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Agosto 18, 2011

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Hoje tive a oportunidade de observar os alunos do colégio M.M.D.C., aqui na Móoca, eles estavam realizando uma avaliação externa. A Olimpíada de Matemática, que é aplicada todos os anos pelo estado, põe em prova uma série de recursos da escola, passíveis de serem observados num momento como este. Aonde, as condições de ensino e aprendizagem correm sérios riscos de perderem alguns dos seus caracteres fundamentais para a formação dos jovens e adolescentes.

Os laços que formavam a base da educação escolar, esgarçados pelo advento das novas tecnologia, nos impele a pensar sobre as práticas, mas principalmente, as teorias, e tem de considerar, e talvez re-significar aquilo que tomamos na educação como uma cultura da escola.

Este está sendo um ano extremamente duro ao colégio. Este ano a Escola Estadual M.M.D.C., como dissemos, na Móoca, foi alvo de inúmeras denúncias por parte da comunidade na mídia, sua condição, ou o seu estatuto, e a sua precariedade leva a todos uma reflexão de como anda a Educação no Estado de São Paulo.

Mas a luta por resistir aos ataques a escola só pode ser prismada, por um esforço da parte de você, leitor, poder conhecer de perto a história daquela instituição, encravada num dos bairros mais tradicionais desta cidade. O esforço contínuo do corpo docente, dos funcionários, e até dos alunos, só pode ser medido pela sua experiência cotidiana.

Um grupo de resistencia se formou dentro da escola, professores e alunos se juntaram para fazer um projeto pedagógico. Aprovado nos HTPC's (para quem não sabe, Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo) deste ano. O projeto que está sendo implantado, busca introduzir uma cultura de participação que permita produzir um resultado sobre a avaliação dos processos educativos de ensino e aprendizagem, sob um olhar da cidadania e da experiência estética.

Para isto as séries do Ensino Médio foram divididas em 2 (dois) módulos. No primeiro módulo, concentrando as 1ªs e 2ªs séries do Ensino Médio, os alunos estão desenvolvendo suas habilidades nas linguagens. Preparam pesquisas a partir dos componentes curriculares em Artes, Filosofia, Sociologia e Lingua Portuguesa, sobre os códigos, linguagens e tecnologia.

O últimos anistas, reunidos em 4 (quatro) grupos de trabalhos, chamados de #mmdcsustentabilidade, #mmdctécnica, #mmdcCriação e #mmdcmobilidade, compõem o segundo módulo.

Nestes GT's, coordenado por professores, de diversas áreas, os alunos trabalham suas competências a partir de uma reflexão sobre o mundo do trabalho. Em reuniões semanais, os grupos compostos de alunos de todas as salas do 3º ano, discutem e vivenciam a experiência de por em prática as teorias que são discutidas e lecionadas em sala de aula.

O exércício de reflexão sobre os atrativos das carreiras profissionais tem o efeito de mobilização, que a escola mais precisa neste momento, que vive uma série crise. "Artes e Profissões", é um projeto que, ao mesmo tempo que é vocacional, tem como propósito criar um espaço de questionamento através do recurso educacional de expôr os trabalhos dos alunos numa mostra voltada a sustentabilidade. 

 

Ou seja, no momento que desceu o silêncio, ao observar pela manhã nossos estudantes, quando se pusseram a pensar, e a fazer suas contas e cálculos na prova de matemática,tive a compreenção que como professor daquela escola, fosse necessário levar a público uma mensagem que expressasse nossa preocupação, mas que também de esperança, pois, querendo ou não, que as boas novas venham!

A mostra cultural dos alunos, com data para 08 de outubro próximo, leva a crer que, será de dentro da escola pública que se produzirá uma cultura de paz. Mas também um desejo expresso de mudanças e conhecimento.Que nos leve a indagar: 

"O que significa, de novo, rever compromissos com a educação?"

 

Prof. Eliezer

Palavras-chave: arte educação, artes, avaliação, cultura escolar, educação, ensino médio, escola, mobilidade, Profissões, sustentabilidade, tecnologia

