Imponência através da ponte de Öresund

Clara consciência do passado e do póstumo

O labor maquiado entenebrece o animal

 

Anseios e signos o intento constroem

Apólogo de uma existência serena

Temendo o fenecer que ao menos milhares

De vezes sem dor, num dia ocorrem

 

Micro-vida, a transformação exige a destruição

O vital renascimento exige a mudança

A unidade humana se limita às lembranças

De algumas células que também morrerão

 

Linguagem convencional da restrição lexical

Ilusória individualidade da consciência absoluta

Do tempo, espaço e matéria julgada

Onisciência limitada pelo funil cerebral

 

Cerne. O absoluto se revela na transformação

Altivez observada no Tea Garden de Grantchester

Esquecendo, ainda que propositalmente

Que é essência amorfa, perene e sem significação

Palavras-chave: absoluto, carne, onisciência

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Fevereiro 24, 2011

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A respiração dele ainda era ofegante, o braço suado e sujo se reclinava no balcão semi-molhado, a mão estava estendida ao alto, o dedo indicador ereto acenava para o outro lado do balcão, buscando em movimentos descompassados, ser de alguma maneira visto o mais rápido possível. O garçon já o tinha reconhecido desde que adentrara o botequim a dois minutos atrás, dando as costas, preparava uma dose de conhaque com o limão espremido. Sem sequer olhar nos olhos dele, sem sequer reparar no dedo que se movia da esquerda para a direita, serviu ao balcão a dose depositada naquele copo americano totalmente molhado em sua face externa. De certo retirado da louça diretamente para uma nova dose.

 

Ele pegou o copo com a mão esquerda, apoiando a parte externa somente entre o indicador e o polegar, as laterais das unhas estavam sujas, denunciando um árduo dia de trabalho que se encerrara a exata meia-hora. A mão era machucada, denunciava um trabalho duro prolongado, incessante, de certo exaustivo. O copo se levantou mais alguns centímetros rumo a face, hesitou próximo ao seu nariz. E ele inalou o aroma do limão misturado com as fragrâncias de especiarias envelhecidas presentes no conhaque, o álcool, antes de qualquer deguste, inalou a essência, como se aquela sensação lhe trouxesse um prazer inicial. Um prévia para um momento de consumação final.

 

Ele então encostou a borda superior do copo nos lábios, entrelaçando o copo entre ambos como em um beijo precipitado. E em um único movimento o copo estava ao avesso, e em um único gole o líquido adentrava seu corpo, ramificando-se em seu interior de forma suave e constante. E ele então desceu o copo vazio ao balcão, observou ao seu redor o ambiente como degustando a sensação. As modificações em seu corpo e em sua percepção que começavam a surtir efeito imediatamente. Seu estado não era mais ofegante, sentia agora um completo conforto, os nervos não estavam mais rijos, a pressão sanguínea de certo também havia caído, eram 17:30 da tarde.

 

Aquele era de longe o momento mais precioso do seu dia. O calor da produção fabril de momentos atrás não mais o incomodava. Apenas a brisa do final da tarde soprava em sua pele, e graças ao suor já frio espalhado pelo seu corpo, provocava uma sensação ainda mais refrescante. Ele observava a parte externa do botequim, sentado no banco em frente ao balcão. O bar ficava em frente à rua principal da comunidade onde vivia. A comunidade na verdade era um complexo de favelas e residências de alvenaria sem planejamento urbano, as casas se amontoavam em morros, rentes umas as outras. Do bar era possível observar a parte mais alta do morro, milhares de pequenas ruas, varais estendidos se confundiam com fiações improvisadas. Sempre havia música e barulho por todos os lados.

 

Passou então a observar o som que se espalhava pelo interior do bar, um som ritmado com toques eletrônicos de teclado e guitarra. Chamavam aquele som de forró. Mas ele não reconhecia aquele som como forró, lembrava de sua infância algumas décadas atrás, em um nordeste já esquecido, do triângulo e da zabumba, do acordeom compassado e contado no pé, lembrava das músicas de Luiz Gonzaga e das histórias contadas em xote, do sei pai, das emboladas, onde estavam as Samaricas parteiras? As histórias do melhor amigo do sertão? Tudo esquecido? Por isso não concordava com a descrição de que aquilo que ouviam tão alto por todos os bares que conhecia se tratava de forró. Não aceitava que ao invés das histórias sobre o nordeste, as letras tratavam agora de ostentação de uma vida baseada no consumo de coisas superficiais e caras. Não era burro, nunca foi burro na vida, portanto não poderia aquilo fazer algum sentido, só não entendia ele ao certo o que ocorria.

 

Enfiou a mão no bolso da camisa, próximo ao peito, retirou um maço amassado e acendeu um cigarro. Enquanto fumava, observava o que se passava ao seu redor. Existiam mais cinco homens, provavelmente nas mesmas condições que ele. Dissipavam em volta da mesa de bilhar, riam, bebiam e fumavam fumo barato. Discutiam futebol com brincadeiras onde todos riam. Considerava ele que, embora nas mesmas condições daqueles homens, não pensava como eles, não se satisfazia como eles. Sabia ele que também sentia necessidade do fumo, do conhaque. Contudo, mesmo quando estava em ápice, mesmo no melhor momento de seu dia, não regozijava como eles, não se entregava como eles, sentia uma ponte desconexa em seu próprio cérebro, algo que o impedia de ser um ignorante feliz, infelizmente.

