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Agosto 19, 2011

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Fotógrafo de Passarim

Quando menina, eu era fresca. Certa vez fiquei horrorizada por ter que fazer minhas necessidades na vala de uma casinha de tapera, ao visitar parentes no interior do Maranhão. Nascida, educada e mimada no Rio, nem imaginava que se fazia cocô em buraco e, muito menos, que se tomava banho de cuia com água tirada de um tanque pululando de larvas de mosquitos, que eu pensava que eram girinos e, por isso, batia o pé e chorava pra não tomar "banho de sapinho". "Vixi, que garota enjoada!", diziam. Os primos gostavam de se embrenhar no mato, caçar passarinho de estilingue e pular no rio. Não entrava no rio de jeito nenhum. Não punha o pé onde não pudesse confirmar o conteúdo. Natureza, pra mim, era sinônimo de perrengue. Trilhas suadas, insetos vorazes e mau-humor. Fui criada desse modo: urbanoide e nojentinha. Culpa dos meus pais. Ainda bem que tenho o aval de Freud pra jogar a culpa em alguém.

Quis o destino que conhecesse meu futuro marido assim: menino serelepe, daquele que sumia no mato e voltava correndo com um vaga-lume na mão, espingarda de chumbinho no ombro, varinha de pescar no outro e armadilha de passarinho balançando entre os dedos (mas isso é um segredo que fica só entre a gente que ele tem vergonha disso). Os passarinhos acabaram virando a paixão do menino mateiro. Virou caçador, só que de imagens, de aves. Ave é o termo que os ornitólogos preferem utilizar em vez de pássaro. Eu prefiro mesmo é o termo passarim! Fotógrafo de passarim é o que ele é. E os passarinhos gostam dele! Não é que o danado entende a fala dos bichos? No começo eu achava que parecia coisa daquele desenho do sapo cantor. Os bichos cantavam, pulavam, rebolavam e davam tchau só na frente dele. Quando ele corria pra me chamar, os passarinhos não davam um pio na minha presença. Depois eu fui aprendendo que a gente precisa saber olhar e ouvir. Como aquela vez em que o barbudinho pousou bem na nossa frente. Passarim pequeno, amarelinho, discreto. Ninguém o via há anos, considerado extinto. E ele ali se mostrando, querendo dizer: "digam ao mundo que ainda tô aqui, resistindo bravamente enquanto não destruírem de vez a minha casa!"

E em todo lugar é a mesma coisa: passarim chega perto e reclama do bicho homem. É um tal de derrubar árvore pra plantar soja, cana e jogar veneno pra matar os bichinhos que passarim come. É um tal de queimar floresta pra fazer pasto. É um tal de sequestrar passarinho bonito pra botar em gaiola (ararajuba até pediu pra comadre alma-de-gato lhe emprestar as penas pra se disfarçar). É um tal de destruir a mata pra tirar pedra dourada, pra construir casa, estrada... Vou te contar, hein?! Não sei como passarim aguenta! Ainda bem que o meu fotógrafo tá sempre de máquina em punho, pronto pra registrar e mandar o recado da passarinhada pra todo mundo. Por isso, quando ele entra no mato e a gralha anuncia sua chegada, toda a bicharada se assanha e procura fazer sua melhor pose.

Eu e meu fotógrafo de passarim temos duas filhas. A mais velha, de 8 anos, ele diz que precisa levar logo pro mato antes que eu a estrague. Faz bem. Ela diz que, quando crescer, vai ser bióloga e estudar primatas, termo que os primatólogos preferem utilizar, ou macaquinhos, como prefere a menina. Quer enfartar o pai? Não vai estudar passarim? Diz que não, mas sonha com as histórias que o pai traz das viagens e leva à sua cabeceira à noite: o encontro com os índios macuxis e wapichanas, em Roraima, a onça-pintada no rio Roosevelt, o carinho na cabeça da mãe-da-lua, na região do Araguaia, o soldadinho na vastidão da Chapada dos Veadeiros, as araras-azuis-de-lear na beleza agreste do Raso da Catarina, o pato-mergulhão nas águas límpidas da nascente do rio São Francisco, o papagaio-charão no frio cortante de Urupema, o balé dos flamingos na Lagoa do Peixe... A mais nova só observa, silenciosa, com seus olhos grandes de passarinho novo.

Nas férias, vamos toda a família ao Pantanal. Ainda sou fresca, mas nada que repelente de insetos e bom humor não deem jeito. O meu fotógrafo prometeu passarinhar comigo. Tô doidinha pra conhecer o buraco das Araras. Avistar um anu-canjiqueiro. Andar pelo corixos e dar de cara com um maguari pescando. Ver uma revoada de príncipes-negros. Encontrar o joão-pinto-do-brejo e a saracura-três-potes (quero ver se ela grita mesmo "três potes, três potes, três potes"!). Acordar ao som das escandalosas curicacas e seriemas. Quero fazer um afago na cabeça da mãe-da-lua, que eu fiquei com inveja... E o quero-quero se fingindo de ferido? Pode um negócio desses? Ele fica brabo quando chegam perto do ninho. Pessoal de lá o chama de espanta-boiada. Também queria conhecer o tempera-viola, o siriri-cavaleiro, o socó-estudante, o papagaio-curraleiro, a marreca-viuvinha, o bico-de-brasa... Mas o que eu quero mesmo é passear pelo rio e avistar o manoelzinho-da-croa! Passarim bonitim! Guimarães Rosa nunca fez tanto sentido pra mim como agora.

