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Fevereiro 22, 2011

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Postado por Ewout ter Haar

Em resumo, grupos são coleções, entidades juntados em algum espaço fechado. Redes são coleções de entidades autônomos com ligações entre si. Sistemas e softwares educacionais tradicionalmente suportam grupos melhor. Estamos aprendendo como melhor dar apoio à redes.

Leitura recomendada: Terry Anderson, Networks Versus Groups in Higher education e Three Generations of Distance Education Pedagogy

O tipo de sistema que suporta grupos no ensino é chamado de "Ambiente Virtuais de Aprendizagem" Apesar do nome abrangente,  AVAs na verdade são sistemas bastante restritos na sua finalidade. São desenhados para ser estritamente análogos a sala de aulas. Assim como salas de aula, AVAs são espaços onde um grupo de pessoas se reúne. Os grupos (classes, turmas) são previamente formados. Sempre tem apoio a diferentes funções ou papeis: o docente, o tutor e o aluno tem permissões diferentes. Grupos existem dentro de muro que distingue os dentro dos de fora e portanto requerem controles de acesso.

A USP tem muitas AVAs: o Moodle da IME, o Moodle da Rede Aluno, tem o sistema COL, o Tidia-ae. Modéstia não me impede recomendar o Moodle do Stoa, o AVA mais bem administrada da USP...

Sistemas em apoio a Redes Socais são qualitativamente diferentes. Numa rede existem ligações entre entidades autônomos. Uma característica de redes é que não têm centro. No Stoa, no Orkut, no Facebook o conceito central do sistema é o perfil, o espaço de um indivíduo. Claro, existem ferramentas de formação de grupos, mas não são previamente formados, não refletem necessariamente a estrutura pre-existente da instituição. Um blog geralmente é de uma pessoa, não do grupo. 

A diferença entre a Rede Social Stoa (stoa.usp.br) e o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) o Moodle do Stoa (moodle.stoa.usp.br) é a diferença entre redes e grupos

Indo um pouco mais a fundo, é interessante considerar três teorias (melhor: concepcões) de aprendizagem e as suas consequências para o design de ambientes educacionais. 

 

  1. "Behavioural" / Cognitivo.  É um modelo onde o instructor e o conteúdo está no centro das atencões, transferindo conteúdo / conhecimento. "Content is King". O AVA se adequa muito bem a este modelo. 
  2. Construtivismo (Social). Desde Dewey, Freire, etc. há críticas no modelo "transferência de informacão". Conhecimento é construído, em grupos, e é altamente dependente do contexto social. Uma metodologia alternativa ou complementar reconhece que aprendemos fazendo. As metodologias pedagógicas são mais centradas no aluno ou pequenos grupos. Exemplo: Problem based learning. O AVA, com seus espaços para grupos e ferramentas colaborativas se adequa muito bem a este modelo.
  3. Connectivismo. Inspirado em redes, aprendizagem é tido como um processo de fazer ligações (entre idéias, fatos, pessoas, conceitos). Sistemas que permitem estudantes criar o seu próprio espaço são mais adequados a este tipo de aprendizagem. São sistemas abertos, com formação de grupos ad-hoc, sem "centro" e organizado pelos participantes, sem imposições "de cima".

Palavras-chave: AVA, col, educação, grupos, moodle, redes, redes sociais, stoa, tidia

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Setembro 19, 2010

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Postado por Ewout ter Haar

Everything will be on the test. And the test will be everything. But fear not; for in the end, everyone of us will be tested. And everyone of us wil be found... wanting.

(Treme, temporada 1, episódio 9 )

 

Palavras-chave: educação, existencialismo, treme, vai cair na prova?

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Maio 11, 2010

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Postado por Ewout ter Haar

[Fiz uma apresentação para um grupo de trabalho que está pensando sobre Design Instrucional no contexto de projetos de Educação apoiado pelas tecnologias novas de informação e de comunicação.]

