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Setembro 2009

Setembro 01, 2009

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Pode-se (e deve-se, acredito) criticar Freud à vontade, mas sua capacidade de observação humana encontra poucos concorrentes na história das ideias.

O filme "A onda", em cartaz em São Paulo, é uma ilustração viva de um dos fenômenos mais interessantes e assustadores analisados pelo neurologista austríaco: a psicologia das massas.

Baseado num experimento real ocorrido na Califórnia dos anos 60, o filme retrata um professor que, com intuito de mostrar aos alunos que o surgimento de regimes totalitários ainda era possível, começa a doutrinar a classe, levando-os em poucos dias a formar uma verdadeira seita, sectária e violenta. É só tarde demais que ele percebe como a experiência saiu de seu controle.

Inspirado pela obra Psicologia das Multidões (1895), de Gustave Le Bon, Freud escreveu Psicologia das Massas e Análise do Eu no início dos anos 20. Le Bon já havia teorizado sobre a "alma coletiva", que mina a individualidade. Freud foi além, e postulou que a identificação com líderes carismáticos suprime nossa autocrítica (superego, na terminologia freudiana), ao colocar a figura do líder em seu lugar. A partir daí é possível a adesão aos maiores absurdos.

O livro que conta a experiência real do filme (The wave, de Morton Rhue, sem tradução no Brasil) tornou-se leitura obrigatória no currículo escolar alemão. O filme, assim como Freud, é passível de críticas, mas também deveria ser obrigatório para quem pretende entender as pessoas.

Palavras-chave: a onda, cinema, Freud, Gustave Le Bon, psicologia das massas

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Setembro 08, 2009

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Procurado para dar um parecer sobre a capacidade humana para a detecção da mentira, cruzei novamente o caminho de um dos 100 psicólogos mais influentes do século XX, o professor Paul Ekman.

Embora já tivesse tido contato com seu trabalho no livro Blink, de Malcolm Gladwell, só agora me dei conta da profundidade do seu trabalho, tão ou mais fascinante que sua história pessoal.

Na segunda metade do século passado ainda havia dúvidas com relação às expressões faciais. Seriam elas inatas, como propunha Darwin em A expressão das emoções nos homens e nos animais, livro já comentado por aqui, ou seriam produto cultural, como acreditavam antropólogos liderados por Margaret Mead?

Paul Ekman era um jovem professor e se propôs a descobrir. Com fundos do National Institute of Mental Healht foi com câmera, filmadora e gravador até uma tribo aculturada na selva de Nova Guiné, registrando que eles apresentavam exatamente as mesmas expressões da emoção em suas faces que as vistas nos ocidentais.

Desde então aprofundou-se nos estudos de expressões faciais, criando um sistema de codificação que se propõe a englobar todas as possíveis caretas humanas. Chegamos assim à detecção de mentira: Ekman tem estudos rigorosos correlacionando as expressões e as tentativas de enganar, mostrando não só que mentimos mal, mas que somos ruins para detectar mentiras. Isso é provavelmente indispensável para a vida em sociedade, mas fica para a próxima semana.

Palavras-chave: Darwin, detecção de mentira, expressões faciais, mentira, Paul Ekman

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Setembro 15, 2009

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Os números assustam: pesquisa com estudantes universitário mostra que eles mentem 80% do tempo em conversas informais; 87% dos médicos acham admissível mentir para um paciente dependendo da situação; dados mostram que a maioria das pessoas mentem em pelo menos 1 de cada 4 conversas que durem mais de 10 minutos. Se ninguém gosta de ser enganado, porque então todos mentem?

A resposta explica a questão deixada em aberto no último post: porque somos tão ruins para detectar a mentira? Ao menos dois exemplos retirados do mundo da comédia são ilustrativos: em "O mentiroso" Jim Carey representa um advogado que, numa determinada altura, fica impossibilitado de mentir. Os problemas em que ele se envolve por conta disso são semelhantes aos que enfrente o personagem "Super-sincero", que Luis Fernando Guimarães encarnava no Fantástico. Brigas conjugais, risco de demissão, conflitos com vizinhos - é extensa a lista de confusões geradas pela verdade absoluta.

No fundo, a vida em sociedade depende de pequenas mentiras diárias. A comida estava boa? O vestido estava bonito? Acha que eu engordei? Foi bom para você? Está gostando dos textos do blog? Diante de algumas dessas perguntas não é pecado mentir. Pecado é falar a verdade. Mais do que isso: normalmente quem pergunta não quer a verdade. A maioria das mentiras bobas que contamos e ouvimos toda hora servem muito mais para reassegurar as pessoas de sua importância, seu valor, honrando seus esforços mesmos que os resultados sejam um fiasco (quem nunca elogiou os borrões que as crianças chamam de desenhos?). Esse é um dos principais motivos pelos quais não reconhecemos uma mentira: por ser melhor - é mais cômodo, mais agradável e gera menos conflitos.

