Stoa :: Eliezer Muniz dos Santos :: Blog :: Uma outra EA é possível? - O CIEM no campus da UNB, por Ana Miranda

março 10, 2007

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O Ciem
por Ana Miranda

Era uma escola com o ensino voltado para o desenvolvimento da criatividade e do pensamento.


Recebi recentemente o livro Rebelião dos Estudantes, escrito por um amigo e colega de escola, Antônio de Pádua Gurgel. Só a leitura dos agradecimentos já me comoveu, os nomes eram quase todos de meus colegas do tempo de estudantes: Andrei, Hélio Doyle, Aylê, Jayme, Norton, Uiara, e depois nas páginas do livro surgem mais nomes da minha juventude: Hileana, Ana Amélia, Maria Coeli, Ítalo, Iraê, e por aí vai. Cada um desses nomes me traz um monte de lembranças, e a curiosidade de saber onde estão, como vivem, a vontade de rever seus rostos. Onde estará o Geraldo Mesquita? Qual será a profissão da Caci? Quantos filhos terá a Yara Maria? Será que o Patrick ainda é violoncelista? Como estará o rosto do Ricardo Pinheiro?

Tive o prazer e o privilégio de estudar no CIEM, Centro Integrado de Ensino Médio, uma escola idealizada por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, que ficava dentro do campus da Universidade de Brasília. Era difícil entrar no CIEM, a gente passava por uma bateria de provas e depois por uma banca examinadora. Não sei os critérios de avaliação, sei que era uma turma muito heterogênea de adolescentes, que tinham em comum a vivacidade dos jovens em geral, mas também bastante personalidade, e o orgulho de pertencer a essa instituição que prezava a inteligência e a liberdade. Era uma escola aberta a experiências pedagógicas, as mais avançadas, com o ensino voltado para o desenvolvimento da criatividade e do pensamento. A gente ficava lá o dia inteiro, e uma parte das matérias era cursada na universidade, o que nos proporcionava um melhor conhecimento das áreas que gostaríamos de seguir. Não havia prova mensal, e todos os aspectos de comportamento eram levados em conta para a avaliação do aluno. Também não havia nota, mas conceito. E o conceito do período anulava os anteriores. Na época, final dos anos 1960, estava em voga o pensamento de Jean Piaget, e de John Dewey, e baseados nos princípios desses pedagogos os nossos professores tentavam não apenas nos ensinar as matérias, mas ajudar-nos a aprender sozinhos. Para mim, funcionou perfeitamente. Lembro-me de buscar conhecimentos de meu interesse, e de poder escolher os cursos dentro de minha vocação artística. Lembro-me de ter aceita uma monografia histórica em forma de poesia. E um teorema em forma de redação explicando o misterioso absurdo dos números. Não me lembro de quem era o nosso professor – ou professora -- de literatura. Teria sido a Laís Aderne? E qual era seu método? Sei que foi muito bem-sucedido. Miltom Hatoum e eu, escritores imaginativos dentre os mais atuantes dessa geração, fomos alunos do CIEM. E Wilson Aguiar Filho, o Cuca, se não tivesse partido tão cedo deste mundo, seria dos grandes autores da nossa dramaturgia.

"O fundamento de todo mérito é a liberdade", tudo o que realizamos sob coação é destituído de valor intrínseco e de qualquer sentido no comportamento humano. Esse princípio que aprendi em nossa escola me encanta e orienta até hoje.


Ana Miranda é escritora, autora de Boca do Inferno e outros livros, o mais recente, Caderno de Sonhos, Editora Dantes.

 Matéria Publicada na Revista Caros Amigos, 2002
 Matéria Publicada na Revista Caros Amigos, 2002

Este post é Domínio Público.

Postado por Eliezer Muniz dos Santos

Comentários

  1. Visitante escreveu:

    Olá, tambem sou um dos poucos previlegiados egressos do CIEM onde cursei as três séries entre 65/68. Gostaria de receber endereços de e-mail do Antonio de Pádua Gurgel para conseguir um exemplar do seu livro. Indo alem, gostaria de ter todos os endereços possíveis, caso os caros colegas acessem este blog, para contatá-los e para que tambem tenham o meu endereço. Meu e-mail: cifrha@terra.com.br

    O meu nome: Emircesar Guimarães Baiocchi

    Moro em Goiânia, sou engenheiro e professor universitário.

    Abraços a todos

    default user iconVisitante ‒ sexta, 03 agosto 2007, 11:26 -03 # Link |

  2. escreveu:

    ola! SOU DA ULTIMA TURMA DO CIEM ,ANTES DA SUA DECAPTAçAO...!

    fica aqui uma historia e documento efetivo de que nao sao faltas de iniciativas e capacidades o problema no Brasil. Representa sim a falta de coragem e de nacionalidade, pois continuamos visitantes inoportunos e estranhos dentro do continente ainda dominado por poucos que decidem os rumos , da eternizaçao de dominio colonial. Isto por outros seres humanos que se consideram donos do mundo!

    Ainda nao assumimos os valores existentes neste espaço do planeta, porisso precisamos reescrever a historia e a historia do Ciem precisa ser recontada e reinventada, estamos no terceiro milenio e a modernidade ainda é mais marketing que realidade na qualidade de vida e respeito ao ser humano.

    Sustentabilidade é a palavra atual, mas nao é seriamente considerada por um ritmo mundial dominado pelo peso da locomotiva capitalista que nao obedece ao apelo ou freio ainda insuficiente ao peso e inercia que continua esmagando os valores humanos e valores éticos! O Brasil possui estes entraves e nao acha seu caminho,pois a dependencia ainda reinante beneficia uma classe dominante representante de outros interesses, nao aqueles que valorizam nossas açoes e capacidades!

    Gostaria de reunir todos os excolegas para estas reflexoes e propostas de interaçao na mudança de Politicas publicas para a EDucaçao!

    Joao Carlos

    jchabemtevi@hotmail.com

     

     

    default user icon ‒ terça, 03 novembro 2009, 13:06 -02 # Link |

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