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Setembro 02, 2008

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Postado por Ewout ter Haar

O dia antes da nona aula o Prof. Guédon visitou os escritórios do Scielo. Resumiu o que aprendeu: Scielo quer ser uma editora de revistas científicas com acesso aberto sério e internacional. Já tem 500 títulos, o que é um número respeitável, mesmo comparado com Elsevier (~2500 títulos). Segundo Guédon Scielo é o único projeto do "caminho de ouro" ao AA coherente, por ser financiado publicamente.

O fato é que um editor de uma revista Latino-Americana tem que fazer uma escolha bem claro: se adequar às normas de qualidade do Scielo ou procurar o seu próprio financiamento. O Guédon tinha duas sugustões: o Scielo usa uma linha de produção que inclui o uso de um monte de recursos humanos para transformar arquivos do tipo Word, QuarkExpress, etc para arquivos usando linguagens de marcação. O uso de um sistema de publicação baseado em XML é obrigatório (para poder re-usar e analisar os textos por meio de algoritmos) mas seria melhor de convencer os autores usar ODF e folhas de estilo para deixar o processo de conversão menos penoso. A segunda sugestão seria tentar envolver mais a comunidade (de editores, autores, etc.).

A questão da publicação baseado em XML e o uso de linguagens de marcação se insere muito bem no tema principal das aulas, acesso aberto. Recursos digitais naturalmente são "acesso aberto". Pode tentar fechar ou restringir o acesso, mas sempre vai ser um esforço. Tristemente, muitas publicadores ainda preferem usar uma "imitação digital' de papel, que não oferece todas as possibilidades de re-uso e análise de documentos verdadeiramente digitais.

Os desenvolvimento ainda mais importante do que acesso aberto decorrente da transção para o mundo digital será o uso computacional dos documentos recém liberados. Veja por exemplo a visão do Science Common expresso neste vídeo embutido embaixo. No futuro, não vamos necessariamente publicar em forma de "artigos". De qualquer maneira, a restrição ao numero de páginas é um resquício da era analógica, quando espaço físico ainda era uma limitação. 

Em vez de artigos, teremos "canais" ou um seminário virtual global e contínuo. Com a transição para a era digital temos uma oportunidade de modelar o diálogo científico. Podemos incentivar ou desincentivar determinados tipos de interações. O movimento de acesso aberto está no centro destas transformações.

Palavras-chave: acesso aberto, guédon

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Agosto 22, 2008

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Postado por Ewout ter Haar

Na quinta aula tratamos das orígens do movimento de Acesso Aberto e como sempre houve duas visões de como melhor chegar ao objetivo de acesso universal à literatura científica. Na sexta aula foi discutido o caminho do aprimoramento do modelo de publicação via revistas científicas (o chamado "caminho de ouro"). Prof. Guédon discutiu empreendimentos como PLOS, Hindawi mas ressaltou que estes modelos onde o autor paga (até $3000 por artigo) seriam no máximo uma fase de transição. Um modelo melhor para o caminho de ouro é a iniciativa Brasileira Scielo, onde tanto a pesquisa como a sua publicação é financiada publicamente.

Nesta aula investigaremos o chamado "caminho verde": o modelo de repositórios onde o autor deposita o seu trabalho (talvez após ser revisado por pares e publicado numa revista tradicional).

Todo mundo e cientistas em particular compartilham idéias naturalmente. A tradição de compartilhamento, aliado à necessidade de cientistas de ser visível e estabelecer prioridade fazem de repositórios candidatos naturais para ter um papel importante no diálogo científico. Mas não foi isto que ocorreu. Apesar da vantagem de maior visibilidade, cientistas não colocam os seus artigos voluntariamente em repositórios institucionais (em contraste com pequenas e homogêneas comunidades como a de físicos de altas energias que usam repositórios especializados).

Uma explicação para este contradição é a história de repositórios institucionais. Sendo pago com dinheiro da instituição, os administradores começaram colocar todo tipo de conteúdo digital neles, de teses, relatórios, material didático, etc. etc. tornando o repositório menos útil para o pesquisador buscando literatura. Uma recomendação importante para o desenho de repositórios (institucionais em particular) é tornar fácil separar pelo menos três tipos de conteúdo: artigos que passaram pelo processo de revisão por pares, teses e o resto.

