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Outubro 29, 2012

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Postado por Daros

Não se pode dizer que se ama a justiça e ainda assim votar num partido de direita econômica.

Um conceito muito importante, na Bíblia, é o de Tsedacá¹ (justiça social), que - basicamente - se refere a distribuir renda. Por vezes é usado para referir-se ao abastado que divide sua riqueza com os pobres. Neste caso, a atitude não é uma simples caridade, mas uma verdadeira justiça; porque nada nos pertence realmente, mas deve ser dividido entre todos. "E, respondendo [João Batista], disse [à multidão]: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira" (Lucas 3:11).

Mas, por definição, a "direita" econômica é a posição política dos que pleiteiam manter as diferenças sociais entre ricos e pobres. Mas é maldito o que perverte o direito do pobre, porque está escrito: "Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva. E todo o povo dirá: Amém" (Deuteronômio 27:19).

A Bíblia proíbe que uma dívida se estenda por mais de 6 anos (sendo perdoada no sétimo ou antes, caso caia-se no ano do Jubileu, a cada 50 anos; cf. Ex. 23 e muitos outros). Também proíbe que se cobre a dívida ou o penhor do pobre ou que se venda alguém como escravo, e ainda ordena que se deixe boa parte da colheita para os pobres, estrangeiros, órfãos e viúvas, e proíbe que se explore o empregado (Dt 24 e muitos outros trechos). Institui o dia do sábado para que o empregado descanse de seu trabalho para o patrão (Ex 20; 23 e outros).

Castigo é prometido a quem perverter o direito dos pobres e oprimir o necessitado: "Porque o seu redentor é poderoso; e pleiteará a causa deles contra ti" (Provérbios 23:11).

Penso, portanto, que é flagrantemente contrário à Bíblia apoiar pensamentos políticos de direita. E não faz sentido argumentar que a religião nada tem a ver com política. Porque a fé verdadeira permeia o comportamento da pessoa em todas as esferas da sua vida. E sabemos, tando judeus quanto cristãos, que todas as leis da Torah e dos Profetas (toda a Bíblia) se resumem a "Amar a D'us sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo", como ensinam atualmente os rabinos e como Jesus ensinou. Pois "a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom" (Romanos 7:12).


¹Interessante que essa mesma palavra, que é usada para "caridade", significa "justiça". Ou seja: quando você divide seu dinheiro com alguém, não está - num português claro - "fazendo mais que a sua obrigação". Porque o que a justiça divina estabelece é que aquele dinheiro não pertence só a você. O fato de os recursos, muitas vezes, estarem concentrados em poucas mãos é um acidente devido a injustiças sociais. A justiça divina requer que tudo seja repartido.

Assim era na comunidade dos primeiros cristãos, liderados pelos Apóstolos: "Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles. Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um" (Atos 4:32-35)

http://pontosupercritico.blogspot.com.br/

Palavras-chave: Bíblia, Direita, Esquerda, Justiça, Tsedacá

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Outubro 24, 2012

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Postado por Daros

Ilustres membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC),

Uma notícia de maio deste ano, divulgada na página do Jornal da Ciência¹ (JC), acaba de chegar a meu conhecimento, tendo-me deixado chocado. Não sei se o autor da mesma expressou-se mal, se eu entendi de maneira equivocada ou se minha interpretação foi correta. Se for este o caso, resta-me pouco mais que apenas lamentar que a ABC tenha assumido tal postura.

A notícia inicia com a seguinte delaração: "Acadêmicos reforçam preocupação com o aumento de informações sobre o criacionismo e o chamado design inteligente" (grifos meus).

Em seguida, afirma que "(...) a Academia Brasileira de Ciências (ABC) publicou, em março, uma carta repudiando a divulgação de conceitos criacionistas".

Tenho firme esperança de que as palavras do autor desse texto tenham sido apenas infelizes. Do contrário, sou obrigado a entender que a ABC está combatendo a simples divulgação de informações sobre uma ideia que discorda da ciência paradigmática.

Pergunta-se muito sobre qual a diferença entre ciência e religião. Na minha humilde opinião, uma das melhores respostas que se podem dar é a de que a primeira é o espaço da dúvida enquanto a segunda é o espaço da certeza.

Sabemos o quão má tornou-se a imagem atual da religião, frequentemente associada a fanatismos, extremismos, perseguições e terroristas. Qualquer detentor de senso crítico deve se perguntar em que grau essa imagem não é estereotipada e em que grau expressa uma realidade. Mas não é esse o ponto que desejo apontar aqui. Minha preocupação é no sentido de que a ABC tenha dado uma declaração que coloque a Ciência em uma situação muito similar à dos famigerados tribunais da Santa Inquisição medieval.

Lembremos do Index, a lista dos livros proibidos. Lendo essa notícia do JC, o que logo me vêm à mente é a perturbadora imagem de uma fogueira onde são lançados livros e outros escritos criacionistas. Quase que obrigatória é outra imagem, ainda mais estarrecedora, a seguir: a dos próprios criacionistas sendo beneficiados pelas chamas purificadoras, com o perdão da ironia. Mas, afinal, essa imagem não é em si mesma uma medonha ironia histórica, guardadas as devidas proporções?