 

Tornou a reclinar-se sobre o balcão, e apenas com um simples acenar, já recebia uma nova dose de conhaque, sorveu o líquido, dessa vez em pequenos goles, alternando entre tragos do cigarro que já estava próximo ao fim. Lembrou-se por um momento de casa, provavelmente sua esposa o aguardava, mas sabia ele que não para uma conversa, pois o misto de cansaço e álcool no mínimo lhe impediria de qualquer tentativa de diálogo, como todos os dias, muito menos para uma troca de carinhos ou qualquer coisa que seja, sabia que o encontro logo mais, seria apenas institucional como todos os dias. Palavras trocadas sobre a comida estar no fogão e a cama estar arrumada. Um cotidiano prolongado além do relacionamento conjugal. A mulher à essas horas, já devia estar sentada em frente a TV, assistindo a principal novela do horário nobre. Passava o dia inteiro em casa, e assim como ele, sentia as mazelas do cotidiano sobre seus nervos já gastos. Ela também possuía sua própria maneira de dissipar, e era ali, com a novela seguida de uma programação cristã em TV aberta, que ela encontrava uma válvula de escape para todo o servilismo do cotidiano, para todo o peso da eterna rotina apática.

 

Ele então suspirou alto, o cigarro havia chegado ao fim, o copo de conhaque também estava vazio. Fazia pequenos círculos com o dedo no balcão molhado, ainda degustando a sensação de relaxamento provocada pelo álcool e pelo tabaco, levantou-se, seguiu em direção a mesa de bilhar, a partida anterior havia acabado, escolheu seu taco, rindo do comentário sobre a derrota de um dos times paulistas no campeonato que estava sendo televisionado, tentando se entregar, mesmo que em partes, aquela diversão comprada com os poucos trocados que guardara ansiosamente o dia todo em seu bolso traseiro.

Palavras-chave: balcão, bar, botequim; bilhar, conhaque

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Fevereiro 23, 2011

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O crescente ruído cadenciado anunciava o fim de mais um ciclo. Eram exatos 35 segundos, desde o início até o final de cada etapa. O torno automático enfim silenciava-se como um glutão satisfeito. O pequeno compartimento transparente, encoberto do óleo viscoso e morno se abria, então, suas mãos agarravam a peça pronta e disposta em um coletor improvisado. Ele possuía exatos 15 segundos para recolher e armazenar aquele item metálico esculpido pela máquina, eram necessários técnica e velocidade para o manuseio, e ele possuía ambas as qualidades, os quase nove anos dedicados a exata mesma função, renderam a ele uma habilidade invejável no manuseio daquela máquina. Ele tinha plena consciência do fato. Era inquestionável, invejável, e na verdade, considerava essa a sua maior virtude, enfim, sentia-se suficientemente importante em algo, fazia ele parte de uma atividade que de alguma maneira contribuía para uma coisa maior. No fundo não sabia ao certo de que se tratava, não compreendia a fundo o intuito de tudo aquilo, os manuais em inglês e os avisos de manuseio e atenção em alemão, adesivados no corpo da máquina, eram incompreensíveis para ele, mal havia ele concluído o ensino médio, no período noturno do supletivo da única escola que existia em seu bairro.

 

Usava um avental azul marinho, claramente desbotado e gasto pelo tempo, executava suas funções em uma jornada de trabalho que se estendia por nove horas, com uma hora para o almoço. Trabalhava o dia todo em pé, com o corpo flexionado, a coluna arqueada para frente, e não é de se negar que já ao meio-dia, seus joelhos a algum tempo viciados em uma rotina seqüencial, já apresentavam leves dores recorrentes, que se estendiam durante toda a tarde até o final da noite. O braço direito era estendido por exatas 11.517 vezes ao dia, para executar a mesma função, também já apresentava algum tipo de incômodo por volta de duas horas de trabalho seqüenciais. Contudo, sentia-se quase sempre envolvido em um transe, de modo que a dor nunca existia plenamente em seu corpo. Considerava-se já parte daquele ranger metálico feito de aço e cobre. Existia como uma extensão da máquina, durante àquelas horas em que se encontrava desempenhando suas atividades, tornava-se um ser simbiótico, dotado de calor por todos os lados, seja este liberado pela energia consumida pelo seu corpo, ou pelo motor elétrico do compartimento interior do torno, que a cada novo ciclo rotacional, esquentava e mantinha um fluxo contínuo de interação com aquele homem. Cada ação da máquina era uma resposta do seu próprio corpo, e cada movimento de ação de seu corpo era como uma dança perfeita com a máquina. Seu suor escorria pelos seus braços e quando levava o pulso a testa, fundia em um vinculo perfeito seu suor com o óleo de média viscosidade, durante cada jornada diária, o seu pensamento sempre acompanhava cada movimento do ciclo da máquina, jamais cansava de observar o furo interno, formado pela broca de 15 milímetros, os chanfros nas extremidades externas, o rebaixo feito durante o faceamento , a rosca externa e por fim o corte na barra que sentenciava o fim da operação. A peça de metal caia como um peso morto sobre o apanhador também de metal, que embora estridente, para ele, não passava de um suave aviso, uma corrente para um novo ciclo.