Intro: A Web Moderna é fundamentalmente diferente de mídia de massa. Permite consumidores passivos se tornarem produtores ativos. As novas tecnologias de rede e a Web participativa em particular têm aplicacões óbvias ao desenho dos nossos ambientes educacionais. Vou mostrar alguns resultados, acertos e erros do projeto Stoa e mostrar algumas possibilidades de ferramentas da Web para a construcão do ambiente online do curso de licenciatura em ciências. 

Três teorias (melhor: concepcões) de aprendizagem ou pedogagias e as suas consequências para o design de ambientes educacionais. 

  1. "Behavioural" / Cognitivo.  É um modelo onde o instructor e o conteúdo está no centro das atencões, transferindo conteúdo / conhecimento. "Content is King". 
  2. Construtivismo. Desde Dewey, Freire, etc. há críticas no modelo "transferência de informacão". Conhecimento é construído, em grupos, e é altamente dependente do contexto social. Uma metodologia alternativa ou complementar reconhece que aprendemos fazendo. As metodologias pedagógicas são mais centradas no aluno ou pequenos grupos. Exemplo: Problem based learning. 
  3. Connectivismo. Inspirado em "Redes". A característica de redes é que não tem centro: não existe uma única entidade que controla o andamento das coisas. 

Experiências com Stoa

  - Proposta vs usos reais (mero espaco de arquivos e blog, mas se é só isso, porque não usar plataformas genéricos: uso de espaco institucional tem que ter algum valor agregado)

  - Número de cadastros, aumento enorme quando Docentes comecam usar Moodle

  - Tensão entre "plataforma aberta" e hiearquias tradicionais da Universidade. 

Proposta concreta

 - Moodle. Mais: usar Buddypress para dar "um espaco na Web" para alunos, tutores e docentes. Ferramentas de criacão de grupos (Fóruns). Portal que agrega atividades. Outras ferramentas: Wiki, Web-Conferência (DimDim), email e lista de email, Chat. Ferramentas "Web2.0" de terceiros.  

 - Precisamos planejar / pensar sobre

  + como incentivar o uso destes espacos (usar tutores e docentes)

  + como evitar que os participantes se sentam perdidas no espaco virtual: organizacão vs autonomia

  + até onde deixar "aberto" as contribuicões 

  + é mesmo uma boa ideia mesclar formal - informal e pessoal - institucional?

  + qual métricas / indicadores acompanhar?

  + qual servicos "de terceiros" podemos usar? Google Apps, outros servicos Web2.0. 

Referências:

 - "Lost in social space: Information retrieval issues in Web 1.5" http://journals.tdl.org/jodi/article/viewArticle/443/280 

 - "The Theory and Practice of Online Learning, second edition" http://www.aupress.ca/index.php/books/120146

Palavras-chave: educação, TIC, web, web social

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Postado por Ewout ter Haar

Um jornalista me pediu opiniões sobre "o uso da redes sociais na internet". Isto não acontece muito mas dar opiniões e palpites todo mundo gosta. Veja o que respondi

2010/5/11 Gladson Angeli Donadia :

>
> Qual é a principal função das redes sociais na internet atualmente? São
> voltadas para o lazer ou usada também como ferramenta de trabalho?

Primeiro, gostaria ampliar e generalizar o conceito de "rede social"
para incluir tecnologia da Web que permite indivíduos *participar* e
*contribuir* ao vez de ser meros  consumidores de conteúdo. Desde o
seu início (anos 70 e 80) a Internet possibilitou estas novas
tecnologias "participativas" (pense usenet, ICQ, IRC, email, etc.) mas
foi somente com a Web nos anos 90 e 00 o seu uso ficou realmente
massificado (pense blogs, sites de compartilhamento (de fotos e
vídeos) e também redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter).

Voltando a pergunta: acredito que estas ferramentas de expressão
individual inicialmente eram ignorados pelas corporações e
instituições tradicionais (como empresas, universidades e governos).
Assim, inovações na Web como weblogs, fóruns e redes sociais eram
inicialmente voltados para atividades informais. Mas logo as
instituições se deram conta do potencial das novas ferramentas e agora
estão tentando usá-las para os seus fins.

