Stoa :: Helder Gonzales :: Blog

Outubro 09, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

As pessoas magnéticas são como ímãs. Atraem ou repelem as demais de acordo com sua polaridade. É sempre fácil se achar grudado a uma dessas pessoas ímã. O grande risco, no entanto, é ela inutilizar sua bússola e te fazer perder o Norte.

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Outubro 08, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

E foi então que apareceu a raposa:

- Boa dia, disse a raposa.

- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.

- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...

- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...

- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

- Ah! desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?

- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?

- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?

- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?

- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."

- Criar laços?

- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...

- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...

- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

- Num outro planeta?

- Sim.

- Há caçadores nesse planeta?

- Não.

- Que bom! E galinhas?

- Também não.

- Nada é perfeito, suspirou a raposa.

Mas a raposa voltou à sua idéia.

- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.

O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:

- Por favor... cativa-me! disse ela.

- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.

- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...

No dia seguinte o principezinho voltou.

- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.

- Que é um rito? perguntou o principezinho.

- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:

- Ah! Eu vou chorar.

- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...

- Quis, disse a raposa.

- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.

- Vou, disse a raposa.

- Então, não sais lucrando nada!

- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.

Depois ela acrescentou:

- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.

Foi o principezinho rever as rosas:

- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo. Ela á agora única no mundo.

E as rosas estavam desapontadas.

- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.

E voltou, então, à raposa:

- Adeus, disse ele...

- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...

- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

O pequeno príncipe - Antoine de Saint Exupéry

Palavras-chave: antoine de saint-exupéry, cativar, laços, pequeno príncipe, raposa, responsabilidade

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 0 comentário

Outubro 06, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

 

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

default user icon
Postado por Helder Gonzales



I am honored to be with you today at your commencement from one of the finest universities in the world. I never graduated from college. Truth be told, this is the closest I've ever gotten to a college graduation. Today I want to tell you three stories from my life. That's it. No big deal. Just three stories.

The first story is about connecting the dots.

I dropped out of Reed College after the first 6 months, but then stayed around as a drop-in for another 18 months or so before I really quit. So why did I drop out?

It started before I was born. My biological mother was a young, unwed college graduate student, and she decided to put me up for adoption. She felt very strongly that I should be adopted by college graduates, so everything was all set for me to be adopted at birth by a lawyer and his wife. Except that when I popped out they decided at the last minute that they really wanted a girl. So my parents, who were on a waiting list, got a call in the middle of the night asking: "We have an unexpected baby boy; do you want him?" They said: "Of course." My biological mother later found out that my mother had never graduated from college and that my father had never graduated from high school. She refused to sign the final adoption papers. She only relented a few months later when my parents promised that I would someday go to college.

And 17 years later I did go to college. But I naively chose a college that was almost as expensive as Stanford, and all of my working-class parents' savings were being spent on my college tuition. After six months, I couldn't see the value in it. I had no idea what I wanted to do with my life and no idea how college was going to help me figure it out. And here I was spending all of the money my parents had saved their entire life. So I decided to drop out and trust that it would all work out OK. It was pretty scary at the time, but looking back it was one of the best decisions I ever made. The minute I dropped out I could stop taking the required classes that didn't interest me, and begin dropping in on the ones that looked interesting.

It wasn't all romantic. I didn't have a dorm room, so I slept on the floor in friends' rooms, I returned coke bottles for the 5¢ deposits to buy food with, and I would walk the 7 miles across town every Sunday night to get one good meal a week at the Hare Krishna temple. I loved it. And much of what I stumbled into by following my curiosity and intuition turned out to be priceless later on. Let me give you one example:

Reed College at that time offered perhaps the best calligraphy instruction in the country. Throughout the campus every poster, every label on every drawer, was beautifully hand calligraphed. Because I had dropped out and didn't have to take the normal classes, I decided to take a calligraphy class to learn how to do this. I learned about serif and san serif typefaces, about varying the amount of space between different letter combinations, about what makes great typography great. It was beautiful, historical, artistically subtle in a way that science can't capture, and I found it fascinating.

None of this had even a hope of any practical application in my life. But ten years later, when we were designing the first Macintosh computer, it all came back to me. And we designed it all into the Mac. It was the first computer with beautiful typography. If I had never dropped in on that single course in college, the Mac would have never had multiple typefaces or proportionally spaced fonts. And since Windows just copied the Mac, it's likely that no personal computer would have them. If I had never dropped out, I would have never dropped in on this calligraphy class, and personal computers might not have the wonderful typography that they do. Of course it was impossible to connect the dots looking forward when I was in college. But it was very, very clear looking backwards ten years later.

Again, you can't connect the dots looking forward; you can only connect them looking backwards. So you have to trust that the dots will somehow connect in your future. You have to trust in something — your gut, destiny, life, karma, whatever. This approach has never let me down, and it has made all the difference in my life.

My second story is about love and loss.

I was lucky — I found what I loved to do early in life. Woz and I started Apple in my parents garage when I was 20. We worked hard, and in 10 years Apple had grown from just the two of us in a garage into a $2 billion company with over 4000 employees. We had just released our finest creation — the Macintosh — a year earlier, and I had just turned 30. And then I got fired. How can you get fired from a company you started? Well, as Apple grew we hired someone who I thought was very talented to run the company with me, and for the first year or so things went well. But then our visions of the future began to diverge and eventually we had a falling out. When we did, our Board of Directors sided with him. So at 30 I was out. And very publicly out. What had been the focus of my entire adult life was gone, and it was devastating.

I really didn't know what to do for a few months. I felt that I had let the previous generation of entrepreneurs down - that I had dropped the baton as it was being passed to me. I met with David Packard and Bob Noyce and tried to apologize for screwing up so badly. I was a very public failure, and I even thought about running away from the valley. But something slowly began to dawn on me — I still loved what I did. The turn of events at Apple had not changed that one bit. I had been rejected, but I was still in love. And so I decided to start over.

I didn't see it then, but it turned out that getting fired from Apple was the best thing that could have ever happened to me. The heaviness of being successful was replaced by the lightness of being a beginner again, less sure about everything. It freed me to enter one of the most creative periods of my life.

During the next five years, I started a company named NeXT, another company named Pixar, and fell in love with an amazing woman who would become my wife. Pixar went on to create the worlds first computer animated feature film, Toy Story, and is now the most successful animation studio in the world. In a remarkable turn of events, Apple bought NeXT, I returned to Apple, and the technology we developed at NeXT is at the heart of Apple's current renaissance. And Laurene and I have a wonderful family together.

I'm pretty sure none of this would have happened if I hadn't been fired from Apple. It was awful tasting medicine, but I guess the patient needed it. Sometimes life hits you in the head with a brick. Don't lose faith. I'm convinced that the only thing that kept me going was that I loved what I did. You've got to find what you love. And that is as true for your work as it is for your lovers. Your work is going to fill a large part of your life, and the only way to be truly satisfied is to do what you believe is great work. And the only way to do great work is to love what you do. If you haven't found it yet, keep looking. Don't settle. As with all matters of the heart, you'll know when you find it. And, like any great relationship, it just gets better and better as the years roll on. So keep looking until you find it. Don't settle.