 

Ao seu lado esquerdo, mais 6 máquinas similares executavam a mesma função, e dispostos ao lado de cada uma delas, 6 operadores com aventais similares aos seus, seguiam ciclos similares, onde tudo ao redor era silencio humano. Os homens dispostos eram como singelos maestros de um grande espetáculo promovido pelas máquinas que rugiam sons similares, não uníssonos, mas seqüenciados, temporalizados, guiados apenas por passos do mesmo compasso. Todos dançavam com suas mãos dispostas, os homens ao redor dele eram também exímios dançarinos, como em uma perfeita coreografia da Broadway, eles dançavam a mesma sinfonia, mesmo distantes e com as faces reclinadas  na diagonal, todos eles eram mestres da dança.

 

Ele novamente orgulhava-se, sabia que a máquina era uma implacável companheira, exímia e exata em cada movimento, por essa maneira, jamais a desapontava. Considerava a máquina, sua maior companheira, talvez sua melhor amiga, e por que não seria?  Ora, a parte mais vital do seu dia era gasta ao lado desse ser mecânico, e além do mais, mesmo que em segredo, a máquina era a única companheira que conhecia todos os seus pensamentos. Cada anseio, cada questão implícita, já fora percorrida ao lado da máquina, pois não havia outro tempo de desvencilhar sua mente, senão ao redor da máquina que o acompanhava.

 

Mesmo tendo consciência que o capital não lhe pertencia, de que tudo que lhe restava era seu labor diário e o tempo gasto naquela atividade, cujo fruto era um salário modesto ao final do mês, considerava de alguma maneira aquela máquina, aquele complexo constructo de metal, como sendo unicamente sua, de alguma forma. Mas não atribuía a ela propriedades meramente materiais, longe disso. O “sua máquina”, não era como possuir um “animal de estimação”, muito menos um “objeto de consumo”. Quando empregava propriedade ao dizer “sua máquina”, usava o termo com a mesma propriedade que para dizer “sua companheira”. Longe da mera possessividade de consumo, do egoísmo pelo egoísmo. A máquina era sua, mas um “sua” que na verdade era a mais perfeita interação e relação entre o homem e a máquina. No fundo sabia que de fato, de alguma maneira a amava, depois desses quase nove anos vividos ao seu lado, quase uma década se passara. Sentia que ali existia um sentimento que ia além do simples apego. Afinal de contas tinha passado nove anos ao lado da máquina, quase uma década dedicada àquela relação, e que embora nem sempre fosse perfeita (pois sabia que a personalidade da máquina era fria e exata como em um cálculo matemático), era tudo de mais importante que lhe restava.

 

Sentia leves náuseas sequer em pensar em por ventura abandoná-la algum dia, ela era parte dele eternamente, sentia assim, como poderia ele abandonar um meio de vida tão confortável? Conhecia cada passo, cada detalhe desse relacionamento duradouro, que a simples possibilidade de algum dia abandonar esse convívio era realmente insuportável. A máquina não era em essência nem boa nem má, contudo era justa. Respeitava-o de igual modo como ele a respeitava. Sabia ele de histórias em que homens perderam seus membros superiores, ou parte deles, simplesmente executando suas funções ao lado de suas máquinas, e até mesmo ele, inclusive, já tinha presenciado uma ou duas situações similares, mas julgava que tal eventualidade apenas poderia afetar os incautos que de alguma maneira mereciam tal condição. A máquina era justa, a justiça era calcada em sua própria exatidão, lógica e fria, porém infalível,  ela de fato reconhecia a atenção dispensada por aqueles que se dedicavam a dança.

 

E ele, atento observava ao seu redor, ao mesmo tempo que a cada novo ciclo, se concentrava mais e mais em seu ofício. A máquina falava com ele, não talvez como em uma conversa comum, um diálogo de emissão e recepção, era de fato além disso. O vinculo comunicativo ultrapassava o limite da comunicação falada. Cada gesto humano combinado com  os movimentos mecanizados eram uma troca de aspirações, de biotecnologia, um misto de um convívio circular, místico. Eram juntos o retorno eterno de Ouroboros, a dança infalível e simbiótica. Mas eis que de repente, ao final dos 11.517º ciclo completado soou a sirene, dessa vez contínua e aguda, que se estendia em um eco intermitente por todo o galpão da fábrica. Era o fim de seu expediente. Ele então arrumou cuidadosamente as suas já gastas ferramentas, dispostas ao redor do torno, e com uma estopa amarelada enxugou com uma delicada estima todo o óleo sobressalente, que cobria o exterior da máquina, e como num gesto de despedida, fechou cuidadosamente o compartimento de usinagem, desligando a chave geral, rumando para o vestiário, em fila com aqueles outros homens de avental azul-marinho. Em um caminhar lento, quase nostálgico, apenas amenizado pela certeza de uma nova jornada, com exatos 11.517 ciclos completos, prontos para serem executados, no outro dia, pela manhã.