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Junho 21, 2011

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Uma sala de aula com carteiras enfileiradas diante de um quadro negro. Os alunos, calados, prestam atenção no professor. Memorize esta cena: ela está com os dias contados. A entrada das novas tecnologias digitais na sala de aula criou um paradigma na educação: como tais ferramentas, que os alunos, não raro, já dominam, podem ser aproveitadas por professores que, frequentemente, mal as conhecem? As escolas têm, pela frente, um desafio e uma oportunidade. O desafio: formular um projeto pedagógico que contemple as inovações tecnológicas e promova a interatividade dos alunos. A oportunidade: deixar para trás um modelo de ensino que se tornou obsoleto no século XXI. O novo aluno é o responsável por esta mudança. Por ter nascido em um mundo transformado pelas novas tecnologias, ele exige um professor e uma escola que dialoguem com ele, e não apenas depositem informações em sua cabeça. E mais: ele quer ser surpreendido. Tarefa difícil, pois o jovem estudante de hoje encontrou, na internet, uma fonte de informações nunca antes existente. Livros, almanaques e enciclopédias eram as principais ferramentas de pesquisa até o início da década de 90, quando os computadores começaram a chegar às residências do país. Agora, com um clique, ele pode acessar todas as enciclopédias do mundo. O que muda com isso é, em primeiro lugar, o papel do professor. "É um momento difícil para o educador, pois o modelo de ensino que ele aprendeu era baseado no poder que ele representava na sala de aula, típico de uma sociedade mais passiva que a de hoje", diz Andrea Ramal, doutora em Educação pela PUC-Rio e diretora executiva da Instructional Design Projetos Educacionais. Mas o novo aluno, segunda Andrea, é diferente: "Ele quer participar, quer fazer suas próprias escolhas. Os professores têm que se reinventar". Para ela, o professor não pode mais ser uma figura autoritária: ele precisa ser capaz de aprender com os educandos e de admitir que não tem todas as respostas. O que dizem os especialistas: Educadores em educação e novas tecnologias concordam em ao menos um ponto: a internet não substitui o professor, mas o complementa. "Navegar muito não é aprender muito. Você pode não se aprofundar em nada" (José Manuel Moran - Professor da ECA - USP) "A Sociedade ainda critica professores que propõe novas ideias" (Andrea Ramal, Diretora Executiva da Instructional Design) "Como ferramenta de aprendizado, o You Tube é cada vez mais importante" (Marc Prensky, Consultor Educacional e Designer de Jogos Educativos) "O papel do professor mudou muito, mas continua essencial" (Linda Arasim, Professora da Universidade da Simon Fraser, em Vancouver no Canadá) As palavras de Andrea encontram eco fora do Brasil. O americano Marc Prensky, um dos principais consultores educacionais dos Estados Unidos e designer de jogos educativos, afirma ser necessária uma nova relação entre professor e aluno, baseada em uma parceria: "O estudante faz aquilo que tem de melhor (como buscar informações e usar as tecnologias para criar algo novo), e o professor, por sua vez, também faz o seu melhor, que é orientar reflexões, avaliar o comprometimento dos alunos e criar um contexto favorável". Por "contexto favorável" entenda-se uma nova pedagogia: algo como deixar que os alunos aprendam por seus próprios caminhos, mas com a orientação do professor. Se o papel do educador está em transformação, as escolas também vivem um período de transição. Elas precisam se adequar não só ao novo aluno, mas também à nova formação de seu corpo docente. "A internet tornou o aluno mais livre. Ele pode aprender em qualquer lugar, a qualquer hora. A escola já sabe disso, mas ainda é muito tradicional, pois resiste à mudança inevitável", acredita o espanhol José Manuel Moran, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP. Mas para mudar não basta trocar o quadro negro pela lousa digital: é preciso ir além e inovar na forma de ensino, pois, como acredita Moran, a internet e as novas tecnologias são um ponto de partida. Nunca de chegada.

Reflexão e Ação  - Artigo veiculado no portal do Colégio Passo Seguro – São Paulo, 2011.

http://www.passoseguro.com.br/ps/ 

Palavras-chave: docencia, educação, escola, filosofia da educação, mídias móveis, pedagogia, tecnologia digitais

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Maio 06, 2009

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Diretor de escola pública causa problemas para SEE - Secretaria de Educação do Estado, SP. (Jornal Agora São Paulo, 30/04/2009)

Recentemente, comentando um blog de uma colega lembrei que há tempos eu mesmo "não faltava a escola". Em certo sentido, sinto-me ainda aluno da escola pública, onde aprendi a ler e a escrever, e agora leciono e tento fazer a minha parte. Pois, então, hoje tirei a tarde e lá vou eu voltar à internet, para postar algo de interesse ao debate sobre a escola pública. Também como obrigação.