No caso de Educação,  as novas tecnologias de rede e a Web
participativa em particular têm aplicações *óbvias* ao desenho dos
nossos ambientes educacionais. Desde a massificação e universalização
da Educação há críticas (Dewey, Paulo Freire, etc.) do modelo
"transferência de informacão" onde o alunos assiste passivamente aulas
e procure-se criar modelos pedagógicas que permitem e incentivam
posturas mais ativas por parte dos alunos. Tecnologia de redes socais
se encaixa muito bem nesta busca por modelos pedagógicas novas.

> O senhor acredita que as redes na internet podem substituir as redes de
> contatos fora do mundo virtual?

Não gosto muito da expressão "mundo virtual", porque dá a impressão
que tecnologia de rede, a Internet ou a Web seria de alguma forma
"irreal". Na verdade, são meios de comunicação e plataformas de
expressão, tão real quanto qualquer outro meio de comunicação como
telefone ou plataforma de expressão como livros.

Então, acredito que seria melhor perguntar de que forma as novas
tecnologias de rede podem contribuir para os nossos objetivos na vida.
Certamente acredito que eles tem muito a contribuir.

> O senhor acredita que o número de redes sociais tende a crescer?

O uso das novas tecnologias de rede vai crescer cada vez mais, sem
dúvida. Uma pergunta interessante é se vai ter *concentração* de
mercado, da mesma maneira que alguns grandes conglomerados de mídia
detém o controle de uma fração cada vez maior do mercado de
comunicações. Certamente há o perigo que grandes empresas como Google
e Facebook monopolizam cada vez mais a Web, mas sou otimista que as
forças de-centralizadores conseguem manter um equilíbrio neste
sentido.

> O senhor acredita que seja vantajoso aderir a várias redes sociais, ou o
> internauta deve focar em uma que seja voltada para o público de específico
> de sua área de atuação?

Acrdito que é perfeitamente natural criar vários "personagens" na rede
e na Web e tentar manter eles separados. Poderia criar uma identidade
profissional por exemplo e manter um blog sobre assuntos
profissionais, criar um perfil na linkedin ou na rede social da sua
empresa ou escola, etc. E ao mesmo criar um outro blog, outros perfis
em outros redes para manter uma personagem informal.

Me parece importante ter este flexibilidade.

> O senhor tem alguma dica de atitude correta e de comportamento inadequado
> dentro de uma rede social na internet?

http://pt.wikipedia.org/wiki/Netiqueta e obedecer as regras de boa
educação que aprendeu na sua casa e sua escola.

> De que forma o uso das redes sociais na internet podem ser prejudiciais?
>

Da mesma forma que outras interações sociais podem ser prejudiciais ou
beneficiais. As características de pessoas não mudam porque usam uma
determinada tecnologia de comunicação. Agora, é verdade que pessoas
tendem a ser menos educadas quando a comunicação é feito a distância,
parece que se esqueçam que tem uma pessoa real no outro lado. Aí pode
ter um papel para a escola: devem ensinar e socializar as crianças
para lidar bem com estas novas tecnologias.

> Gladson Angeli
> Repórter
> RPC – Gazeta do Povo
WWW.RPC.COM.BR
Espero que ajudou, entre em contato se precisar algo a mais, Atenciosamente, Ewout ter Haar - CEPA - IFUSP F. 30916696

Palavras-chave: educação, redes sociais, web

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Agosto 19, 2009

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Postado por Ewout ter Haar

A USP deve ou não deve participar do ENADE (antigo Provão)? Pode-se fazer argumentos pro e contra, mas independentemente desta questão, vale a pena pensar sobre os resultados das avaliações feitas até agora. São surpreendentes, e parecem mostrar ou a ineficácia dos nossos instituições de ensino superior ou a inabilidade da Enade de medir algo relevante. [ O texto ficou longo e pomposo demais, mas não consigo encurtar agora. Pelo menos dá uma olhada nos gráficos e o intermezzo]

Introdução

Imagine que precisamos desenhar uma política pública que melhora o nosso sistema educacional. Há urgência, porque há uma clara correlação entre habilidades coginitivas e desenvolvimento (econômico por exemplo), tanto para indivíduos como para sociedades inteiras.