Palavras-chave: fuincionalidade, máquina, retorno, rotina

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Fevereiro 20, 2011

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Quando comparamos o grau de emprego da racionalidade, pelas mais diferentes espécies de seres vivos existentes na terra, observamos que em quase todas as situações, os instintos naturais evolutivamente adquiridos se impõem (e ultrapassam) a liberdade racional (processamento de informações X plano de ação). Muitas vezes os impulsos herdados de percepção e ação involuntária (frente reações químicas corporais), são capazes de inibir e até mesmo desviar certo grau de racionalidade do objetivo supostamente inicial.

O homem, pelo alto grau de capacidade de processamento de informações X plano de ação, quando comparado com os outros seres vivos, é capaz de utilizar consideravelmente mais a sua razão individual para ponderar sobre os acontecimentos do que obviamente os outros animais. Contudo, é praticamente impossível desvencilhar a razão humana de seus instintos naturais, bem como de seu condicionamento social e cultural, frente aos acontecimentos empíricos que se lhe apresentam.

                Com foco no homem, entendemos que o cérebro, como processador natural de informações, limita a racionalidade humana ao seu presente grau de evolução, bem como os demais instintos humanos limitam a percepção, ao presente grau evolutivo. É importante observar que de uma maneira geral, o filtro utilizado pelo cérebro humano frente a mais variada forma de sensações e informações eu se lhe apresentam, funcionam de modo a encontrar uma lógica racional (e humana) para os acontecimentos. Deste modo, a construção coesa da realidade realizada pelo cérebro, demonstra os acontecimentos de forma ordenada e sensata. Não somos capazes de compreender o mundo caótico, multisensitivo, multifacedado, e heteróclito por essência. Parafraseando Stephen Hawking: “The Universe in a Nutshell”, pois vemos o mundo limitado e distorcido pela nossa própria razão. Tendemos a limitar as coisas buscando unidade e estrutura lógica nos fatos, ignorando a percepção na maioria das vezes pela própria deficiência perceptiva, o que classificamos como paradoxos insolúveis, são na realidade, construções lógicas que apenas não somos capazes de processar dado nosso grau evolutivo.

                É extremamente óbvio que as verdades absolutas encontradas pelo homem, soluções universais para as situações que nos apresentam, são frutos dessa necessidade de unidade e da fuga do caos. A própria filosofia nesse ponto de vista, serve ao homem como uma forma de deduzir e limitar o mundo de acordo com os conceitos racionais humanos. A própria religião, talvez seja o maior exemplo humano de desejo de unidade encontrada através do raciocínio. Toda verdade religiosa é por si só dogmatizada e inquestionável, sempre pautada na inquestionabilidade, recorrendo sempre ao divino para solucionar o caos universal.

                Sob esta ótica, o que seria a linguagem se não a maior ferramenta conceitualizadora inventada pela humanidade? Cada conceito lexical que encontramos no dicionário, define o universo limitando um conceito ou objeto ao que foi convencionado pela linguagem. A língua assim sendo, funciona como um mecanismo de regras condicionantes e doutrinantes da razão universal das coisas. O ato da comunicação como forma de expressão humana é institucionalizado pelo convívio social, quantas vezes nos damos conta de que muitas vezes as palavras não são suficientes para expressar um sentimento (nível de percepção humana)? De fato não o são. Do mesmo modo que nosso próprio cérebro também não é capaz e absorver o universo e a suas especificidades tal qual ele se apresenta, infinito.

Palavras-chave: instinto, limitação racional, multifacetado

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Fevereiro 16, 2011

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Quando Gustavo cruzou a rua convexa que se estreitava até a praça Manfredini, naquela manhã fria de inverno, sequer observara que alguma coisa estranha tinha mudado diante da velha paisagem que já se registrava em sua memória há no mínimo 20 anos. Andava sempre de cabeça baixa, como que portador de um conformismo passível e até certo ponto gentil. Talvez com um aspecto pensativo, talvez preocupado com alguma questão que julgava insolúvel, mas no fundo, pensamentos insolúveis eram a última coisa a povoar sua metódica mente há tempos.

 

O cotidiano era exato e imutável, acordava todos os dias às exatas 5h45 da manhã, e cada tarefa, mesmo sem um registro cronológico diário, seguia a mesma rotina a no mínimo 5 anos. O dispor da cama ao levantar seguia uma organização ímpar, o travesseiro repousava sempre acima do lençol a quatro dobras simétricas e cinco minutos depois, o escovar de dentes era tão preciso quanto uma sinfonia de Bach. Cada movimento ressoava como um acorde ritmado, era perfeito em cada detalhe.

