Cada vez mais freqüente é encontrar, nas calçadas de Pinheiros, moradores de rua, às vezes famílias inteiras, a nos lembrar das injustiças de nosso País. O mais alarmante: a tragédia se banalizou. Passamos e fingimos que não os vimos. Os mendigos já quase integram a paisagem, junto com os carros, os prédios, as pichações. Na dúvida, passamos ao largo, temendo um assalto, evitando a esmola ou, simplesmente, poupando os olhos da constatação amarga de que aquelas pessoas (sim, são pessoas!) subsistem em tão deplorável condição. Perdemos a capacidade de indignação e nos conformamos. Estamos acostumados com mais essa aberração paulistana. São Paulo, terra resignada aos duzentos quilômetros de congestionamento diário, aos emporcalhados rios, à camada cinza no céu, às favelas e à insegurança.
É lamentável, mas é cotidiano. E, ao longo de cinco anos vivendo aqui, fui notando os mendigos do bairro, observando-os. Há os bêbados, os garotos, os leprosos, as senhoras com criancinhas. Alguns de fato dormem nas ruas do quarteirão, outros só aparecem durante o dia, para pedirem próximo à entrada do supermercado. Cada um arruma sua forma de sensibilizar os pedrestres - uns têm discurso ensaiado, outros expõem alguma ferida, tem quem peça pelos filhos, e aqueles que se revoltam com a indiferença e batem as canequinhas metálicas contra o chão.
Em meio a esse cenário terrível, no entanto, há algum tempo notei um sujeito peculiar. Enquanto os outros pediam esmola, esse senhor, calvo, gordinho, passava os dias sentado ao chão entalhando folhas de madeira com um facão. E aqueles pedaços de madeira iam ganhando forma, e em algum tempo podia-se perceber do que se tratava: violinhas de criança! E não é que o mendigo levava jeito. Conseguia fazer os dois tampos bastante simétricos, de alguma forma os unia, colocava o bracinho e até arrumava uns cordões para fazerem as vezes de cordas. Obviamente fiquei estarrecido e comecei a me indagar qual teria sido a história daquele homem. Será que ele vende esses brinquedos para obter alguma renda? Será que ele faz pela simples necessidade de manter-se ocupado? Desconheço as respostas.
Vez por outra o encontro pelas ruas do bairro, com um saco preto bem cheio, que deve guardar seus poucos pertences, sua matéria prima ou, mesmo, as violinhas já prontas. Nunca o vi pedindo nada, e toda vez que nos cruzamos eu me comovo. Penso como mesmo na miséria pode haver beleza, pode haver lições, pode haver exemplos. Também penso no milagre da música. Não sei se as violinhas dele emitem algum som, mas, ainda assim, o instrumento musical está lá, dando sentido à vida daquele homem.
Hoje de manhã, um frio ardido, fui ao banco e cruzei com o mendigo luthier. Ele carregava uma gaveta nas mãos, pela primeira vez vi da onde ele tira as madeiras para suas obras. Quando voltei, o resto da gaveta estava na lixeira, e o fundo se transformava em tampo, a golpes de facão. Enquanto muitos dormiam em camas quentinhas, ou já de pé reclamavam da vida, lá estava o mendigo, entalhando a gaveta velha. Pensei em puxar papo, mas, mais uma vez, os medos, preconceitos e a rotina me impediram. Resolvi, então, contar o caso no blog, e prometer pra mim mesmo conversar com o sujeito da próxima vez que encontrá-lo -- tentar entender um pouco da história de uma figura que os apressados paulistanos ignoram, e vão pisoteando as violinhas abadonadas no passeio. Sem perceber.
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Comentários
Oda escreveu:
Gostaria que o Giacomo estivesse nessa situacao, o mardito quase acabou com o meu APX-6NA... Bom falando de mendigos, sem discutir as questoes sociais, como vc disse, penso que eles, de certa forma, completam o cenario urbano que tanto me agrada. Confesso que adultos nessa situacao nao me despertam tanta indignacao quanto em vc... Coisas do meu lado neoliberal. Mas algo que sempre me entristesse sao criancas nessa situacao, isso realmente acaba como meu dia.