Felizmente a nossa atual Constituição Federal e a Declaração Universal dos Direitos Humanos não simpatizam com a ideia de torturas e fogueiras. Esses mesmos documentos, a propósito, declaram como um dos direitos inalienáveis e mais sagrados do homem aquele que se refere à liberdade de pensamento e de expressão.

Sendo levado pela minha total concordância quanto a esse direito e pelas lúcidas colocações dos que se debruçaram sobre a Ciência como objeto de pesquisa - acadêmicos das áreas de História, Filosofia e Sociologia da Ciência - não posso deixar de preocupar-me com a possibilidade de que haja acadêmicos que pretendam assumir a sucessão dos Tribunais do Santo Ofício no século XXI.

Aguns poderão argumentar que o caso é totalmente diferente, porque a Ciência detém a verdade. Mas eu me perguntaria qual foi o ditador ou inquisidor que não pensava o mesmo sobre si. Também me recordaria do fato de que teorias científicas de muito sucesso chegaram a ser substituídas por outras - fato que, aliás, originou grande questionamento epistemológico no século passado. Esse interesse esteve particularmente presente em pensadores com sólida formação em Física, como Paul Feyerabend ou Thomas S. Kuhn, os quais viriam a ser clássicos autores de disciplinas referentes à Teoria do Conhecimento Científico.

Contudo, ainda que a ciência fosse detentora certa da Verdade, tal fato não justificaria a "eliminação da concorrência". Dar-se-ia justamente o oposto. O físico Richard Feynman, laureado com o prêmio Nobel, embora não fosse profundo conhecedor das disciplinas "metacientíficas", defendia que a Ciência não deveria temer questionamentos².

Se me permitem estender ainda um pouco essa minha declaração, gostaria de esclarecer que sou cristão convertido há menos de um ano. Isso coloco para contextualizar o seguinte: Nós, cristãos, cremos nas profecias bíblicas. Dentre essas, uma tem especial atenção dos crentes: a de que haverá uma época³, às vésperas do "Fim dos Tempos", em que os cristãos voltarão a ser perseguidos - mas de forma ainda pior que a dada nos primeiros séculos de Cristianismo. É comum que as pessoas estranhem uma tal profecia; afinal, nosso mundo preza tanto a liberdade de crença, pensamento e expressão, não?

Pois é... Essa indagação perde o sentido quando nos deparamos com uma notícia como essa do JC, que mostra que uma tão abominável desolação não é lá tão improvável no mundo contemporâneo.

Mas, como disse no início, tenho esperança de que tudo isso não passe de um mal entendido.

Cordialmente,
Leandro


¹http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=82259
²http://laserstars.org/bio/Feynman.html
³Se num futuro próximo ou distante é um ponto em que não há consenso entre os exegetas. Há mesmo quem interprete tal profecia como não literal.

Palavras-chave: Academia Brasileira de Ciências, Ciência, Criacionismo, , Inquisição, Religião

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Outubro 17, 2012

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Postado por Daros
Você conhece alguma religião assim?

"O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios."

1 Timóteo 4:1

Diz mais:

"Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada".
1 Timóteo 4:2

Quer um exemplo de "homem hipócrita e mentiroso"? Seria o caso de um que diz escrever um Evangelho segundo ele mesmo (quem ler entenda) e afirma haver reencarnação, quando o Evangelho prega justamente o oposto?

Portanto, tenham todos a liberdade de seguir a doutrina que quiserem. Mas, se ela fere a Bíblia e ainda assim se diz nela baseada, então ela mente. E homens mentirosos deveriam ser evitados.

Palavras-chave: Espiritismo

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Postado por Daros

Segundo a doutrina adventista, a Torah se divide em dois tipos de leis: as cerimoniais e as morais.

As primeiras são preparadoras para a primeira vinda do Messias. Logo, deixaram de valer após a vinda de Cristo. As segundas correspondem aos 10 mandamentos, escritos na pedra pelo dedo divino (www.iasdemfoco.net).

Restam, então, algumas dúvidas:

1. As leis sobre o cashrut (comida casher) não estão nos 10 mandamentos. Além disso, elas estabelecem que o contato com carne imunda é um ato que acarreta impureza ritual, a qual expira após um banho e o pôr-do-sol (como muitas outras leis do templo). Logo, é claramente uma lei cerimonial. Pelo critério adventista das 2 leis, o cashrut não deveria ser mais obedecido. Por que, então, os adventistas o observam?

2. Nos 10 mandamentos está expressa a proibição de adulterar. As leis acerca de outros pecados sexuais (como o incesto) estão fora do Decálogo. Então, seriam leis cerimoniais e, como tal, estariam abolidas? Assim também estariam abolidas as leis referentes aos dízimos e doações para sacerdotes, órfãos, viúvas e estrangeiros?