 

Morava sozinho há cerca de  3 anos, desde que os outros membros da família (que sequer valeria a pena mencionar a quantidade e o grau de parentesco, pois no fundo, pouca importância tinha isso para Gustavo), morreram em um acidente trágico de trânsito, fruto de uma viagem frustrada de feriado. E apesar da solidão que sentia as vezes, e que no fundo nem sabia ao certo a razão, muito menos julgava necessário saber, uma vez que a distancia sempre foi regra em sua vida, no fundo do seu coração, Gustavo sentia um leve prazer com isso tudo, pois julgava que jamais cometeria o erro de abdicar do cotidiano, pois somente o cotidiano poderia assegurar uma vida tranqüila e segura, uma viagem de final de semana realmente era um passo suficiente para a incerteza de algo, e isso lhe causava asco.

 

O amor ao cotidiano cintilava em seu coração como um tesouro precioso. Ah, o que era mais perfeito do que a certeza das coisas futuras? A doutrina perfeita em suas atitudes, a vida premeditada, a disciplina em cada gesto. Sim, isso era a plena virtude para ele. E a liberdade então? Em sua concepção mais íntima, mais implícita, o sonho de liberdade era um risco que não valeria a pena correr jamais.

 

Ser livre é ser instável. Poderiam lhe chamar de sujeito que temia a vida, temia a felicidade, mas o que os outros sabiam sobre ele? Concebia a liberdade como o desejo individual de não solidificar bases para uma vida. Como viver sem bases? Como viver sob a areia? Nisso ele acreditava piamente desde sua mais tenra  infância. Eis então o cotidiano, perfeição implacável, a cada dia se revelando como o seu messias pessoal, fruto de toda estabilidade.

 

Concordava que pouco havia para dissecar sobre a felicidade, mas acreditava no prazer que sentia através da vida estável e oportuna. Da organização em sua casa, o prazer convertido em uma réstia de alegria era o suficiente para julgar esse sentimento o limiar da felicidade. A ele isso bastava.

 

Ah sim, não era ele como esses livres pensadores, esses resquícios de geração beat, um bando de comunistas, isso sim! Agitadores utópicos, pseudo revolucionários. E ainda acusavam ele de conservador, vejam só! Só por que um dia afirmou em um debate com colegas do trabalho, que, inclusive recusou umas 5 vezes em participar, dizendo que o melhor rumo para o país está estampado na nossa própria bandeira: ordem e progresso. Oras, e não seria o nacionalismo uma virtude?

 

Logo pela manhã, às 8 horas em ponto, o trabalho no tabelião municipal ocupava todo o tempo que não se dedicava as atribuições pessoais e de casa. Era contador. Sim, o labor era uma virtude completa, contribuição diária para o desenvolvimento social. E ele fazia perfeitamente sua parte. Às 15 horas, recluso ao lado de uma calculadora HP, em sua sala de 15 metros quadrados, jamais pensava em algo sem executar uma tarefa manual. Não poderia ele conceber o ócio em nenhuma categoria se não a de um mal social.  Ócio para criar o que? Musica? Poesia? Arte? O que é o poeta se não um imitador de tudo aquilo que já existe de fato, um ensaísta, um mímico da realidade?. Não precisávamos de mímicos, mais sim de trabalhadores progressistas!

 

A seis meses vinha lutando em alguma justificativa para contestar a afirmação que o stress e a doença social vigente, a tristeza humana, se dava justamente pelo fato do homem ser o único animal que cria regras para si mesmo, que vão muito além daquelas simplesmente dispostas por sua natureza evolutiva: o instinto. E desde quando a negação do instinto era a causa de infelicidade? Ele não se sentia infeliz por regrar sua vida de modo a acordar às 5:45 da manhã e dormir pouco mais de 6 horas diárias. Um dia, teria enfim uma nova teoria para provar a todos que a disciplina era a base da sociedade estável e próspera. 

 

Às 5 horas da tarde, sentia-se exausto, as mangas de sua camisa social branca já apresentavam as primeiras marcas de sujeira diária, de certo por enxugar o suor de sua testa constantes vezes ao dia com a sua roupa. Sabia que a poluição ao seu redor repousava algumas camadas de gás carbônico e outros elementos químicos sobre sua pele, mas isso não importava muito. Na verdade não importava nada, muito menos o que era absorvido pelo seu pulmão já debilitado pelo cigarro.

 

A sensação de cansaço era uma recompensa ao final do dia. Esperava o dia inteiro por esse momento de satisfação pessoal, sentia um gozo pleno em seu espírito, somente nesse momento sua mente poderia esvaziar-se, a consciência de dever cumprido sobressaía sobre qualquer circunstância, sobre qualquer empecilho de consciência.

 

Chegava então em casa, o banho e o miojo prático e rápido, a TV para uma distração final até o cansaço sucumbir em sono. Ufa, regozijava antes do sono, mais um dia perfeito, estável e seguro havia terminado.