PS: Giacomo eh um pseudo-luthier que tem uma loja na Teodoro.
Helder Gonzales escreveu:
Grande Oda, bom vê-lo por aqui. Sempre acompanho seus posts sobre Whisky, mto bacanas, por sinal!
É, luthier ruim é foda, e seu violão é bem carinho pra um kra ruim mexer, neh? Apesar de morar do lado da Teodoro, tenho um luthier de confiança em Minas.
Quanto aos mendigos, eu certamente prefiriria o ambiente urbano sem eles. Claro que as crianças causam mais comoção (afinal, já nascer nessas condições torna a vida delas muito mais difícil e sem perspectivas).
De qualquer forma, se o adulto pode não despertar comoção sempre, muitas vezes ele desperta insegurança ou aborrecimento.
Oda escreveu:
Ola Helder!
Bom saber que alguem se interessa por aquelas bobagens, rsrs! Alias, minhas desculpas pessoais pela parada que dei nesses posts...
Pois eh, nem sei quanto meu violao ta valendo hoje, mas sei que quando comprei foi um daqueles momentos impares na vida (ou melhor, par e primo). Bom, mas depois ele ficou legal, levei pra case e tratei dele eu mesmo. Depois disso so levei os violoes no Tigues. O cara eh doido mas eh bom. Fica ali na Praca da Arvore.
Voltando ao foco do post, eh inseguranca e aborrecimento certamente eh algo que sinto tb. Mas sei que tem gente nesta situacao por motivos alem de suas proprias possibilidades. As vezes me pego pensando nas opcoes que essa pessoa teve e se ela sabia que ela tinha opcoes. Explico.
Quando mais jovem, eu fiquei olhando para um velho no metro e pensei que ele nao deveria estar ali... Deveria estar na casa dele e com todo o conforto e coisas do tipo. Uns minutos depois eu vi uns moleques fazendo merda e pensei se o futuro deles seria como o do velho. O que acabei registrando eh que, em geral, as pessoas so colhem o que plantam. Mas a questao que martela minha cabeca eh se elas sabiam que podiam plantar outras coisas.
Entao hoje considero que tao importante quando dar a pessoa possibilidades (atraves da educacao) eh contar para ela que essas possibilidades existem. E nao se faz isso com PAS ou PAC ou bolsa familia. Dai a minhas diferencas com a atual politica social do Brasil.
Num cliche bem barato: nao basta dar o peixe, tao pouco ensinar a pescar. Eh preciso as duas coisas e mais, eh preciso dizer que a pessoa pode pescar.
Alguem pode dizer que isso faz parte do educar, nao vou discordar. Mas isso nao muda as coisas.
escreveu:
Ler o comentário de vocês me fez perder as esperanças de que o Brasil algum dia saia do fundo do abismo em que se encontra há mais de 500 anos. A miséria brasileira é irremediável, conclui aqui para meu completo desconsolo e amargura. Temos de um lado hordas de gente desprovidas de tudo, sobrevivendo sem qualquer resquício de dignidade. Tão absolutamente miseráveis que se vêem forçados a resignar-se de sua situação de miséria e passá-la adiante a seus filhos e netos, da mesma forma que a herdaram de seu pais e avós. Essa situação por si só já é suficiente para congelar a alma do mais otimista dos otimistas. Mas a nossa pobreza não pára por aí. Temos também gente como vocês que apesar de não sofrerem da miséria material de dezenas de milhões de conterrâneos, assumem sem nenhum constragimento uma miséria de espírito sem fronteiras. Você conseguem provar uma teoria que nutro faz algum tempo de que a classe média do Brasil é imbátivel em vomitar pensamentos mesquinhos, preconceituosos e ignorantes. Uma pena, Helder,que você não tenha falado com o senhor das violas. Não resta a menor dúvida que o mendigo ali era você. Com a diferença que a miséria intelectual, diferente da material, têm difícil solução. Mas quem sabe, não é mesmo? Talvez aquele senhor pudesse lhe oferecer alguma ajuda.