Tem várias outras maneiras de melhorar a interface dos repositórios, mas um fator de extrema importância para cientistas é o seu lugar num ranqueamento, já que empregadores, comissões decidindo sobre promoções etc. não gostam de avaliar qualidade em sua forma multi-facetada e preferem usar simples indicadores numéricos. Revistas tradicionais, com a sua reputação, fator de impacto, etc. exercem este papel muito bem. A pergunta para desenvolvedores e administradores de repositórios é como reproduzir a função de ranqueamento.

Na verdade, repositórios representam uma oportunidade para deixar os rankings mais transparente e honestos. Já vimos que a reputação conferida via as revistas tradicionais era altamente influenciado e até determinado pelas escolhas do Science Citation Index. Assim, os rankings favorecem pesquisa em língua inglesa, no mundo occidental, feito segundo os critérios do Thompson, etc. etc.

Repositórios poderiam reverter este quadro. Poderiam publicar as suas estatísticas de acesso, criar outros mecanismos para chamar atenção em determinados artigos, criar sistemas de recomendação. Acesso Aberto se trata de mais do que somente acesso: pode melhorar o nosso sistema de produção de conhecimento e reverter os sistemas de poder que atualmente determinam quem tem acesso a conhecimento e dizem o que vale a pena saber.

Após a pausa Prof. Guédon  discutiu a interessantíssima questão dos mandatos, sistemas onde pesquisadores são obrigados pelos seus financiadores ou instituições de depositar o seu trabalho em repositórios com Acesso Aberto, mas não pude ficar infelizmente.

Palavras-chave: acesso aberto, guédon, repositórios

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Postado por Ewout ter Haar

Na quarta aula vimos alguns dos efeitos de digitalização e tecnologia de rede sobre o universo de comunicação científica. Nesta aula veremos como bibliotecas, as editoras e pesquisadores reagiram a estas mudanças.

As Editoras contra as Bibliotecas

Em 1991 Reed-Elsevier entrou no mundo digital com uma experiência nova. TULIP era um sistema de distribuição de revistas por meio de discos óticos. As páginas eram disponibilizadas por meio de arquivos TIFF, um formato de imagens. Assim, as bibliotecas não podiam fazer o seu próprio índ/ice por exemplo e a única utilidade era imprimir as páginas. A restrição ainda mais importante porém era o L no acrônimo: em vez de comprar as revistas, as bibliotecas agora licenciaram as revistas. Em vez de legislação de direitos autorais (que, bem ou mal inda dá certas liberdades ao uso para fins educativos e científicos) agora temos legislação contratual.

O objetivo das editoras é claro: reconheçam as realidades do novo mundo digitalizado mas tentam mesmo assim limitar a re-distribuição, não dão acesso ao texto das revistas e restringem até a impressão dos artigos por causa do formato extremamente pesado (posteriormente PDF, um outro formato relativamente opaco, virou a maneira mais comum de distribuir documentos).

Para as bibliotecas a nova estratégica é perigosa:

  1. Obviamente é perigoso de não ser dono da sua coleção de revistas. O papel tradicional de preservação que bibliotecas sempre tiveram fica agora em mãos de empresas comerciciais com interesses de curto prazo.
  2. Um perigo mas sutil é que agora as bibliotecas tiveram que negociar contratos e licenças em vez de um simples compra. Do ponto de vista de gerência negociar um contrato é muito mais complicado.

É por causa deste último ponto (e o aumento desenfreado dos preços escritos na aula anterior) que surgiram os consórcios de bibliotecas para fazer frente contra as editoras. Como qualquer negociação, sempre uma boa idéia se juntar para fortalecer a sua posição de negociação. Guédon descreve o caso do consórcio de bibliotecas Canadenses. O CLA inicialmente teve alguns sucessos expressivas, conseguindo usar o seu poder de barganha contra o ISI-Thomson por exemplo. Mas na avaliação do Guédon, no final das contas as editoras mantiveram basicamente a sua posição de poder. Por causa de rachaduras na frente e preocupações por parte dos bibliotecários de aparecer "não cooperativos", as editoras ainda fazem basicamente o querem.

