(esqueceu?)

Stoa :: Helder Gonzales :: Blog

Janeiro 29, 2010

default user icon
Postado por Helder Gonzales

 

 

                                  

Eis a música do dia, Hurricane do Bob Dylan.

 

Dylan fez a música após ler a história de Rubin Carter, pugilista negro conhecido como "Hurricane". Rubin foi condenado injustamente a três sentenças perpétuas por supostos assassinatos. Sua causa despertou grande comoção, já que, ao que tudo indica, sua condenação foi um caso claro de racismo.

Depois de cumprir 23 anos de prisão, Hurricane foi inocentado em novo julgamento. 

Em 1999 a história virou filme, interpretado por Denzel Washington, mas, bem antes disso, em 1975, Dylan lançou a música, um dos seus maiores sucessos na década de 70.

Pra mim, uma das melhores interações entre violino e música popular. Aliás, violino foi o meu primeiro instrumento musical. Apesar de, na época, estudar um instrumento clássico, acho que eu já gostava mesmo de rock'n'roll. No fundo, eu queria tocar algo assim:

Palavras-chave: dylan, música, racismo, violino

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 1 comentário

Outubro 25, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Depois de 13 anos, o Pearl Jam voltou a lançar um álbum no primeiro lugar das paradas. Backspacer, cujo primeiro single é 'The Fixer' (2009):

'The Fixer' é uma composição do batera Matt Cameron, com alguns pitacos dos guitarristas Gossard e McCready e letra de Eddie Vedder.

Daqui partem as ligações curiosas entre as bandas de Seattle.

Matt entrou na banda apenas em 1998. Antes disso ele era o baterista do Soundgarden. Acontece que, antes mesmo de o Pearl Jam lançar seu primeiro disco, Cameron já havia tocado e gravado um disco com os caras.

A história vai assim, antes do Pearl Jam, o guitarrista Stone Gossard e o baixista Jeff Ament tinham outra banda bem promissora, chamada 'Mother Love Bone'. O grande nome desse grupo era o vocalista e letrista, Andrew Wood. O frontman poderia ter sido um dos ícones da geração grunge dos anos 90, como Kurt Cobain (será?). Acontece que Wood morreu de overdose duas semanas antes do lançamento do primeiro álbum.

Mother Love Bone - Come Bite the Apple (1990)

O roomate de Wood era um certo Chris Cornell, vocalista do Soundgarden.

Soundgarden - Fell on Black Days (1994)

Cornell compôs duas músicas de tributo ao seu amigo e chamou os ex-bandmates dele, Gossard e Ament, para gravá-las. Juntaram-se ao time o guitarrista Mike McCready, que estava fazendo um som com Gossard e Ament, e o batera do Soundgarden, Matt Cameron (bingo!).

Como Cornell andava com problemas na voz, o vocalista que tinha chegado pra fazer um teste para o que viria a ser o Pearl Jam, um tal de Eddie Vedder, deu uma força. E assim, a banda intutulada 'Temple of the Dog' gravou seu único álbum. O single de sucesso é 'Hunger Strike' (1991), um dueto entre Cornell e Vedder.

Depois do projeto "Temple of the Dog", Gossard, Ament, McCready e Vedder formaram o Pearl Jam. Faltava, porém, um batera. Durante os primeiros 8 anos da banda, 4 músicos diferentes assumiram as baquetas. Até que, em 1998, depois de o Soundgarden interromper as atividades, Cameron juntou-se à banda, e nela permanece já há 11 anos.

Pois é, tem caras que 'tão em todas'. Parece que, de um jeito ou de outro, essa galera de Seattle nasceu pra fazer sucesso.

---------

PS. Não coloquei o clipe oficial de The Fixer pq a Universal Music Group não permite a incorporação do vídeo no blog. What a shame!

 

Palavras-chave: grunge, mother love bone, pearl jam, podcast, rock, seattle, soundgarden

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 1 comentário

Outubro 22, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Fim de tarde comum. 18h35, hora de encarar o trânsito e voltar para casa. Se gabava com os colegas de escritório. Morava perto do trabalho. Sete congestionados quilômetros, a maior parte pela pista expressa da Marginal. Normalmente gastaria uma hora e vinte no trajeto. Daria na mesma ir a pé.

Tudo parado. 'Pista expressa' só podia ser uma piada orwelliana. Rádio ligado. A CBN informando os 140km de lentidão. A cada 40s, a  voz do jornalista encoberta pelas agudas buzinas do motoboys cortando por entre os carros.
 
Mão direita segurando displicentemente o volante, cotovelo esquerdo apoiado na porta. Pé direito no freio, esquerdo na embreagem. Primeira marcha engatada, pronta para o próximo vai e para. Nuvens escuras, a chuva de verão se preparando no céu da capital. O motorista da frente tentando mudar de faixa. Sem dar seta. Mais um barbeiro idiota. Vai e para. Menos 15 metros.

Desengatou com a mão direita, passou a esquerda sobre os cabelos ensebados. Levou consigo três fios. Estava ficando calvo desde o fim da faculdade. Notou a lente dos óculos cheia de dedos. Tirou, esfregou na camisa. Sem grande sucesso. O tecido era 51% de algodão e 49% de poliéster. Estava em promoção, era mais fácil de passar, mas não servia para limpar os óculos. Recolocou as engorduradas lentes, agora embassadas em linhas paralelas.

Olhou pra frente, coçou atrás da cabeça. Desligou o motor. Abriu a porta, desceu do carro. Voltou-se para trás. Do lado esquerdo, os prédios empresariais. Tótens, imponentes. Do lado direito, o rio, ou o que restou dele. Parado, como o tráfego. Mirou a constelação de estrelas amarelas. No outro sentido, as vermelhas. Começou a andar, na contra-mão, por entre os carros.

Os motoristas o repreendiam com a gentileza de praxe: "Filho da puta, ficou maluco, volta pro carro, porra!". Ignorava. Ouvia apenas o som da cidade ao fundo. Aquele barulho que, quando para, provoca o ensurdecedor silêncio da madrugada. Sentiu os primeiros pingos grossos no rosto. Começava a chover.