Helder Gonzales escreveu:
brasil@yahoo.com.br?
Por que não se indentifica, saber o nome do intelocutor ajuda =]
Deixo claro, agora, que as opiniões do Oda ficam por conta dele, vou comentar aqui as minhas.
'brasil@yahoo.com.br', o interessante é que (embora vc me critique duramente) concordamos em mta coisa. Apesar da aparente frivolidade do comentários que troquei com Oda (e foi só o rumo que a conversa tomou), eu escrevi esse post justamente para sucitar reflexão -- como a que você postou.
Quando digo que prefiro o ambiente urbano sem os mendigos, não estou dizendo que eu acho q tem q sumir com esse pessoal! É justamente o oposto, eu acredito na necessidade de se atacar profundamente as causas da miséria no Brasil, para que ninguém precise viver nessa condição de indignidade. O Oda disse que eles 'completam o cenário urbano', pois eu discordo, eu acredito que eles são uma prova da urgência das questões sociais no Brasil.
E questão social não é questão de polícia, mas questão de distribuição de renda, educação, emprego, segurança alimentar, saúde...
Cada vez que eu vejo um mendigo, eu me revolto, e me revolto ainda mais pela apatia da sociedade brasileira a esse respeito. E esse post foi uma pequena tentativa de quebrar a inércia e registrar algum protesto.
Isso é um ponto. Agora, as maneiras de se enfrentar esse problema dão panos pra manga. Se quiser debater, ficarei contente...
Por outro lado, sei que as generalizações e os preconceitos partem tanto da "classe média" como dos seus críticos -- e não levam a lugar algum. Longe de mim ter algum 'espírito de classe', ou querer defender a classe média. Só queria dizer que eu notei muito preconceito no seu comentário acerca da classe média. Existe mta gente que pensa diferente no Brasil, independetemente de sua "classe".
O problema social do Brasil não é 'culpa' de nenhuma 'classe' em específico, mas é um fardo que toda nossa sociedade compartilha e precisa equacionar. Seja a elite corrupta, seja a classe média alienada, seja a classe pobre desarticulada politicamente, todos temos parcela de responsabilidade pela situação.
O Brasil é uma democracia eleitoral há duas décadas, cabe a nós traduzir essa conquista em democracia social. E aí jogo de empurra não ajuda, é preciso unir a Nação em prol dessa reinvenção social.
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Concordo que eu devia ter falado com o Sr. das Violas, e fiquei entristecido de não tê-lo feito. Aliás, talvez por ter andado matutando a oportunidade perdida que escrevi o texto.
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Abraços!!
Tom escreveu:
Helder,
alguns questionamentos que seu ótimo post sucitam talvez possam ter algumas informações interessantes no livro O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro. Coloquei um pequeno trecho no meu blog, O abismo entre os estratos sociais do Brasil: por que o silêncio?
Pretendo ainda escrever mais sobre o assunto, mas tenho que diminuir um pouco minha ignorância.
Abraços!
Tom escreveu:
Caro Helder,
republiquei o excerto do livro do Darcy Ribeiro em meu novo blog:
http://blogdotom.wordpress.com/2009/05/05/o-abismo-entre-os-estratos-s
Abraço!
escreveu:
Me desculpa minha parada nesse blog.
Sabe galera tanto criançãs como velho é triste ver eles nessa situação ,não quero discutir aqui os problemas sociais,mas os moradores de rua me incomoda muito,sabe todos que eu vejo me chama minha atenção,pois todos tem suas peculiaridades.imagima voce ver um velho comendo comida do lixo e sabendo que esse cara´de certa forma já contribuiu para a produção do pais,e as criançã comendo lixo qual será a sua prespectiva de futuro sabendo que essa criançã é uma das ingrenagem que gira o mundo.onde está a dignidade humana,onde está a proteçaõ do estado com esses individuas,pois quando nossos ancestris abriu mão da liberdade para criar o estado houve uma troca reciproca,legitimamo o estado e em troca ele nos da proteção.onde está essa proteção.