Uma exemplo é o chamado "grande negócio", a idéia das editoras de oferecer milhares de títulos para um preço somente um pouco maior do que as bibliotecas estavam pagando anteriormente. A final das contas isto é uma mau negócio porque não sobra dinheiro para as bibliotecas comprar revistas de editoras menores ou associações científicas e assim concentra ainda mais o controle da comunicação científica nas mãos das grandes editoras comerciais.

Pesquisadores contra as Editoras

Tendo visto as conseqüências da digitalização para as bibliotecas e a reação das editoras a pergunta surge: como os pesquisadores foram afetados e como reagiram? Alguns cientistas começaram usar as novas tecnologias imediatamente para disseminar os seus textos em escala global. Afinal das contas, visibilidade interesse muito para cientístas e a Web em particular ofereceu a possibilidade de visibilidade em escala global.

No iníco dos anos noventa surgiram algumas revistas científicas novas publicadas eletronicamente. Por causa desta experiência ficou claro para alguns que acesso unversal à literatura não tinha mais nenhum impedimento técnico ou econômico e que as editoras, em vez de ser aliados na "grande conversa científica" na verdade eram adversários querendo proteger o seu modelo de negócios a qualquer custo. Apesar do sentimento de liberação que as novas tecnologias proporcionaram tinha ainda uma grande frustração por depender das editoras e as suas revistas de grande "impacto" ("publish or perish").

É neste clima que o movimento de Acesso Aberto começa, por volta do ano 2000, com uma petição pedindo o acesso livre um ano após a data de publicação. Em retrospecto a petição foi ingênuo (as editoras simplesmente ignoraram) mas serviu para colocar a questão na mesa. Em dezembro de 2001, numa reunião patrocinado pelo Instituto da Sociedade Aberta do George Soros, um grupo de cientístas fizeram a declaração de Budapest, afirmando que a hora chegou para liberar acesso à literatura científica para todos.

Dois caminhos para Acesso Aberto

Desde o início do movimento AA há pelo menos duas visões de como se aproximar ao ideal de participação de todos às conversas científicas. Um caminho é adequar as revistas científicas às novas realidades da era digital. O outro caminho seria por meio de chamados repositórios*, onde os próprios autores depositam os seus trabalhos.

O caminho do aperfeiçoamento das revistas levou a revistas e editoras completamente novas como PLOS (tendo um modelo de negócios do tipo NGO) e também editoras comerciais como Hindawi (com modelo de negócio comercial). Até as editoras tradicionais tiveram que ceder e em 2008 da ordem de 30% permitam o depósito em repositórios por parte dos autores. Novas questões surgem: qual é a versão canônica do artigo? Se a versão canônica é a versão preparada pela editora, como citar uma
determinada página, se a versão canônica ainda está atrás dos muros das editoras?

Enquanto isso, a tecnologia dos repositórios ficou mais difundido. A partir de 2003 e 2004 as bibliotecas, ao exemplo dos repositórios especializados e pioneiros como Arxiv, começaram implementar repositórios institucionais. Era a volta do papel tradicional de bibliotecas de arquivamento do conhecimento. Mas o que aconteceu foi que para justificar os custos da gestão do sistema todo e qualquer produção das Universidades começou ser depositados nestes repositórios institucinais. Acoplado a interfaces de busca e navegação falhas, isto levou a uma diluição (do ponto do vista do pesquisador) do material "nobre". Já que o que um pesquisador quer e precisa é visibilidade, repositórios instituicionais perderam o sentido para ele.

Resumindo: o movimento para Acesso Aberto é uma das consequências surpreendentes da era de digitalização. Assim como a Imprensa mudou fundamentalmente a sociedade 500 anos atrás a digitalização vai mudar a nossa e o movimento de AA é um dos manifestações destas mudanças.