Epifania. Finalmente se libertara. Estava livre para andar por entre os carros, na chuva de verão.

Já não sentia mais o corpo. Estava no chão, deitado. Ao seu redor, um círculo de desconhecidos. Do seu lado, um besouro estatelado. Via anjos vestidos de cinza chegando em uma carroagem vermelha. Tentando abrir caminho por entre os curiosos. Na boca, sentia um gosto de ferro, que, aliás, nunca entendera, já que nunca havia provado nada de ferro. Tentou mexer as pernas, não conseguiu. Procurou erguer os braços. Nada. A cabeça pesou para o lado. Encarou o besouro agonizante, sua carapaça preta. Buscou fitar os olhos de seu companheiro de ocasião, não conseguiu, estavam obscurecidos pela viseira fumê. Balbuciou alguma coisa. Ininteligível.

As mãos firmes dos anjos cinzas ajeitavam e fixavam seu pescoço. Agora era obrigado a olhar pra cima, recebendo a água que caia do céu direto nos olhos. Os aflitos agentes do resgate insistentemente lhe perguntavam algo. Nem percebeu. Estava ocupado reparando as gotas ao fundo. Vermelhas, apagavam, brancas, apagavam, vermelhas, apagavam... Cadenciadamente, como que numa coreografia.

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Outubro 18, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Três músicas de bandas não tão ouvidas por aqui.

Os críticos classificam com os rótulos mais bizarros: indie rock, indie pop, electro rock, dance punk, space rock, neo psychedelia...

Confiram:

MGMT - Electric Feel

Chemical Brothers & Flaming Lips - The Golden Path

Postal Service - Such Great Heights

Palavras-chave: Música, rock

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 2 comentários

Outubro 17, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Timbaland é o grande produtor do mainstream da música pop americana dos últimos anos. Rapper e compositor, o músico ficou famoso por introduzir com maestria elementos de rap e R&B no trabalho de artistas nada versados nesses estilos.

Como a receita pra ganhar dinheiro no mercado fonográfico é surfar na onda do momento, Justin Timberlake, Rihanna, Madonna, Pussycat Dolls, Nelly Furtado, 50 cent e outos mais contrataram os serviços do produtor, pasteurizaram seu som e faturaram bastante.

Agora, será que há espaço pra essa influência no mundo do rock?

Bom, Chris Cornell, o lendário vocalista do Soundgarden e do Audioslave, resolveu tentar. Chamou Timbaland pra produzir seu último disco. E....

Ficou terrível! Um horror!

Uma tragédia anunciada, foi o que pensei quando ouvi o resultado do trabalho da dupla. Uma mistura que não tinha mesmo como dar certo. Ou tinha?

Quando ouvi a faixa 2 do novo álbum do Muse vi que estava enganado!(Registre-se, no entanto, que é só essa música que é assim no disco todo, que, aliás, é muito bom!)

É possível, sim, incorporar elementos da sonoridade pop (à la Timbaland) ao rock e fazer uma música bacana.

Comparem. A distância entre o sucesso e o fracasso é menor do que parece.

Muse - Undisclosed Desires |(que não é produzida pelo Timbaland, mas já foi bem descrita como "Depeche Mode meets Timbaland)

Chris Cornell - Part of Me

Palavras-chave: Música

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Outubro 08, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Já que o Perdigão fez o favor de divulgar isso aqui, imagino que terei uns visitantes novos. Eu sei que é um lance puta nerd mas... melhor não tentar disfarçar, é verdade, eu tenho um blog.

Então, sejam bem-vindos! Tem breja na geladeira, fiquem à vontade.

Não escrevo muito, nem periodicamente. Também não tenho um tema definido. Os últimos posts andam muito sérios, umas discussões sobre filosofia da ciência e religião, inclusive eu estava lendo que ZZZZzzzzZZ...

Mas, fazer o quê? Eu gosto do assunto e, como o Perdigão, me amarro em uma boa discussão.

O que mais aparece por aqui é música. De vez em quando, coloco uns vídeos, conto uns causos.

No começo (pra ver or primeiros posts vá lá embaixo dessa barra que não acaba nunca, tem um link "Anterior") os posts eram meio que crônicas do cotidiano. Mas acho que minha inspiração acabou -- se é que eu já tive alguma.

Bom é isso, eu tenho um blog, podem zuar. Mas não é um caso grave, é?

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Outubro 06, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

“O místico crê no Deus desconhecido. O pensador e o cientista crêem numa ordem desconhecida. É difícil dizer qual sobrepuja o outro em sua devoção não racional”.

L.L. White

Sempre tive a intuição de que a ciência e a religião eram primas-irmãs brigadas. Por mais que meus colegas, religiosos e cientistas, tentem me provar o contrário, sempre me interessei por ambas e vejo nelas semelhanças indisfarçáveis.

Recentemente, li uma obra que acentuou minhas convicções, e me deu pistas de como encontrar algumas identidades que as duas tentam esconder a todo custo. Filosofia da Ciência (Ed. Brasiliense), do Rubem Alves. É de lá que tirarei algumas idéias para debater aqui.

Tanto a religião, quanto a ciência, são construções sociais da humanidade que visam responder às dúvidas que intrigam todos nós. Ambas fazem parte e imprimem marcas profundas sobre as culturas nas quais estão inseridas. As duas refletem o DESEJO humano de compreender a realidade na qual vivemos. As duas se apóiam na FÉ de que, para além da nossa limitada compreensão, há uma ORDEM superior, invisível e ainda desconhecida.

Pera aí? Ambas se apóiam na fé? Sim, na FÉ! Parece óbvio que o religioso “apele” para a fé, a crença nas proposições que não podem ser demonstradas ou comprovadas. Mas e o cientista?

Bom, para começar a fazer ciência, o pesquisador precisa assumir que há uma ordem subjacente e cognoscível. Não faria sentido que se procurassem leis e padrões se ACREDITÁSSEMOS em um Universo imprevisível e desordenado.