O que me tocou, ao comentar o blog dela, foi ler sobre o atual quadro do ensino público e seu abandono, e onde e qual o papel dos diretores de escola, no qual constam alguns deveres, como o de dirigir o estabelecimento de ensino e pesquisa. Polêmica que foi matéria nos jornais por estes dias, então recorri ao Agora pra ler de perto a notícia, num sinal de vitalidade, ou experança, de que é possível outra escola. Naquele artigo, observo que a jornalista tomou o cuidado de lembrar-se da "mão firme", do diretor da Escola Estadual Professora Lucia de Castro Bueno, em Taboão da Serra (Grande SP), do qual não fazia mais do que a obrigação de impor as regras do jogo dentro da sua escola.

É estranho que quando nos voltamos a falar sobre a educação, no sentido forte da palavra, sempre voltam as questões mais profundas do ser humano vivendo em sociedade, e a necessidade de criarmos valores de igualdade, fraternidade e formação para a cidadania.

A escola em questão, e tão pouco importa a sua localização, além dos resultados apresentados nas matrizes estatísticas dos governos, que são ótimos, independente dos critérios das avaliações externas, sejam quais forem, apresentam as mesmas condições a que estão submetidas as escolas públicas em todo o Estado, e, através da fala de seus diretor (embora apareça nela un ranço, que na verdade é uma dicotomia entre "democracia" e "ensino", que por sí só já daria um outro artigo, e a equívoquicidade de tomar tais conceitos em separados) vem mostrando que existem alternativas concretas: quando construída com a comunidade (seria o caso de ir conhece-la, pra ver se é isso mesmo), e que o trabalho de dirigir de fato uma escola às vezes contradiz a receita do Secretaria.

Ou seja, a autononia da escola existe, é para isto, para acertar ou errar, mas principalmente para ser vivenciada - e isto, os alunos, que são os maiores interessados, sabem e valorizam, entendendo que eles não podem tudo.

Talvez, isto seja um sintoma da contemporaneidade, e que precisamos desses diretores pra enraizar na cabeças dos adolescentes que há diferenças que precisam e devem ser respeitadas, e que são por elas que se formam as cidadanias. Sorte dos educandos que podem contar com alguém que não tem medo de tomar em suas mãos a educação - esta como um campo de batalha para diminuir os níveis de violência nas regiões mais carentes da grande metrópole. 

Palavras-chave: educação, ensino médio, gestão escolar, secretaria da educacao

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Março 10, 2009

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Sala de aula

Pesquisa Ação: Projeto E. E. Brasílio Machado 

  

NOTAÇÃO 1 – 16/02/09

 

Chego na E.E. Brasílio Machado por volta das 14hs, após reunião com a Srª Magda, diretora da escola, sou recebido pela coordenadora pedagógica Profª Teresa, entregando a ela o Planejamento de Aulas e junto com a proposta de aulas avulsas, meu projeto de pesquisa "Tempo e Espaço Escolar", com eles apresento meus diplomas e cópia do curricum vitae. Anexo a documentação deixo com a direção um exemplar do passa-tempo “Clássicos Cruzados”, de minha autoria, que pretendo levar aos alunos do ensino médio, como uma das propostas de atividades. Sou convidado a ser professor substituto, no período da manhã, para atender a 2ª e 3ª séries do Ensino Médio, nos horários das 7:00hs às 12:20hs. - Ao sair do colégio, aproveito o resto da tarde para me dirigir a Diretoria de Ensino, para encaminhar a documentação de inscrição na U.E. e regularizar o contrato de trabalho.

 

NOTAÇÃO 2 – 17/02/09

 

No horário previsto chego a escola. Com a falta do professor Ismael, de História, devo comparecer aos 3B, 3A e 3C, para minhas primeiras aulas no Ensino Médio como professor, e, depois do intervalo, onde voltarei as estas classes para uma segunda aula no mesmo dia.

 

Em todas as classes fui recebido com atenção, estabeleci um diálogo franco com os alunos (observo que ao por meu ponto de vista tomo quase todo o tempo com minha fala).