Palavras-chave: cotidiano, estabilidade, retorno

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Fevereiro 08, 2011

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As seis da tarde o vento que soprava ainda era morno na estação de trem, como que, canalizado pelo longo caminho de trilhos de ferro, o vento soprava em uma única direção, uma fila contínua de uma progressiva sensação de conforto. E ele, esperando já a alguns minutos pela sua viagem, observava o caminhar ao seu redor, uma crescente legião de passos, em um som desritmado que se confundia com os sons dos motores barulhentos e cadenciados, em um tilintar desagradável que vinha da marginal.

 

Por alguns momentos, esqueceu ele da motivação diária que permitia que estivesse ali, na verdade, em uma profunda investigação de seu próprio ego, não encontrava nenhuma resposta lógica para essa questão, já a algum tempo, sentia que toda a espiral que lhe envolvia, fora implantada em seu ser por algo desconhecido, obviamente não natural, e de certo insolúvel. E eram rostos que caminhavam entre ele, faces rudes, alheias de algum sentimento explícito, um misto de apatia e desconforto amenizado por uma anestesia que, assim como a ele, permitia realizar aquela vida subvertida.

 

De certo era insuportável encarar tal olhares frios e sem vida, que de algum modo refletiam seu próprio ser já morto, vencido, que pendia em pé, riste pela estranha espiral que, como mágica, permitia-lhe ainda caminhar. E como evitando encarar estas faces, estes olhares que o acusavam, mesmo de uma maneira subjetiva, alegórica, de um simbolismo heteróclito e fútil, abaixou sua face rumo ao chão, como desviando o olhar daquilo que lhe incomodava. Fugindo mais uma vez, observando agora seu braço direito estendido, que com os cinco dedos flexionados seguravam uma sacola de papelão cinza, de fato admirável, com um cordão brilhante em forma de aba, detalhes brilhantes em um logo texturizado ao centro, que conhecia bem. Compreendia então que aquele objeto era inefável, pelo menos, no contexto em que vivia, jazia ali um combustível inesgotável, para a vida cadenciada, estérea e soberba.

 

Mas não era um ignorante, longe disso, compreendia muito bem as mazelas sociais para ser uma partícula da massa. A ignorância e a renuncia foram como que decisão própria uma forma de fugir de seu próprio eu, pois a denuncia do que lhe tornava humano, apenas se dava em solidão, não haviam ouvidos para ouvir ou compreender o rumo errado que supostamente as coisas tomavam, a falta de tempo, a ganância, a ignorância do ócio, da expressão e da arte. Cada palavra solta nesse sentido, retornava como um eco sozinho, e os ouvidos mais uma vez ignoravam tudo o que não se podia conectar com a novela, o futebol e o reality show da noite anterior.

 

Contudo, o soma diário que outrora fora eficaz, o álcool ingerido em doses homeopáticas, por alguns anos, ajudaram-no a esquecer de si mesmo por um tempo, contudo não surtiam mais efeito contra a realidade de agora, sentia que antes fora um tempo mais sutil, a realidade de hoje contudo, era tamanha que transpassava pelos seus cinco sentidos como um turbilhão, e como que o soprar do ar morno pelos trilhos, o por do sol ignorado pelos outros milhares de corpos ao seu lado, cada sensação natural de vida ao seu redor, lhe convidava para desafiar um mundo autômato e sintético.

 

Mas eis que de repente, com um ranger de trilhos crescente se aproximando, sentiu uma desconexão automática e agressiva. Novamente dava-se conta do cansaço que sentia pelo dia trabalhado, deste modo, sem muito esforço, deixou ser empurrado para dentro do vagão por aqueles outros milhares de corpos vazios, sentia que aquele breve momento de espera fora um momento de desconexão, retornando agora para si, para sua doutrina diária, pois o pensar o fatigava, e como o trem no trilho, retornou o seu próprio ser ao trilho, cadenciado e contínuo, de sua existência simbólica.

Palavras-chave: corpos, ego, faces, reality show, trilho

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Julho 17, 2009

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Quando observamos os estudos científicos já produzidos acerca da aquisição do conhecimento humano, principalmente aqueles focados especificamente na competência cognitiva humana, durante o determinado período que compreende da pré-infância até a adolescência dos indivíduos, epistemologicamente alcançamos diversas considerações qualitativas em relação à metodologia e a concepção do conhecimento adquirido durante essa fase da vida. Contudo, levando em consideração a heterogeneidade individual durante este processo, observamos que quase todas as metodologias sistematizadas de aprendizado, são de uma maneira geral, massivas.

O âmbito da questão infere justamente no fato de que pouca importância é dedicada nesse sentido para o incentivo ao autodidatismo, pelo contrário, cada vez mais o ensino é disposto de maneira estratificada, fundamentando-se em preceitos que ignoram a discussão de questões sob perspectivas duais e céticas.