Para a construção de qualquer raciocínio lógico, há sempre que se admitir (arbitrariamente) premissas que, por definição, são indemonstráveis. Pois bem, eu argumento que a escolha da premissa é sempre um ato de fé – justamente a crença no indemonstrável. De modo que, em princípio, tanto a premissa A = “Há um Deus criador do Universo”, quanto a premissa B “A natureza é regida por leis imutáveis” são igualmente válidas e não racionais. [Evidentemente estou sendo provocativo com essa comparação, mas não quero me alongar nela, pois não é o objeto desse texto].

Popper afirma que; “O método científico PRESSUPÕE a imutabilidade dos processos naturais ou o ‘princípio da uniformidade da natureza’." Note que essa não é uma conclusão da ciência, mas seu ponto de partida.

Aí está a evidência da presença da fé na base da ciência.

Há outra maneira de apresentar o mesmo problema, talvez de forma ainda mais contundente: afirmando que raciocínios científicos muitas vezes não são lógicos! Trata-se do problema da indução, trazido ao debate por David Hume.

Vejam o que Rubem Alves diz: “Todo conhecimento, toda ciência, toda tecnologia se baseia no conhecimento de relações entre causas e efeitos. Mas o que significa dizer que uma coisa é causa de outra? Significa dizer que estou afirmando a existência de uma relação necessária entre elas. Ao afirmar uma relação causal, estou dando um pulo enorme, para longe dos fatos. Se você disser: (i) Faz um ano, a chuva apagou um incêndio. (ii) Ontem joguei água na brasa e ela apagou. Apenas enunciou fatos. Se, a partir desses fatos, você disser “Água apaga o fogo” está enunciando uma relação pretensamente válida para todos os fatos. O enunciado tem as propriedades da universalidade (a água sempre apaga o fogo) e da necessidade (apaga o fogo necessariamente, não por acidente). Mas o que o autorizou a pular dos enunciados relativos aos fatos passados para o enunciado relativo a todos os fatos, inclusive futuros? Uma coisa é certa, a conclusão de que o futuro será semelhante ao passado, que a totalidade dos casos será semelhante aos alguns que examinei não é lógica. Dizer que não é lógica é afirmar que o enunciado sobre todos não estava contido no enunciado sobre alguns. O problema está exatamente aqui. Porque a ciência enuncia leis e teorias que pretendem ser conhecimento universal e necessário. Quem foi que deu asas à mente para tal voo? Ou será que ela simplesmente trapaceou no jogo, fazendo um movimento proibido?”.

Hume argumenta que é o costume que nos autoriza a construir relações de causa e efeito: “Quando a repetição de um certo ato ou operação particular produz a tendência de renovar o mesmo ato, sem para isto sermos impelidos por qualquer raciocínio (lógico) ou qualquer processo de entendimento, dizemos sempre que esta propensidade é efeito do costume”.  E olhem o que o Rubem Alves diz disso: “Somos forçados a admitir que nas teorias não são apenas os fatos que falam. É o COSTUME, um fator PISCICOLÓGICO, que faz com que liguemos estes fatos de uma certa forma. Foi-se o ideal de um discurso que enuncia os fatos apenas. Porque aqui, subrepticiamente, o homem introduz sua crença. A única ponte que liga o nosso passado ao futuro é, de forma idêntica, o hábito. As coisas se repetiram tantas vezes, de forma idêntica, que fomos levados a um ato de fé: o futuro deve ser análogo ao passado.”

Para os desconfiados da versão de Rubem Alves, vejam a versão da Wikipedia: “Hume argues that causal relations are found not by reason, but by induction. This is because for any cause, multiple effects are conceivable, and the actual effect cannot be determined by reasoning about the cause; instead, one must observe occurrences of the causal relation to discover that it holds. For example, when one thinks of "a billiard ball moving in a straight line toward another,"[4] one can conceive that the first ball bounces back with the second ball remaining at rest, the first ball stops and the second ball moves, or the first ball jumps over the second, etc. There is no reason to conclude any of these possibilities over the others. Only through previous observation can it be predicted, inductively, what will actually happen with the balls. In general, it is not necessary that causal relation in the future resemble causal relations in the past, as it is always conceivable otherwise; for Hume, this is because the negation of the claim does not lead to a contradiction.

Next, Hume ponders the justification of induction. If all matters of fact are based on causal relations, and all causal relations are found by induction, then induction must be shown to be valid somehow.He uses the fact that induction assumes a valid connection between the proposition "I have found that such an object has always been attended with such an effect" and the proposition "I foresee that other objects which are in appearance similar will be attended with similar effects."[5] One connects these two propositions not by reason, but by induction. This claim is supported by the same reasoning as that for causal relations above, and by the observation that even rationally inexperienced or inferior people can infer, for example, that touching fire causes pain. Hume challenges other philosophers to come up with a (deductive) reason for the connection. If he is right, then the justification of induction can be only inductive. But this begs the question; as induction is based on an assumption of the connection, it cannot itself explain the connection.

In this way, the problem of induction is not only concerned with the uncertainty of conclusions derived by induction, but doubts the very principle through which those uncertain conclusions are derived.

Como o próprio Hume defende, isso não é razão para jogarmos fora a indução ou o método científico. Na verdade, esse salto da lógica para a indução é bastante útil. Ocorre que esse salto não está apoiado sobre a razão, mas é um salto no escuro, apoiado apenas no hábito, na crença de que o futuro deve ser igual ao passado, de que o geral deve ser igual ao particular.

O meu ponto com esse post é apenas identificar atos de fé na investigação científica, para derrubar alguns mitos segundo os quais a ciência seria puramente lógica e racional, imune à intuição, às crenças e às emoções e, assim muito superior à supersticiosa e atrasada religião. Ora, meus caros, por mais que briguem, e vistam roupas bem diferentes para não serem reconhecidas, ambas são primas-irmãs.

Que fique claro que não estou dizendo que ciência e religião são a mesma coisa, que podemos tomar uma pela outra. Quis apenas propor a reflexão sobre as simililaridades que há entre ambas, e sobre o elemento de crença nos processos indutivos.

A ciência é fundada no desejo, na curiosidade, na criatividade, na imaginação, na ilusão, na fé -- ainda que arrogue a estrita racionalidade de seus métodos. É uma magnífica manifestação do espírito humano. Uma tentativa de conhecer o passado e influenciar o futuro. Uma resposta a emoções que não podemos conter ou explicar. É um reflexo da nossa ânsia por respostas às perguntas que ecoam dentro de nós, como também são a arte e a religião.