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Agosto 12, 2008

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Postado por Ewout ter Haar

Na terceira aula vimos como a combinação da invenção do chamado "Science Citation Index" e o surgimento de editoras comerciais criou mercados inelasticos e o grande aumento de preços. Se por um lado as dificuldades para acessar informação científico aumentaram, houve um outro desenvolvimento do final do século 20 com um potencial equilibradora : a digitalização de dcoumentos e tecnologia de redes.

A digitalização de documentos e informação em geral começou após a segunda guerra mundial e ainda estamos sentindo os profundos efeitos na sociedade. Ainda estamos no "incunábulo"  da era digital. Isto quer dizer que a sociedade ainda está se adaptando à nova realidade e vai demorar mais para incorporar a nova maneira de pensar que digitilização de informação possibilita.

É interessante tentar enxergar paralelos entre o século 15 e a invenção da imprensa e a atual digitalização de informação. No século 15 livros eram visto como objetos bem estáveis e representavam a memória de uma cultura. Assim, os primeiros livros que foram feitos após a invenção da imprensa eram livros considerados "importantes" ou "grandes obras" como a bíblia. Mas na verade a nova tecnologia era bem adequada para obras de caráter menos duradouro. A forma particular de ficção que chamamos de Romance foi inventado com o Quixote no início do século 17. Durante pelo menos 200 anos, ficção era visto como um passatempo frívolo e meio escandaloso. Poderíamos fazer uma analogia com jogos de computador e videogame hoje em dia. Veja quanto tempo demora para uma cultura absorver e entender as possibilidades de uma nova tecnologia. Sempre demora mais e as mudanças são mais profundas do que conseguimos imaginar.

Nos anos 80 do século vinte surgiu computação pessoal. No presente contexto o que importa é que de repente virou possível para qualquer um fazer processamento de texto e editoração. O que era uma profissão hermético e especializada virou divertimento de massa. É uma revelação para qualquer um que já usou um programa de editoração de ver como a aparência do texto afeta a sua interpretação. Ao mesmo tempo, impressoras viraram muito baratas, democratizando ainda mais a distribuição de textos impressos.

Alguns pioneiros começam no final dos anos 80 experimentar com tecnologia de publicação pessoal para criar novos jornais
científicos. Nestas alturas era praticamente impossível começar um jornal convencional novo por causa dos altos custos iniciais. Veja a experiência do próprio Prof. Guédon que criou o que deve ser um dos primeiros jornais científicos online (um jornal de crítica literário, ainda por cima!). Começou com um simples espaço num servidor ftp onde colocou arquivos Word, WordPerfect e ASCII. As dificuldades para o seu público (pesquidores da área de ciências humanas!) eram enormes: os leitores precisavam aprender ftp, decodificar os arquivos, ter a versão do processador de texto apropriado, etc. etc. O formato da informação em forma digital é muito mais importante do que em forma impressa. Ironicamento o formato com menos dificuldades de transmissão e preservação era o ASCII.

A tecnologia de rede não estava parada e a revista começou usar outras tecnologias de rede como Gopher (desprezando por enquanto a Web, um competidor na época por usar um formato de documento muito limitado). Descobriram o erro quando a Universidade de Minnesota queria impor licenças sobre o uso do software gopher e tudo mundo começou usar a Web. Migraram então os documentos para HTML mas este formato, embora muito adequado para documentos digitais, estava evoluindo muito rápido. Como manter uma revista científica com a pretensão de funcionar como memória de uma comunidade quando é preciso atualizar o formato dos documentos anualmente?

Aqui entra a questão de preservação digital. Livros e material impresso se conserva relativamente bem (em circuntstâncias de "benign neglect" ou neglicência sem maldade). Mas informação digital precisa ser preservado *ativamente* porque as mídas físicas e formatos lógicos mudam tão rápidamente. Tem duas estratégicas básicas: a migração continuada para formatos novos e virtualização dos tocadores. Mas de um ponto de vista mais abrato é preciso o equivalente de monges: uma cultura em volta dos documentos que mantém eles vivos.