O que não deve fazer, segundo o estudioso Eric Hanushek, é simplesmente aumentar a quantidade de dinheiro investido no sistema escolar. Por exemplo, pelo menos nos EUA não há evidências para correlações claras entre tamanhos dos classes e desempenho educacional. Na verdade, é surpreendentemente difícil achar, na atual situação nos EUA (e em outros paises, inclusive os em desenvolvimento) qualquer correlação entre recursos gastos e desempenho dos estudantes. Mas isto não quer dizer que dinheiro ou outros incentivos não podem melhorar a educação. Simplesmente quer dizer que não é conhecido em quais circunstâncias mais recursos fazem uma diferença ou como aplicar estes recursos. Por exemplo, é conhecido que bons professores e boas escolas influenciam significativamente os resultados dos seus alunos. O problema é identificar os bons professores e escolar e incentivar seja o que for que eles fazem que leve aos resultados desejados.

Temos aqui um clássico problema de alocação de recursos. Tradicionalmente o "mercado" é usado para resolver o problema de integrar os milhões de pequenas indicadores e fontes de informações, para chegar numa alocação "eficiente" em algum sentido.  Um mercado de agentes (alunos, professores, instituições) competindo por recursos seria uma possibilidade, mas desde o próprio Adam Smith sabemos que o mercado nem sempre leva ao resultado desejado, em particular no que diz respeito valores básicas de justiça e igualdade de direitos básicos de cidadãos. Especialmente na área de educação quase todos as sociedades optam por um sistema altamente regulado pelo poder público.

Avaliações

Seja para identificar as melhores escolas, seja para fins de credenciamento, vamos precisar de mecanismos de avaliação feito por um órgão externo aos alunos, professores e instituições, um órgão geralmente centralizado (em oposição ao "mercado") que impõe as normas e regras. É uma verdade óbvia que não pode melhorar o que não é medida e este é a justificativa das avaliações geralmente dada. Neste cenário é óbvio que é de extrema importância o que é medida e qual a correlação com um suposto "valor intrínseco" do sujeito sob estudo.

Não precisamos entrar em considerações epistemologicas sobre o perigo de essencialismo e outras tentativas de classificar elementos de realidade em hierarquias ou classes eternos. É claro que valor intrínseco depende de contexto e que avaliar é necessariamente um processo subjetivo.

Mais do que isso: muitas vezes (quando tem gente involvido) avaliar implica num comprometimento moral do avaliador com o avaliado. Em vez disso, muitas vezes temos avaliações numéricas, uni-dimensionais e usadas para fins de ranqueamento por burocratas preguiçosos e covardes (porque não querendo se comprometer com uma avaliação real do valor intrínsico do sujeito, se escondem atrás de um número supostamente objetivo que refletiria o valor intrínseco do sujeito).

Infelizmente, desde algumas décadas, instituiu-se um clima intelectual (consenso?) que avaliações somente deviam ser feitas de uma maneira quantitativa e "objetiva", em particular, por meio de testes padronizadas. Um exemplo é o movimento para "evidence based medicine", que na sua forma radical diz que a única forma válida de fazer medicina é baseado em estudos clínicas controlados, double blind, grupos de controle, etc. Parece uma posição óbvia - quem não quer se basear em evidências bem testadas - mas negar a validade de qualquer outra maneira de fazer ciência (estudos de caso, pesquisa qualitativa) é um equivoco muito grande acerca de o que é evidência e como a ciência progride.

Um outro exemplo é na educação. No início deste século o Bush instituiu nos EUA o programa No Child Left Behind, uma lei que atrela financiamento das escolas aos resultados em testes padronizados. No âmbito das políticas públicas (talvez nem tanto na academia), institui-se novamente um clima intelectual em que somente determinadas metodologias são aceitas: What Works, é o slogan.