 

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 10 comentários

Outubro 02, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

2 de outubro de 2009, sexta-feira, calor em Brasília.

Adentro a madrugada escrevendo. No mesmo momento, meus amigos estão no bar, comemorando um aniversário com nada menos do que 18 garrafas de espumante. Eu, em casa. Produzindo uma resenha sobre "O labirinto da solidão" de Octavio Paz. Como se eu tivesse alguma estatura intelectual para discutir a questão da identidade latinoamericana na obra do poeta e diplomata mexicano. 

3h30 da manhã, recebo um SMS. Outro amigo, me contando de outra festa que eu perdia e do final apoteótico de sua noite. Dali a 5 horas e meia, a resenha teria de estar pronta, e, eu, engravatado, em uma carteira do Instituto Rio Branco. Assistindo a aula de Pensamento Social Latinoamericano.

5h30. A resenha pronta. Programo o despertador. Finalmente pego no sono, para acordar dali três horas.

Desperto! Procuro o celular. 10h04! Sono, muito sono. Perdi a aula. Em uma hora devo estar no Itamaraty, recebendo uma delegação chilena para reunião com nosso Embaixador responsável por relações federativas e parlamentares.

10h50, estou pronto. O carro do companheiro de república está parado na frente, na garagem. Tiro o carro dele, tiro o meu. 10h54, e eu ainda no Lago Sul. O jeito é pilotar.

11h04. Estou na porta do Anexo I do MRE. Encontro os três chilenos e os acompanho para a reunião no gabinete do Embaixador.

Finda a reunião, vou para o Rio Branco. Imprimir e entregar o trabalho durante a aula das professoras para o primeiro ano. Missão cumprida, resta esperar os amigos para o almoço. Conversas no saguão. Chicago foi eliminada na primeira votação. Tóquio na segunda. A disputa está entre Madri e Rio.

Almoço no japonês. Volto ao Ministério. Colegas comemorando. O Rio ganhou!

Tarde tranquila. Bolo para celebrar os aniversariantes do departamento. Até as tímidas estagiárias estão mais falantes. Jeito de fim de semana começando.

19h00. Fim de expediente. Todos deixando os corredores do Itamaraty com cara de felizes. É sexta à noite. E o Brasil, pela primeira vez, traz os Jogos Olímpicos para a América do Sul.

A América do Sul que é Trending Topic no Twitter. A América do Sul que também é Latina,  sobre a qual Paz escreveu: "Gente das cercanias, moradores dos subúrbios da história, nós, latino-americanos, somos os comensais não convidados que se enfileiraram à  porta dos fundos do Ocidente, os intrusos que chegam à função da modernidade  quando as luzes já estão quase apagando - chegamos atrasados em todos os  lugares, nascemos quando já era tarde na história".

É verdade, chegamos atrasados. Mas chegamos! E, em 2016, 48 depois da primeira Olimpíada realizada na América Latina - por acaso no México, de Octavio Paz - os deuses do esporte aportarão de novo por essas bandas. Só que, agora, mais ao sul, em um continente ainda desconhecido da maior celebração esportiva da humanidade.

Tenho a sensação de que hoje é um dia histórico. Um dia para ter orgulho de ser brasileiro. Do  Brasil que navega impulsionado por bons ventos de democracia e de desenvolvimento.

Já vemos, no horizonte, a celebração do progresso. A comunidade internacional como convidada. A Copa do Mundo, em 2014; as Olimpíadas, em 2016.

19h20. Chego em casa. Ávido para ver os brilhantes vídeos que apresentamos no COI. Produzidos por Fernando Meirelles, sem dúvida um cineastra - brasileiro - do primeiro time mundial. Vejo também o emocionante discurso do Presidente Lula.

Relato meu dia no blog, com a sensação de que vivemos dias gloriosos.

Tanto eu, com 23 anos, cheio de juventude e vontade de viver. Quanto o Brasil, que, quando nasci, patinava na década perdida. Tentando sair do atoleiro do obscurantismo autoritário e das invencionices econômicas.

Vi as primeiras eleições democráticas. Vi a crise política que ameaçou nossa nascente democracia. O Impeachment.

Em 1994, vi o tetra, o Plano Real e o início da caminhada rumo ao nosso futuro melhor, com a eleição de FHC. Em 2002 vi o penta, e o país se encher de esperança, com a eleição de Lula.

Hoje vejo um país estabilizado, colhendo os frutos das duas últimas décadas de trabalho árduo. Vejo Obama prestigiando Lula na vitória inconteste do Rio em sua candidatura olímpica.

21h12. Hora de descansar. Um cochilo iria bem. Recuperar-me para aproveitar a noite de sexta na capital federal.


Palavras-chave: América do Sul, América Latina, Brasil, desenvolvimento, Olimpíadas, Rio 2016, Rio de Janeiro

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 1 comentário

Setembro 21, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Hoje, 20 de setembro de 2009, Dado Vila-Lobos e Marcelo Bonfá reuniram-se no palco do festival Porão do Rock para tocar os sucessos da Legião Urbana. Foi a primeira apresentação da banda desde 1995. E eu estava lá!

Sem divulgação, a atração foi anunciada apenas como "surpresa". Vocalistas de outros grupos revesaram-se na tarefa (impossível) de substituir Renato Russo. Entre eles: Herbert Vianna, Phillipe Seabra, Tony Platão, além, claro, de Dado e Marcelo.

O show foi iniciado por um vídeo com imagens de arquivo e cenas dos ensaios para a volta. Sem serem apresentados, os músicos subiram ao palco e abriram o curto set com Tempo Perdido. Depois tocaram (que eu me lembre): Quase sem Querer, Eu Sei, Pais e Filhos, Será, Ainda é Cedo e Geração Coca-Cola. Encerraram com a aguardada Que País É Esse, em um palco repleto de convidados, dentre os quais, Loro Jones (ex guitarrista do Capital).