Expus minhas experiências anteriores como estagiário, e minha passagem no Brasílio Machado, onde realizei parte deste estágio em 2007, observando os espaços da escola e o trabalho dos professores. Mostrando aos alunos minha proximidade com a escola e com seus problemas (uma vez que além das discussões que minha pesquisa na escola apontavam, tinha também o fato de conhecer o colégio pelo ponto de vista dos pais dos alunos, uma vez que, nesta escola, meu filho, Lucas, se formou no Ensino Médio), problematizei com eles a questão da falta de professores, ponto de observação de minha pesquisa, e o trabalho dos professores substitutos, que tem baixa aderência dos alunos, pois, as aulas destes e a alta freqüência dos professores efetivos, delimitam o trabalho apenas a uma aprendizagem descontinuada, e quase nenhuma autoridade destes em sala de aula. Expostas estas perspectivas aos alunos, declinei do posto de "professor eventual", estabelecendo com eles um contrato pedagógico, numa proposta nova, de se construir com eles uma outra abordagem na relação aluno/professor. Nesta, onde os alunos interessados em aprender a fazer pesquisas, viriam na figura desde professor um possível orientador para suas pesquisas ( papel reiteradamente solicitado aos alunos como contraponto ao “professor/substituto”, que trazem os conteúdos programáticos). Coube neste primeiro contato com os alunos uma interrogação sobre os propósitos de meu “programa” (já que desde o inicio apontei suas deficiências a eles, solicitando aos mesmo, sugestões e opiniões), como também, uma indagação sobre qual objetos de conhecimento eles poderiam se aproximar, uma vez que a proposta que embasava tal iniciativa, em constituir este roteiro, passava pela tomada de partido dos alunos a participar do pesquisa/ação, mas também, em se predisporem a iniciarem suas próprias pesquisas, voltadas as demandas dos próprios alunos. Não necessariamente vinculado ao curriculo, mas voltados a educação.

Dentre os problemas encontrados nestas três classes do último ano do ensino médio, quando fiz esta abordagem, foi encontrar nos alunos uma certa curiosidade – mas também uma incerteza e indignação, frente a um problema de difícil solução, como ter um real aproveitamento das aulas “vagas” (que trás prejuízos na formação, mas por outro lado, abre amplos espaços para a socialização em classe) e trazidas por um professor (que neste caso deixa a todo momento transparecer seu método de trabalho) que se diz "orientador de pesquisa". Até mesmo, promovendo entre os alunos um melhor conhecimento entre eles, promovendo uma relação com pessoalidade das respostas que os gostos ditos em público, e sua abertura, desenvolvem sobre as identidades de cada um, como fonte de novas experiências.


Para isto realizei como o objetivo, {na 2ª aula do dia}uma atividade chamada, “Eu gosto...”,  sendo esta, desde o início, uma forma de um mapeamento dos desejos e interesses particulares, para os estudantes encontrarem um ponto de partida para suas pesquisas. Sugeri aos alunos uma roda aonde cada uma dizia o nome e em seguida enumerava os gostos pessoais, e, ao final desta, dizia “eu passo!”, dando ao aluno seguinte a sua fala. Num pequeno caderno de notas fui fazendo as anotações daqueles gostos que “eu via” na fala dos alunos como objeto de interesse para uma proposta pedagógica. Assim, por exemplo, vimos o alunos Cleber (3C) iniciar seu gostos com um “eu gosto de caminhar...”, a aluna Sena (3E) contar seus gostos “eu gosto de ler literatura, de animações, jogos, eu gosto de redes de relacionamento na internet...”, a aluna Virginia (3D) “ler, escrever, rosa, lilás... passo”, o aluno Alberto (3B) dizer que gosta da família e de sinuca.

Formando assim uma abertura onde os alunos pudessem sinalizar suas vontades, mas também suas experiências, a atividade foi bem aceita e permitiu ao professor continuar a trabalhar sua tese, na qual os alunos são protagonistas e responsáveis pela aprendizagem desenvolvidas nas aulas avulsas, dando um novo sentido e criando uma expectativa que antes não existia, já que uma vez adotados por eles, o programa que se desenvolverá sobre um suporte aleatório (as aulas avulsas) e um conteúdo que terão acesso apenas se houver interesse da parte do alunado permitiu contruirmos em conjunto os conteúdos utilizando os recursos da escola.

 

[Anotações do Projeto de Pesquisa em Filosofia da Educação "Tempo e Espaço Escolar]

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Março 27, 2007

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17/12/2002 - 02h59 SYNAPSE
Crianças que não dizem amém
CYNARA MENEZES
REINALDO JOSÉ LOPES

free-lance para a Folha de S.Paulo

Eu não acredito em Deus. Proferida por um filósofo existencialista ou por um comunista anacrônico, a declaração não surpreenderia. Mas quem a faz, em meio ao clima natalino dominante, é um pré-adolescente paulistano.

Pedro Azevedo/Folha Imagem
Leon Guerberoff Gurfein, 12, que afirma não acreditar em Deus

De ascendência judaica por parte de pai e mãe, mas criado em ambiente laico, Leon Guerberoff Gurfein, 12, integra um contingente que, embora minoritário, cresce cada vez mais em um país que ainda é considerado a maior nação católica do mundo.