 

 

 

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Fevereiro 24, 2010

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                        Quando o Marquês de Sade estava preso no Castelo de Vincennes, escreveu uma carta à Senhora de Sade, reclamando de sua recusa em lhe enviar um exemplar das Confissões, de Rousseau, julgando uma leitura “perigosa” para o nobre. Com um cinismo hilário, ele responde à esposa:

“...tenhais o bom senso de entender, me enviando o livro que pedi, de que Rousseau pode ser perigoso para carolas da vossa espécie, mas que para mim torna-se excelente. Jean-Jacques é para mim o que para vós é uma Imitação do Cristo. A moral e a religião de Rousseau são coisas sérias para mim e leio-as quando quero me edificar.” (Cartas de Vincennes, tradução de Gabriel Giannattasio, eduel)

Essa ideia e o epíteto que o prof. Salinas Fortes confere a Rousseau, “o bom selvagem”, deixaram-me com a impressão de que o filósofo genebrino seria uma espécie de santo padroeiro da soberania popular.

O curso de Ética e Filosofia Política I, ministrado pela Profa. Maria das Graças de Souza, no segundo semestre de 2009, propôs diversas leituras sobre a obra de Rousseau, que é visto sob diferentes prismas: defensor da democracia popular, inimigo da monarquia, precursor do comunismo, inimigo das liberdades individuais, reacionário e defensor da ideologia burguesa, mentor de um contrato social, que seria, na verdade, um negócio de otário.

Entretanto, uma leitura acurada da obra de Rousseau desfaz uma série de visões equivocadas. O filósofo nos legou importantes subsídios para pensar a questão da soberania, como expressão da vontade geral, e a legitimidade dos governos.

Criei uma pasta de Ética e Filosofia Política para colocar os textos pertinentes ao assunto.

 

Palavras-chave: Ética, Filosofia, Política, Rousseau

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Fevereiro 20, 2010

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Trecho da obra Da Pintura, de Leon Battista Alberti (séc. XV), objeto de estudo da disciplina de Estética I, ministrada pelo prof. Léon Kossovitch, no segundo semestre de 2009:

"Não se lê sem louvor a famosa descrição da Calúnia que Luciano diz ter sido pintada por Apeles. Penso que não é assunto fora do nosso propósito narrá-la aqui para lembrar aos pintores a que pontos da invenção devam eles estar atentos. Havia nessa pintura um homem com duas orelhas enormes, tendo junto a si, de um e outro lado, duas mulheres: uma se chamava Ignorância e a outra, Suspeita. De lugar pouco distante vinha a Calúnia. Era uma mulher de um aspecto belíssimo, mas parecia, em sua fisionomia, astuta demais. Trazia na mão direita uma tocha acesa e, com a esquerda, arrastava pelos cabelos um jovem que estendia as mãos para os céus. E havia também um homem pálido, feio, todo sujo, de má catadura, que se poderia comparar a uma pessoa que se tornara magra e queimada por longa labuta nos campos de batalha: era o guia da Calúnia e se chamava Despeito. Havia duas outras mulheres, companheiras da Calúnia, que lhe ajustavam os enfeites e as roupas; uma chamava-se Insídia, a outra, Fraude. Atrás delas estava a Penitência, trajando vestes fúnebres, a se dilacerar toda. Atrás desta vinha uma jovem recatada e pudica, chamada Verdade. Essa história, se contada, já agrada, imagine-se a graça e o encanto que teria se a víssemos pintada por Apeles."

Imaginem se pintada por Botticelli:

Calúnia

Apeles foi considerado um dos maiores pintores da Antiguidade, conforme se depreende dos textos de Plínio, o Velho, fonte de diversos autores sobre a Pintura. Infelizmente não há nenhuma obra de Apeles que tenha pemanecido até os dias atuais. O quadro de Botticelli, baseado em Apeles, está exposto na galeria dos Uffizi, em Florença, na Itália.

Coloquei na relação de arquivos a minha dissertação de Estética sobre a dimensão retórica no tratado da pintura de Alberti.

Palavras-chave: ´Calúnia, Alberti, Apeles, ARTES PLÁSTICAS, Botticelli, Estética, Kossovitch, pintura, Plínio, renascença, Renascimento, Retórica

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Fevereiro 18, 2010

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No segundo semestre de 2009, novamente cursei uma optativa livre de Literatura Brasileira, com o prof. Ivan Marques.

Tendo em vista o sucesso do formato de trabalho "literatura x cinema" de LB I, os alunos fizeram uma dissertação sobre São Bernardo, em que deveriam confrontar o texto de Graciliano Ramos e a obra cinematográfica dirigida por Leon Hirszman.

O clímax deste curso, pra mim, foi a parte sobre Guimarães Rosa. Foram analisados diversos contos, tanto pelo professor quanto pelos alunos, em excelentes seminários.

Para o trabalho final, o professor forneceu algumas opções de tema, sendo que eu escolhi dissertar sobre o personagem-animal em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, analisando desde a origem da presença dos animais nas narrativas mitológicas e nas fábulas.

Também coloquei os trabalhos na relação de arquivos disponíveis.

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Em 2009, cursei uma disciplina optativa livre de Literatura Brasileira I, com o prof. Ivan Marques.

O programa versava sobre Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade.

O primeiro trabalho consistia em analisar a obra escrita "Macunaíma" e a obra homônima cinematográfica, dirigida por Joaquim Pedro de Andrade.

No trabalho final, fiz uma dissertação, confrontando as poéticas de Mário e Drummond.

Para quem tiver interesse em ler, os textos estão disponíveis na minha lista de arquivos.

Palavras-chave: carlos drummond de andrade, Drummond, ivan marques, joaquim pedro de andrade, Literatura Brasileira I, macunaíma, mario de andrade, Modernismo

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