My third story is about death.

When I was 17, I read a quote that went something like: "If you live each day as if it was your last, someday you'll most certainly be right." It made an impression on me, and since then, for the past 33 years, I have looked in the mirror every morning and asked myself: "If today were the last day of my life, would I want to do what I am about to do today?" And whenever the answer has been "No" for too many days in a row, I know I need to change something.

Remembering that I'll be dead soon is the most important tool I've ever encountered to help me make the big choices in life. Because almost everything — all external expectations, all pride, all fear of embarrassment or failure - these things just fall away in the face of death, leaving only what is truly important. Remembering that you are going to die is the best way I know to avoid the trap of thinking you have something to lose. You are already naked. There is no reason not to follow your heart.

About a year ago I was diagnosed with cancer. I had a scan at 7:30 in the morning, and it clearly showed a tumor on my pancreas. I didn't even know what a pancreas was. The doctors told me this was almost certainly a type of cancer that is incurable, and that I should expect to live no longer than three to six months. My doctor advised me to go home and get my affairs in order, which is doctor's code for prepare to die. It means to try to tell your kids everything you thought you'd have the next 10 years to tell them in just a few months. It means to make sure everything is buttoned up so that it will be as easy as possible for your family. It means to say your goodbyes.

I lived with that diagnosis all day. Later that evening I had a biopsy, where they stuck an endoscope down my throat, through my stomach and into my intestines, put a needle into my pancreas and got a few cells from the tumor. I was sedated, but my wife, who was there, told me that when they viewed the cells under a microscope the doctors started crying because it turned out to be a very rare form of pancreatic cancer that is curable with surgery. I had the surgery and I'm fine now.

This was the closest I've been to facing death, and I hope it's the closest I get for a few more decades. Having lived through it, I can now say this to you with a bit more certainty than when death was a useful but purely intellectual concept:

No one wants to die. Even people who want to go to heaven don't want to die to get there. And yet death is the destination we all share. No one has ever escaped it. And that is as it should be, because Death is very likely the single best invention of Life. It is Life's change agent. It clears out the old to make way for the new. Right now the new is you, but someday not too long from now, you will gradually become the old and be cleared away. Sorry to be so dramatic, but it is quite true.

Your time is limited, so don't waste it living someone else's life. Don't be trapped by dogma — which is living with the results of other people's thinking. Don't let the noise of others' opinions drown out your own inner voice. And most important, have the courage to follow your heart and intuition. They somehow already know what you truly want to become. Everything else is secondary.

When I was young, there was an amazing publication called The Whole Earth Catalog, which was one of the bibles of my generation. It was created by a fellow named Stewart Brand not far from here in Menlo Park, and he brought it to life with his poetic touch. This was in the late 1960's, before personal computers and desktop publishing, so it was all made with typewriters, scissors, and polaroid cameras. It was sort of like Google in paperback form, 35 years before Google came along: it was idealistic, and overflowing with neat tools and great notions.

Stewart and his team put out several issues of The Whole Earth Catalog, and then when it had run its course, they put out a final issue. It was the mid-1970s, and I was your age. On the back cover of their final issue was a photograph of an early morning country road, the kind you might find yourself hitchhiking on if you were so adventurous. Beneath it were the words: "Stay Hungry. Stay Foolish." It was their farewell message as they signed off. Stay Hungry. Stay Foolish. And I have always wished that for myself. And now, as you graduate to begin anew, I wish that for you.

Stay Hungry. Stay Foolish.

Thank you all very much.

Steve Jobs

 

Palavras-chave: discurso, formatura, stanford, steve jobs

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Setembro 15, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

"vive tan de prisa que a veces se me figura que va jugando carreras con el tiempo. Acabará por perder, ya lo verá usted." Pedro Páramo - Juan Rulfo

Nascera com uma urgência de viver. Uma vontade incontrolável de beber a vida toda em um gole só.

Não sabia esperar. Como se, desde o ventre materno, entendesse que tudo o que há é, apenas e tão somente, o agora. O resto são conjecturas.

Preferia viver 10 anos a mil do que 1000 anos a 10. Impaciente, ansioso, exagerado... seu ritmo alucinante o impingia características penosas.

É verdade que toda essa gana de sugar a vida o fazia queimar etapas, chegar antes, crescer depressa. O que era bom e ruim ao mesmo tempo -- como quase tudo, aliás.

Não sabia esperar o tempo do rio, era preciso apressá-lo! Chegar logo à foz, virar mar. Nada de bordear lentamente as paragens preguiçosas. Bom mesmo é despencar depressa, feito cachoeira. 

Acontece que às vezes tudo pede um pouco mais de calma.

Correr é inútil, desgastar-se à toa. Pode até ser contraproducente.

Às vezes, simplesmente, a única coisa a fazer é esperar.

Esperar que o tempo se encarregue de fazer o trabalho que apenas ele sabe. Deve ser isso que significa a expressão "dar tempo ao tempo".

Paciência, meu amigo, paciência. Temos todo o tempo do mundo. 

Respire fundo, retire sua senha, sente-se ali e espere.

Há revistas velhas na mesa de canto. 


"You said time heals, there's not enough of it" The Chills - Peter Bjorn and John


Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 1 comentário

Agosto 30, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

ou

Da vida de Tio Ben

Quando eu era criança, minha família tinha o hábito de ir passar os finais de semana em Extrema, uma pequena cidade encravada ao pé dos morros de Minas, terra da família da minha mãe. Dentre as atividades corriqueiras desses passeios estavam a visita aos parentes, de variados graus. Um deles era o Tio Ben.

O Tio Ben era o esposo da Tia Jandira – a Madrinha. Pois o Tio Ben e a Madrinha moraravam numa casinha simples, na roça, que se conectava com o mundo apenas por meio de uma estrada de terra. No pátio, o galo correndo atrás das galinhas soltas. Na garagem - na verdade um barracão em frente à casa - um Fusca azul de tempos imemoriais. A cozinha, escura, de telhado sem forro, com o fogão de lenha sempre ardendo. Nos demais cômodos, os móveis gastos dos anos 60 e 70. A verdade é que não me lembro tão bem dos detalhes do interior da casa, já que sempre nos sentávamos todos na varanda para botar a prosa em dia, em banquinhos de alvenaria de baixa altura, que acompanhavam o perímetro da construção. Ao fundo, um desnivelado gramado com traves de madeira, que era o campinho usado pelas crianças para jogar futebol, vôlei, ou simplesmente correr, brincar de pega-pega e se sujar fartamente.