O Brasil entra no terceiro milênio —aguardado como a mais mística das eras— com 12,3 milhões de pessoas que se dizem sem religião. Elas são 7,3% da população. Dados preliminares do Censo 2000, apresentados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que os sem-religião cresceram em média 6,7% ao ano na década de 1990. O ritmo só é menos veloz do que o da expansão dos evangélicos, de 8% ao ano.

Para muitas dessas pessoas, o Natal é uma festa apenas familiar. Sé é difícil encontrar quem desconheça o significado religioso do 25 de dezembro, é cada vez menos difícil achar quem não ligue para isso. Leon sabe que os cristãos celebram o nascimento de Jesus, mas definitivamente não se inclui entre eles. "Eu ganho meus presentes e pronto", afirma. Em seu ateísmo convicto, tem as respostas na ponta da língua. Se não foi Deus, então quem criou o mundo? "O mundo se criou sozinho." Não apela para Deus nem nos momentos difíceis? "Não, confio em mim mesmo."

O crescimento do número de jovens como ele, sem credo formal, obrigou até escolas declaradamente confessionais a alterar os parâmetros das aulas de educação religiosa. O proselitismo foi excomungado; o debate, abençoado. O novo catecismo prega a necessidade de conhecer o aspecto cultural da matéria. Não, necessariamente, aceitá-la.

Quem defende a volta do ensino religioso nas escolas públicas também reza por essa cartilha. "A clientela mudou, a sociedade mudou. Infelizmente, e isso me causa até vergonha, ainda há escolas que tocam a sineta para chamar para a missa, mas são minoria", diz o professor Sérgio Junqueira, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, que coordena o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper) e é irmão da ordem marista.

O fórum, que existe há sete anos, reúne representantes das várias religiões conhecidas e luta pelo cumprimento da lei aprovada em 1997, prevendo a volta das aulas de religião nos colégios públicos, uma vez por semana, sem avaliação para nota. Atualmente, segundo a entidade, Santa Catarina é o Estado onde a aplicação da lei está mais avançada, com o reconhecimento da habilitação em ensino religioso.

Em São Paulo, uma lei aprovada pela Assembléia Legislativa em novembro estabelece que os alunos não são obrigados a frequentar as aulas de religião, que começaram a ser ministradas neste ano na rede estadual, mas apenas na 8ª série do ensino fundamental. Os professores de história, filosofia e ciências sociais foram considerados habilitados a dar as aulas.

Nelas se aprenderia nem tanto a história das religiões, que o Fonaper defende ser incluída no currículo como matéria de história, mas culturas, ritos e tradições, além do conhecimento dos textos sagrados dos vários credos, numa disciplina cujo teor principal seria "discutir a dimensão do transcendente". O próprio professor Sérgio Junqueira reconhece que o maior desafio, hoje, é formar docentes. "Só temos conhecimento de curso de habilitação de professores de ensino religioso em Santa Catarina e no Pará", diz.

Temas tradicionalmente relacionados à religião, como a ética, a solidariedade, o respeito pelo próximo, a moral e a fraternidade, seriam abordados, mas lateralmente. "Os professores de língua portuguesa, biologia ou mesmo de matemática também são responsáveis por transmitir esses valores", defende o coordenador do fórum. "Não é nossa tarefa ser axiológico." Traduzindo: não seria papel dos professores de religião difundir noções como o bem, o belo, a verdade ou o que é sagrado. Especialistas concordam. "Uma moral autônoma é perfeitamente possível", diz o antropólogo Silas Guerriero, da PUC de São Paulo. "Quando se cria uma ética a partir da racionalidade, você passa a considerar que somos membros da humanidade e que, portanto, a agressão a um ser humano é uma agressão a nós mesmos", analisa.

"Se o ambiente que circunda a criança tem seriedade ética, a falta da religião não causará problemas", secunda Geraldo José de Paiva, do Departamento de Psicologia Social da USP.

O sociólogo da religião Antônio Flávio Pierucci, também da USP, vai na mesma linha. "Estamos presenciando uma separação entre ética e religião. As virtudes não são mais religiosas. Ao mesmo tempo, as próprias religiões vão se desinteressando de inculcar princípios éticos e se voltam para o êxtase, os rituais e o senso de comunidade."

Pedro Azevedo/Folha Imagem
Turbiano, agnóstico, com o filho Francisco, 12, que quer fazer primeira comunhão
Pais sem religião também costumam achar importante que os filhos conheçam o assunto para formar suas próprias opiniões. Agnóstico, o arquiteto Ercules Turbiani, 52, está assistindo ao interesse do filho Francisco, 12, pelos rituais da igreja. Com avós católicos praticantes, Chico pretende fazer a primeira comunhão no próximo ano. O pai já concordou ("Seria repressão discordar", diz) e não acharia mau que houvesse, na escola do menino, algo como "história das religiões", embutido em uma disciplina afim —talvez filosofia.