Há quem se aproveite dessa deficiência para tirar vantagem e tentar emplacar mentiras maiores, obtendo lucros às custas do prejuízo alheio. É péssimo, mas no final das contas é somente um efeito colateral, o preço que pagamos para acreditar que cozinhamos, escrevemos ou desenhamos bem.

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Setembro 23, 2009

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Novamente a pedofilia é alvo de polêmica - e essa promete ser grande.

Tramita no senado o projeto de lei 552/2007 do senador Gerson Camata, que propõe aos indivíduos condenados por estupro, atentado violento ao pudor e corrupção de menores a possibilidade - voluntária - de se submeter a castração química e ter liberdade condicional. Se reincidir no crime, não há mais possibilidade de condicional.

As confusões que o termo "pedofilia" gera voltarão à tona: em geral pensa-se que qualquer um que tenha envolvimento erótico com crianças é um pedófilo, quando na verdade a maioria dos abusadores é de criminosos comuns, sem transtornos mentais.

Embora o texto diga que apenas os criminosos que tenha o diagnóstico de pedofilia pela Classificação Internacional de Doenças são sujeitos dessa lei, não é difícil imaginar que advogados de criminosos comuns passem a alegar o transtorno para livrar seu cliente da prisão. Por outro lado, há o risco de surgir uma sede terapêutica com essa promessa de "cura para o crime da pedofilia".

Há que se lembrar que o controle farmacológico dos impulsos sexuais não é um castigo, mas um tratamento médico. Assim, possui indicações precisas, contra-indicações claras e não há - isso é fundamental - não há garantia de resultados.

A história está aí para mostrar que quando o direito criminal conversa muito com a medicina, nem sempre os resultados são positivos: em 1952 o matemático Alan Turing (pai da inteligência artificial, foi quem decifrou o código nazista Enigma alterando os rumos da 2a Guerra) foi preso e condenado por homossexualismo, então considerado crime na Inglaterra. Aceitou trocar a prisão pela castração química, para abolir sua libido criminosa, e acabou se matando, deprimido pelos efeitos colaterais dos hormônios. Quase sessenta anos depois, em setembro desse ano o governo pediu perdão oficial pelo tratamento "chocante".

Pedofilia não é homossexualismo, é verdade. Mas se não refletimos com extremo cuidado em temas tão delicados, depois só resta pedir desculpas.

Palavras-chave: Alan Turing, castração química, Pedofilia, projeto de lei, psquiatria forense

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Setembro 29, 2009

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A legalização dos bingos é certa ou errada? Tentando fugir aos viéses ideológicos que permeiam o debate, vale a pena utilizar uma ferramenta racional do pensamento, há muito invocada para distinguir o bem do mal, ao lidar com a questão. O utilitarismo ético.

Por mais que seja alvo de críticas, essa postura busca encontrar uma forma racional de classificar uma ação em boa ou má, evitando moralismos com bases em preconceitos, religião, autoridade etc. Para ela uma atitude é boa se sua consequência eleva o bem-estar das pessoas, não somente das envolvidas na ação, mas algo como a "felicidade média" dos povos. É uma doutrina consequencialista: a ação é boa ou má a depender de seus resultados.

Os bingos trarão uma série de benefícios, como empregos, recursos para saúde e cultura, maior controle sobre a legalidade dessas atividades etc. Por outro lado, a disponibilidade de jogo fácil é sabidamente um fator de risco para novos casos de dependência e jogo patológico, com resultados desastrosos para um grande número de pessoas e suas famílias. Eu mesmo cheguei a conhecer uma senhora que devia trezentos mil reais em um bingo.

Do ponto de vista utilitarista, portanto, a legalização dos bingos é uma atitude má: suas consequencias boas se dão à custa da ruína de muita gente.

Outra doutrina ética mais antiga pode também ser invocada: o imperativo categórico de Kant. Para resumi-lo em duas linhas, ele afirma que os seres humanos devem ser considerados sempre como um fim em si mesmos, nunca como meios para outros fins. Nesse caso me parece claro que os jogadores acabam sendo meios para os bons fins alegados - geração de empregos, impostos etc. Novamente, a ação é má.

É apenas um recorte da questão, mas a seu favor pode-se invocar, ao menos, que é racional.

Palavras-chave: Bingos, ética, jogo patológico, Kant, utilitarismo

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