Para uma outra visão crítica acerca de avaliações no âmbito da educação, veja alguns posts do Andre: A meritocracia educacional - Estudante vs Professor e A meritocracia educacional - A atividade do professor

Enade

No Brasil, a Enade (antigo Provão) é um dos ingredientes do sistema de avaliação da educação superior, o SINAES, que visa avaliar as instituições, os cursos e o desempenho dos estudantes. A avaliação dos cursos dos IES (Instituições de Ensino Superior) é feito por meio de testes padronizadas aplicados aos ingressantes e concluintes dos cursos (a Enade) mas também 

"pelas comissões de avaliadores designadas pelo Inep [que se caracterizam] pela visita in loco aos cursos e instituições públicas e privadas e se destinam a verificar as condições de ensino, em especial aquelas relativas ao perfil do corpo docente, as instalações físicas e a organização didático-pedagógica."

De uma forma geral, as instituições públicas são em favor de avaliações mais amplas e abrangentes e as instituições particulares são em favor das avaliações numéricas que a Enade faz. Sem entrar ainda discussão do mérito do Enade ou o que mede e qual a relação com a qualidade de cursos, é interessante ver alguns resultados.

Resultados do Enade

A prova é aplicado a uma amostragem (calculado para dar incertezas adequadas) de ingressantes e concluintes de um determinado curso. Tem 7 até 10 questões sobre conhecimentos gerais (2 ou 3 discursivas) e 20 ou 30 questões sobre conhecimentos específicos do curso.

Veja os resultados das parte conhecimentos gerais de 2007 para Agronomia (escolhido arbitrariamente, veja todos os relatórios de 2007). A média de notas se deslocou de 49 para 56, ou 0.4 desvio padrão [Veja embaixo com interpretar este deslocamento].

Me parece um ganho extremamente pequeno para 4 anos de estudos. Pelo menos para os conhecimentos específicos as diferenças são maiores: a média foi de 38 para 54 ou 1 desvio padrão. Mesmo assim, um desvio padrão! É só isto que quatro anos de educação faz?

Estas distribuições são das notas sobre todos os alunos do pais inteiro. É uma possibilidade que existem instituições de ensino que elevam desempenho dos seus alunos muito mais do que outros. Felizmente, a Enade disponibiliza alguns dos dados brutos. Em particular, temos as médias das notas de cada instituição de ensino. Veja a distribuição das diferenças entre as médias dos concluintes e ingressantes, dividido pelo desvio padrão da distribuição de todos os alunos (16 pontos).

De fato, a distribuição é ou pouco larga (média 1.1, desvio padrão 0.4), mas o fato permanece que a grande maioria das instituições não conseguem elevar o desempenho dos seus alunos mais do que um desvio padrão.

Uma última análise, o histograma das médias das instituições da prova de conhecimentos gerais:

Vemos que o desvio padrão da média das médias não é de longe menor por um fator raiz de 20 ou 30 do que o desvio padrão da população inteiro. Acho que isto quer dizer que, como esperado, os alunos não se distribuim aleatoriamente sobre as instituições do país. Os melhores alunos devem se agregar em determinadas instituições enquanto os piores alunos se agregam também, levando a esta larga distribuição das médias das instituições.

Finalmente, veja o caso da Licenciatura em Física, 2005 (todos relatórios de 2005). O deslocamento da média foi de 23 até 29 ou 0.4 desvio padrão. Estes dados precisam ser tomados com cuidados, porque nesta prova houve muitos alunos que entregaram a prova em branco. Mesmo assim, entre os que fizeram uma tentativa, novamente é muito pequeno a diferença entre ingressantes e concluintes.

Intermezzo: interpretações do tamanho de efeito

Para quem está acostumado com distribuições de valores é útil expressar o resultado de uma intervenção experimental em termos de quantos desvios padrão a média do grupo tratado difere da média do grupo de controle. Mas para o resto de nos, é necessário interpretar estes valores em termos mais familiares.

A primeira observação importante é que ao ouvir afirmações do tipo "uso de tecnologia de rede melhora os resultados educacionais e o tamanho do efeito é 0.34" devemos evitar as nossas tendências  essencialistas. A afirmação não quer dizer que todos os alunos do grupo "tratado" se beneficiaram. Somente quer dizer que pegamos aleatoriamente 2 alunos de cada grupo, há um chance de 60% que o aluno do grupo tratado fez melhor do que o aluno do grupo não tratado (se não houver efeito, as chances seriam 50%). Para um tamanho do efeito de um desvio padrão, as chances seriam 76%. [Estas contas dependem da normalidade das distribuições.]