"É claro que aí teriam de entrar passagens pouco edificantes das diversas religiões, como foi a Inquisição para o cristianismo", defende Turbiani. "Também gostaria que fossem abordadas questões como o fato de as igrejas pentecostais associarem a ligação com Deus à capacidade de consumir bens materiais. Coisas do tipo 'creia em Deus e terá sucesso na vida'", completa.

A crença em Deus nem sempre tem origem no interesse intelectual pela religião. Muitas vezes ela nasce ou se intensifica nos momentos de dificuldades. A fé no transcendente e a fragilidade humana são indissociáveis. As dificuldades nem precisam ser tão graves. É comum que garotos recorram ao Todo-Poderoso na época de provas. "Perto dos exames, nossa sinagoga lota. Depois, esvazia. Estamos lidando com jovens e compreendemos isso", diz o professor Nelson Rozenchan, diretor da área judaica do colégio I.L. Peretz, de São Paulo. A escola, que se define como "judaica, não religiosa", tem aulas obrigatórias de Torá (Bíblia), história do povo judeu e língua hebraica. Mas o professor admite ter muitos alunos ateus.

O mesmo acontece em outras instituições de ensino religioso, como o Colégio São Luís (católico) ou o Colégio Batista (evangélico), ambos paulistanos. "A educação religiosa é uma disciplina como qualquer outra. Produz conhecimento, tem objeto, conteúdo. Não estamos avaliando a fé", argumenta Ceciélio Côrtes, professor de ensino religioso do São Luís. "Trabalhamos sem doutrinar, dentro de um contexto bem 'light', com música, teatro. Tem de ser uma aula muito criativa para eles se interessarem", diz Luci Galdino, coordenadora pedagógica do Batista, onde a matéria não vale para nota.

Apesar dessa adaptação do ensino religioso aos novos tempos, o contingente de não-religiosos não pára de crescer. De acordo com Nilza Pereira, pesquisadora do Departamento de População e Indicadores Sociais do IBGE, ainda não há dados que definam o perfil econômico e social desse segmento. Sabe-se que se trata de um fenômeno sobretudo urbano. Nada menos que 90% dos que se consideram sem religião moram em zonas urbanas. Sabe-se também que, no Rio de Janeiro, a proporção dos sem-religião é o dobro da média nacional: 15% da população fluminense. Além desses dados, que não chegam a explicar muita coisa, o resto é mistério. Não se sabe exatamente o que querem dizer esses brasileiros quando se declaram sem religião. Estudiosos do assunto ouvidos pela Folha concordam que, embora haja cada vez menos pessoas identificadas como seguidoras de religiões formais, isso não significa que não tenham sua religiosidade ou que não acreditem em uma força suprema e num Deus criador.

Mais: à margem do que dizem as estatísticas, há uma quantidade não mensurável de pequenos fiéis em lares ateus ou agnósticos. São crianças que sofrem a influência do entorno familiar ou até das pessoas que frequentam a casa, como os empregados domésticos.

Alexandre Schneider/Folha Imagem
Thiana Feisthauer e Thiago Ribeiro com as filhas Olívia, 7, e Nina, 1

Olívia, 7, nem pisca ao responder se acredita em Deus. "Sim." Seu olhar não trai nenhuma dúvida. Os pais dela, Thiago Ribeiro, 24, cineasta, e Thiana Feisthauer, 27, advogada, não tiveram, eles próprios, educação religiosa. Nenhum dos dois é batizado —assim como Olívia ou sua irmã, Nina, 1. Ribeiro é ateu convicto. Thiana acredita em Deus, mas não em "intermediários", isto é, em igrejas de maneira geral. Olívia tem uma babá evangélica. Na convivência com ela, aprendeu que Deus castiga, mas é bom. Sustenta com segurança que Deus e Jesus são a mesma pessoa, embora sejam pai e filho. Não acredita no Diabo, "o Cão de baixo" no dizer da babá, mas tem medo.

Os pais da menina discordam quanto à necessidade de a escola transmitir informação religiosa. "Eu acho que não faz falta nenhuma", diz a mãe. Para Ribeiro, seria bom que as filhas conhecessem um pouco de religião "para compreender o mundo atual". Ele afirma, contudo, que a iniciativa não será dele, mas delas. "Se elas tiverem curiosidade, vamos procurar alguma coisa na internet. Não vou introduzir esse assunto."