Tio Ben vestia-se sempre da mesma maneira, com camisa xadrez para dentro das calças e cortuno, enorme chapéu de palha. Abaixo do bigode branco levava pendurado seu cigarro, também de palha, cujo cheiro, misturado com o do café recém-passado, impregna minha memória dessa experiência.

Lembro-me que certa vez Tio Ben se ofereceu para transformar seu palheiro em um apito, numa tentativa de me entreter com esses brinquedos antigos que só o pessoal da roça conhece. Internamente fiquei exultante: um apito feito de palha?! Ainda mais um apito que era, na verdade, um cigarro! Mas crianças têm vergonhas inexplicáveis, sobretudo as da cidade. E, tendo gravado em meu sistema operacional todo o discurso responsável dos pais modernos, de que cigarro é veneno, por via das dúvidas, recusei o presente, para posterior arrependimento.

Os homens adultos, depois de certo tempo de conversa, percebendo o tédio que todo aquele falatório sobre parentes representava para as crianças, se ofereciam para levá-las por algum passeio pelo sítio, enquanto as mulheres seguiam com a prosa na varanda. As opções eram ir ver o poço, ir ver a bica, ir ver a lagoa, ir ver o galhinheiro, ir ver o bambuzal, ir ver o pasto... Pensando bem, talvez eles aproveitassem o pretexto de levar as crianças passear para também escapar do papo das comadres e poder, enfim, ter conversas de homem. Olha como a represa encheu, está boa pra pescar. Na volta, ganhávamos bolo, ou doce de figo em calda, e uma xícara de café quentinho.

Diz-se que, apesar de seu estilo de vida simples, Tio Ben era um homem rico, herdeiro de muitas terras. Não tenho qualquer ideia sobre a extensão ou valor das propriedades do Tio Ben. Só sei que as tinha. Como também sei que isso não tinha qualquer efeito sobre seu cotidiano. Vida campestre, sem qualquer luxo ou ostentação.

Na casa de Tio Ben o tempo parecia parado. Tudo transcorria no tranquilo ritmo do campo. Sem pressa, sem correria, sem novidades. A vida daquele casal não incluia trocar de telefone e de carro a cada ano, não incluia atualizar o facebook a cada 10 minutos, não incluia checar os e-mails, pessoais e do trabalho. Nada de deadlines. Imagine isso: dead-line, linha da morte! Não, não, nada disso!

Não me entendam mal. Eu sou um ser da cidade. Amo as grandes metrópoles. Sou daqueles paulistanos que dizem que morreriam de tédio se tivessem que passar sua vida em algum vilarejo perdido no mapa. Sou da geração Y, da tecnologia, da velocidade.

Mas tem dias em que me canso dessa correria moderna toda. Dá vontade de fugir. Fugere urbem. Viver como o Tio, bem.

 

Palavras-chave: fugere urbem, geração Y, vida campestre

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 4 comentários

Julho 13, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Pois é, amigos, esse blog não se chama 'O Metalinguista' à toa. Algumas das minhas viagens na maionese mais recorrentes são sobre etimologia. Frequentemente, me pego comparando palavras, pensando em equivalentes em outras línguas e tentando traçar a árvore genealógica dos vocábulos. Fico procurando entender como os significados e a forma de falar e de escrever vão se transformando ao longo dos séculos, buscando decifrar a história escondida atrás dos nossos idiomas.

Estava andando em Santiago, quando vi alguma referência a uma certa rua Merced, que me pôs a pensar sobre o significado dessa palavra, que também é usada como nome, Mercedes

A primeira coisa que me veio à mente foi que o equivalente em português é mercê. Não é uma palavra lá muito usada, a não ser na expressão 'estar à mercê de' que significa, basicamente, estar dependente de algo ou alguém. Outro registro da palavra, em português, é o famoso e caduco pronome de tratamento Vossa Mercê, que é o tataravô do Você. Em espanhol, aliás, havia o Vuestra Merced, que originou o Usted. 

[Aqui uma pausa para digressão.] Sempre me pareceu estranho que um pronome claramente usado para dirigir-se à segunda pessoa seja acompanhado de verbos conjugados na terceira pessoa. Bom, antecipando um pouco as coisas, mercê significa, basicamente, graça, Vossa Mercê, portanto, Vossa Graça.

Quando alguém diz, por exemplo, "Você vai ao cinema?", está dizendo "Vossa graça vai ao cinema?" -- o sujeito da oração é "vossa graça" (ela). Apesar de parecer estar na segunda pessoa (por causa do Vossa), a oração está construída na terceira pessoa (ela). O vossa, aí, é pronome possessivo, que é, na verdade, um adjetivo  -- como os gramáticos de outras línguas bem notaram: possessive adjectives, no inglês, por exemplo, 'your grace' - diferente do possessive pronoun, yours. Fica mais fácil de perceber a terceira pessoa simplesmente suprimindo o pronome (adjetivo) possessivo, e colocando um artigo definido no lugar: "a graça vai ao cinema?".

Muito bem, é uma maneira de denotar respeito, de não se dirigir diretamente ao interlocutor, que é visto como alguém superior, da mesma forma como usamos "Vossa Excelência" até hoje. [Fim da digressão.]

Bueno. Mercê vem do latim, mercéd, que, originalmente significava salário, pagamento, recompensa. Uma palavra derivada, usada até hoje, que guarda relação com esse sentido original é mercenário - soldado que se oferece para servir mediante pagamento, aquele que trabalha por salário. 

Acontece que os primeiros cristãos do Império Romano passaram a usar a palavra de maneira distinta -- significando a recompensa espiritual dada por Deus aos não merecedores, equivalente ao grego charis. A merced passa a ser sinônimo de graça. A ideia aqui é de favor, de ação sem contrapartida, grátis. 

Esse sentido é próximo ao usado hoje em inglês para a palavra mercy, que pode significar compaixão, graça ou misericórdia.

No francês, merci ganhou um uso mais específico -- o de expressar gratidão, dar graças a um favor -- equivalente ao nosso obrigado. Curioso que, em outras línguas neolatinas, as palavras para isso são justamente gracias, em espanhol, e grazie, em italiano. A ideia parece ser a mesma do sentido dado pelos primeiros cristãos -- expressar reconhecimento e agradecimento a um favor não merecido, que é feito sem contrapartida, sem pagamento, de graça. 

De certa forma, sempre que agradecemos -- em francês, espanhol ou italiano -- estamos reconhecendo que não merecemos, que não pagamos pelo favor, que não houve contrapartida, que ele foi grátis -- e esse reconhecimento é um ato de rendição graças (thanksgiving) ao benfeitor. Gratidão parece estar associada, assim, à noção de gratuidade.

Palavras-chave: etimologia, graça, gracias, grátis, grazie, mercê, merced, merci, mercy, ustedes, você, vosmecê, vuestra merced

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 2 comentários

Abril 28, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Não faltam, na históra do rock, casos de mortes prematuras, frequentemente em decorrência de abusos, que encerram precocemente carreiras brilhantes.

