Stoa :: Helder Gonzales :: Blog :: Salvem os corre-mãos e os bem-vindos! O uso do hífen.

maio 02, 2010

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Postado por Helder Gonzales

 

Confesso que uma regra de ortografia que nunca dominei é a do uso do hífen. Seja no padrão antigo, seja novo – entendo que há coisas mais importantes para ocupar minha memória do que a decoreba de incompreensíveis regras, somadas às infindáveis exceções, do uso do tracinho. A recente reforma ortográfica foi uma oportunidade perdida para corrigir essa bagunça de regras que ninguém entende ou aprende.

Esses dias estava no shopping, quando vi o seguinte aviso: “segure nos corrimões”. Não me recordo de ter visto o plural de corrimão anteriormente, mas, de pronto, me soou horrível. Pensei, ora, corrimão vem de corre + mão, afinal, trata-se do objeto que serve, justamente, para correr com as mãos. Se o plural de mão é mãos, o natural é que o plural de corrimão fosse corrimãos. Chegando em casa fui pesquisar. Aparentemente as duas formas são aceitas, uma pelo motivo que expus, a outra porque o plural em “ões” é mais frequente e, portanto, está admitido.

Quem escreveu corrimões certamente não se deu conta de que corrimão vem do verbo correr e do substantivo mão. Isso não aconteceria se a grafia da palavra fosse corre-mão, com hífen, indicando que se trata da fusão de duas palavras para criar uma terceira. Pois, para mim, essa deveria ser a única regra do uso do hífen, sempre que duas palavras se somam para compor uma terceira, que lá esteja o hífen, como aliança do casamento dos significados.

Nada de decorar que a) se o prefixo termina em vogal e o segundo elemento inicia-se por vogal diferente, se escreve tudo junto (ex: aeroespacial); mas se a última vogal do primeiro elemento for a mesma que a primeira do segundo elemente, então temos hífen (ex: micro-ondas); ao passo que c), se o segundo elemento inicia-se por r ou s, deve-se duplicar a consoante (ex: antissemita); mas d) se o prefixo for hiper ou super escreve-se com hífen (ex: super-revista). Argh! Eu realmente me pergunto o que se passa na cabeça dos doutos que inventam essas regrinhas.  Esse monte de critérios tolos, além de provocar confusão, faz o usuário da língua ir perdendo os nexos semânticos dos vocábulos.

Certa vez me peguei pensando que parabéns nada mais é do que o plural de parabem (hoje em desuso), para + bem, um jeito antigo de dizer “que bom!”. Faz sentido, não? Escrever sempre com hífen torna mais fácil a percepção etimologia da língua, a gramática vai se tornando algo mais lógica (ou menos i-lógica).  

Por-tanto, salvem os corre-mãos, os para-bens, os bem-vindos, os porta-luvas, os para-brisas, os guarda-chuvas! A-baixo essas regras estúpidas!

=)

 

Palavras-chave: etmologia, gramática, hífen, Ortografia, reforma gramatical

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Postado por Helder Gonzales

Comentários

  1. Luiz Armesto escreveu:

    Alguém da letras no recinto? Contem até 10 e respirem fundo, ele não fez por mal. hehehehehe Língua de fora

    Luiz ArmestoLuiz Armesto ‒ domingo, 02 maio 2010, 23:34 BRT # Link |

  2. Helder Gonzales escreveu:

    Luiz, claro que eu estou sendo provocativo, uma vez que há formas consagradas, como parabéns, não há como voltar atrás. É uma questão de entropia =)

    Ainda assim, insisto na discussão: 1) a presença do hífen ajuda o leitor a ter melhor compreensão semântica e etimológica dos vocábulos e 2) os critérios de  hifenização deveriam ser mais claros, lógicos e uniformes. Ou você aprecia essa profusão de regras sem o menor padrão?

    Helder GonzalesHelder Gonzales ‒ segunda, 03 maio 2010, 11:56 BRT # Link |

  3. Marcos Bernardino da Silva escreveu:

    Tem muita gente da área de Letras, inclusive professores, que não concordam com as regras ortográficas. Eles acham que deveria ser mais simples, com regras mais lógicas, mesmo que não obedecesse as etmologias das palavras. Sei disso porque já assisti a uma palestra e conversei com algumas pessoas de letras que tem essa opinião.

    Marcos Bernardino da SilvaMarcos Bernardino da Silva ‒ segunda, 03 maio 2010, 13:48 BRT # Link |

  4. Marcos Bernardino da Silva escreveu:

    A opinião de um professor da Letras condenando uma reforma ortográfica radical, o Fiorin:

    "O segundo equívoco é que a reforma é tímida, dever-se-ia fazer uma mudança radical para simplificar a ortografia e aproximá-la da maneira como falamos. Na verdade, aqui há dois erros. Primeiramente, não se está fazendo propriamente uma reforma ortográfica e sim um acordo de unificação ortográfica e, portanto, atinge basicamente os pontos de divergência das duas ortografias e não faz reforma profunda na maneira de grafar as palavras. Depois, enganam-se os que pensam que se pode escrever como se fala, pois a pronúncia varia, por exemplo, de região para região em cada país e, por isso, não se pode grafar tal como se fala. Além disso, cabe perguntar por que países em que se falam línguas, como o francês ou o inglês, cuja ortografia reflete um estado lingüístico muito mais antigo ou a origem da palavra, não fazem uma reforma ortográfica drástica. Porque não é mais possível, uma vez que mudar completamente a ortografia significa condenar à obsolescência todo o material impresso. Em duas gerações ninguém mais será capaz, sem preparo específico, de ler tudo o que foi impresso até o momento. Ora, isso é impossível. Podia-se fazer reforma ortográfica radical até o início do século passado. Depois, com o crescimento das bibliotecas, dos acervos etc. não se pode mais pensar em alterar totalmente a ortografia."

    http://www.marcosbagno.com.br/conteudo/forum.htm

    Marcos Bernardino da SilvaMarcos Bernardino da Silva ‒ segunda, 03 maio 2010, 14:21 BRT # Link |

  5. Marcos Bernardino da Silva escreveu:

    Sobre a palestra não me lembro se realmente defendia uma reforma ortográfica radical, mas era sobre preconceito lingüístico.

    Marcos Bernardino da SilvaMarcos Bernardino da Silva ‒ segunda, 03 maio 2010, 14:23 BRT # Link |

  6. Helder Gonzales escreveu:

    Reitero o chamado do Luiz, alguém das letras no recinto? srsr

    Helder GonzalesHelder Gonzales ‒ segunda, 03 maio 2010, 22:04 BRT # Link |

  7. Solange de A. Grossi escreveu:

    Chamaram?? Aqui estou! *risos*

    Não que eu seja uma autoridade no assunto, muito pelo contrário!!! hahahaha Como você, sempre tive dúvidas quanto ao uso do hífen, dentre outras milhares de dúvidas...once upon a time eu até sabia direitinho tudo quanto era regra, mas aí a gente vai ficando mais velha, mais ranzinza, percebendo que existem coisas mais importantes nesta vida do que hifenização ou acentuação, ou as novas regras ortográficas, e acabei mandando tudo pras cucuiasPiscadela

    Pois é, vocês devem estar de cabelos em pé, afinal, como uma pessoa dessas foi fazer LETRAS?!?Língua de fora 

    E aí é que entra a aula inaugural do ano em que entrei no curso, ministrada por um professor bem velhinho do Grego (não me recordo o nome do homem, e nem sei se ele ainda está vivo!) - virei fã dele, e soube que estava no curso certo, quando ouvi a frase: "Bem-vindos ao curso de Letras. Se você está aqui para aprender a escrever, ou para aprender as regras gramaticais, e se você acha que profissional das Letras tem que saber tudo, você está no lugar errado. Se quer saber se oxítona tem acento, vai procurar numa gramática. Consulte dicionários, gramáticas, contrate um revisor para olhar seus textos, caso esteja em dúvida. Faça isso em casa. Aqui, a gente não perde tempo com isso. Mas tudo isso não quer dizer que não vamos descontar nota se seu texto estiver mal-escrito ou ortograficamente incorreto".

    É isso aí. Vem regra, vai regra, continuo escrevendo do jeito que aprendi, e contrato revisor quando o trabalho tem que ser publicado. Não me cabe na cabeça escrever "ideia" ao invés de idéia, e muito menos palavras sem trema - em casos como "liquidificador", ok, ainda vai...agora, escrever palavras como "lingüística" sem trema, o som ficaria "linGUística" como em "enGUiçado"...arre!! Como diriam os jovenzinhos por aí: pelamor, hein!! Essa reforma ortográfica aí foi só pra levantar uma grana, afinal, tem que reeditar os livros e tal, sabe como é...Piscadela

    Concordo plenamente com você que o uso do hífen ajuda o leitor a ter melhor compreensão semântica e etimológica dos vocábulos, e que as regras deveriam ser mais uniformes. Eu pessoalmente hifenizaria váaarias palavras, mas enfim...

    Ah, sobre o corrimão: falo corrimãos, mas dá pra entender que corrimões também tá certo, por causa de limão/limões.

    Sinceramente?? Dando pra se comunicar, tá valendo. Claro que numa situação mais acadêmica/mais formal, é interessante seguir as picuinhas da gramática normativa, agora, no dia a dia...bah!

    Solange de A. GrossiSolange de A. Grossi ‒ quarta, 13 outubro 2010, 17:55 BRT # Link |

  8. luis. escreveu:

    Estava procurando a palavra plurão e vim bater aqui: "Se o plurão de mão é mãos, o natural é que o plural de corrimão fosse corrimãos". Alguém poderia me explicar quando se usa esse tal 'plurão' ?

    Onde li anteriormente a aplicação do plurão está num comentário do seguinte endereço: http://imprensaqueebom.wordpress.com/2011/05/19/erro-feio-do-cao/

    Grato

    default user iconluis. ‒ segunda, 23 maio 2011, 11:55 BRT # Link |

  9. escreveu:

    Estou numa formação sobre o novo acordo ortográfico e pediram a opinião sobre  os critérios que usaram para a hifenização.Nem sei o que dizer

    Ajudem-me

    default user icon ‒ quarta, 20 julho 2011, 15:58 BRT # Link |

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