É certo que, sem as aulas de religião, o ônus da educação religiosa acaba, de uma maneira ou de outra, recaindo sobre os pais. E a pressão para que as crianças tenham algum tipo de envolvimento religioso, sobretudo em ocasiões com forte apelo social de confraternização, como o Natal, coloca a família numa situação delicada, que precisa ser manejada com cuidado, dizem os especialistas.

"Os pais devem sempre proteger a criança", orienta o professor de filosofia Mário Sérgio Cortella, do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP. A opção deles não deve causar constrangimento aos filhos. E não há motivo para deixá-los totalmente isolados dessas manifestações, argumenta. Mesmo que a família deixe claro que não tem uma escolha religiosa, eles serão capazes de fazer sua própria opção.

Para seu colega de PUC Silas Guerriero, um ensino religioso que privilegiasse a pluralidade só faria bem. "Nós defendemos algo que funcione até para o aluno que não é religioso, algo que lide com a espiritualidade, os valores, a ética, o sentido da vida —independentemente da crença específica", afirma o antropólogo. "Isso seria importante até para quebrar o preconceito que o aluno não-religioso tem em relação à religião e para mostrar que a escolha dele também é uma escolha simbólica, como a dos religiosos."

"Uma idéia errada do transcendente é tão ruim quanto nenhuma idéia", diz o psicólogo Geraldo Paiva, da USP. "Nenhum contato limita potencialidades. Quando bem direcionado, o sentimento religioso pode conduzir a uma expansão do pensamento, do afeto, do empenho e do compromisso. Mas o fanatismo, as idéias unilaterais sobre a religião —como considerar Deus como alguém empenhado em vigiar e punir— vai perturbar o desenvolvimento psicológico e até gerar neuroses", afirma.

Na contracorrente do censo, opções de ensino religioso, formais ou não, começam a aparecer. Um exemplo: há três anos, a Escola Viva, de São Paulo, particular e leiga, resolveu criar um curso de cultura religiosa extracurricular no ateliê de arte e cultura anexo ao prédio. O curso é pago à parte pelos pais interessados em que os filhos aprendam algo de religião. Sua criação foi estimulada pela diretora Inês Americano a partir de uma experiência pessoal com as netas.

"Um dia as levei à missa, e elas me fizeram muitas perguntas", conta a diretora. "Então tive a idéia de criar esse curso, mais para matar a curiosidade dos alunos." As aulas incluem artes plásticas, criação de vitrais, canto gregoriano e visitas aos templos das diversas religiões. Agora, no Natal, os alunos também aprendem a restaurar brinquedos velhos para serem doados a crianças pobres. Para esse aprendizado, as crianças dizem amém.

Palavras-chave: Educação, Filosofia, Religião

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Março 10, 2007

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O Ciem
por Ana Miranda

Era uma escola com o ensino voltado para o desenvolvimento da criatividade e do pensamento.


Recebi recentemente o livro Rebelião dos Estudantes, escrito por um amigo e colega de escola, Antônio de Pádua Gurgel. Só a leitura dos agradecimentos já me comoveu, os nomes eram quase todos de meus colegas do tempo de estudantes: Andrei, Hélio Doyle, Aylê, Jayme, Norton, Uiara, e depois nas páginas do livro surgem mais nomes da minha juventude: Hileana, Ana Amélia, Maria Coeli, Ítalo, Iraê, e por aí vai. Cada um desses nomes me traz um monte de lembranças, e a curiosidade de saber onde estão, como vivem, a vontade de rever seus rostos. Onde estará o Geraldo Mesquita? Qual será a profissão da Caci? Quantos filhos terá a Yara Maria? Será que o Patrick ainda é violoncelista? Como estará o rosto do Ricardo Pinheiro?

