Stoa :: Helder Gonzales :: Blog :: O fim da novela e a nossa necessidade de redenção.

outubro 20, 2012

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Hoje o Brasil parou para assistir o útlimo capítulo de Avenida Brasil. Foi a maior audiencia da TV brasileira nesse ano, superando a final da Libertadores, entre Corinthians e Boca Juniors. Foi também o maior faturamento da história da tv latino-americana.

Há quem critique o interesse popular pelas novelas. Geralmente é o mesmo tipo que reclama da atenção dada ao futebol e que adora as frases feitas como: "um país de miseráveis, em época de eleições e de jugalmento do Mensalão, e as pessoas só querem saber da Carminha e do Flamengo, desisto". Confesso que acho esse argumento, além de ranzinza, um tanto elitista. 

A novela e o futebol fazem parte da nossa cultura, são manifestações de nossa brasilidade. A novela e o futebol, de alguma forma, materializam nossas paixões, nos humanizam, nos ajudam a lidar com a dureza da vida.

Sem falar que, no Brasil, a novela e o futebol aproximam cidadãos divididos pelo abismo social. Patrões e empregados assistem -- e comentam -- a novela e o jogo.

Apesar de não ser exatamente fã do formato -- acho que os quase 200 capítulos diários tornam o desenvolvimento do enredo lento e a produção muito cara -- valorizo a indústria brasileira de novelas.

As novelas são nosso equivalente à indústria do cinema e das séries dos EUA. Assim como o cinema e os seriados americanos, nossas novelas são exportadas e fazem grande sucesso, destacando-se das concorrentes estrangeiras pelo alto padrão de qualidade.

Além disso, a teledramaturgia brasileira representa mercado importante para nossos artistas -- atores, diretores, produtores, autores, entre tantos outros.

Muito bem, hoje a novela mais bem-sucedida dos últimos tempos chegou ao fim. Como sempre, muitos cliches. Casamento, gravidez, vilã na cadeia, o time do bairro campeão. Final feliz, justiça, catarse. E não é por isso que a gente assiste?

Muitos criticam o fim da novela porque inverossímel. Bom, só de haver um fim já seria suficiente para ser inverossímel acho eu. 

Na vida real não há final feliz. A vida simplesmente segue seu curso. Haverá, sim, casamentos e gravidez. A vida e a esperança sempre se renovam. Mas também haverá mortes e separações, e não há nada que possamos fazer a respeito. 

Buscamos na ficção uma maneira de lidar com nossas tragédias. Queremos que o bem prevaleça sobre o mal, que os justos sejam recompensados e os injustos punidos, que haja felicidade para mocinhos, e que a vida valha a pena. Mais que isso, queremos que haja sentido para a vida. 

No fundo, o que buscamos, no capítulo final da novela, é a redenção. Afinal, pelo menos no mundo inventado por nós, humanos, temos que encontrar as respostas que tantas vezes não encontramos na realidade. 

Redenção -- talvez seja esse o maior desejo da alma humana defrontada com a dureza e com a falta de sentido da vida. Redenção nem que seja depois da morte -- o que não pode é acabar sem um final justo!

Redenção. Não é essa a palavra-chave das maiores ficções que inventamos para nos ajudar a lidar com a vida e com a morte?

Palavras-chave: avenida brasil, futebol, novela, redenção

© 2017 Todos os direitos reservados

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto

Comentários

  1. Sarah Ramalho Rodrigues escreveu:

    Curtido!

    Sarah Ramalho RodriguesSarah Ramalho Rodrigues ‒ sábado, 20 outubro 2012, 11:37 BRT # Link |

  2. Murilo Sasaki de Paula e Silva escreveu:

    Belo texto. Admirável. Tocou num ponto chave, o da justiça, que é a maior ambição na nossa sociedade. E, infelizmente, estamos longe de alcançar e perceber tal final justo antes da morte para milhares de brasileiros q encontramos nas ruas do nosso país. Concordo com vc q por isso o final de novelas é tão inverossímel.

    Murilo Sasaki de Paula e SilvaMurilo Sasaki de Paula e Silva ‒ sábado, 20 outubro 2012, 13:31 BRT # Link |

  3. Ian Fernandez Fortes da Costa Santos escreveu:

    Reclamo da cultura do futebol e da novela, pois a maioria dos brasileiros só sabem pensar nisso, fora o fato de que poderíamos ter mais incentivo a outros esportes e a dramas com conteúdos um pouco mais filosófico ou com uma carga maior de conhecimento científico. Acho válida a "crítica elitista" a qual você nomeia, pois não adianta para o crescimento do país ou como para melhorar diferenças sociais, continuarmos em um país onde o rico e o pobre são unidos pela novela ou pelo futebol ao invés do conhecimento ou a tentativa de adquirí-lo. 

    Ian Fernandez Fortes da Costa SantosIan Fernandez Fortes da Costa Santos ‒ sábado, 20 outubro 2012, 21:17 BRT # Link |

  4. Antonio Candido escreveu:

    Também acho algo arrogante essas caracterizações simplistas de novela e futebol como alienação. Sim, podem ter esse efeito ou uso para alguns, mas para outros pode ter o contrário. São inquestionavelmente parte da nossa cultura popular brasileira contemporânea. Tem suas limitações e vícios, mas tem algumas virtudes também. São elementos de integração, algo importantíssimo num país continental, numa sociedade altamente heterogênea como a nossa. Gostaria que novelas e futebol fossem mais diversos, que contemplassem as muitas culturas regionais, fossem menos centrados no eixo Rio-São Paulo, mas fazer o que?

    Antonio C. C. GuimarãesAntonio Candido ‒ domingo, 21 outubro 2012, 09:54 BRST # Link |

Você deve entrar no sistema para escrever um comentário.

Termo de Responsabilidade

Todo o conteúdo desta página é de inteira responsabilidade do usuário. O Stoa, assim como a Universidade de São Paulo, não necessariamente corroboram as opiniões aqui contidas.