Mas é ainda mais intrigante e triste quando jovens promissores perdem suas vidas estupidamente, entrando para a história talentos promissores que não tiveram tempo de desenvolver seu trabalho.

Esse foi o caso de Randy Rhoads e de Jeff Buckley, que conto brevemente nesse post.

Randy

Na virada dos anos 70 pros 80, Ozzy Osbourne deixava o Black Sabbath e era tido como um vocalista limitado, já fora de seu auge, além de alcoólatra contumaz. Decido a iniciar sua improvável carreira solo, o vocalista precisava se reinventar.

Já desanimado com a procura de um guitarrista para sua nova banda, Ozzy é apresentado a um moleque de 23 anos, um certo Randy Rhoads. Usando um aplificador de estudo, Randy ainda fazia seu aquecimento para o teste quando, surpreso, ouviu de Ozzy: "ok, a turnê é sua."

Pois esse garoto trouxe a técnica do vilão erudito para a guitarra do heavy metal e virou um dos guitarristas mais importantes da história! No inícios dos anos 80, havia dois deuses da guitarra: Randy e ninguém menos do que Eddie Van Halen.

Sem falar que a parceria Randy-Ozzy catapultou a carreira do segundo, que fez enorme sucesso como artista solo, contra as previsões de seus ex colegas de Black Sabbath.

Randy gravou os dois primeiros discos solo do Ozzy. E tudo ia muito bem, quando, voltando de um show, a banda resolveu parar em um hangar para descansar. O motorista do ônibus também era piloto de avião e resolveu levar a turma para um passeio...

Como Randy tinha medo de avião, resolveu não ir e ficar em terra firme, com outro colega que era cardíaco.

Depois do primeiro voo, bem-sucedido, o motorista/piloto convenceu os outros dois a darem uma voltinha também. Como Randy curtia tirar fotos, achou que valia a pena uma foto aérea.

Até que o piloto tem uma daquelas ideas geniais que a seleção natural não perdoa: "vamos zoar com a galera do busão?".

E o primeiro rasante faz tchum, o segundo faz tchin, e o terceiro... bate no ônibus, na árvore, o avião explode, cai e todo mundo morre! #GreatSuccess #DarwinAward pra ele.

Assim, aos 25 anos, o mundo perde Randy Rhoads.

Tommy Iommi, Zack Wylde, Gus G e outros guitarristas virtuosos que tocaram com o Ozzy que me desculpem, mas tocar bem mesmo é isso aqui:

Jeff

Em 1994 o Radiohead só havia lançado seu primeiro CD. Nada de Muse, Coldplay, Jamie Cullum ou Travis na cena musical.

Pois é nesse ano que é lançado "Grace", o revolucionário álbum de Jeff Buckley, que influenciou toda essa turma. Dez músicas, it's all it takes pra figurar entre os melhores álbuns da história do rock e ser aclamado por figuras tão distintas e relevantes como Bono, Elvis Costello, Robert Plant, Paul Mcartney e Chris Cornell!

Lá nos idos de 1997, enquanto trabalhava no seu segundo disco, Jeff resolveu ir nadar no rio... e nunca mais voltou. Afogamento natural. Nada de álcool ou drogas. Nada de se afogar no próprio vômito, como reza a cartilha do rock star porra louca. O cara simplesmente foi nadar no rio e morreu! Aos 30 anos, com apenas um disco lançado.

A mãe do músico e a gravadora resolveram lançar, em 1998, o material que ele preparava para o segundo álbum, que seria chamado "My Sweetheart the Drunk". De fato, ele já tinha terminado o álbum no estúdio, mas não gostou do resultado, resolveu não lançar, e estava reescrevendo o álbum em casa, prestes a reentrar em estúdio, quando morreu. O material das duas fases (estúdio e casa) saiu com o título "Sketches for My Sweetheart the Drunk".

É realmente impressionante com o som dele mistura elementos que depois explodiriam com Muse, Coldplay e outros:

 

Palavras-chave: jeff buckley, morte prematura, música, ozzy osbourne, randy rhoads, rock

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 3 comentários

Abril 12, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

França proíbe véu islâmico e prende manifestantes

Burca, Burqa, Niqab - This is Secret (

Duas mulheres usando o niqab, véu islâmico que só deixa os olhos à mostra, foram detidas nesta segunda-feira (11/4) em Paris por participarem de um protesto, que não havia sido informado previamente às autoridades, contra a nova lei francesa que proíbe o uso do véu. As informações são da BBC Brasil.

A lei entrou em vigor no país nesta segunda-feira e proíbe o uso de véus islâmicos que cubram parcialmente ou totalmente o rosto de mulheres em locais públicos do país. No sábado (9/4), 58 pessoas também foram detidas em uma manifestação organizada por associações islâmicas, e não autorizada pelas autoridades. Segundo o delegado Alexis Marsans, responsável pela ordem pública, "a detenção ocorreu devido ao desrespeito da obrigatoriedade de informar sobre a realização de manifestações".

A França foi o primeiro país da Europa a proibir o uso do véu. Segundo a lei, as pessoas que esconderem seu rosto em "locais abertos ao público", como repartições públicas, meios de transporte, estabelecimentos comerciais, parques e cinemas, estão sujeitas a multas de 150 euros (cerca de R$ 345).

Já pessoas que obrigarem uma mulher a usar o niqab ou a burca (que cobre integralmente o rosto, com uma tela para os olhos) podem ser multados em até 30 mil euros (cerca de R$ 68 mil) e condenados a um ano de prisão.

Tensões
A medida pode acirrar as tensões com a comunidade muçulmana do país, que é a maior da Europa, estimada em 6 milhões de pessoas. Segundo estatísticas, entre 800 e duas mil mulheres cobrem seus rostos no país.

De acordo com Noura Jaballah, presidente do Fórum Europeu das Mulheres Muçulmanas, em Paris, "a lei vai isolar ainda mais as mulheres que usam esse tipo de vestimenta". Ela também observa que "são os muçulmanos que devem discutir entre eles para adotar suas próprias práticas. Essa lei é uma intrusão em um assunto que não diz respeito ao Estado".

No fórum, nenhuma mulher usa o niqab. Noura Jaballah acredita que as mulheres devem respeitar a obrigação de mostrar seus rostos para se identificar, quando solicitadas, em aeroportos, bancos ou repartições públicas, por exemplo. "Mas esta lei já está provocando desvios na interpretação da medida. Há casos de mães que utilizam apenas o véu que cobre os cabelos e que estão sendo impedidas de participar de reuniões ou atividades escolares", diz.

Aprovação
Segundo uma pesquisa do Instituto Ipsos divulgada no ano passado, 57% dos franceses aprovam a lei que proíbe o véu integral. Vários representantes muçulmanos se opuseram à lei, afirmando que ela estigmatiza a comunidade.