É verdade que Legião não é Legião sem o Renato. Tanto que os membros remanescentes evitam falar em "volta da Legião", ou vender a apresentação como sendo da "Legião Urbana". No site oficial, recém-criado, www.legiaourbana.com.br, fica evidente essa postura, bem como a possibilidade do concerto em Brasília ser o primeiro de uma série de shows pelas capitais brasileiras.

A apresentação foi bacana. A dupla Bonfá/Vila-Lobos segue limitada tecnicamente, mas as canções continuam sendo hinos da geração que viveu os anos 80/90. O público cantou todas as músicas a plenos pulmões, ajudando os vocalistas a suprirem a falta de Renato.

Os destaques foram Pais e Filhos, cantada pelo baterista Marcelo Bonfá, e Geração Coca-Cola, com Philipe Seabra, da Plebe Rude, nos vocais.

Talvez não se possa mesmo falar em show da Legião sem o Renato, mas, sem dúvida, é o mais próximo que se chega disso. Então, se vc curte ou curtiu o grupo de Brasília, prepare-se, eles devem sair em turnê! É a chance para os fãs das antigas matarem a saudade, e para aqueles que, como eu, eram muito novos na época em que eles estouraram, terem um gostinho do que era a Legião ao vivo.

---------------

Trecho de Pais e Filhos filmado do meu celular (qualidade tosca, mas vale o registro):

 

 

 

Palavras-chave: Legião Urbana, música, Porão do Rock

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 1 comentário

Agosto 28, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Agora é oficial, Noel Gallagher está fora do Oasis.

Que os irmãos Gallagher não se dão não é novidade, aliás, a briguinha até fazia parte do marketing da banda.

De todo modo, com a saída do compositor, acho que é o fim do Oasis, pelo menos da maneira que conhecemos.

Aproveitando o ensejo, posto um divertido vídeo contando como Noel assumiu os vocais no Acústico MTV, enquanto seu irmão bebia e fumava na plateia. Na época, quem ameaçava a deixar a banda era Liam.

 

 

 

Palavras-chave: gallagher, liam, mtv, noel, oasis, unplugged

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Julho 13, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Quæ sunt Cæsaris Cæsari et Quæ sunt Dei Deo.

(este post é, originalmente, um comentário ao post:  A Navalha de Ocam, de João Carlos Holland de Barcellos).

Trecho do texto de Barcellos:

"A “Navalha de Ocam” costuma ser fortemente combatida pela maioria dos teístas e crentes em geral, pois ela é um critério que bate fortemente contra a idéia de um Deus todo poderoso e criador do universo. Se não, vejamos: suponha que seja necessário um ser que tenha poder de criar o nosso universo. Então, pela “Navalha de Ocam”, é desnecessário que este ser tenha de ter poder infinito! Ele precisa apenas ter o poder de criar o universo, nada mais que isso. É também desnecessário que este ser seja onisciente, pois não se precisa saber tudo para se criar um universo, mas apenas ter o conhecimento suficiente para tal empreitada. E muito menos necessário que este ser tenha de ser bom."

Ok, mto interessante. Mas apenas pense no seguinte: se a religião fosse passível de compreensão e sistematização lógico-dedutiva racional, ela se chamaria ciência. Ao tentar aplicar a navalha de Ocam à religião, incorre-se no erro de confundir ciência e religião -- o que é perigoso dos dois lados (i.e., seja a religião se imiscuindo no campo da ciência, seja a ciência se imiscuindo no campo da religião).

Certa vez escrevi um trabalho sobre Fundamentalismo (como expressão de uma leitura moderna das narrativas religiosas) que tratava de aspectos dessa questão. Seleciono os trechos abaixo (por economia, tirei as referências):
....
As sociedades pré-modernas conviviam com duas maneiras de conhecer e interpretar a realidade – o mythos e o logos. O mito, considerado primário, refere-se à origem da vida, dirige sua atenção para o eterno e universal. As histórias da mitologia não pressupunham interpretação literal, mas eram uma forma de lidar com medos e temores, com o subconsciente. O mito não comporta demonstrações empíricas. Já o logos é a investigação racional, pragmática e científica – precisa, portanto, encontrar  correspondência concreta na realidade exterior. O logos não pode, porém, aliviar a dor ou o sofrimento, argumentos racionais não respondem a perguntas sobre o valor da vida humana. Mythos e Logos eram indispensáveis nas sociedades pré-modernas – dependiam um do outro, uma vez que são insuficientes em si. Desempenhavam, no entanto, funções distintas e não deviam ser confundidos.

O projeto moderno, com o sucesso da ciência e tecnologia que se verificou na Europa durante o século XVIII, atrofiou o papel do mythos. O logos seria o único caminho para a verdade, o mythos seria falso e supersticioso - características de povos atrasados. Mesmo nas religiões passa a prevalecer uma abordagem racional – o logos sobrepujando o mythos – o que conduz a distorções como a procura de veracidade científica nas narrativas míticas. Os fundamentalistas transformam o mythos de sua religião em logos, identificando verdades científicas em seus dogmas (como os cristãos que lutam pelo ensino do criacionismo nas escolas), e transformando sua complexa mitologia em uma compacta ideologia.

O religioso, enquanto expressão do mythos, supre demandas do homem que o do logos moderno não foi capaz de atender. Diante da supremacia da ciência e da racionalidade, as sociedades modernas se depararam com um vazio existencial. Durkhein, quando discutia a supremacia da ciência sobre a religião, dizia que está última, do ponto de vista explicativo perdia espaço para o pensamento científico. No entanto, como a ciência era, para ele, “uma moral sem ética”, isto é, um universo interpretativo incapaz de dar sentido às ações coletivas, o potencial das religiões, como forma de orientação da conduta, de uma ética de ação no mundo, permanecia inteiramente válido.

Nesse sentido, Karen Armstrong atenta que se a cultura da modernidade proclamou “o homem como medida de todas as coisas” e o liberou da dependência de uma divindade transcendente – em contrapartida revelou a fragilidade e abalou a auto-estima da humanidade. “Copérnico nos tirou do centro do Universo, Kant declarou que nunca poderíamos ter certeza da correspondência entre nossas idéias e a realidade concreta; Darwin sugeriu que não passávamos de animais e Freud mostrou que, longe de sermos criaturas plenamente racionais, estamos à mercê de poderosas forças irracionais do inconsciente.” Apesar do culto à racionalidade, caças às bruxas e guerras mundiais marcaram a história moderna e contemporânea. Nas palavras de Robert McNamara, “a racionalidade não nos salvará”.

