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Fevereiro 2008

Fevereiro 10, 2008

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Postado por Helder Gonzales

Quisera escrever uma crônica ou ao menos um conto qualquer – estava desejoso de um singelo exercício literário sem importância com o qual combateria o ócio e adentraria a madrugada entretido. Ou seria um intento maior, uma tentativa de desvelar um talento ignorado e se alçar à imortalidade das palavras gravadas em papel?

Não sabia a resposta, só sabia que precisava rascunhar alguma coisa. Pegou uma folha, rabiscou algumas palavras, riscou, tentou novamente, nada o agradava.

Sempre fora perfeccionista, desde menino procurava assegurar que tudo o quanto fizesse saísse tal qual o planejado, e tratava de antecipar todas as possibilidades em sua mente para que o plano não pudesse falhar. No fundo, estava sempre ansioso por reconhecimento, bastavam alguns comentários elogiosos e estava ganho dia. Por certo que tanto zelo em suas atividades acabavam por dificultar muito tarefas simples, e freqüentemente abandonava empreitadas por achar que não valia a pena o esforço.

Tomou outro papel e tentou recomeçar. Ocorreu-lhe escrever sobre política, mas era clichê demais, pensou em fazer uma poesia, mas logo viu que não levava jeito. Resolveu, então, descrever suas desilusões afetivas. Escreveu meia página, leu, e sentiu vergonha. Era melhor crítico do que escritor, e isso sempre o fazia desacreditar suas próprias obras. Por fim, amassou a folha. Desceu até a cozinha, olhou para a maçã na fruteira, hesitou. Abriu o pote de biscoitos e encheu a mão.

Voltou ao quarto, olhou pela janela, a cidade perdendo-se no horizonte. Era sexta-feira à noite, quem não estava já dormindo por certo se divertia em algum bar ou danceteria. Sentiu-se só, mais do que isso, sentiu-se a pessoa mais só do mundo – e isso o deprimia um pouco. Cogitou ligar para algum amigo, pensou, chegou a abrir a caderneta de telefones. Não conseguiu achar ninguém.

Tornou a apanhar a caneta na mesa. Lembrou-se de uma amiga do colégio muito talentosa com desafios de álgebra.

_Como é que você sempre resolve todas as questões? – perguntara certa vez à colega.

_ Não sei, eu simplesmente começo, cedo ou tarde encontro a solução – respondeu-lhe a garota.

Recomeçou, então, a escrever qualquer coisa. “Cedo ou tarde encontro a solução” – se funcionava pra amiga, haveria de funcionar pra ele também, pensou.

Palavras-chave: literatura, metalinguagem

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