A lei entra em vigor pouco após declarações polêmicas do ministro do Interior, Claude Guéant, que afirmou que "o aumento do número de muçulmanos na França e que certas práticas ligadas a essa religião representam um problema".

O veto passa a ser adotado também no momento em que o partido de extrema-direita Frente Nacional vem ganhando destaque nas sondagens das eleições presidenciais de 2012.

Na manifestação de sábado (9/4) havia cerca de 200 participantes, a maioria homens de outros países europeus.

-------------------------------------------------------------------------------------

Sobre esse assunto, reproduzo trechos de texto do Blog do amigo Danilo Carvalho Moura:

ttp://danilocarvalhomoura.blogspot.com/2010/07/burca-e-minissaia-de-paris-cabul.html

A burca e a minissaia de Paris a Cabul

14 de julho de 2010

A Assembleia Nacional da França aprovou ontem uma lei que, seguindo uma tendência que se tornou bastante frequente na Europa, proíbe o uso da burca e do niqab em território francês. A lei foi aprovada por maioria acachapante, e ainda tem que passar por duas instâncias dentro do processo legislativo francês para entrar em vigor.

Muita gente que defende a proibição da burca e do niqab o faz realmente acreditando que está defendendo os interesses das próprias muçulmanas e da liberdade delas.

E esse é justamente o motivo por que acho que essas leis estão tão erradas e são um sinal tão preocupante. Não só porque o argumento da segurança é ultrajante (convenhamos, até os sobretudos típicos do inverno europeu poderiam esconder uma bomba). Não só porque a suposição de que o Estado deva dizer o que uma mulher pode ou não vestir é melhor do um homem da família fazê-lo é um completo absurdo – é infinitamente pior, na verdade. Não só porque uma lei como a aprovada na França fere o direito à liberdade das muçulmanas de expressar suas convicções e sua fé.

É por tudo isso também. Mas é porque esse movimento representa sinal inequívoco de que o Ocidente não tem o discernimento para entender o que exatamente ocorre dentro do mundo muçulmano.

A mensagem que o Ocidente precisa passar não é a de que as mulheres têm que usar minissaias, trabalhar fora e transar com quem quiserem. É a de que elas podem fazer se escolherem fazer isso, mas que podem também casar, viver uma vida piedosa de acordo com a própria fé e usar os trajes que essa vida exigir se quiserem. Não é a vida que as mulheres do Ocidente vivem que lhes confere algum tipo de mérito. É que, ao contrário das muçulmanas, elas podem escolher viver essa ou outra vida.

A “guerra de civilizações” de verdade não está sendo travada entre o Ocidente e mundo muçulmano. Está sendo travado dentro do mundo muçulmano, por visões diferentes de mundo. Eu não quero viver em um mundo em que para usar minissaia você precise estar em Paris e para usar burca você tenha que estar em Cabul. O que me faz acreditar fortemente nisso a que chamam “civilização ocidental” é que em Paris, hoje, pelo menos, você pode usar qualquer coisa entre a minissaia e a burca. Isso não deveria mudar. Na verdade, é assim que é bom. É essa possibilidade que deveria ser oferecida às afegãs de Cabul. Não imposta de fora, porque não funciona. Mas há, do Afeganistão ao Iraque, do Irã à Jordânia, do Paquistão ao Egito, em quase todo o mundo muçulmano, pessoas de lá, de dentro, que querem isso.

A França não deve proibir a burca, porque isso a tornaria apenas uma versão oposta dos regimes que a impõem. E eu – choquem-se multiculturalistas! - acho o mundo em que se pode usar a burca e o biquíni fio-dental, à escolha da interessada, um mundo melhor. É um mundo pelo qual vale a pena lutar.
--------------------------------------------------------------------------------------

Meu pitaco:

Como disse ontem, cada um que vista o que bem entender, e está mais do que na hora de aprendermos a respeitar uns aos outros, independente das roupas, das crenças, das opções sexuais, da raça e do que quer que seja. Precisamos respeitar o direito dos indivíduos fazerem suas escolhas, e precisamos conviver com a diversidade e a diferença. Estado laico é diferente de Estado ateu.

Também sou por um mundo no qual se possa escolher entre a burca e o biquini. E o Estado tem é que garantir a liberdade de escolha e não se intrometer no guarda-roupa dos seus cidadãos.

* Este texto reflete apenas e tão somente as opiniões do autor, e não as do Ministério das Relações Exteriores.

Palavras-chave: burca, França, liberdade, preconceito, religião, véu

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 2 comentários

Abril 11, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Encontrei o cartunista Laerte numa padaria em Pinheiros.

O Laerte, além de desenhista talentoso, é crossdresser, ou seja, é um homem que se veste de mulher.

Acho legal a coragem dele de romper o paradigma, enfrentar o preconceito e viver de uma maneira diferente da maioria.

Pouco importa como cada um se veste, isso é questão de foro íntimo e não diz respeito a mais ninguém!

Isso me lembrou de uma crônica do Luis Fernando Veríssimo:

"O Nariz"

Era um dentista, respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes mas uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sombrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou-se à mesa do almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.
- O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos.
- Isso o quê?
- Esse nariz.
- Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei.
- Logo você, papai…
Depois do almoço, ele foi recostar-se no sofá da sala, como fazia todos os dias. A mulher impacientou-se.
- Tire esse negócio.
- Por quê?
- Brincadeira tem hora.
- Mas isto não é brincadeira.
Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou-se e dirigiu-se para a porta. A mulher o interpelou.
- Aonde é que você vai?
- Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.
- Mas com esse nariz?
- Eu não compreendo você – disse ele, olhando-a com censura através dos aros sem lentes. – Se fosse uma gravata nova você não diria nada. Só porque é um nariz…
- Pense nos vizinhos. Pense nos cliente.
Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas (“Logo o senhor, doutor…”) fizeram perguntas, mas terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas.
- Ele enlouqueceu?
- Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos. – Nunca vi ele assim. Naquela noite ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.
- Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher.
- Vou. Aliás, não vou mais tirar esse nariz.
- Mas, por quê?
- Por quê não?
Dormiu logo. A mulher passou metade da noite olhando para o nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz postiço.

- Papai…
- Sim, minha filha.
- Podemos conversar?
- Claro que podemos.
- É sobre esse nariz…
- O meu nariz outra vez? Mas vocês só pensam nisso?
- Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note?
- O nariz é meu e vou continuar a usar.
- Mas, por que, papai? Você não se dá conta de que se transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social.
- Não tem porque não quer…
- Como é que ela vai sair na rua com um homem de nariz postiço?
- Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença.
- Se não faz nenhuma diferença, então por que usar?
- Se não faz diferença, porque não usar?
- Mas, mas…
- Minha filha…
- Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai!