Touraine afirma que “O modernismo é um anti-humanismo, porque ele sabe muito bem que a idéia do homem estava ligada à da alma, que impõe a de Deus. A rejeição de toda a revelação e de todo princípio moral criou um vazio que é preenchido pela idéia de sociedade, isto é, de utilidade social. O homem é apenas um cidadão. A caridade torna-se solidariedade, a consciência passar a ser o respeito às leis. Os juristas e administradores substituem os profetas”(...) “é necessário precisar outras formas, positivas ou negativas de manutenção da herança religiosa na sociedade moderna. Eu chamo de positivas as crenças e as condutas que mantêm uma separação entre o temporal e o espiritual. (...) Chamo de negativas, ao contrário, as crenças e instituições que sacralizam o social”.
.....

Longe de mim defender aqui o criacionismo, ou congêneres, mas também não penso ser adequado tentar enquadrar as narrativas religiosas nos moldes racionais da ciência moderna. Ciência e religião são manifestações diferentes e igualmente ricas do potencial humano. Ambas têm seu valor social, histórico, antropológico e cultural. Devem, pois, conviver em harmonia.

É evidente que a religião não se sustenta enquanto discurso científico. Ocorre que a religião trata da espiritualidade humana, que é outra coisa muito distinta (e cabe a cada um tecer sua própria concepção nesse campo). 

Palavras-chave: ciência, filosofia, religião

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 3 usuários votaram. 3 votos | 31 comentários

Julho 04, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Estava na capa do UOL: "Rubens Evald Filho comenta a Era do Gelo 3".

A ilustração era a cena abaixo. E aí, me digam, o que isso parece?

Francamente....

 

                                                   

Palavras-chave: cinema, era do gelo 3, filme, mensagem subliminar

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 10 comentários

Junho 10, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Pois hoje novamente houve rebuliço no 'reino dos sabidos' às margens do Rio Escuro. A rainha fraca, com medo de ter seu castelo novamente invadido pelo súditos, mandou suas tropas para os portais da Cidade.

Como se a reação enérgica de agora compensasse a letargia de outrora. Ledo engano. Um erro soma-se ao outro, e o resultado é a confimação do desastre que é seu reinado.

É verdade que as tropas estavam ali cumprindo ordens. E é verdade também que os súditos andam indecorosos, provocativos. De todo modo, como é vergonhoso ver os soldados com escudos, cavalos e sabres atacando os súditos! Mas nada disso é relevante. Porque, no fundo, se ali houvesse boa rainha, nada disso jamais teria acontecido.  

Uma boa rainha, se ali, teria atacado as causas da insurreição. Uma boa rainha, se ali, seria capaz de dialogar com os súditos. Uma boa rainha, se ali, saberia que as tropas servem primeiro contra ameaças externas, e só deveriam ser convocadas em casos realmente extremos. Pois é, se ali, a boa rainha, ainda que chamando as tropas, saberia conter a animosidade e evitar o conflito. Ah a boa rainha, se ali... Vil, ela, a fraca, certamente fez tudo ao inverso.

O dia de hoje foi uma vergonha na história do 'reino dos sabidos'. Seja de quem for a culpa pelo enfrentamento, tropas ou súditos (provavelmente, um pouco de cada), a grande responsável é a rainha fraca.

------------------------

E apesar disso tudo, o Stoa se cala. Será que é culpa do medo da censura que a rainha fraca impôs desde a decapitação do bobo

 

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 5 usuários votaram. 5 votos | 7 comentários

Junho 09, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Imagine uma banda com Tom Yorke (Radiohead) nos vocais, Dave Grohl (Nirvana/Foo Fighters) na batera, Tom Morello e Tim Commerford (Rage Against the Machine/Audioslave) na guitarra e no baixo.

Assim inauguro essa nova seção do blog, "banda do dia". A ideia da seção é ser uma sessão (han han) de clipes de uma banda fora do mainstream no Brasil.

Pois bem, esse line-up maluco dá uma noção do som desse trio britânico, formado em 1994. Com certeza vc já ouviu riffs deles na sonografia dos mais diversos programas de tv (do BBB ao CQC). 

Tudo bem que o Muse não é asim tão desconhecido por aqui, até fizeram shows no Brasil no começo do ano. São mto bons ao vivo, aliás. Mas vc conhece o som deles?

Então, vamos ao que interessa, 5 músicas do MUSE:  

1) Supermassive Black Hole | Riff matador, vocal em falsete, pop com pegada de rock, ou seria um rock com pegada de pop? Simplesmente viciante:

 

2) Time is Running Out | Sabe aquela história de Tom Yorke com Tom Morello e Dave Grohl ... [versão ao vivo, bem melhor do que clipe]

  

3) Plug in Baby | Riff com influência de metal... Bela música 

4) Feeling Good | Baladinha com piano, mas sem ser mela-cueca. É um cover, mas foi consideado o 5º melhor cover de todos os tempos pela revista Total Guitar (alguém conhece?). [na versão para a tevê, o vocalista fica puto com a proibição de falar palavrões e.... bom, vejam]

 

5) Showbiz | uma parada mais depressiva, do começo da carreira. Meio Radiohead? [é a mesma apresentação de Feeling Good, comenta-se que eles tavam bêbados....por isso umas desafinadas, huhuhu]

 

E aí, gostou da banda? Já conhecia? Discorda do meu top five? Sugere vídeos melhores pras músicas?

COMENTE! 

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 1 comentário

Maio 27, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

                                     

Não gosto de ir dormir. Nunca gostei. Conta a minha mãe que, desde neném, era um terror me botar pra 'nanar' [e que quando ela finalmente conseguia, aparecia meu avô para exercitar um dos seus esportes preferidos: acordar as pessoas. Começava tudo outra vez]. Veja bem, não é que eu não goste de dormir, porque eu adoro. É que eu não gosto de parar. Fico brigando com o sono.