Uma outra maneira de criar intuição sobre tamanhos de efeito é comparar eles com efeitos familiares: um efeito de 0.2 desvio padrão é a diferença entre a altura de meninas de 15 e 16 anos (provavelmente imperceptível: conseguira distinguir um grupo de meninas de 15 anos de um de 16 anos?). A diferença de altura entre meninas de 13 e 18 anos é 0.8 desvio padrão. Estudos sobre intervenções educacionais raramente relatam efeitos de mais do que 1 desvio padrão e é muito mais comum encontrar valores menor do que 0.5.

Discussão

O que quer dizer o fato que há tão pouca diferença entre ingressantes do ensino superior e os concluintes? Me parece ter duas principais explicações

  1. O nosso ensino superior de fato é muito ineficaz, o modelo de "transferência" de conhecimento e aulas expositivas é falido, os professores e instituições fingem que ensinam e os alunos fazem de conta de aprendem, já que somente estão interessados na função credenciamento da instituição, não na aprendizagem em si.
  2. As provas da Enade não medem direito o que alunos aprenderam e o real valor agregado das instituições de ensino.

Um ponto positivo é que se é verdade que incorporar um pouco de tecnologia de informaçao e comunicação nas suas aulas pode dar uma melhora de 0.34 desvios padrão nos resultados, então estas medidas muito simples e baratas podem melhorar o nosso ensino o equivalente de 1 ou 2 de estudos!

Finalmente, a USP deve participar do Enada? A USP e Unicamp alegam que não precisam participar da Enade porque fazem parte do sistema educacional do Estado e devem ser avaliados pelo Estado. Mas isto obviamente é um argumento meramente formal. O que impede realmente a USP participar? O fato óbvio é que não é do interesse de ninguém que está no topo (ainda que seja só na percepção) de participar numa avaliação: só pode perder! Por outro lado, a USP não faz parte do Brasil? Porque aplicariam regras diferente?

Argumentos a favor: a USP não está acima da Lei, uma avaliação dos cursos da USP pode levantar dados interessantes. Também, a USP deve participar justamente para pressionar as faculdades particulares se adequar em termos de números de doutores, equipamentos etc.

Acho que o argumento mais sério contra a participação da USP da Enade é que se acreditamos que a Enade é uma avaliação fundamentalmente equivocada, então a participação da USP não deveria conferir crédito e valor neste exame. Neste argumento, a USP deve usar o seu poder de barganha e posição no cenário intelectual para pressionar para um exame melhor. Se de fato, a minha segunda interpretação é válida - a prova não mede o que importa - então esta seria uma posição razoável.

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Julho 01, 2009

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Postado por Ewout ter Haar

Agora que ensino a distância e Univesp viraram assunto político, fica cada vez mais difícil discutir tecnologia educacional de forma racional. E isto é uma pena, porque políticas públicas e gestão universitário devem se basear em debates e argumentações ricas em detalhes, ressalvas, incertezas e não em slogans e idéias uni-dimensionais.

Assim, a apresentação recente de um relatório sobre ensino em rede (online) vem numa hora boa. O estudo "Evaluation of Evidence-Based Practices in Online Learning: A Meta-Analysis and Review of Online Learning Studies" faz parte de uma grande quantidade de relatórios publicados pelo ministério de educação dos EUA e é uma ótima introdução para quem se interessa discutir o uso de tecnologia de rede no ensino.

