Stoa :: Elton José Figueiredo de Carvalho

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Blog :: Elton José Figueiredo de Carvalho
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Estou frustrado. Não (só) por causa do que vem nos paragrafos seguintes, mas porque não consigo encontrar minha partitura da nona sinfonia de Beethoven, que serviria para melhor fundamentar o que tenho para escrever. Paciência... Coloco aqui, então, um aviso: eventuais imprecisões do texto poderiam ter sido evitadas se eu tivesse achado o maldito livro.

Sala São Paulo, terça à noite. Soa a gravação das trompas executando um dos temas da Alvorada da ópera Lo Schiavo, de Carlos Gomes --- elegante substituição à infernal e tradicional campainha. Cessa o burburinho enquanto as luzes se apagam. Sons de celulares sendo desligados. Um flash descuidado. Gargantas sendo limpas na platéia. Sobe ao palco a Orquestra Sinfônica da USP. Aplausos tímidos. Aplausos cessam. Músicos continuam entrando.

Nunca entendi essa de aplaudir os músicos da orquestra quando entram. São umas 60 pessoas que precisam se arrumar, isso leva bem uns dois minutos. A platéia sempre se cansa de aplaudir e pára antes dos violinistas se sentarem. Eu, portanto, não mexo um dedo.

Entra o spalla --- esse, sim, é costume aplaudir. Quatrocentos e quarenta (e dois?) hertz. Entra o maestro Carlos Moreno. Aplausos e ovação muito bem fundamentados: o homem é competente, fez um ótimo trabalho com projetos de ciclos completos, como as sinfonias de Beethoven e Tchaikovsy e as Bachianas Brasileiras. Tem um jeito enérgico, divertido, de reger.

O maestro dá o pulso e o agogo (talvez acompanhado de um triângulo, não lembro direito) comanda o baião. É Psalmus, de João Guilherme Ripper, composta em 1953. Bem brasileira, no ritmo, bem década de 50, na harmonia, com os metais desempenhando importante papel. Cheguei a pensar que se tratasse de uma peça em tributo a John Williams, mas o americano ficou conhecido por seu uso dos metais uns 16 anos depois da composição de Psalmus.

Intervalo. Sai metade da metaleira. Quatrocentos e quarenta (e dois?) hertz. Volta o maestro. Começa A Nona. Pontas dos arcos nas cordas. Minha primeira cara feia: acho que as violas esquecerem de ler os pp escritos na partitura. Todo mundo pianíssimo, as violas fritando as pontas dos arcos. O pior que era (quase?) o naipe inteiro. Se não tivesse um maestro na frente, eu colocaria a culpa no copista, que pode ter se esquecido de colocar os pp na parte de viola. Mas tinha um maestro. Por que ele deixou isso escapar? Esse desequilíbro aconteceu mais algumas vezes ao longo da execução.

Não vou encher o saco de ninguém com o andamento do primeiro movimento. É Allegro ma non troppo, mas cabe acrescentar: ma non troppo non troppo. Pode ser (e fica ótimo) um pouquinho mais acelerado como fez Carlos Moreno.

Fim do primeiro movimento. Aplausos. Manifestações adversas aos aplausos ("Shhhh!"). Gente, não se aplaude entre movimentos!!! Isso pode ser interpretado como se você estivesse mandando a orquestra embora, dizendo que para você o concerto acabou. É que nem agradecer na roda de chimarrão: você está satisfeito e não quer mais. Mas também não se faz "Shhhh!" por aí assim...

O segundo movimento começa bem e assim vai até o trio de trombones. Nessa, um dos trombones falha fenomenalmente. Poxa, eu sei que é um instrumento difícil e é a hora de maior pressão sobre o músico, mas numa orquestra como a OSUSP não é legal acontecer esse tipo de coisa. Fim do segundo movimento. Sem aplausos. O povo aprendeu (?).

Intervalo. Entram os solistas. O maestro sobe no praticável. Toca um celular. Várias vezes. Até a dona do aparelho (que tinha chegado segundos antes do terceiro sinal e não conseguia achar seu lugar) encontrá-lo dentro da bolsa enorme enquanto tenta explicar para as amigas à sua volta porque esquceu de desligá-lo.

Começa o terceiro movimento. Eu tenho um problema com adagios: eles são lentos. Isso permite que eu me distraia com mais facilidade. Aparentemente, mais gente tem esse problema. Mais gente tossiu durante o terceiro movimento que durante todo o resto do concerto. Acho que é normal. Curiosamente, o povo aplaudiu o final do terceiro movimento. E olha que ele nem termina de maneira majestosa e empolgante...

Quarto movimento: os contrabaixos e violoncelos mandam muito bem interrompendo a orquestra na recapitulação dos primeiros movimentos. Aqui, uma carta na manga do maestro: uma pausa dramática logo antes dos contrabaixos e violoncelos apresentarem o tema do quarto movimento. Legal.

Entra o barítono solista. Sem partitura para o recitativo. Ele sabe o que canta, faz um espetáculo, representa como se estivesse numa ópera. Chamou ele mesmo o coro a responder. Gostei. Só o coro decepcionou um poco. Mal se ouvia os tenores e os baixos. Eram menos numerosos. Os contraltos cantavam com voz de garganta. Coitadas, devem estar roucas até hoje.

Levanta-se o quarteto de solistas. Não escutei o contralto. O soprano só aparecia (e MUITO) nas notas mais agudas, talvez ela devesse praticar mais seu registro médio e/ou praticar mais agudos piano, mas não estou em posição de dar aulas a ninguém.

Vem o tenor convocando seus irmãos à marcha. Gostei dele. Quanto ao coro, um tanto desequilibrado, com sopranos (pelo menos) sem uma afinação uniforme. Não surpreende: a obra é dificílima e não tenho certeza se são profissionais. Baixos e tenores quase não se faziam ouvir. E oportunidade para esses naipes não falta. Mas sei como é, já estive no palco com um coral amador que dava bem mais escorregões desse tipo. E a gente cantava coisa difícil.

Tochter aus Elysium, Freude, schöner Götter(presitissimo)funken! Vários minutos de aplauso. Flores para os solstas e para o maestro (que as entrega para o spalla que por sua vez não sabe o que fazer com aquilo). Nona sinfonia é nona sinfonia. Apesar dos escorregões, é sempre uma experiência emocionante e de arrepiar. Mas podia mesmo ter sido muito melhor. A Sala São Paulo reformada ficou bastante interessante, principalmente pela entrada se dar agora pelo salão dos arcos, uma ante-sala magnífica que antes servia de backstage. A diminição dos rangidos das poltronas também ajudou, mas está longe do ideal. Vou procurar mais coisa do João Guilherme Ripper. E vou procurar e divulgar eventos de formação de platéia.

Palavras-chave: Beethoven, concerto, crítica de arte, nona sinfonia, orquestra, OSUSP, Sala São Paulo, sinfonia

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Postado por Elton José Figueiredo de Carvalho | 3 usuários votaram. 3 votos | 6 comentários