Desde a tenra infância de nossa contemporaneidade, as crianças são cruelmente expostas às propagandas de um sistema de consumo implacável, por meios que abarcam seus momentos de lazer, descanso e até mesmo através das ferramentas de ensino. Não são escassas as instituições de ensino, das mais diversas naturezas, públicas ou privadas, que se utilizam da propaganda, seja por meio de patrocínios, promoções externas ou da espontânea vontade, com o objetivo de aplicar através dessa ferramenta, uma determinada técnica de ensino que de maneira alguma respeita a livre faculdade de formação individual humana.

As implicações desse tendencioso sistema de ensino vão muito além de um pré-condicionamento individual voltado para o consumo, podemos ainda observar, uma explícita formação de valores pré-fabricados por um mega e auto-suficiente sistema, gestor de convergências movidas por interesses unilaterais das grandes corporações existentes em nossa sociedade pós-industrial.

Em meio a essa concepção, podemos chegar à conclusão de que é no mínimo urgentemente necessária a revisão das ferramentas metodológicas, bem como dos ensejos motivacionais que regem os nossos sistemas de ensino, principalmente aqueles que são direcionados ao aprendizado infantil, em todos os níveis sociais de educação.

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Julho 06, 2009

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Caso voltemos nossa visão para a estrutura da sociedade brasileira atual, e se assim nos focarmos na chamada classe econômica inferior, veremos diversas particularidades sócio-culturais carentes de uma análise crítica, do ponto de vista antropológico e cultural. Tomemos como ponto de análise a questão religiosa nas camadas desfavorecidas ou marginalizadas da sociedade, nos grandes centros industrializados, onde considerável parcela de pessoas vive através da força de trabalho proletária, e em geral, meramente funcional.

Para tornar o texto mais claro, é necessário esclarecer que foram consideradas por classes marginalizadas aquelas que agregam indivíduos que vivem precariamente em qualquer situação relacionadaà saúde, educação, lazer, esporte e cultura (considerando aqui a arte). Não meramente em todas, mais sim em algumas ou mesmo uma dessas necessidades sociais, o que nos leva a crer que a esmagadora maioria da sociedade brasileira abrange ao menos uma dessas necessidades, portanto são de alguma forma, marginalizados socialmente.

Também deve ser exposto que não é o intuito colocar em discussão os crimes e atrocidades inegavelmente cometidos pelo catolicismo, pelo protestantismo ou qualquer outra espécie de manifestação religiosa que interfira em ambas, através do estudo da historicidade dessas questões,o intuito é apenas de analisar as reais mudanças que vem ocorrendo de forma imparcial e do ponto de vista religioso dentro da sociedade brasileira e contemporânea.

De fato a cultura religiosa brasileira por questões históricas é originalmente católica, desde o engenho até a agricultura as parcelas chamadas mais humildes dessa sociedade seguem aquilo que há muito tempo foi traduzido pelos missionários jesuítas, resquícios da inquisição promovida contra o protestantismo. Tal fato também pode ser reforçado através da exposição de que o protestantismo somente abarcou o Brasil em meados do século XIX. Contudo, tomando-se como base a sociedade atual, apesar dos mais velhos ainda conservarem alguns costumes religiosos de décadas passadas, a cultura religiosa no Brasil vem de fato consideravelmente mudando.

Observa-se acima de tudo, um crescimento do intitulado neoprotestantismo nessas camadas inferiorizadas, no interior e nos arredores das grandes metrópoles, o catolicismo não é mais praticado com tanto fervor pelas novas gerações brasileiras, que ainda se intitulam católicas. Talvez, pelo advento da comunicação, da evolução científica e tecnológica, a religião católica tem gradativamente perdendo sua força de influência entre as gerações mais jovens, a situação vem se agravando de tal maneira que a grande parcela daqueles que se dizem católicos, estão inseridos emum grupo chamado de “católicos não-praticantes”.

A questão de assumir determinada posição religiosa e dizer ser não-praticante dessa religião é no mínimo um pouco contraditória, porém, mais contraditório ainda é afirmar que a comunicação, a ciência e a tecnologia são fatores que influenciam, aqui como exemplo a religião católica, na diminuição do poder de atuação da religião, e contudo observar, nas grandes metrópoles brasileiras e em seus arredores, o grande crescimento das igrejas neoprotestantes e de seu número de membros, em meio a toda essa revolução comunicativa e tecnocientífica.

Observando o tempo de ócio dessa camada social brasileira, vê-se que, quando não estão se dedicando ao trabalho habitualmente funcional e proletário, dedicam o tempo livre em geral para a distração, formando o círculo vicioso do tão conhecido panem etcircenses de César, onde a esmagadora maioria da população, sujeita ao trabalho funcional, coloca de lado o livre pensamento, a indagação e o expressionismo, complementando cruelmente tal alienação com a distração rotineira, que funciona como um alívio para o corpo da opressão diária do funcionalismo. Em geral, na sociedade brasileira, podem ser divididos em três as distrações primordiais: o acompanhamento de programas televisivos rotineiros (em suma novelas, programas de auditório sem valor cultural e futebol); a dissipação nos chamados bares ou “botecos”, espalhados por todas as regiões metropolitanas (geralmente através do consumo excessivo de álcool e participação em jogos de mesa); e por último, através da participação em cultos religiosos em geral neoprotestantes. Mantenhamos agora nosso enfoque nas razões que levam a escolha do neo protestantismo como uma dessas formas de distrações.