Gosto do silêncio das noites, da solidão boa de ficar acordado quando a cidade apaga. É uma espécie de encontro comigo mesmo. Gasto o tempo sem ninguém para dar palpites, como eu bem entender. Fico lendo, aprendendo as coisas que me interessam. Aproveito para matar aquele monte de curiosidades que vão pipocando na mente durante o dia. Google, Youtube, Wikepedia. Vejo entrevistas antigas, assisto a shows raros. Ouço várias vezes a mesma música, sem ninguém para reclamar. Brinco com o violão, canto, tiro novas canções. Em tempos inspirados, até arrisco compor alguma coisa.

Eu não sei esperar, nunca soube. Quando eu quero, eu quero agora! Pago mais caro, queimo a boca. Não importa. Quero devorar a vida, tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora. Não posso deixar pra depois, é a minha vida. Quem me garante que vai haver um depois?

Quando eu era criança, me deitava, fechava os olhos, mas a cabeça não parava. Imaginação a mil. Os milhões de possíveis roteiros da minha vida passando em fast foward, se misturando. Astro de rock, piloto de Fórmula 1, presidente do Brasil e, claro, como todo garoto, jogador de futebol e astronauta.Via o Rock'n'Rio a gravação do álbum o sucesso a entrevista as ultrapassagens arrojadas o primeiro título mundial o tema da vitória Interlagos o debate a campanha na tv os dribles desconcertantes os gols a copa a taça a Lua! 

Então levantava da cama, ia ao banheiro, encarava o espelho. Sentava na escada, entre o meu quarto e o quarto dos meus pais. Hesitava. Descia para a cozinha, tomava água, voltava, sentava de novo. "Paieeeeeê, não consigo dormir".
De madrugada, até hoje, sonho acordado.

O sono é metáfora da morte. A realidade se apaga, não se sabe bem para onde se vai. Nem se sabe se se vai voltar. Abre-se mão do controle. Entrega-se ao descanso.

A cabeça já vai pesando, a vista embassa, o corpo pede uma folga.Não, não quero parar. Só mais um pouquinho. Dez minutos, meia hora, uma, duas, quatro ... O Sol já ameaça a sair, melhor eu ir me deitar.

 ...........................
Dou-me a liberdade de reproduzir um post de tema parecido, de uma companheira de madrugadas online. Visitem o blog dela (que é muito mais interessante do que o meu): http://www.mosaicodecacos.blogspot.com/

Blues na madrugada

(por Vanessa)

Lá fora, as janelas dormem. O asfalto dorme. "Pois não, senhor" e sorrisos amarelos dormem. Eu não durmo.
Talqual Japão, em fuso horário inverso, no escuro da noite, aqui mesmo, aconteço. Silêncio no sono das ruas, hora do rush nas ruas em mim. Como no mundo, as coisas têm forma, peso, voz. Hierarquia. Artimanhas. Guerrilhas.
Só o relógio observa, e me faz companhia. Lá ou cá, ele não dorme nunca. Risadas, monólogos e gritos. Em silêncio, que no mundo já passa das 10.
Clareia, e meu galo eletrônico berra os pulmões quenão tem. Hora de movimentar a economia (esperando que, num movimentodesses, o dinheiro pare em mim). O interfone toca, com a diária einsistente oferta de gás. A mocinha da Telemar me dá o terceiro bom dia da semana, tentando empurrar (de novo) um pacote imperdível de celular+fixo+internet.
O mundo acordou. E eu, mesmo de pé, adormeço.

(29/05/06)
---------------------
Para ouvir lendo esse post: Você e a noite escura - Lobão

 

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 2 comentários

Maio 22, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

O Pearl Jam é um dos raros casos em que uma banda é alçada ao panteão dos deuses do rock em seu primeiro álbum. 'Ten' é sem dúvida o melhor disco do Pearl Jam e um dos melhores de toda a década de 90.

O maior sucesso do disco é 'Alive', que conta a história de um garoto que descobre que quem pensa ser seu pai não é seu pai verdadeiro. O pai verdadeiro morrera sem que eles sem conhecessem.

É a primeira música feita pelo Pearl Jam. Na verdade, a banda gravou uma fita demo com o instrumental e mostrou pro Jack Irons (ex-batera do RHCP) pra ver se ele queria assumir as baquetas. Irons não quis (mais à frente ele toparia, mas essa é outra história), só que mostrou a fita para um camarada seu do basquete, Eddie Vedder. Vedder ouviu as músicas e foi surfar, quando voltou, escreveu três letras. Uma delas era 'Alive'. Eddie gravou os vocais que escrevera e mandou de volta a fita para a banda. Estava formado o Pearl Jam.

Nos vídeos, Vedder conta da onde surgiu a história do garoto da letra, e o Pearl Jam, no auge da forma, toca a música no festival PinkPop (em 1992, minha fomação preferida, com Dave Abbruzzese na bateria).

 

 

Bônus para fãs -- o vídeo do primeiro show do Pearl Jam: 

http://www.youtube.com/watch?v=ANr7z4qBwL4  

Palavras-chave: alive, grunge, música, pearl jam, rock, ten

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 0 comentário

Maio 20, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales
Toda corte tem um bobo. O bobo tradicionalmente é um dos ministros do Rei. Talvez, o mais importante deles. O único com a prerrogativa de falar a verdade ao monarca.
Os nobres precisam bajular o Rei, o bobo, não. Sob o pretexto do humor, o bobo pode zombar de todos, até do Rei e da Rainha.
Um bom bobo tem que ser inteligente,atrevido,sagaz e irônico. 
Uma das maneiras mais eficazes de dizer a verdade é a sátira. 
A sátira é uma mentira, uma bricadeira, mas que captura elementos fundamentais da realidade e os coloca sob uma lente de aumento.