A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar-se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.
- Você vai concordar – disse o psiquiatra, depois de concluir que não havia nada de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho…
- Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele. – Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento de meu corpo continua o que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar, Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do Fluminense, tudo como era antes.
- Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?
- É… – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão…
O que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não se entregou. Continua a usar nariz postiço. Porque agora não é mais uma questão de nariz. Agora é uma questão de princípios.

-------------------------------------------------------------------------

Palavras-chave: Crossdresser, Laerte, Luis Fernando Veríssimo, preconceito

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 1 comentário

Abril 07, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Fui ao show do Ozzy em Brasília. A banda é muito boa, as músicas, então, nem preciso dizer. O Ozzy é um frontman competente, animado e mantém a voz característica.

Jogando espuma e baldes d'água na galera, o vocalista mantém a atenção do público, ainda que tire um descanço no meio da apresentação, durante música instrumental (Rat Salad) e solos de guitarra e bateria.

Quando anda, corcunda e com passos curtinhos, Ozzy mostra os sinais de senilidade e de que os anos de abuso o deixaram algo lesado. De todo modo, o ex-príncipe das trevas é hoje um velhinho divertido, carismático e, pasmem, fofo. Repete várias vezes que ama o público e não mete medo em ninguém, pelo contrário, cria uma baita de uma empatia.

Para registro, minha gravação de Iron Man, um dos clássicos do Black Sabbath.

Palavras-chave: Black Sabbath, Brasília, Gus G, Iron Man, Música, Ozzy Osbourne

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Abril 04, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Estava lendo esse artigo da Veja, sobre a ausência de direita no espectro político brasileiro, que, suponho, insere-se no contexto do debate trazido pelo Bolsonaro, ao vocalizar ideias conservadoras em rede nacional. Muito bem, me detive no seguinte trecho:

"O primeiro a definir o conservadorismo como uma doutrina política foi o inglês Edmund Burke, no século XVII. Esta corrente política considera que os indivíduos realizam as coisas melhor do que o estado. Que as liberdade individuais devem ser mantidas a todo o custo. E que os valores tradicionais da sociedade devem ser preservados. Nas democracias modernas, o conservadorismo se traduz como uma recusa ao estatismo, a defesa do livre mercado, a proteção da família e a oposição a medidas como a legalização de drogas e do aborto."

Eis aí, a meu ver, uma contradição filosófica brutal - incoerência, mesmo. Se o indivíduo sabe o que é melhor pra si na hora de fazer negócios -- ou seja, o Estado não deve intervir na esfera econômica --, porque diabos o indivíduo não pode saber o que é melhor pra si na esfera moral, e o Estado deve impedi-lo de fazer aborto, usar drogas e escolher a orientação sexual que bem entender!?

Parece-me que tanto o pensamento liberal quanto o pensamento libertário deveriam caminhar juntos, baseados na crença na importância da individualidade e da liberdade. Não?

Não vejo, no Brasil, nenhum partido que represente essa crença na liberdade, moral ou econômica. O estatismo parece ser o consenso entre os nossos políticos. Tanto que, para fins de eleição, tucanos e petistas tiveram que se comprometer, a um só tempo, com a não-privatização da Petrobras e com a não-legalização do aborto.

Talvez o Brasil só tenha mesmo partidos de esquerda, como sugere a matéria. Mas de uma esquerda estranha -- conservadora e moralista.

Palavras-chave: Bolsonaro, direita, esquerda, liberalismo, partidos, política, PSDB, PT

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 8 comentários

Março 29, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

O senador José Alencar Gomes da Silva pretendia comemorar seus 50 anos de vida empresarial em março de 2000, mas preferiu deixar passar as eleições municipais e realizar uma cerimônia suprapartidária no dia 11 de dezembro daquele ano, no Palácio das Artes, na avenida Afonso Pena, centro de Belo Horizonte. Tudo se passou em grande estilo e mudou o destino de Alencar – se não o da própria história brasileira.

(...)

A gravação da solenidade registra, nesse momento, um zoom em Lula, num terno cinza claro muito bem cortado, acima do peso e coçando a barba – ambos, peso e barba, bem maiores do que nos anos seguintes de Presidência da República.

E como o metalúrgico e sindicalista Lula foi parar ali, no covil dos leões – ou dos patrões? Simples. Ao emitir mais de mil convites, Alencar incluíra todos os presidentes de partido. O PT enviou os seus dois: Lula, o presidente de honra, e José Dirceu, o de fato e de direito, mineiro e que já andava de olho nesse empresário e político tão peculiar.

(...)

Se alguém tivesse de apostar naquele momento, o mais provável era que o astuto empresário e estreante senador, em segundo ano de mandato, preferisse um candidato tucano. Mas não há registro da cúpula nacional do PSDB na festa decisiva.

(...)

Ao deixar o Palácio das Artes, Lula reflete sobre aquele homem que veio do nada e não pôde estudar, construiu um império, conquistou tanto prestígio, tinha mandato, falava de uma forma tão cativante, era um nacionalista convicto, respeitava os empregados e era politicamente liberal – na prática, um suprapartidário. De quebra, Alencar era senador por Minas Gerais, estado-chave na eleição presidencial seguinte, a de 2002, e tinha um dom natural para a oratória. Discursava coloquialmente, com carisma e emoção.

Ao entrar no carro e bater a porta, Lula anuncia de chofre para José Dirceu:

– Encontrei o meu vice.
"

trecho de "José Alencar – Amor à vida, de Eliane Cantanhêde

 

 

Palavras-chave: José Alencar, Lula

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Março 15, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

por Rubem Alves

 

Alguém disse que gosta das coisas que escrevo, mas não gosta do que penso sobre Deus. Não se aflijam. Nossos pensamentos sobre Deus não fazem a menor diferença. Nós nos afligimos com o que os outros pensam sobre nós. Pois que lhes digo que Deus não dá a mínima. Ele é como uma fonte de água cristalina. Através dos séculos os homens tem sujado essa fonte com seus malcheirosos excrementos intelectuais. Disseram que ele tem uma câmara de torturas chamada inferno onde coloca aqueles que lhe desobedecem, por toda a eternidade, e ri de felicidade contemplando o sofrimento sem remédio dos infelizes.

 

Disseram que ele tem prazer em ver o sofrimento dos homens, tanto assim que os homens, com medo, fazem as mais absurdas promessas de sofrimento e autoflagelação para obter o seu favor. Disseram que ele se compraz em ouvir repetições sem fim de rezas, como se ele tivesse memória fraca e a reza precisasse ser repetida constantemente para que ele não se esqueça. Em nome de Deus os que se julgavam possuidores das idéias certas fizeram morrer nas fogueiras milhares de pessoas.

