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junho 24, 2009

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Postado por Ewout ter Haar

Sempre é bom ver as novas tecnologias de rede e ferramentas de colaboração em ação. Veja a votação sobre a greve na USP, organizado pelo Anderson. Usando tecnologia "off the shelve", conseguiu montar uma votação e atraindo milhares de participantes. Porém, não podemos levar a sério o resultado, por motivos interessantes. Há um problema fundamental de confiança.

Não duvido a honestidade do Anderson e aparentemente está fazendo um bom trabalho filtrando votos duplicados e inválidos. Gostaria saber como está validando números USP e emails, mas suponhamos que isto está tudo certo. Uma coisa muito interessante é que ele disponibiliza os dados brutos (anomizados), o que de fato é essencial para transparência. Por exemplo, isto permite comparar a frequencia de ocorrência de letras dos nomes dos votantes (usei somente os votantes designado "válido") com as frequencias no Stoa e na USP, e aparentemente não há problema nenhum (me inspirei neste post sobre as eleções iranianas para fazer este análise).

 

Mas tudo isto não importa: o problema fundamental é que o Anderson é declarademente contra a greve. E isto é um problema gravíssimo, porque fundamentalmente, precisamos confiar no Anderson para relator o resultado corretamente, não mudar votos, etc. etc. Não importa o que Anderson de fato faz! Não importa o fato que podemos checar ("auditar") os resultados. Há um problema de percepção. Acredito que ele é nada senão perfeitamente honesto. Mas a mera existência da possibilidade de fraude, a mera desconfiança de parcialidade, já invalida o processo inteiro, porque quem é a favor da greve não há nada a ganhar votar a favor. A mera percepção que é uma votação feito por alguém "do outro lado" vai inevitavelmente afastar os potencais votantes. E isto vai fazer com que os anti-grevistas serão representados desproporcionalmente.

Votação é um problema grave. Em vários sentidos, técnicos e sociais. Comunidades como Wikipedia ou o IETF tentam ativamente evitar votações, em favor da busca de consenso, usando votação somente em última instância

We reject: kings, presidents and voting.
We believe in: rough consensus and running code.

Democracia direta parece uma coisa obviamente boa, mas não é a toa que a maioria das democracias do mundo usam alguma forma de um sistema de representantes. Retoricamente, poderia falar que obviamente não queremos votar para decisões técnicas como que tipo de cimento usar para uma ponte. O ponto é: 

Agora, na USP nem democracia comum tem, seria um choque muito grande implementar qualquer tipo de democracia direta. Mas obviamente não nego que em alguns casos seria interessante usar as possibilidades tecnologias nova. No caso do DCE, Sintusp Adusp etc., a questão de representativade é de fato questionável e algum sistema de consulta a comunidade seria muito útil.

Mas como falei: isto deve ser feito de uma maneira séria para ter credibilidade. Existe uma literatura grande sobre votações eletrônicas (a maioria apontando justamente as dificuldades e questões de segurança). Concordo que se seria legal fazer na USP, mas tem que ser feito por um grupo de pessoas isentos e tecnicamente competente. Dizer que é "simples", que qualquer um faz com ferramentas livremente disponível na Internet, etc. etc. é errado. Geralmente sou o primeiro a dizer que iniciativas inovadores na area de ICT devem ser implementados com mais agilidade, mas neste caso, estou com aqueles que pisam no freio. Votar, democracia e decisões da ordem política (no sentido de polis, políticas públicas etc.) devem ser tratados com o devido cuidado.

[Em tempo : instalei o sofware limesurvey no nosso servidor de desenvolvimento. É um software complicado de usar, mas um das funcionalidades é de fazer pesquisas anônimas mas fechados para um determindado público alvo. Não soluciona o problemas acima de credibilidade, mas se alguém quiser experimentar, entre em contato que dou uma conta de administador e podemos pensar como integrar isto ao Stoa.]

Postado por Ewout ter Haar | 7 usuários votaram. 7 votos

Comentários

  1. Tiago Almeida escreveu:

    Dezenas de jornais veicularam notícias que diziam OS ALUNOS DA USP ESTÃO EM GREVE com base nessa pesquisa - repito, com base nessa pesquisa.

    Nenhum deles fez uma análise profunda do problema de se confiar nesse mecanismo como o fez o prof. Ewout. Se algum deles fez tal análise e mesmo assim publicou o resultado, foi desonesto.

