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novembro 01, 2012

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Postado por Helder Gonzales

"Con el anhelo dirigido hacia ti
yo estaba sólo, en un rincón del café
cuando de pronto oí unas alas batir,
como si un peso comenzara a ceder,
se va,
se va,
se fue..." - Jorge Drexler

Às quintas à noite, ele fazia aula de tênis e ela, de teatro.

Namoro à distância, muito mais fácil hoje do que antigamente.

Imaginem vocês, quando o ápice do contato com o amado apartado era receber uma carta! Dizem que a carta tem seu charme especial, porque é como se ela carregasse certa energia consigo. Ter materialidade faz toda a diferença. Você sabe que aquele objeto esteve nas mãos de sua paixão antes de chegar às suas. É como se a carta fosse um pedacinho do outro que viajou para matar um pouco da saudade.

Mas eles não. São do tempo da conectividade. Das redes sociais. Do celular, do Whatsapp, do Facebook, das vídeo-chamadas. Falavam-se diariamente, mais do que isso, várias vezes ao dia.

A bolinha vermelha com um número sobre o ícone verde de um telefone dentro de um balão de diálogo - eis o alento dos namorados do século XXI. Quanto maior o número, mais reconfortante. Na correria do dia-a-dia, entre um compromisso e outro, basta puxar o telefone do bolso, baixar o olhar, deslizar a seta para direita e conferir se há mensagens não lidas. Se há, ufa, que alívio! Ela pensou em mim.

A aula dele começava às 20h30, a dela, às 19h. O intervalo dela era às 21h, mas a aula dele só acabava às 21h30. Isso era certeza de notificações no whatsapp nas noites de quinta.

Normalmente, se falavam antes de dormir. Ela se deitava mais cedo, pois tinha que despertar às 6h para não perder a hora da faculdade. Às 6h, ele ainda estava no quinto sono.

Desde que iniciaram o teatro e o tênis, o samba começara a atravessar. A aula dela acabava às 23h, mas ele ainda ficava pra jogar uma partida com o amigo e saiam pra jantar. Chegava em casa à meia noite. Acabavam não se ligando.

Ele praticando o backhand, o celular começa a tocar. Não dá pra parar aula, ainda mais porque é em dupla. O jeito é deixar tocar e retornar depois.

Findo o treino, cansado, se dirige ao banco na lateral da quadra. Em cima da capa amarela da raquete, a carteira, o celular e as chaves do carro. Três chamadas não atendidas. Namorada.

Estranho.

_ Babe, tudo bem? Tô no tênis. Vi que você me ligou.

_ Oi, tudo bem. É que estou no teatro, e o professor pediu pra eu fazer uma cena mais quente com um menino e eu não consegui. Travei, não sei. Nelson Rodrigues, sabe. E ele me agarrou e e... ah, não sei. Resolvi te ligar na hora. Depois pedi pra fazer a cena de novo, com outra pessoa. O professor falou que eu tinha que ser profissional, mas me senti estranha. Falei, "vou ligar logo pro namorado".

Ele sabia que ela tinha experiência no teatro, estava acostumada com essas situações.

Aliás, ainda quando acabara de conhecê-la, viu no Youtube o trailer de um filme dela. Cenas sensuais. Sentiu um calorzinho por dentro, ciúme mesmo. Se censurou. Era da profissão dela, oras. E, quer saber? Era legal! Quem não quer a gata da tela ao seu lado? Depois pediu para ver o filme todo com ela e se amarrou, não sentiu mais ciúme.

Mas dessa vez algo foi diferente e ela ligou para contar.

Ele soube imediatamente. Era questão de tempo. Nunca mais as coisas seriam as mesmas.

Pensou em Drexler. Se imaginou em um café uruguaio, de terno e camisa listrada, sem gravata, com o copo na mão, encostado na quina das paredes, ouvindo subitamente o rangir da marquise de madeira do mezanino, observando-a de longe, próxima ao balcão, com um colete de pele, de costas, voltada para a porta, de saída.

Lembrou do Rubem Alves: "Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que a qualquer momento ele pode voar".

Sentiu as asas dela querendo bater.

Desligou o telefone resignado. Apanhou a raquete. Coçou atrás da nuca suada e se dirigiu para a linha de base. Bateu a bolinha no chão. Fitou o amigo do outro lado da quadra.

_ Eu começo!

Respirou fundo, lançou a bola e bateu. Rede.

Soltou os braços, corrigiu a postura dos pés, lançou e bateu de novo.

Dupla falta.

***

"O segundo que antecede o beijo
A palavra que destrói o amor
Quando tudo ainda estava inteiro
No instante em que desmoronou
Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz" - Herbert Vianna


 

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Postado por Helder Gonzales

Comentários

  1. Blackberry escreveu:

    Parabéns pelo texto.

    default user iconBlackberry ‒ terça, 06 novembro 2012, 15:56 BRST # Link |

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