 

Mas a fonte de água cristalina ignora as indignidades que os homens lhe fizeram. Continua a jorrar água cristalina, indiferente àquilo que os homens pensam dela. Você conhece a estória do galo que cantava para fazer nascer o sol? Pois havia um galo que julgava que o sol nascia porque ele cantava. Toda madrugada batia as asas e proclamava para todas as aves do galinheiro: “Vou cantar para fazer o sol nascer”. Ato contínuo subia no poleiro, cantava e ficava esperando. Aí o sol nascia. E ele então, orgulhos, disse: “Eu não disse?”. Aconteceu, entretanto, que num belo dia o galo dormiu demais, perdeu a hora. E quando ele acordou com as risadas das aves, o sol estava brilhando no céu. Foi então que ele aprendeu que o sol nascia de qualquer forma, quer ele cantasse, que não cantasse. A partir desse dia ele começou a dormir em paz, livre da terrível responsabilidade de fazer o sol nascer.

 

Pois é assim com Deus. Pelo menos é assim que Jesus o descreve. Deus faz o sol nascer sobre maus e bons, e a sua chuva descer sobre justos e injustos. Assim não fiquem aflitos com minhas idéias. Se eu canto não é para fazer nascer o sol. É porque sei que o sol vai nascer independentemente do meu canto. E nem se preocupem com suas idéias . Nossas idéias sobre Deus não fazem a mínima diferença para Ele. Fazem, sim, diferença para nós. Pessoas que tem idéias terríveis sobre Deus não conseguem dormir direito, são mais suscetíveis de ter infartos e são intolerantes. Pessoas que têm idéias mansas sobre Deus dormem melhor, o coração bate tranqüilo e são tolerantes.

 

Fui ver o mar. Gosto do mar quando a praia está vazia da perturbação humana, Nas tardes, de manhã cedo. A areia lisa, as ondas que quebram sem parar, a espuma, o horizonte sem fim. Que grande mistério é o mar! Que cenários fantásticos estão no seu fundo, longe dos olhos! Para sempre incognoscível! Pense no mar como uma metáfora de Deus. Se tiver dificuldades leia a Cecília Meirales, Mar Absoluto. Faz tempo que, para pensar sobre Deus, eu não leio teólogos; leio os poetas. Pense em Deus como um oceano de vida e bondade que nos cerca. Romain Rolland descrevia seu sentimento religioso como um “sentimento religioso”. Mas o mar, cheio de vida, é incontrolável. Algumas pessoas têm a ilusão que é possível engarrafar Deus. Quem tem Deus engarrafado tem o poder. Como na estória de Aladim e a lâmpada mágica. Nesse Deus eu não acredito. Não tenho respeito por um Deus que se deixa engarrafar. Prefiro o mistério do mar… Algumas pessoas não gostam do que penso sobre Deus porque elas deixam de acreditar que suas garrafas religiosas contenham Deus…

 

Palavras-chave: Deus, Rubem Alves

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 1 comentário

Fevereiro 01, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Guns n' Roses - It's so Easy

Stone Temple Pilots - Sex Type Thing

Velvet Revolver - Slither

E aí, preferem as originais ou o supergroup? GNR, STP ou VR?

Lembrando que (GNR - Axl Rose) + (Scott Weiland - STP) = VR

 

Palavras-chave: Axl Rose, GNR, Guns n Roses, Scott Weiland, Stone Temple Pilots, STP, Velvet Revolver, VR

Esta mensagem está sob a licença CreativeCommons Atribuição, Não-Comercial.

Postado por Helder Gonzales | 1 comentário

Janeiro 14, 2011

default user icon
Postado por Helder Gonzales

El Paso, lugar interessante como toda zona de fronteira, mistura entre dois mundos, tão diferentes como o México e os EUA. Pois essa cidadezinha do Texas produziu uma cena musical interessante, que deu origem a três bandas muito legais!

A primeira delas é o grupo de pós-hardcore, muito ouvido nos States, o At the Drive-In. Som direto e muito sujo, baterista dos bons, guitarras heterodoxas e criativas, e o poderoso vocal de Cedric Bixtler-Zavala. 

Para não chutar o balde de cara, uma apresentação em que eles não estão tão insanos, Pattern Against User:

 

Agora, para sentir a doidera da banda, One Armed Scissor, no Letteman. Com toda a energia e falta de compromisso típica dos caras:

 

Acontece que lá pelas tantas o vocalista Cedric e o guitarrista Omar Rodríguez López resolveram superar a estética punk/hardcore. Deixaram o At the Drive-In para trás e embarcaram em uma viagem mais progressiva, experimental e lisérgica. Criaram o Mars Volta. Nesse projeto, Cedric despontou como grande vocalista. Quem os viu ao vivo  - se apresentaram no SWU - percebeu que é a dupla mais bem encarna o espírito Jimmy Page/Robert Plant, com autencidade, desde o próprio Led Zeppelin.

No video, Tetragrammaton, que passa bem a sonoridade da nova banda:

Os ex-companheiros de At the Drive-In ainda tinham fôlego para continuar sozinhos, e criaram o Sparta, menos ambicioso que o Mars Volta, mas legítimo sucessor para a banda original, respeitando o estilo, só que despidos das maluquices de Omar e Cedric. 

No video, também no Letteman, Breaking the Broken:

Gosto das três bandas. Mas confesso que a mais inspirada, pra mim, é o Mars Volta, que compôs Televators, uma das minhas músicas favoritas of all time. Em versão acústica, no vídeo:

 

Palavras-chave: At the Drive-In, Cedric Bixler-Zavala, El Paso, Mars Volta, Omar Rodriguez Lopez, Sparta, SWU, Texas

© 2017 Todos os direitos reservados

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Dezembro 26, 2010

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Após o desfecho das eleições de 2010, muita gente se apressou em criticar a falta de seriedade da política brasileira, por parte de candidatos e de eleitores, que culminou na eleição do palhaço semi-analfabeto Tiririca como o Deputado Federal mais votado do país.

Meu argumento é outro. Entendo que se trata mais de uma distorção gerada pelo sistema eleitoral brasileiro do que da propalada decadência da política no nosso país. Nesse sentido, a eleição de figuras prosaicas para o Parlamento brasileiro - como Tiririca, Clodovil e Enéas - são sintomas de um sistema eleitoral confuso e mal-construído.

Antes de analisar o caso aplicado da eleição do Tiririca, comecemos por algumas considerações gerais sobre o nosso sistema eleitoral. Aposto que mesmo pessoas consideradas bem-instruídas têm dificuldades de entender - e de explicar - como os votos são transformados em cadeiras nas Casas Legislativas. O sistema é complicado e o eleitor médio não o domina.

Pois bem, o sistema é proporcional de lista aberta, com possibilidade de coligação entre partidos. Isso significa que os assentos na Câmara são distribuídos proporcionalmente ao número de votos da coligação, embora os votos sejam dados, via de regra, nos candidatos. O voto nas eleições proporcionais, no Brasil, serve a dois propósitos. Primeiro: determinar o número de cadeiras ao qual a coligação terá direito. Segundo: ordenar a lista partidária, ou seja, estabelecer a ordem pela qual essas cadeiras serão preenchidas.