    O ideal seria haver espaço para publicações em todos esses jornais abordando as questões levantadas até então sobre a validade da interpretação sobre essa pesquisa, ocupando o mesmo espaço da notícia que equivocadamente ditou a postura dos alunos com base na pesquisa.

    Seria ideal mas é inviável. É inocência acreditar que Reinaldo Azevedo, um dos cancros do jornalismo atual, daria um direito de resposta em suas publicações.

    Tiago AlmeidaTiago Almeida ‒ quinta, 25 junho 2009, 12:12 -03 # Link |

  2. Oda escreveu:

    Oras, sem querer ser otimista ao extremo, assinaturas digitais me parecem a saida natural para o problema da credibilidade.

    De todo modo, me parece que ainda assim a garantia de anonimato vai depender de quem promove a votacao e um possivel auditor vai precisar saber quem votou em que.

    As duas coisas me parecem bem naturais e praticamente impossiveis de se evitar... Acho que ate sou capaz de demonstar que uma auditoria so pode ser feita com quebra de anonimato ;)

    Se as pessoas nao gostam da ideia de ter uma CA da USP, podem comprar um e-CPF por 100 paus por ano:

    http://www.certisign.com.br/produtos-e-servicos/certificados-digita

    Eu fico aqui ansioso para ter uma justificativa para comprar o meu! rsrs

    Ewout, agora uma coisa bem offtopic: nao pude deixar de notar que seu portugues melhorou muito! Legal!

    OdaOda ‒ quinta, 25 junho 2009, 12:36 -03 # Link |

  3. Antonio Candido escreveu:

    Quando a sondagem do Anderson foi divulgada pelo diretor da minha unidade pela rede interna de comunicações oficiais com o título "Os alunos da USP são contra a greve - Pesquisa Eletrônica", tive que fazer algumas considerações que o Ewout faz aqui, mas também levantei outros aspectos:

    A "pesquisa" em questão não é randômica, então não pode ser lida como
    representativa, a não ser que a totalidade do universo potencial (toda a
    comunidade USP) respondesse.

    Como a pesquisa depende de divulgação boca a boca e de participação
    espontânea, a participação pode ser não proporcionalmente representativa.

    Outro aspecto a ser lembrado é o a formulação da perguntas. É fato sabido que
    em pesquisas de opinião o resultado depende do fraseamento e enquadramento contextual das perguntas. Veja o cuidado tomado pelo elaborador da pesquisacom relação à opinião sobre a presença policial no campus:
    "Esta pergunta não é referente às ações da PM, mas sim a PM estar dentro do
    campus ou não pelos "MOTIVOS ALEGADOS PELA REITORA DA USP""

    Poderia-se ter perguntado: você é a favor a violência policial dentro da USP?
    Com este fraseamento provavelmente a resposta seria outra. Coisa primária.

    Antonio C. C. GuimarãesAntonio Candido ‒ quinta, 25 junho 2009, 12:39 -03 # Link |

  4. Oda escreveu:

    Tiago, coloquemos as coisas de outro modo. Vc acha que o Anderson eh um sacana? Claro que existe essa possibilidade, mas eu atribuo uma probabilidade baixa a isso, digamos 0.05, justo?

    Entao temos:

    H0: A votacao foi honesta

    H1: A votacao nao foi honesta

    Eh facil ver que P(H0 | H1) = P(Anderson=sacana) = 0.05, o que eh aceitavel para o erro tipo 2 para a maioria das pessoas do mundo ;)

    Brincadeiras a parte, acho que vc esta exagerando um pouco. De todo modo, sendo honesto ou nao o resutado, depois de alguma reflexao podemos concluir o trivial: deveriamos ir as assembleias...

    OdaOda ‒ quinta, 25 junho 2009, 12:50 -03 # Link |

  5. Oda escreveu:

    Antonio, tb considero sua colocacao muito pertinente, principalmente quando vc se refere as questoes semanticas.

    Mas veja, ainda assim podemos afirmar com probabilidade alta de acerto que: "alunos da USP, com acesso a internet, que gastam algum tempo para se informar sobre a greve (mesmo que minimo), que formam opniao sobre o assunto e que desejam expressa-la, sao, em sua maioria, contrarios a greve".

    Isso ainda parece pouco?

    OdaOda ‒ quinta, 25 junho 2009, 12:57 -03 # Link |

  6. Leonardo de Oliveira Martins escreveu:

    Apenas alguns comentários rápidos, que talvez pareçam desconexos (preciso pensar mais a respeito):

    -  A "votação" do Anderson na verdade é uma enquete/pesquisa de opinião. Adotar políticas baseadas nessa enquete é, sim, problemática, mas não é esse o objetivo dele.