3. Quando a Torah chama os dias santos de "shabbats", esses dias, então, passam a exigir a guarda prescrita no Decálogo? Se é assim, então por que eles não são guardados pelos adventistas?

 
Ao que parece, essas "doutrinas" não passam de ensinamentos de homens. E seus seguidores deveriam se ater mais à Palavra de D'us que à dos homens.

Palavras-chave: adventista, bíblia, igreja, lei, religião, torah

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Agosto 01, 2012

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Postado por Daros

Atribuem ao laureado físico Richard Feynman a pérola "A filosofia da ciência é tão importante para o cientista quanto a ornitologia o é para os pássaros".

 

Pois bem: uma alma iluminada¹ ter-lhe-ia respondido "Então se eu quiser saber sobre ornitologia eu não perguntarei aos pássaros".

 

Cientistas sabem conteúdos técnicos de suas próprias ciências², ou pelo menos esperamos que saibam. Mas é muito diferente saber ciência e saber sobre ciência.

Li uma vez que Ramsés II foi o mais próspero faraó do Egito³. Mas acho muito provável que, se pudéssemos viajar no tempo e falar com ele, não saberia nos dar muitas informações sobre seu papel na história dessa civilização.

Aliás, por falar em história, alguém uma vez disse que "A filosofia da ciência sem a história da ciência é vazia; a história da ciência sem a filosofia da ciência é cega"⁴.

O cientista pensa sobre seu tema de pesquisa e não sobre sua prática de investigação (pelo menos não de maneira a desenvolver teorias elaboradas sobre isso, salvo algumas excessões que demonstram a incipiência da epistemologia feita por cientistas, ou seja, amadores).

Por irônico (ou talvez apropriado) que pareça, quem estuda a ciência não está com isso fazendo uma ciência (embora haja quem goste de usar o termo metaciência para isso). É um filósofo da ciência, estudioso da teoria do conhecimento ou simplesmente epistemólogo. Houve uns muito bons no século recém-terminado. Uns muito bons mesmo. Meu preferido é o austríaco Paul Feyerabend: sujeito de ideias inovadoras e controversas, mas isso é só mais um pleonasmo.

Houve sujeitos famosos como Thomas Kuhn e Karl Popper. Para se ter uma ideia, o primeiro considerava-se mais historiador que filósofo da ciência. De fato, forneceu-nos uma boa teoria sobre como os paradigmas evoluem. Ficou tão famoso que o termo "paradigma" veio a ser tão desgastado quanto impreciso na forma como é aplicado hoje por áreas bem diversas daquela em que ele debruçou-se: a Física.

Teve também quem ficasse mais às margens em países com tradição anglossaxônica mais arraigada; caso de um francês de filosofia mais hermética chamado Gastón Bachelard, que, aliás, deixou-nos boas contribuições no campo da Educação. Teria ele dito que todo conhecimento é resposta a uma pergunta. E, vejam só, nós achamos muitas vezes que dar aula se restringe a entrar numa sala e começar a expor informações que não nos foram solicitadas: o conhecimento que oferecemos aos alunos surge como resposta a uma pergunta que não foi feita por eles. Talvez aí a história tenha novamente um papel indispensável: dar-me a entender que posso dispor da pergunta que outro fizera como herança. Afinal, nosso conhecimento, nossa arte, nossa língua e toda a nossa cultura fazem parte de um tesouro que temos herdado das gerações anteriores. Tesouro esse que deixa incrustrações no inconsciente coletivo, segundo Jung.

Se colocamos em termos de história, essa - verídica (ou pelo menos assim dizem) - tem uma moral muito clara: mesmo o mais experiente dos cientistas provavelmente não saberá responder a uma pergunta que lhe deveria ocupar a curiosidade: o que é ciência, afinal?⁵ Ora, Feynman já nos ensinou que o cientista deverá perguntar isso a outra pessoa.

 

¹Infelizmente não me recordo do nome do brilhante cidadão.

² Embora frequentemente de apenas uma fatia muito estreita em que é especializado, diga-se de passagem.

³ Seja lá o que for isso.

⁴ LAKATOS, Imre. History of science and its rational reconstructions. In: HACKING, I. (org.) Scientific revolutions. Hong-Kong: Oxford University, 1983; p. 107. Lakatos é um importante ícone da epistemologia contemporânea.

⁵ Título de um livro de divulgação sobre epistemologia (o "Mundo de Sofia" da filosofia da ciência), cujo autor é David Chalmers. Também recomendo o livro "Introdução à Teoria da Ciência", de Luiz Henrique de Araújo Dutra, da UFSC, 2010.

http://pontosupercritico.blogspot.com.br/

Palavras-chave: autoridade da ciência, ciência, ensino de ciências, epistemologia, feyerabend, feynman, filosofia, filosofia da ciência, história, história da ciência, kuhn, lakatos, lógica, metaciência, o que é ciência, popper, teoria do conhecimento

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