Para organismos unicelulares natação é bem diferente do que para organismos do nosso tamanho. Se você for muito pequeno, efetivamente a viscosidade e as forças de arrasto são tão grandes, que você vive num mundo “sem inertia” e as forças de gravidade são de pouca importância.
Dois tipos de arrasto e o número de Reynolds
Vou tentar mostrar que das forças agindo sobre objetos muito pequenos é a força devido à viscosidade do meio que é o de longe o mais importante. É claro que vamos considerar um esfera...
- A força peso vai com a densidade da esfera e o volume, ~r³, com r uma dimensão típica. Mais precisamente, para uma esfera
- O empuxo vai com a densidade do meio e o volume:

- O arrasto devido à viscosidade vai proportional a uma dimensão típica e a velocidade. Para uma esfera, Stokes calculou

- Mas isto não é o único tipo de arrasto: temos também a força necessário para deslocar a massa de fluido do seu lugar. Uma esfera por exemplo, ao se mover pelo fluido, tem que deslocar um volume
por segundo. Mas isto requer uma transferência de momento
e temos
. Isto é a força (a transferência de momento por segundo) que a esfera exerce sobre o líquido e pela terceira lei de Newton isto numéricamente igual à força do fluido sobre a esfera.
Considerando o tamanho típico r do objeto, fica claro que quanto menor, quanto mais importante o arrasto devido à viscosidade porque as outras forças vão com
e
enquanto
vai com
. De qualquer maneira, a densidade de organismos que vivem em água, muito próximo à densidade da água, de modo que o empuxo e o peso se cancelam.
Mais interessante é a comparação entre os dois tipos de arrasto. No final do século 19, Osborne Reynold reconheceu que a razão entre as forças 4 e 3 acima,
(desconsiderando fatores geométricas) dava uma boa indicação sobre o movimento ser laminar ou turbulento. Esta razão é o chamado número de Reynolds (Re). Se a velocidade e tamanho do objeto são baixos suficientes que a força de arrasto é muito maior do que a força "inertial" (número 4 acima), então o fluxo do fluido em volta do obeto será laminar.
Colocando números típicos para organismos unicelulares (r = 1μm, v = 30μm/s), e substituindo a viscosidade e densidade da água temos que a força de arrasto é mais do que 10 vezes maior do que o próprio peso. Além disso, a força viscosa é muito maior que as forças "inerciais": para r = 1μm, v = 30μm/s, η/ρ=10-6m2/s, Re = 3 10-5. Efetivamente, nadam em um meio de alta viscosidade.
Consequências de uma viscosidade alta
Nadar em um meio de alta viscosidade (ou para organismos muito pequenos) é diferente do que estamos acostumados. Uma das consequências é que sem propulsão, você pára imediatemente. Vamos ver porque. Se de repente não há nenhuma outra força de propulsão, o movimento da esfera é descrito pela segunda lei de Newton assim:
ou
A constante
, com ρ a densidade da esfera. A equação diferencial talvez inspira medo, mas não é nenhum bicho de sete cabeças. Qualquer equação diferencial pode ser resolvida por força bruta: ela simplesmente te diz a mudança da velocidade, sabendo a velocidade agora. Assim, se em t=0 a velocidade é v(0), um tempinho depois (digamos 1 segundo), a velocidade vai ser v(1) = v(0)+ dv = v(0) -bv(0), e mais um tempinho depois, v(2) = v(1) + dv = v(1) -bv(1) e assim por adiante. Mas se não quiser implementar este método de força bruta (em Excel por exemplo), pode também verificar (por substituição na equação) que v(t)=v(0)exp(-bt) é uma solução, que portanto descreve o movimento da esfera.
Vemos que se a forca de arrasto é a única força que age sobre a esfera, uma eventual velocidade inicial v(0) decai para zero com constante de tempo
, ou seja, quanto menor a célula, quanto mais rápido a célula pára. (Note que b tem unidades de tempo-1, mas não é uma frequência!) Colocando os nossos números típicos, vemos que este tempo é 2 10-7 segundos. Durante este tempo, a célula ainda se desloca v(0)/b = 10-9m: somente um milésimo do próprio tamanho!
Links e Referências
- Life at Low Reynolds Number, EM Purcell, American Journal of Physics vol 45, 3 (1977).
- Self-Propulsion at Low Reynolds Number, A. Shapere, F. Wilczek, Phys. Rev. Lett. 58, 2051 (1987). Natação em fluidos bem viscosos, por físicos de alta energia. Não entendí porra nenhuma…

- Nadadores nanométricos tem despertado interesse recente: Optimal Swimming at Low Reynolds Numbers, J. E. Avron, O. Gat, e O. Kenneth, Phys. Rev. Lett. 93, 186001 (2004). Frase: “Although microbots do not yet exist, they are part of the grand vision of nanoscience”
- http://galileo.phys.virginia.edu/classes/152.mf1i.spring02/FluidsIndex.h Michael Fowler explica bem as coisas. Estes são as suas notas de aula de um curso de física básica sobre fluidos.
Palavras-chave: fep0114, Lab de Física II, laboratório didático, viscosidade


Comentários
Renato Callado Borges escreveu:
Olá professor!
Não sei se minhas dúvidas são pertinentes, mas aí vão:
- como é determinado o volume que a esfera desloca ao se mover?
- no mesmo item (4), a derivada do momento (onde momento = (rô-f) * V * v) é igual a (rô-f) * pi * r^2 * v^2. Mas por que a derivada de (constante * velocidade) é igual a (constante * velocidade^2) e não (constante * aceleração)?
- o texto diz que o movimento laminar não é turbulento, e isso já é sugestivo de que trata-se de um movimento mais "calmo". Existe alguma outra característica intuitiva de movimentos laminares? Movimentos turbulentos são aqueles nos quais ocorrem perturbações visíveis do líquido (redemoinhos)?
- na seção "conseqüências" está descrito o que ocorre se um ser unicelular não gastar energia (biológica) para se mover, correto? Quero dizer: se uma bactéria está movendo seus cílios ou seu(s) flagelo(s), por exemplo, ela irá se mover mais rápido do que o calculado nessa seção?
Ewout ter Haar escreveu:
Boas perguntas!
O volume descolado durante um tempinho dt é a área de uma secção * vdt (vdt é o deslocamento duranto o tempinho dt). Por segundo se desloca portanto a área*v.
Não! o momento transferido é p=mv = rho_f*Volume*v. Por segundo é transferido dp/dt = rho_f dVolume/dt * v (a velocidade é constante!) = rho_f*área*v*v = rho_f*pi*r^2^v^2
Sim, exatamente. No escoamento laminar não tem redemoinhos, as velocidades do fluido mudam devagarzinho em função da posição, etc.
Na úlitma seção não calculo velocidade. Peguei a velocidade típica de 30 micron/segundo da literatura e calculo que se parar de repente de nadar, quanto tempo e quanta distância ainda se desloca.
Renato Callado Borges escreveu:
Obrigado professor!
Só mais uma coisa, quanto aos links no final do texto: o segundo e o terceiro só são acessíveis fora da usp para leitores pagantes. Não sei se eles são acessíveis diretamente quando visitados a partir da usp.
pricila escreveu:
que esporte usa as três leis de newton?