“O místico crê no Deus
desconhecido. O pensador e o cientista crêem numa ordem desconhecida. É difícil
dizer qual sobrepuja o outro em sua devoção não racional”.
L.L. White
Sempre tive a intuição de que a ciência e a religião eram
primas-irmãs brigadas. Por mais que meus colegas, religiosos e cientistas,
tentem me provar o contrário, sempre me interessei por ambas e vejo nelas
semelhanças indisfarçáveis.
Recentemente, li uma obra que acentuou minhas convicções, e
me deu pistas de como encontrar algumas identidades que as duas tentam esconder
a todo custo. Filosofia da Ciência (Ed. Brasiliense), do Rubem Alves. É de lá
que tirarei algumas idéias para debater aqui.
Tanto a religião, quanto a ciência, são construções sociais
da humanidade que visam responder às dúvidas que intrigam todos nós. Ambas fazem
parte e imprimem marcas profundas sobre as culturas nas quais estão inseridas. As
duas refletem o DESEJO humano de compreender a realidade na qual vivemos. As
duas se apóiam na FÉ de que, para além da nossa limitada compreensão, há uma
ORDEM superior, invisível e ainda desconhecida.
Pera aí? Ambas se apóiam na fé? Sim, na FÉ! Parece óbvio que
o religioso “apele” para a fé, a crença nas proposições que não podem ser
demonstradas ou comprovadas. Mas e o cientista?
Bom, para começar a fazer ciência, o pesquisador precisa
assumir que há uma ordem subjacente e cognoscível. Não faria sentido que se
procurassem leis e padrões se ACREDITÁSSEMOS em um Universo imprevisível
e desordenado.
Para a construção de qualquer raciocínio lógico, há sempre que
se admitir (arbitrariamente) premissas que, por definição, são indemonstráveis.
Pois bem, eu argumento que a escolha da premissa é sempre um ato de fé – justamente
a crença no indemonstrável. De modo que, em princípio, tanto a premissa A = “Há um Deus
criador do Universo”, quanto a premissa B “A natureza é regida por leis imutáveis”
são igualmente válidas e não racionais. [Evidentemente estou sendo provocativo com essa comparação, mas não quero me alongar nela, pois não é o objeto desse texto].
Popper afirma que; “O método científico PRESSUPÕE a
imutabilidade dos processos naturais ou o ‘princípio da uniformidade da
natureza’." Note que essa não é uma conclusão da ciência, mas seu ponto de
partida.
Aí está a evidência da presença da fé na base da ciência.
Há outra maneira de apresentar o mesmo problema, talvez de forma ainda mais contundente: afirmando que raciocínios científicos muitas
vezes não são lógicos! Trata-se do problema
da indução, trazido ao debate por David Hume.
Vejam o que Rubem Alves diz: “Todo
conhecimento, toda ciência, toda tecnologia se baseia no conhecimento de relações
entre causas e efeitos. Mas o que significa dizer que uma coisa é causa de
outra? Significa dizer que estou afirmando a existência de uma relação necessária
entre elas. Ao afirmar uma relação causal, estou dando um pulo enorme, para
longe dos fatos. Se você disser: (i) Faz um ano, a chuva apagou um incêndio. (ii)
Ontem joguei água na brasa e ela apagou. Apenas enunciou fatos. Se, a partir
desses fatos, você disser “Água apaga o fogo” está enunciando uma relação
pretensamente válida para todos os fatos. O enunciado tem as propriedades da universalidade (a água sempre apaga o
fogo) e da necessidade (apaga o fogo necessariamente, não por acidente). Mas o
que o autorizou a pular dos enunciados relativos aos fatos passados para o
enunciado relativo a todos os fatos, inclusive futuros? Uma coisa é certa, a
conclusão de que o futuro será semelhante ao passado, que a totalidade dos
casos será semelhante aos alguns que examinei não é lógica. Dizer que não é lógica é afirmar que o
enunciado sobre todos não estava
contido no enunciado sobre alguns.
O problema está exatamente aqui. Porque a ciência enuncia leis e teorias que
pretendem ser conhecimento universal e necessário. Quem foi que deu asas à
mente para tal voo? Ou será que ela simplesmente trapaceou no jogo, fazendo um
movimento proibido?”.