    - A sua transparência está também em explicitar sua opinião pessoal, ponto prá ele. Assim como veículos de comunicação e centros de pesquisa de opinião em democracias maduras ("disclosure" de conflitos de interesse, por exemplo). A imparcialidade é uma panacéia, que pode ser usada para ocultar os interesses.

    - Qualquer sistema de inferência pode gerar desconfiança, desde uma votação online, petições, assembléias e até o processo eleitoral. Creio que a imparcialidade seja atingida como o produto de várias "parcialidades" (ou seja, diversidade de fóruns etc).

    - comparando com as assembléias da USP: existe o problema da credibilidade em ambos, existe viés participativo em ambos, existe a ineficácia de auditorias em ambos. Mas em todos esses aspectos um sistema eletrônico e transparente leva vantagem sobre o modelo atual das assembléias.[1]

    -  Há o problema do "framing", como comenta o Antônio. Mas sabendo as perguntas que foram feitas, e se forem bem formuladas, não há problema. O problema são as pesquisas de opinião que interpretam as respostas, normalmente quando formulam um grupo de perguntas para responder algo implícito (e.g. percepção de racismo, survey analysis). Como a interpretação que ele escreveu em caixa alta. Sim, as respostas à pergunta original e à reformulada pelo Antonio seriam muito distintas (espero :) porque representam coisas distintas. O que seria inadmissível é, por exemplo, usar o fato de que todos rechaçam a violência policial como argumento para a retirada da PM. O non sequitur é assumir que presença policial é igual a violência policial. Ainda, "Quem é a favor da educação de qualidade levanta a mão!" não é uma votação séria (eu posso usá-la tanto para impichar a reitora como para mandar embora os faltantes).

     

     [1] havia visto aqui um comentário sobre a manipulação das assembléias, mas não acho agora.

    PS: Ewout, quando previsualizo o post, o botão de "denunciar" fica tentadoramente perto de onde deveria estar o "enviar comentário". Talvez só eu seja assim tosco, mas é possível pensar em outro lugar prá esse botão? (e.g. junto/abaixo de "votar", ou do lado direito...)

    Leonardo de Oliveira MartinsLeonardo de Oliveira Martins ‒ quinta, 25 junho 2009, 15:44 -03 # Link |

  7. Benedito Ubirata da Silva escreveu:

    Boa professor, independente das questões de qualidade tecnológica dos algoritmos, valeu lembrar que Semiótica faz parte sim, do trabalho de quem mexe com computação. Ainda mais com a GUI estabelecida em quase todos os trabalhos.

    O ícones colcoados, as cores, seus signficados acho que dá uma boa influÊnciada no final de um pedido de intervenção dos pensamentos públicos numa votação. 

    Boa observada.

    Isso é legal, porque mostra que o senhor foi imparcial na analise do trabalho, mostrando até uma possível tendenciosidade, mesmo não se querendo ela.

    Boas

    Paquita

    default user iconBenedito Ubirata da Silva ‒ sexta, 26 junho 2009, 06:13 -03 # Link |

  8. Eduardo Francisco Junior escreveu:

    Acho que está se fazendo desta enquete algo que ela de início não pretendia ser. Nem conheço o cara que a fez, mas entendo que sua idéia era tentar quantificar uma impressão comum aos estudantes da USP: a maioria dos alunos não é a favor da greve.

    Embora esta impressão seja generalizada, nunca houve um dado para confirmá-la ou negá-la afora as questionáveis assembleias.O cara poderia ficar criticando a situação e não fazer nada, mas não, teve uma ideia interessante e a implementou. Como esta questão é muito relevante e não havia ainda sido abordada, a enquete ganhou uma importância inesperada, chegou à mídia, gerou polêmicas, etc.

    É claro que a enquete, como qualquer enquete, não tem valor estatístico. Só serve para dar uma ideia fugidia do que estaria acontecendo. Mas é inegável que esta iniciativa foi extremamente positiva e só não entendi porque ainda não se realizou (seja por parte das organizações favoráveis à greve, seja por parte das organizações contrárias) uma pesquisa mais séria.

    Eduardo Francisco JuniorEduardo Francisco Junior ‒ sexta, 26 junho 2009, 12:53 -03 # Link |

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