Fotógrafo de Passarim
Quando menina, eu era fresca. Certa vez fiquei horrorizada por ter que fazer minhas necessidades na vala de uma casinha de tapera, ao visitar parentes no interior do Maranhão. Nascida, educada e mimada no Rio, nem imaginava que se fazia cocô em buraco e, muito menos, que se tomava banho de cuia com água tirada de um tanque pululando de larvas de mosquitos, que eu pensava que eram girinos e, por isso, batia o pé e chorava pra não tomar "banho de sapinho". "Vixi, que garota enjoada!", diziam. Os primos gostavam de se embrenhar no mato, caçar passarinho de estilingue e pular no rio. Não entrava no rio de jeito nenhum. Não punha o pé onde não pudesse confirmar o conteúdo. Natureza, pra mim, era sinônimo de perrengue. Trilhas suadas, insetos vorazes e mau-humor. Fui criada desse modo: urbanoide e nojentinha. Culpa dos meus pais. Ainda bem que tenho o aval de Freud pra jogar a culpa em alguém.
Quis o destino que conhecesse meu futuro marido assim: menino serelepe, daquele que sumia no mato e voltava correndo com um vaga-lume na mão, espingarda de chumbinho no ombro, varinha de pescar no outro e armadilha de passarinho balançando entre os dedos (mas isso é um segredo que fica só entre a gente que ele tem vergonha disso). Os passarinhos acabaram virando a paixão do menino mateiro. Virou caçador, só que de imagens, de aves. Ave é o termo que os ornitólogos preferem utilizar em vez de pássaro. Eu prefiro mesmo é o termo passarim! Fotógrafo de passarim é o que ele é. E os passarinhos gostam dele! Não é que o danado entende a fala dos bichos? No começo eu achava que parecia coisa daquele desenho do sapo cantor. Os bichos cantavam, pulavam, rebolavam e davam tchau só na frente dele. Quando ele corria pra me chamar, os passarinhos não davam um pio na minha presença. Depois eu fui aprendendo que a gente precisa saber olhar e ouvir. Como aquela vez em que o barbudinho pousou bem na nossa frente. Passarim pequeno, amarelinho, discreto. Ninguém o via há anos, considerado extinto. E ele ali se mostrando, querendo dizer: "digam ao mundo que ainda tô aqui, resistindo bravamente enquanto não destruírem de vez a minha casa!"
E em todo lugar é a mesma coisa: passarim chega perto e reclama do bicho homem. É um tal de derrubar árvore pra plantar soja, cana e jogar veneno pra matar os bichinhos que passarim come. É um tal de queimar floresta pra fazer pasto. É um tal de sequestrar passarinho bonito pra botar em gaiola (ararajuba até pediu pra comadre alma-de-gato lhe emprestar as penas pra se disfarçar). É um tal de destruir a mata pra tirar pedra dourada, pra construir casa, estrada... Vou te contar, hein?! Não sei como passarim aguenta! Ainda bem que o meu fotógrafo tá sempre de máquina em punho, pronto pra registrar e mandar o recado da passarinhada pra todo mundo. Por isso, quando ele entra no mato e a gralha anuncia sua chegada, toda a bicharada se assanha e procura fazer sua melhor pose.
Eu e meu fotógrafo de passarim temos duas filhas. A mais velha, de 8 anos, ele diz que precisa levar logo pro mato antes que eu a estrague. Faz bem. Ela diz que, quando crescer, vai ser bióloga e estudar primatas, termo que os primatólogos preferem utilizar, ou macaquinhos, como prefere a menina. Quer enfartar o pai? Não vai estudar passarim? Diz que não, mas sonha com as histórias que o pai traz das viagens e leva à sua cabeceira à noite: o encontro com os índios macuxis e wapichanas, em Roraima, a onça-pintada no rio Roosevelt, o carinho na cabeça da mãe-da-lua, na região do Araguaia, o soldadinho na vastidão da Chapada dos Veadeiros, as araras-azuis-de-lear na beleza agreste do Raso da Catarina, o pato-mergulhão nas águas límpidas da nascente do rio São Francisco, o papagaio-charão no frio cortante de Urupema, o balé dos flamingos na Lagoa do Peixe... A mais nova só observa, silenciosa, com seus olhos grandes de passarinho novo.
Nas férias, vamos toda a família ao Pantanal. Ainda sou fresca, mas nada que repelente de insetos e bom humor não deem jeito. O meu fotógrafo prometeu passarinhar comigo. Tô doidinha pra conhecer o buraco das Araras. Avistar um anu-canjiqueiro. Andar pelo corixos e dar de cara com um maguari pescando. Ver uma revoada de príncipes-negros. Encontrar o joão-pinto-do-brejo e a saracura-três-potes (quero ver se ela grita mesmo "três potes, três potes, três potes"!). Acordar ao som das escandalosas curicacas e seriemas. Quero fazer um afago na cabeça da mãe-da-lua, que eu fiquei com inveja... E o quero-quero se fingindo de ferido? Pode um negócio desses? Ele fica brabo quando chegam perto do ninho. Pessoal de lá o chama de espanta-boiada. Também queria conhecer o tempera-viola, o siriri-cavaleiro, o socó-estudante, o papagaio-curraleiro, a marreca-viuvinha, o bico-de-brasa... Mas o que eu quero mesmo é passear pelo rio e avistar o manoelzinho-da-croa! Passarim bonitim! Guimarães Rosa nunca fez tanto sentido pra mim como agora.
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