Em geral, os problemas sociais das famílias brasileiras que vivem do labor diário são demasiadamente intensos se comparados com os problemas que afetam outras parcelas da sociedade: além de todo esforço dedicado ao cumprimento de uma rotina habitualmente bruta e que foge a condição natural humana, as precárias condições sociais básicas como a saúde, alimentação, moradia e a falta de lazer, contribuem para que tal indivíduo se frustre com tal cotidiano, ao considerarem o mal de outras formas de distrações, como o álcool e ao sofrerem observando pessoas por quem possuem relativo apego vivendo em condições semelhantes, buscam alguma espécie de equilíbrio individual e familiar nos cultos neoprotestantes, que em geral, se apresentam através de programas de rádio, televisivos ou através dos próprios outros membros da comunidade ou da família.

Não é incomum ao observar os comumente chamados "cultos" do neoprotestantismo brasileiro, se deparar com situações que em muito se assemelham aos discursos totalitaristas dos mais variados tipos, e presentes nos mais diversos períodos da história da humanidade. Analisando a estrutura de uma reunião ou culto protestante, é possível verificar que geralmente ocorrem em ambientes fechados, sem janelas visíveis para o mundo externo, com uma única porta na parte lateral e com paredes de tamanhos aparentemente calculados, onde em suma, os membros se encontram aglomerados em um espaço relativamente pequeno. Observa-se também, que as igrejas protestantes que possuem relativamente maior nível de capital aplicado em infra-estrutura, utilizam ornamentos ostentáveis que produzem a alusão da idéia de grandeza através de mármore, granizo, vitrais coloridos, madeira maciça e artefatos dourados, que em muito se assemelham com as construções arquitetônicas do Terceiro Reich Nazista ou com as obras de engenharia civil da URSS.

Em geral, as reuniões e cultos neoprotestantes que são ministradas pelos chamados pastores, presbíteros ou missionários, são realizadas através da oratória individual, baseadas nos livros da bíblia, porém de forma claramente retórica, a palavra é dada somente ao líder religioso, que exorta o povo segundo sua própria interpretação individual. É interessante observar no teor do discurso aplicado, que o tom de voz varia exatamente como nos discursos fundamentalistas e nacionalistas, símbolos de glória e orgulho são evocados, e a gesticulação é em geral extremamente similar à de Stalin ou Mussolini, e igualmente todo o contexto histórico é simplesmente ignorado durante tais reuniões, não há uma avaliação externa dos acontecimentos, tudo ocorre através da interpretação individual e inquestionável, nenhum valor é dado à pesquisa cientifica ou a comparação de dados, tudo é realizado com base em um único objeto. Aqueles normalmente denominados obreiros ou diáconos, auxiliares durante as reuniões, apresentam-se de uniformes, que regularmente são trajes sociais padronizados, ficam em pé, em posições estáticas, cumprindo ordens unilaterais do líder orador de maneira enérgica durante o culto, claramente seguindo um nível hierárquico quase bélico, transparecendo assim a semelhança com uma ordem militar.

As músicas e melodias entoadas durante os cultos em muito se assemelham com os hinos à pátria mãe, o valor emotivo é relativamente o mesmo, analisando os fatos pelo ponto de vista individual dos membros participantes, veremos que tais cultos provocam sensações de euforia semelhantes aquelas sentidas por pessoas presentes em discursos de teor politicamente revolucionários. Frases são repedidas em caráter uníssono, a empolgação individual eleva-se a um nível coletivo, fato já durante muito tempo percebido por ditadores: a propaganda é sem dúvida extremamente eficaz nesses casos.

Já é há tempos conhecido e estudado que através dos discursos totalitaristas nos quais se evocam o amor e adedicação a pátria, é despertada uma condição servil sem precedentes na massa populacional, que se estende a cada indivíduo em particular, tornando-o extremamente fundamentalista e focado somente naquilo em que ele próprio é exortado, ou adestrado. De certa forma, o faz sentir como parte de algo, e não mais apenas como um ser segregado socialmente, na realidade, passa a pertencer apartir de agora a um grupo socialmente ativo, que vai além das atividades funcionais do labor diário.

Chegamos deste modo a conclusão de que para essa classe marginalizada, tal sensação de importância, de assistência divina, de justiça futura, é extremamente necessária para que exista motivação dentre essas pessoas, para que o círculo do panem et circenses seja de fato consumado, para que haja uma explícita substituição da necessidade humana de liberdade, do ócio criativo, da arte gerada e apreciada, pela sensação de ascensão pessoal perante um grupo ou parcela social desta comunidade no qual tal determinado indivíduo se insere.

Palavras-chave: cultura, lazer, marginalização, mídia, neoprotestantismo, religião, totalitarismo

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Junho 09, 2009

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Palavras-chave: antigo, blogs

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