Para mim, uma das contribuições do relatório mais úteis é a estrutura conceitual apresentada para situar vários tipos de ensino apoiado por tecnologia de rede. Nesta estrutura conceitual o uso de uma determinada tecnologia pode se situar num espaço definido por três eixos:

  1. Completamente a distância versus complementar ao ensino presencial. Um exemplo do primeiro seria um curso dado por meio de vídeo-aulas e um exemplo do segundo a disponibilização via Web de notas de aulas de um curso presencial.
  2. Ensino expositivo versus aprendizagem ativa versus colaborativa. Como é o processo pedagógico? Informação pode ser transferido a um aluno passivo (por meio de um vídeo-aula, um livro, um professor), ou o aluno pode aprender algo ativamente interagindo com algum artefato digital (uma animação interativa) ou uma rede de alunos podem construir conhecimento colaborativamente (tecnologia de rede que facilita interações entre alunos e professores).
  3. Síncrone versus a-síncrone. As interações entre educadores e alunos pode ocorrer em tempo real (simultaneamente) ou após um intervalo de tempo, controlado pelo aluno. Vale lembrar que com a multitude de meios de comunicação modernas (email, chat, twitter, voip, video-conferência, etc.) isto é um verdadeiro espéctro contínuo hoje em dia.

Esta estrutura, por mais simplificado que seja, é uma melhoria imensa a dicotomia simplória "educação a distância" vs "ensino presencial". Em debates sobre "ensino a distância" é preciso deixar claro do o que estamos criticando ou apoiando.

Agora podemos formular uma pergunta, dentro do contexto desta estrutura conceitual: dado um determinado uso de tecnologia educacional (digamos, um curso completamente dado a distância, usando vídeo somente de forma expositiva e a-síncrone), então como os resultados educacionais se comparem com um grupo de controle que é submetido a um ensino tradicional?

Vejam as dificuldades extremas deste tipo de pesquisa: é difícil manter a condição ceteris paribus no grupo de controle, tem as dificuldades das avaliações quantitativas: como medir um eventual melhora de "resultado educacional", os efeitos estudados tem que ser forte suficiente para se destacar em cima das variações normais entre alunos, os grupos tem que ser grandes suficientes para ter estatística razoável, etc. etc.

O relatório faz uma meta-análise de 99 estudos quantitativas, a maioria feitos após 2004. Se limita a estudos  que avaliaram os efeitos de tecnologia educacional de rede (baseada na Web, na sua grande maioria). Foram extraídos dos estudos os resultados de dois tipos de comparação: primeiro, entre ensino preseencial e online e segundo, entre ensino presencial e blended learning (incorporando elementos online, de forma complementar). 

Resumindo os resultados: na primeira categoria, um melhora muito pequeno, quase imperceptível foi observado (effect size de 0.14), na segunda categoria, observou-se uma melhora (effect size de em média 0.34) pequena. Ou seja, segundo estes estudos, ensino incorporando componentes de tecnologia de rede não piora e até melhora um pouco o desempenho acadêmico dos grupos estudados.

Uma ressalva que o relatório deixa muito claro é que não podemos concluir que "a Web" ou a mídia em que o proceso pedagógico ocorre foi a causa dos pequenos melhorias (ou até mesmo está correlacionado com elas), porque o tempo de estudo e outras oportunidades não foi mantido igual nos grupos estudados. Na verdade, é sugerido que as classes onde tecnologia educacional era empregado também variavam nas outros dimensões da estrutura conceitual discutido acima, em particular o processo pedagógico e o tempo de estudo: os alunos podem ter sido simplesmente mais bem motivado ou ter estudado por mais tempo ou de formas alternativas.

Finalmente, é impressionante, para quem não está acostumado com este tipo de pesquisas (como eu), como os efeitos observados são pequenos. Um "effect size" de 0.34 quer dizer que a média dos resultados do segundo grupo é deslocado 0.34 desvio padrão para cima comparado com a média do primeiro grupo. Para visualizar isto, veja estas duas gaussianas:

Isto significa que um aluno aleatório do segundo grupo tem uma chance de uns 60 em 100 de fazer melhor do que um aluno aleatório do primeiro grupo. É um pouco melhor do que 50 em 100, mais não muito. O fato, óbvio na verdade, é que não existe uma maneira mágica de melhorar o ensino magicamente por um fato 2 ou 3. Tem tanto inércia, tantos fatores envolvidos, que é irrealista esperar por grandes efeitos.

Mas estudos deste tipo pelo menos apontam a direção em que precisamos ir, mesmo com passos pequenos. Seria irresponsável não introduzir o uso de tecnologia de rede nas nossas salas de aula.