Apesar das dificuldades, o fato surpreendente é que foi possível criar uma revista sem as editoras tradicionais e que o acesso à revista foi muito ampliado pelo uso da tecnologia de rede.

Somente uma das muitas dificuldades era a questão de páginas. Como citar o número de página quando o formato não tem este conceito? Texto em forma digital não precisa ser organizado em forma de páginas mas este resquício da era da impressão continua muito vivo na nossa cultura (e na cultura acadêmica ainda mais).

Veja o caso de PDF (page description format), um formato que nega a sua vocação digital e insiste na tecnologia de páginas inventado no século 3 por Orígenes. Não é por acaso que a velha mídia e as velhas editoras - se são forçados pelo mercado
distribuir os seus produtos em forma digital - preferam usar o formato PDF. É o formato que está mais próxima ao mundo da impressão. É claro que não é somente uma questão de velha mídia contra nova mídia. Os próprios consumidores e público demanda tecnologia de transição. Segundo o autor do livro "Libraries of the Future" (1965) o livro tem ainda uma longa e próspero futuro porque o que importa não é tecnologia mas o interface e a página é um interface muito bom.

Na quinta aula veremos como as editoras, bibliotecas e pesquisadores reagiram às mudanças fundamentais do mundo digitalizado.

Palavras-chave: guédon, preservação digital

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Agosto 07, 2008

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Postado por Ewout ter Haar

A crise bibliográfica

Vimos o crescimento no volume de comunicação científica no século 19 e o primeiro surgimento das editoras comercicias na segunda aula. Agora estamos no final do século 19 e a chamada segunda revolução industrial e cada vez mais revistas do tipo industrial e para profissionais. Assim como a Segunda Guerra Mundial é a guerra dos físicos, a Primeira Guerra Mundial é a dos químicos. Sobretudo após a Primeira Guerra todo mundo se dá conta que a circulação de conhecimento científico é de grande valor estratégico. Assim, os franceses tentam isolar cientistas alemães entre as guerras mundiais mas não conseguem impedir o fluxo de informações e o crescimento da ciência alemã.

Após a II Guerra Mundial o "GI bill" (todo veterano tem direito à educação superior) e a corrida científica na Guerra Fria levam a um rescimento de um fator 3 no número de faculdades e universidades americanas. A produção científica cresce igualmente e as revistas científicas não conseguem acompanhar o ritmo: tem tempos de espera de 1 até 3 anos até um manuscrito é publicado. Tem todo tipo de gargalo e o diálogo científico não ocorre mais via journais, mas via conferências, correspondência (de volta ao sistam postal!), re-prints, etc.

A quantidade de informações é tanto que fala-se da "crise bibliográfica" e possíveis soluções. Existem várias idéias: Wilhelm Ostwald e o seu "World Brain", O MeMex  de Vannevar Bush. São todos ambientes onde toda informação seria acessível num único "lugar". Mas uma ferramenta que realmente foi implementada e que terá uma influência decisiva na comunição científica a própria ciência é o "Science Citation Index" de Garfield.

Science Citation Index

A idéia é usar as citações (conexões entre artigos) para fazer sentido da literatura. Tradicionalmente organizava-se a literatura em categorias, disciplinas, etc. Com o crescimento da literatura as classificações teriam que ficar cada vez mais especializadas e assim, como um cientista podia acompanhar a literatura fora da área da sua especialização? Com um índice de citações um pesquisador podia achar pesquisa relacionado de uma maneira alternativa à simples categorias. Em vez de impor uma classificação de cima, as citações reflitam muito melhor quais cientistas e áreas são relacionados.

Mas nos anos 50 não existia a tecnologia para implementar a idéia e as pessoas não se interessaram muito até o Nobel de medician Joshua Lederburg  ajudou Garfield começar um projeto. Por necessidade, Garfield somente levou em conta o que considerou os jornais mais importantes. A lei de Bradford diz que a distribuição de artigos interessantes é uma lei de
potência: vai achar a grande maioria num conjunto relativamente pequena de jornais. Garfield se sentia assim justificado escolher uma fração dos jornais.