Hume argumenta que é o costume que nos autoriza a construir
relações de causa e efeito: “Quando a repetição de um certo ato ou operação
particular produz a tendência de renovar o mesmo ato, sem para isto sermos
impelidos por qualquer raciocínio (lógico) ou qualquer processo de
entendimento, dizemos sempre que esta propensidade é efeito do costume”. E olhem o que o Rubem Alves diz disso: “Somos
forçados a admitir que nas teorias não são apenas os fatos que falam. É o
COSTUME, um fator PISCICOLÓGICO, que faz com que liguemos estes fatos de uma
certa forma. Foi-se o ideal de um discurso que enuncia os fatos apenas. Porque
aqui, subrepticiamente, o homem introduz sua crença. A única ponte que liga o
nosso passado ao futuro é, de forma idêntica, o hábito. As coisas se repetiram
tantas vezes, de forma idêntica, que fomos levados a um ato de fé: o futuro
deve ser análogo ao passado.”
Para os desconfiados da versão de Rubem Alves, vejam a versão
da Wikipedia: “Hume argues that causal
relations are found not by reason, but by induction. This is because for
any cause, multiple effects are conceivable, and the actual effect cannot be
determined by reasoning about the cause; instead, one must observe occurrences
of the causal relation to discover that it holds. For example, when one thinks
of "a billiard ball moving in a straight line toward another,"[4] one can conceive that the first ball bounces back with the second ball
remaining at rest, the first ball stops and the second ball moves, or the first
ball jumps over the second, etc. There is no reason to conclude any of these
possibilities over the others. Only through previous observation can it be
predicted, inductively, what will actually happen with the balls. In general,
it is not necessary that causal relation in the future resemble causal
relations in the past, as it is always conceivable otherwise; for Hume, this is
because the negation of the claim does not lead to a contradiction.
Next, Hume ponders the justification of induction. If all matters of
fact are based on causal relations, and all causal relations are found
by induction, then induction must be shown to be valid somehow.He uses the fact that induction assumes a valid connection between
the proposition "I have found that such an object has always been
attended with such an effect" and the proposition "I foresee that other
objects which are in appearance similar will be attended with similar
effects."[5]
One connects these two propositions not by reason, but by induction.
This claim is supported by the same reasoning as that for causal
relations above, and by the observation that even rationally
inexperienced or inferior people can infer, for example, that touching
fire causes pain. Hume challenges other philosophers to come up with a
(deductive) reason for the connection. If he is right, then the
justification of induction can be only inductive. But this begs the question; as induction is based on an assumption of the connection, it cannot itself explain the connection.
In this way, the problem of induction is not only concerned with the
uncertainty of conclusions derived by induction, but doubts the very
principle through which those uncertain conclusions are derived.”
Como o próprio Hume defende, isso não é razão para jogarmos
fora a indução ou o método científico. Na verdade, esse salto da lógica para a
indução é bastante útil. Ocorre que esse salto não está apoiado sobre a razão, mas é um salto no escuro, apoiado apenas no hábito, na crença de que o futuro deve ser igual ao passado, de que o geral deve ser igual ao particular.
O meu ponto com esse post é apenas identificar atos de fé na
investigação científica, para derrubar alguns mitos segundo os quais a ciência
seria puramente lógica e racional, imune à intuição, às crenças e às emoções e, assim muito
superior à supersticiosa e atrasada religião. Ora, meus caros, por mais que briguem, e vistam roupas bem diferentes para não serem reconhecidas, ambas são primas-irmãs.
Que fique claro que não estou dizendo que ciência e religião são a mesma coisa, que podemos tomar uma pela outra. Quis apenas propor a reflexão sobre as simililaridades que há entre ambas, e sobre o elemento de crença nos processos indutivos.
A ciência é fundada no desejo, na curiosidade, na
criatividade, na imaginação, na ilusão, na fé -- ainda que arrogue a estrita racionalidade de seus métodos. É uma magnífica manifestação do espírito
humano. Uma tentativa de conhecer o passado e influenciar o futuro. Uma
resposta a emoções que não podemos conter ou explicar. É um reflexo da nossa ânsia por respostas às perguntas que ecoam dentro
de nós, como também são a arte e a
religião.
Palavras-chave: ciência, costume, crença, fé, Hume, indução, Karl Popper, lógica, método científico, problema da indução, Religião, Rubem Alves