Pois conta-se que em um reino de sabidos, às margens do rio escuro, chegou ao poder uma Rainha fraca.
Tão fraca que teve seu castelo invadido. Ou melhor, ocupado, como preferiam dizer os súditos.
Nesse reino havia também um bobo muito sincero. De tão esperto que era, suas anedotas começaram a ficar famosas além das muralhas do reino dos sabidos.
A Rainha ficou incomodada, não aceitava ser ridicularizada. Mente limitada, não compreendia que as brincadeiras do bobo eram advertências.
A gota d'água veio quando o bobo propôs um jogo de adivinhação que virou notícia na outra margem do rio escuro.
Ela pediu a cabeça do bobo!
Os nobres, pobres diabos, dependentes, se amedotraram. Resignados, entregaram o palhaço.
A Rainha voltou a encerrar-se em seu castelo, crente de que a paz na corte se reestabelecera.
Heroi foi o bobo. Era o único com coragem para tocar FORA DO TOM.

Palavras-chave: Tom

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 6 usuários votaram. 6 votos | 3 comentários

Maio 19, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales
No espelho.
O sorriso é o mesmo, mas a moldura, outra.
Os cabelos, hoje dourados, já foram ruivos e morenos.
As raízes, brancas, quase imperceptíveis no penteado.
A maquiagem apaga as linhas que o tempo trouxe.
O lápis na mão contorna os olhos pequenos.
Mais uma noite, outro baile. Pretinho básico, como sempre.
Fiel companheiro, já realçou as curvas que hoje disfarça.
Última olhada: impecável, como sempre.
Algumas coisas nunca mudam.
Vaidade.
Vai...  idade.

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 1 comentário

Maio 17, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Você já se pegou queixando-se da vida? Tristonho, macambúzio, sorumbático... Nada mais normal. Imagine, então, se vc fosse um esportista de sucesso, que sofresse um acidente quase fatal e, quando acordasse do coma, descobrisse que perdera as duas pernas!? O que você faria?

Pois essa é a história de Alessandro Zanardi. Piloto de corridas, bicampeão da CART (vulgo, fórmula Indy), com passagem pela Fórmula 1. Alex, como é conhecido nos EUA, é sem dúvida um corredor talentoso, abusado e arrojado. 
Em 2001, na liderança da prova de Lausitzring (Alemanha), voltando do reabastecimento final, perdeu o controle do carro, e acabou na pista principal, na rota de colisão com Alex Tagliani - que vinha a mais de 330km/h. Seu carro foi partido ao meio. Zanardi perdeu quase todo o sangue do corpo e sofreu três paradas cardíacas. Foi milagrosamente salvo pelos médicos, mas teve suas duas pernas amputadas.

Na saída do hospital, já demonstrando toda sua força de vontade e alegria de viver, voltou para casa com sua família dirigindo um carro adaptado. E não parou por aí. Em 2003, entrou de novo no cockpit de um Indy, para dar as 13 voltas que faltaram na corrida de Lausitzring. Andou rápido, marcando o que seria equivalente ao quinto tempo na classificação daquela corrida. 
Em 2006 voltou a pilotar um F1 adaptado, em uma sessão de testes pela BMW Sauber. 
Desde 2004 ele é piloto profissional da BMW na categoria de turismo World Touring Car Championship e venceu novas corridas
Sem dúvida, um exemplo. Depois de tudo o que passou, continua sorridente e bem-humorado. Um daqueles herois que nos lembram que a viver é uma dádiva.

Melhor do que todo esse meu blablablá é vê-lo em ação (a entrevista é muito boa!):

1) Ultrapassagem memorável, pela terra, conhecida como "The Pass", em Laguna Seca, 1996, para assumir a liderança e ganhar a prova: 

 

2) O terrível acidente de 2001:

 

3) Entrevista no David Letterman, partes 1 e 2, após o acidente:

 

 

4) Sua primeira vitória na WTCC, após o acidente:

 

Palavras-chave: automobilismo, esporte, exemplo, f1, força de vontade, indy, superação, zanardi

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 1 comentário

Março 06, 2009

default user icon
Postado por Helder Gonzales

Quando a gente é criança, nossos pais são super-heróis. Têm as respostas pra todas as perguntas, a cura pra todas as cataporas e gripes. Se alguém nos desafia, “vou contar tudo pro meu pai”, se corremos perigo, “mãnheeeeeeeeeee”. E nos sentimos seguros, sabendo que nossos superpais vão cuidar de tudo. “Quando eu crescer, quero ser igual ao meu pai”.

E a gente cresce, e nossos pais envelhecem. Mas na nossa cabeça de criança, nada a temer, tão certo quanto dois e dois são quatro, nossos pais estarão sempre lá pra cuidar da gente. E os filhos viram pais, e os pais, avós. A história se repete. 

Só que um dia os velhinhos começam a partir, e os pais da gente, que também são filhos, se vêem sem os pais deles. Dolorosamente rui uma das certezas mais sólidas da infância, os pais deles perdem os super-poderes, vão ficando frágeis, chegam ao fim. 

Para a geração do meio, pais e filhos simultaneamente, é especialmente duro. Afinal, eles agora também são pais, e já têm os superpoderes, as respostas e as curas. Só que doença de velhinho não é como de criança, e não adianta dizer que vai ficar tudo bem, que vai melhorar, que basta comer a sopinha e ganhar uma bala pra tirar o amargo do remédio ruim. Bate o medo, a dor, a saudade. 

Quando os avós começam a partir, nossos pais querem voltar à infância, chorar no colo dos pais deles, e acreditar que nossos avós vão dar um jeito. Só que nessa hora, mais do que nunca, são chamados a ser adultos, enfrentar como gente grande, lidar com a perda, consolar a família. E é assustador perceber que, agora, são eles também a perder os superpoderes, na lenta caminhada rumo ao incontornável destino de todos nós.

Dizem que quando um filho nasce é um momento mágico. Quando eu era criança meu pai me falava para aproveitar, que a infância era a melhor fase da vida. Eu sempre fui apressado, acho que queria ganhar logo os superpoderes dos adultos. Pois hoje eu sei que a infância é mesmo mágica. Mágica porque seus momentos são eternos. Nossos pais serão para sempre nossos heróis, mesmo que um dia eles nos deixem.  

Este post é Domínio Público.

Postado por Helder Gonzales | 1 usuário votou. 1 voto | 2 comentários

<< Anterior