Tive o prazer e o privilégio de estudar no CIEM, Centro Integrado de Ensino Médio, uma escola idealizada por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, que ficava dentro do campus da Universidade de Brasília. Era difícil entrar no CIEM, a gente passava por uma bateria de provas e depois por uma banca examinadora. Não sei os critérios de avaliação, sei que era uma turma muito heterogênea de adolescentes, que tinham em comum a vivacidade dos jovens em geral, mas também bastante personalidade, e o orgulho de pertencer a essa instituição que prezava a inteligência e a liberdade. Era uma escola aberta a experiências pedagógicas, as mais avançadas, com o ensino voltado para o desenvolvimento da criatividade e do pensamento. A gente ficava lá o dia inteiro, e uma parte das matérias era cursada na universidade, o que nos proporcionava um melhor conhecimento das áreas que gostaríamos de seguir. Não havia prova mensal, e todos os aspectos de comportamento eram levados em conta para a avaliação do aluno. Também não havia nota, mas conceito. E o conceito do período anulava os anteriores. Na época, final dos anos 1960, estava em voga o pensamento de Jean Piaget, e de John Dewey, e baseados nos princípios desses pedagogos os nossos professores tentavam não apenas nos ensinar as matérias, mas ajudar-nos a aprender sozinhos. Para mim, funcionou perfeitamente. Lembro-me de buscar conhecimentos de meu interesse, e de poder escolher os cursos dentro de minha vocação artística. Lembro-me de ter aceita uma monografia histórica em forma de poesia. E um teorema em forma de redação explicando o misterioso absurdo dos números. Não me lembro de quem era o nosso professor – ou professora -- de literatura. Teria sido a Laís Aderne? E qual era seu método? Sei que foi muito bem-sucedido. Miltom Hatoum e eu, escritores imaginativos dentre os mais atuantes dessa geração, fomos alunos do CIEM. E Wilson Aguiar Filho, o Cuca, se não tivesse partido tão cedo deste mundo, seria dos grandes autores da nossa dramaturgia.

"O fundamento de todo mérito é a liberdade", tudo o que realizamos sob coação é destituído de valor intrínseco e de qualquer sentido no comportamento humano. Esse princípio que aprendi em nossa escola me encanta e orienta até hoje.


Ana Miranda é escritora, autora de Boca do Inferno e outros livros, o mais recente, Caderno de Sonhos, Editora Dantes.

 Matéria Publicada na Revista Caros Amigos, 2002
 Matéria Publicada na Revista Caros Amigos, 2002

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Fevereiro 28, 2007

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ESTÁGIO EM LICENCIATURA, PEDAGOGIA, EDUCAÇÃO

Mais um ano começa, lógo vamos iniciar nossos Cursos de Licenciatura, Pedagogia, ou Estudos relacionados a educação escolar, e conseguentemente, muitas horas de estágio virão. 

Para quem optou realizar seu estágio na Escola de Aplicação, será uma ótima experiencia compartinhar nossas pesquisas, mas também inúmeras questões vão surgir, conforme vamos conhecendo a Escola e suas especificidades.

Concluir esta importante etapa na Formação do futuro Professor na EA, significa ter a certeza que se aprenderá muito. Por isso, gostariamos de compartilhar nossas experiência, fazendo um debate que exponha a problemática do ensino e aprendizagem, mas também pondo-nos em contato com as outras áreas e disciplinas que não sejam as nossas. Isto envolve um mínimo de organização dos estagiários na EA_FEUSP.

  • Fui Representante Discente no Conselho de Escola, nas gestões 2005/06, e sabemos das mudanças que a Escola de Aplicação esta passando. Portanto, acredito ser importante nós estagiários conhecermos nosso campo de observação, e participar deste debate.
  • Vamos incluir aqui questõs metodologicas, mas também outras questões relacionadas a organização da Escola.
  • Pretendemos também para este ano organizar um Seminário no segundo semestre, juntamente com o CAPPF, para discutir as questões aqui debatidas, e outras de interesse especial dos alunos da EA.

Postado por Eliezer Muniz dos Santos | 0 comentário

Fevereiro 14, 2007

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Construindo valores na escola e na sociedade contemporânea: Projeto “Gesto Curatorial”, uma experiência estética vivenciada na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP

Projeto de Iniciação Científica iniciado em abril de 2006, sob orientação da Profª Carmen S. G. Aranha, MAC USP,e que tem o objetivo de pesquisar os processos, e seus possíveis desenvolvimentos, na organização de uma "exposição de artes", pelos alunos do Ensino Médio e Fundamental.

________________________ver textos em Armazenamento de arquivos=>>>

para adicionar comentários, sugiro a leituras dos textos do projeto, Obrigado!

Palavras-chave: arte contemporãnea, curadoria, Educação, Escola de Aplicação, exposição, Iniciação Científicão

Este post é Domínio Público.

Postado por Eliezer Muniz dos Santos | 1 comentário

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  • ESTE ESPAÇO É DE DEBATE PÚBLICO
  • ESTÁ ABERTO A DISCUSSÕES RELACIONADAS AOS PROJETOS DE PESQUISAS NA UNIVERSIDADE
  • ESTÁ ABERTO À CRÍTICAS (por favor deixe a sua)
  • É INFINITO (ou infinitamente finito)
  • ACEITAMOS NOVAS IDÉIAS
  • TEM RESPONSABILIDADE DE SER EDUCACIONAL

Postado por Eliezer Muniz dos Santos | 4 comentários