O eleitor pensa que está votando no candidato, quando na verdade está votando principalmente na coligação. Isso cria o fenômeno do puxador de voto, que é o candidato cuja votação excede o quociente eleitoral - número de votos necessários para conquistar uma cadeira - e acaba por ajudar a eleger outros candidatos menos votados de sua agremiação partidária. Tiririca, por exemplo, obteve 4,5 vezes o número de votos necessários para obter uma cadeira, levando consigo três deputados "e meio" que não obtiveram o número mínimo de votos para conquistar uma vaga (não vou discutir nesse texto o mecanismo de alocação de sobras, que é justamente o tal do "meio deputado", para mais informações veja esse link).

Outro problema das eleições proporcionais do Brasil é o enorme número de candidatos que se apresentam para concorrer a cargos em distritos de magnitude (número de vagas em disputa) elevada. O estado de São Paulo elege 70 Deputados federais por vez. Nas eleições de 2010, houve nada menos do que 1276 candidatos a essas 70 vagas. Vamos repetir: mil-duzentos-e-setenta-e-seis candidatos! Como o eleitor pode ser capaz de se informar e de comparar adequadamente mais de mil candidatos que, com sorte, ganham a chance de dizer seu número e um bordão na propaganda eleitoral televisionada?

A situação é agravada pelo fato de as eleições para a Câmara dos Deputados serem realizadas em paralelo à eleição para Presidente, para Governador, para Senador e para Deputado Estadual. O eleitor é bombardeado com um fluxo enorme de informações. A eleição para a Câmara acaba virando coadjuvante da eleição principal, para Presidente da República. O voto no Deputado acaba sendo negligenciado, recebendo importância e reflexão menor do que deveria. Não é de se espantar que ninguém se lembre em quem votou para Deputado nas últimas eleições.

Aí reside a maior explicação para eleição de figuras curiosas como Tiririca e Clodovil. Em um pleito de pouco prestígio, para o qual se apresentam mais de mil ilustres desconhecidos, o alto recall de personalidades famosas da televisão já os coloca muito à frente dos seus concorrentes. Como as eleições são proporcionais e o distrito eleitoral corresponde ao estado inteiro, qualquer personalidade popular em todo o estado tem razoável chance de ser eleita.

Some-se a isso o fenômeno do voto de protesto. É razoável supor que sempre haverá cerca de 5% de eleitores insatisfeitos com a política, que usam o voto para desmoralizar o próprio processo eleitoral. Em tempos de voto manuscrito, essa postura possibilitava a "eleição" do macaco Tião, que obviamente não valia, uma vez que os votos eram contabilizados como nulos. Ora, em tempos de urna eletrônica, o jeito de fazer protesto irreverente é votar no Tiririca da vez.

Acontece que, em eleições proporcionais, com distritos de magnitude elevada, os votos ficam pulverizados entre os candidatos "sérios", e os 5% de engraçadinhos e de revoltados são mais do que suficientes para eleger quem quer que seja.

Vejamos alguns números: Tiririca obteve 6,35% dos votos válidos em 2010; Enéas recebeu 8% dos votos válidos em 2002; e Clodovil, 2,4% dos votos em 2006. Supondo que suas votações tenham sido distribuídas uniformemente pelo estado - o que é plausível, por se tratarem de personalidades muito conhecidas mas não vinculadas politicamente a uma região específica -, nenhum deles teria condições de vencer em eleições majoritárias. Pois aqui apresento minha proposta de reforma: o voto para as eleições legislativas deveria ser majoritário, organizado em distritos uninominais, conforme o sistema que é conhecido no Brasil como voto distrital.

No sistema distrital, os estados, que hoje correspondem a um único distrito eleitoral de magnitude elevada, seriam divididos em regiões menores, que elegeriam um deputado cada. Ou seja, o candidato mais votado na região ganha a cadeira daquele distrito. A lógica de funcionamento do sistema privilegiaria o voto nos candidatos identificados com as necessidades de cada região, em detrimento de personalidades amplamente conhecidas por todo o estado, mas que não necessariamente teriam a agregar ao seu distrito. Assim, os Tiriricas da vida dificilmente seriam eleitos. E, ainda que fossem, conquistariam apenas a sua vaga, sem levar de carona candidatos com votações inexpressivas.

A eleição de figuras excêntricas e o esquecimento do seu candidato a Deputado nas últimas eleições são resultados do nosso sistema eleitoral confuso, muito mais do que da suposta má qualidade dos eleitores brasileiros. É verdade que não há sistema eleitoral perfeito, mas o nosso é muito ruim - a eleição de Tiririca está aí para comprovar. O voto distrital, combinado com outras mudanças na lei eleitoral, melhoraria muito a qualidade da nossa representação.

* Este texto reflete apenas as opiniões do autor, e não do Ministério das Relações Exteriores.

Palavras-chave: eleições, sistema eleitoral, Tiririca., voto distrital, voto majoritário, voto proporcional

© 2017 Todos os direitos reservados

Postado por Helder Gonzales | 2 comentários

Novembro 19, 2010

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Novembro 08, 2010

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Na última sexta-feira foi a formatura da minha turma no Instituto Rio Branco.

Reproduzo, a seguir, o memorável discurso do nosso paraninfo, o Embaixador Gonçalo Mourão. Vale a pena conferir!

 

Palavras-chave: Diplomacia, Embaixador Gonçalo Mourão, formatura, Instituto Rio Branco, Itamaraty, turma Zilda Arns

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Julho 26, 2010

default user icon
Postado por Helder Gonzales

A marmelada da Ferrari nesse último Domingo só me faz ter mais saudade de um cara iluminado, que era mais do que um simples funcionário de uma equipe de Fórmula 1.

Ainda que as coisas tenham mudado muito nesses últimos 20 anos, só tenho uma frase para avaliar a atitude do Felipe Massa: o Senna não faria.

Eu poderia contar várias histórias fantásticas do Ayrton, mas vou escolher uma em que o espírito de superação e a paixão por pilotar e por honrar a torcida brasileira sobressaem.

O ano era 1991. Senna já era bicampeão mudial, mas ainda não tinha vencido em Interlagos, na frente de sua torcida. Largou na frente e ia bem, até que o câmbio quebrou... Vejam ele contando:

 

 

E aí, exausto, Senna tem de ser retirado do carro após cruzar a linha, e quase não consegue levantar o troféu no pódio:

Simplesmente emocionante. Por essa e por tantas outras que Senna foi muito mais do que um piloto de corrida, foi um verdadeiro heroi nacional. Alguém que fazia bem à auto-estima do brasileiro. Um cara que colocava o Brasil no topo do mundo.

Nessa época, valia a pena acordar domingo de manhã.

Palavras-chave: Alonso, Ayrton Senna, F1, Felipe Massa, Fernando Alonso, Ferrari, Fórmula 1, Gp Interlagos, Interlagos, Massa, Senna

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 3 comentários

<< Anterior Próxima >>