As escolhas do Garfield vão influênciar profundamente o mundo de comunicação científica: a necessidade prática virou realidade. Garfield cortou as revistas  e "ciência" em geral em dois pedaços: ciência de núcleo e o resto. Bibliotecas no mundo inteiro se sentiram obrigados pelos seus clientes de comprar os jornais de núcleo, os escolhidos pelo Garfield e o seu instituto e deixar a cauda longa da distribuição de lado.

Robert Maxwel e a mina de ouro

Nos anos 70 um outro fenômeno está ocorrendo. Robert Maxwell tinha se dado conta que o SCI de Garfield tinha criado um mercado "in-elastico": as bibliotecas precisavam comprar os jornais no SCI *independente* do preço. Maxwell comprou a pequena editora Pergamon Press e começou comprar pequenas jornais de associações. Mudou a língua de todas para inglês, mudou o título para algo do tipo "International Jornal of..." e, crucialmente, instituiu um novo tipo de revisão por pares melhor (mais transparente, dois revisores etc.). Com a melhoria da qualidade conseguiu colocar grande parte dos seus jornais no SCI e após uns anos podia começar aumentar os preços basicamente a vontade.

Esta mina de ouro foi logo descoberto também pelo Elsevier, Springer e as outras associações (APS, ACS, etc.) levando a um aumento de preço geral dos jornais.

O ciclo de conhecimento nestas alturas funciona assim:

  1. Dinheiro público financia pesquisa.
  2. Cientistas precisam ser viśiveis para progredir na carreira e fazem tudo para publicar nas melhores revistas.
  3. As melhores revistas e editoras exijam que os direitos autorais são *dados*, de graça (!), a elas.
  4. As editoras usa os cientistas para fazer revisão por pares, de novo de graça (!).
  5. As editoras gastam um pouco de dinheiro fazendo as revista.
  6. As editoras vendem revistas para as bibliotecas para o preço que querem.
  7. Dinheiro público é gasto comprar revistas.


O resultado é que as editoras levam 40% de lucro neste ciclo. Este é a máquina de dinheiro que Maxwell inventou.

Na quarta aula, veremos os primeiros efeitos da digitalização de documentos e tecnologia de redes.

Palavras-chave: comunicação científica, Garfield, guédon, ISI, Robert Maxwell, SCI

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Agosto 05, 2008

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Postado por Ewout ter Haar

A primeira aula tratava da história de comunicação científica até o século 17.

No século 17 ainda não existiam disciplinas: um cientista era chamado de filósofo natural. Disciplinas pressupõe instituições: jornais, departamentos, associações, etc. etc.). A primeira disciplina é Química. No século 18 houve um debate se química era (devia ser) um simples plicação das leis de Newton ou se as explicações teriam que ser feitas em termos de leis próprias. No final do século 18 veio o Lavoissier com uma solução prática: "os elementos básicas da química são o que eu não posso de-compor". Começou trabalhar com esta definição prática e virou o pai da química.

Outras especialidades com as suas instituições surgiram depois (biologia, etc.) com os seus próprios jornais. Jornais científicos
proliferaram também por área geográfica no século 19. Universidades começaram ter um papel mais ativa em pesquisa científica. As novs universidades alemãs eram pioneiros neste sentido (Humboldt), instituindo novas metodologias pedagógicas.

Até então as aulas universitários eram exposições de um especialista pago pelos seus estudantes. A nova metodologia envolvia a leitura prévia de um texto que seria discutido criticamente por um grupo pequeno de estudantes. Finalmente a tecnologia nova que o livro epresenta estava sendo usado em educação! As universidades inventaram também o sistema PhD, onde o estudante não somente mostra onhecimento mas também faz pesquisa.

Com o número de cientistas aumentando e as melhorias da imprensa que baratearam a produção, o número de jornais cresceu. Como conectar tantos cientistas que inclusive estavam espalhadas geograficamente (no interior, por exemplo)? Surgiram novas associações (AAAS, BAAS) que serviam como espécie de sindicatos e cuidaram das interesses dos cientistas contra o rei e o governo. Os líderes destas associações tinham poder, mas os cientistas pelo menos se encontra entre pares.