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Janeiro 08, 2008

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Postado por Ewout ter Haar

Na universidade ainda há pouco reconhecimento da importância da Web. Nos cursos de criação a ênfase é em ferramentas visuais e habilidades gráficos. Nos cursos de ciência de computação ou engenharia da computação ainda reina a velha tecnologia Java que vê aplicativos Web como meros interfaces de usuário. Na verdade a filosofia Web representa uma mudança fundamental na arquitetura de sistemas, mudanças que inevitavelmente demoram para ser incorporadas na cultura da Universidade.

Aqui, quero fazer o argumento que o domínio das tecnologias Web, de maior ou menor profundidade, hoje em dia é essencial para educadores em particular e na verdade para qualquer pessoa querendo participar das conversas e debates da nossa sociedade de hoje.

Técnicas básicas de como divulgar informação pela web ainda são muito pouco conhecidas. Saber fazer marcação simples com HTML, apresentação visual básica com CSS, algumas melhorias de interface com Javascript não deviam habilidades somente de profissionais da Web. Para participar nas conversas cada vez mais online e assim exercer a sua cidadania é necessário ser pelo menos um pouco fluente nas linguagens da Web. Com tecnologias como blogs e wikis a participação de cada vez mais indivíduos foi facilitada e isto é uma coisa boa.

Mesmo assim, um conhecimento mais profundo das tecnologias envolvidas é desejável para profissionais de informação como educadores. Este conhecimento deve incluir os aspectos mais práticos e técnicas de desenvolvimento Web. É necessário ensinar os princípios de engenharia de front-end (a parte do sistema diretamente voltado ao usuário), envolvendo webdesign, aspectos de acessibilidade, de usabilidade e de arquitetura de informação.

Mas é muito bom conhecer também as técnicas no lado do servidor. A democratização que a Web habilita não se refere exclusivamente a possibilidade de qualquer um disseminar ou consumir texto e material audiovisual na Web. Se refere também ao fato que hoje em dia qualquer um pode instalar com facilidade o seu próprio servidor, o seu próprio sistema de gerenciamento de conteúdo, o seu próprio blog, wiki ou software de colaboração via Web. Serviços que uma década atrás ainda requeriam milhões de reais de investimentos agora podem ser oferecidos via o desktop no escritório. E é nessa revolução tecnológica que os nossos educadores tem que participar.

No currículo de educadores devia constar conhecimentos básicos de tecnologias Web como os princípios de linguagens de marcação, estilos, Javascript, conceitos novos na área de informação como tags, a web semântica, o uso de tecnologias como servidores web, bases de dados, software de desenvolvimento rápido de sites de
gerenciamento de conteúdo como Drupal, Plone ou software de desenvolvimento rápido de aplicativos Web com Ruby on Rails ou Django, linguagens modernas de programação como Ruby ou Python, a combinação de serviços Web para criar novos serviços.

Um outro exemplo de conhecimentos necessários não é técnico mais legal. No mundo digital onde é muito fácil e até natural de copiar,compartilhar e re-distribuir informação são necessários acordos e regras diferenciados para fazer isto de uma maneira legal e seguro. Para produtores de conteúdo, é importante conhecer estas questões e como poderiam ser resolvidas.

Um exemplo de uma solução são as licenças Creative Commons, introduzidos aqui no Brasil pelo FGV. São licenças intermediárias entre os direitos autorais convencionais e o domínio público. São escritos para o mundo digital, permitindo a autores e produtores um leque de opções legais com que podem especificar explicitamente como querem compartilhar o seu trabalho com o mundo.

O uso de técnicas da Web aberta, pública e padronizada é a maneira apropriada de disseminar qualquer produção intelectual e material didático em particular. Ao meu ver, o jeito errado é guardar conteúdos em chamados "repositórios", quando estes repositórios são fechados em vários sentidos, seja legalmente ou tecnicamente. Devemos ensinar a futura (e atual) geração de educadores e pesquisadores a importância da divulgação e preservação digital da sua produção intelectual, de liberar e deixar acessível o seu conteúdo, usando a Web aberta.

Palavras-chave: educação, web

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