A quantidade de publicações continua crescer e no final do século 19 surgem as primeiras editoras comerciais. Em princípio, o mercado não era lucrativo mas acharam que entre os autores dos jornais podiam achar autores de livros, o seu negócio principal. Jornais comerciais eram menos conservador do que os jornais dos associações: publicaram pesquisa controversial como frenologia e os resultados de estatísticas não favorável ao governo.

Terceira aula: século 20 e o science citation index

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Postado por Ewout ter Haar

Está sendo bem interessante a série de apresentações que Prof. Guédon está dando na ECA. O curso, intitulado "The Political Economy of Scientific Publishing as Revealed through Digitization and Internet" e dado no contexto do programa de  Pós-graduação em Ciẽncia da Informação da ECA dá uma visão histórica da comunicação científica e assim contextualizar as transformações pelo qual estamos passando.

Prof. GuédonGuédon está falando sobretudo sobre comunicação científica (a história de jornais científicos) mas esta história ensina muitas lições para quem é da área de ciência da informação ou educação. Um estudo (da história da) comunicação científica revela  sistemas de controle e poder. Investigando e discutindo alguns dos pontos de transição históricos será possível entender a grande transformação pelo qual o mundo de publicação está passando agora por causa da Internet e digitalização. Uma conseqüência destas mudanças é o movimento de Acesso Aberto.

O Prof. Guédon disse no início das aulas que não espera contribuições dos alunos que são meros resumos das suas aulas. Vou fazer mesmo assim porque não sou aluno matriculado e de qualquer maneira o resumo reflete a minha interpretação da apresentação. As apresentações do Prof. Guédon impressionam pela sua forma polida e seu conteúdo profundo. Claro que estes resumos são uma reflexão muito pobre disso mas sempre podem ler as palavras do próprio Guédon

A primeira revolução que discutimos é a invenção do Códice que substituía o rolo de pergaminho. Um dos primeiros a usar esta tecnologia nova era Orígenes  para recuperar textos cristãs por comparação de vários versões. Assim Orígenes é o primeiro de ler textos de uma maneira crítica, uma finalidade para qual códices são mais apropriados do que rolos.

OrígenesOs textos escritos em rolos são difícil de ler (não se usava muito punctuação ou outras tecnologias para facilitar a leitura) e estavam ainda firmemente na tradição oral. O avança para o formato livro e páginas levou a uma transformação do significado de "ler" e "texto". Ficou mais fácil usar o texto como instrumento de leitura crítica (ironicamente o Orígenes usou a tecnologia para criar os livros "canônicos" da bíblia).

Vamos ao início da revolução científico nos séculos 16 e 17. A imprensa já existe 200 anos mas é difícil usar para assuntos
controversiais (veja o caso Galileo). Cientistas começam se associar em sociedades, entre outras coisas para se defender do governo. Começam se comunicar mais usando o sistema postal (usando cartas). É permitido discutir ciência livremente (ao contrário de assuntos sensíveis como política e religião). Em 1665 Oldenburg cria Philosophical Transactions do Royal Society para lidar com o grande volume de cartas. Os novos jornais estão sendo usado também, além para comunicação, para estabelecer prioridade: cientistas querem ser reconhecidos como o dono das suas idéias, uma coisa difícil de fazer se a correspondência é privada, mas fácil em jornais abertas para todos.

Os jornais vão funcionar (junto com livros) como repositórios de conhecimento, uma memória coletiva (comparável com o que juristas já tinham com jurisprudência). Esta nova memória permanente leva à idéia de progresso científica. Cientistas começam usar uma nova noção de "Verdade". Veja o paralelo com o mundo jurídica: da mesma maneira que tortura era a maneira apropriado para chegar à verdade em questões legais, cientistas começam "interrogar" e "torturar" a Natureza. É necessário ter testemunhas (demonstrações) e publicá-las.

Próxima aula: surgimento de disciplinas, universidades, associações no século 19, explosão de jornais.

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